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Do que faltou ressaltar

Novembro 29, 2009

Eu sei que ninguém mais aguenta esse assunto. Tod0 mundo já fez post a respeito e a mídia tradicional já se encarregou de banalizar a discussão, transformando tudo numa bela pizza. De todo modo, entre mortos e feridos do caso Geisy, gostaria de pensar que o saldo foi positivo — afinal, chegou ao mainstream, mesmo que momentaneamente, uma questão que eu sempre achei central no feminismo: o controle do corpo e da sexualidade femininos.

No entanto, depois de todo o debate, achei que ficou faltando uma coisinha. Muita gente disse coisas bárbaras (oi, a participação dda Tica Moreno no MTV Debate foi de foder de bacana), mas eu acho que faltou enfatizar o quanto esse caso serve de prova de que as mulheres são cidadãs de segunda classe.

Essa é uma frase comum entre as feministas e eu suspeito que muita gente não entenda ou não concorde. Tipo: “mas vocês votam, trabalham, podem circular sozinhas. Onde que a tua cidadania é limitada?”. E aí o caso Geisy é uma explicação pra lá de mastigada de que, quando se trata da mulher, os direitos são vistos como negociáveis. Não são absolutos. São discutíveis. E a moeda dessa negociação é a sexualidade. Dependendo de como a mulher fale, se vista, se comporte, enfim, do quanto se revela ou não como um ser sexuado, ela é considerada mais ou menos digna de respeito. Mais ou menos digna de piedade. Mais ou menos digna de um tratamento humano. Mais ou menos digna de ser ouvida.

Lembram daquele post infame do Marcelo Tas sobre a Juliana Paes, no qual ele dizia que ”mulher que faz da bunda o seu logotipo não devia reclamar”? É isso. Porque aproximou-se da figura da “puta” e não da “santa”, por ganhar dinheiro provocando o desejo sexual alheio, então o direito básico à voz é negado à Juliana. Ela perde o direito de se ofender — afinal, as putas estão aí para serem ofendidas.  Só a mulher casta, comportada, não-sexual e não-sensual, é que teria o direito de ter sua reclamação levada a sério (ainda assim, depois que sua conduta for alvo de um segundo escrutínio. Se for encontrada alguma coisa, uma coisinha sequer, que macule a imagem de santa da autora da reclamação, então sua voz é automaticamente invalidada. Exemplo: caso Polanski, sobre o qual a colunista da Folha de S. Paulo, Barbara Gancia, escreveu: “a menina tinha 13 anos, mas não era mais virgem”. Como se não-virgens perdessem o direito de reclamar de um estupro).

Quando o assunto é se a Geisy vai ou não vai posar para a Playboy, sempre aparece alguém pra dizer : “poxa, mas se ela posar, vai dar razão para os caras”. Quem disse, cara pálida? Humilhação pública está errada e pronto. A moça pode mostrar até o cérvix na revista, seus colegas ainda cometeram um crime. Olha só a linha de raciocínio da pessoa que diz uma coisa dessas: ela só condena a humilhação pública se a Geisy não fizer nada que a classifique como puta. Acha que o direito de reclamar, para a mulher, é uma coisa negociada. Os alunos teriam razão em humilhá-la caso ela fosse mesmo uma puta. Portanto, cabe à Geisy, para o resto de sua vida, não fazer nada que a aproxime dessa figura. Não pode fazer nada que aluda ao sexo, senão seu direito de reclamar da humilhação é anulado.

No carnaval do ano passado, o portal Terra publicou em sua home uma foto de um cara tentando beijar uma moça à força, agarrando o rosto dela, enquanto outros rapazes riam. Era uma cena ultrajante, mas a legenda da foto dizia: “o melhor do carnaval da Bahia”. Essa imagem foi jogada no grupo de e-mails da minha faculdade e uma looonga discussão começou. E é claro que surgiu um monte de pessoas escrotas (que, para outras coisas, são tão inteligentes… Não entendo como, neste caso, conseguem ser tão burras!) dizendo: “ah, se a menina vai para uma micareta, é porque ela tá a fim de pegação!”

Se apresentássemos a essas pessoas as seguintes afirmações…
a) todo ser humano tem o direito de escolher com quem manterá atos de cunho sexual e de recusar quem não deseja
b) nenhum ser humano pode ser obrigado a desempenhar um ato de cunho sexual contra sua vontade
… aposto meu dedo mindinho que todo mundo concordaria. Por que, então, quando se fala especificamente de mulher, esses direitos tão fundamentais passam a ser considerados negociáveis? Por que, a partir do momento em que ela escolhe ir a uma micareta ou a qualquer outro lugar de pegação, ela perde o direito de escolher quem vai beijar?

Acho engraçado que, ainda hoje, seja preciso ressaltar que defender direitos das mulheres é defender direitos humanos. A Nicole Kidman (atual porta-voz da ONU contra violência doméstica, se não me engano) falou isso num discurso esses dias. Não faz muito tempo,  Hillary Clinton fez um discurso igual. E eu sempre fico pensando que parece uma babaquice falar esse óbvio ululante: que mulher é gente. Mas ainda assim tem que ficar repetindo. Justamente por conta disso. Mané concorda com “todo ser humano tem direito a…”, mas não pensa em mulher quando ouve isso. Quando se substitui o termo “ser humano” por “mulher”, aí as coisas viram negociáveis, deixam de ser preto ou branco e viram cinza. Então, embora pareça imbecil, quando a Nicole ou a Hillary falam essa frase, elas estão reforçando isso: que os nossos direitos não devem ser negociáveis nem discutíveis. Quem é cidadão pleno tem direitos absolutos. Só cidadão de segunda classe tem direitos negociáveis.

Outra questão latente (e que pouca gente deu a ênfase necessária, na minha opinião) é o quanto o caso demonstra a posição de pária que a prostituta tem na sociedade brasileira. O que os alunos da Uniban deixaram claro é que, se fosse uma prostituta, Geisy seria persona non grata na universidade. Não teria, para eles, o direito de frequentar os mesmos bancos escolares. Deixaram claro que consideram que o lugar da prostituta (ou mesmo da mulher “promíscua” — aspas, afinal, o que é promiscuidade senão uma atribuição arbitrária, feita sempre pelos outros?) é à margem – não pode frequentar certos espaços. E, se os frequenta, tem de esconder o que é,  já que o expurgo e a violência contra a prostituta (ela, a mulher menos dotada de direitos; ela, a quem não cabe nenhuma negociação) são considerados justificáveis. A carta oficial de expulsão era muito clara nisso: “expulsamos a Geisy para manter puro o ambiente escolar”. Ou seja: não pode ter prostituta aqui. Não pode ter puta aqui. O ambiente para a puta é outro que não esse. A gente não vai conviver com ela porque ela macula o recinto.

….Não preciso nem lembrar daquele caso dos rapazes que espancaram uma mulher na rua e disseram “pensamos que era uma prostituta”, não?

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Das coisas que irritam

Novembro 27, 2009

…Ver que os coleguinhas jornalistas simplesmente NÃO CONSEGUEM falar de mulher (tanto individualmente, em matérias do tipo perfil, quanto em reportagens sobre questões relativas a mulheres enquanto grupo) sem ter siricotico de “colocá-las em seu devido lugar”: a categoria de enfeite e a esfera da domesticidade.

Simplesmente NÃO CONSEGUEM falar de mulher sem comentar a sua aparência ou mencionar se é solteira, se é casada, se tem filhos — se os tem, perguntam a ela se sente algum tipo de culpa (como se a mulher que trabalha estivesse cometendo um crime ou um pecado por se afastar, mesmo que temporariamente, da esfera da domesticidade); se não tem, perguntam se deseja tê-los.

Veja você que o abre da entrevista descreve as roupas, a beleza e o estado civil da Vanessa ANTES de informar que ela comanda o primeiro juizado especial contra violência doméstica de São Paulo. Este, que é o atributo mais importante, o que torna a Vanessa uma pessoa entrevistável, o que a torna relevante…  É o que aparece por último. Como se fosse secundário em relação às roupas, à beleza e o estado civil. Como se, antes de qualquer coisa, antes de qualquer mérito, fosse preciso frisar que se trata de uma mulher. Frisar que é “Outro”.

Pode reparar: quando o entrevistado é homem, o abre costuma ser uma descrição sobre a sua CARREIRA. Sobre o que faz daquele cara uma notícia. Quando a aparência, o estado civil e o número de filhos chegam sequer a ser mencionados num perfil ou entrevista com um homem, é somente para “dar cor” ao texto. São dados secundários, que vêm depois. O entrevistado homem é tratado, antes de tudo, como indivíduo, como sujeito, alguém dotado de autonomia, que existe para e em si mesmo. Mulher não. É enfeite, esposa e mãe primeiro, todas as características que a singularizam depois.

Vejo nisso não só uma tentativa de reduzir a Vanessa, mas também de neutralizá-la. Colocá-la na esfera historicamente reservada às mulheres me parece uma estratégia para que ela não pareça tão ameaçadora para a ordem patriarcal. Tipo: “olha só, gente, ela é juíza e tals, combate a violência doméstica e tudo o mais… Mas não se preocupem não, que ela continua cumprindo suas obrigações, viu? Olha só como ela é bonitinha!”.

Não duvido das boas intenções do coleguinha da Época. Mas é o que eu sempre digo: o diabo está nos detalhes. Manifestação explícita de machismo caricato ninguém vai fazer. Ele sempre vem de forma sutil, reificado pela linguagem. Não adianta nada fazer uma matéria supostamente combatendo a violência contra as mulheres (que é um produto do machismo) sendo que o próprio texto reserva à mulher um tratamento machista. Prestenção, pô.

…E outra: pra quê escolheram um homem pra fazer essa entrevista? É claro que a violência doméstica é um assunto que tem de ser discutido por e com todo mundo – mas talvez uma mulher, justamente por saber o que é ser mulher, não escrevesse um abre tão escroto, tão redutor. Será que não pode haver um lugarzinho sequer na revista onde mulheres possam conversar sobre algo que lhes diz respeito especificamente? Não pode haver um espaço das e para as mulheres no meio da revista? Tem que pôr um homem no meio, mesmo quando se trata de uma questão nossa?

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Novembro 18, 2009

…But still you keep me hanging around like I was some old sofa you found.

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A aberração

Novembro 18, 2009

O mundo é todo uma festa para a qual eu não fui convidada. Kant bem que alertou: sendo o mundo redondo, não há como esticá-lo nem para onde fugir. Talvez por isto mesmo, por saber que não há mais por onde, passo a vida insistindo em entrar de penetra. Paguei e continuo pagando caro pela teimosia:  jamais conseguirei me camuflar entre os convidados, não importa quão sofisticados sejam os meus disfarces.

A vida toda é assim: mal esboço um sorriso vitorioso por conseguir me esgueirar pelas portas dos fundos sem ser pega, lá vem o olhar de alguém me avisar que estou fora de lugar.

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Novembro 18, 2009

Ao amor que nem foi, resta só consolidar o adeus que já começou no oi.

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Novembro 18, 2009

E de repente tudo em mim se encheu de sombra. Recaiu impalpável e invencível sobre mim, feito piche, e agora tateio o entorno em busca de alguma porta que abra para a vida.

Mas ela me agarra, a danada, é ela quem guia minhas pernas. E sente prazer em me fazer vaguear. No fundo, eu e ela sabemos que, mesmo se me caísse agorinha uma bússola nas mãos, talvez eu já não saiba mais como usá-la.

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Novembro 14, 2009

Lembram do meu post sobre cirurgias estéticas vaginais? A BBC publicou uma ótima matéria sobre. Leia também uma reflexão bacana do Sociological Images sobre a linguagem utilizada nas propagandas de cirurgia plástica.

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Novembro 13, 2009

…E o Serra acaba de escolher o Rodas para novo reitor. Tempos sombrios, indeed. Agora que me dá mais desânimo ainda de voltar para essa universidade.

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current mood:

Novembro 6, 2009

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Novembro 4, 2009

“Sobre o assunto que consultou, a resposta é positiva. O resultado bom ou mau para sua vida como um todo vai depender do grau de veracidade presente nos atos cometidos para alcançar o resultado”.

Oi?

…Tá decidido. Quando eu crescer, quero ser redatora de tarot online. Ou de horóscopo, dá na mesma. É toda uma arte de falar, falar, falar, mas não dizer nada. Requer muita habilidade.