Eu sei que ninguém mais aguenta esse assunto. Tod0 mundo já fez post a respeito e a mídia tradicional já se encarregou de banalizar a discussão, transformando tudo numa bela pizza. De todo modo, entre mortos e feridos do caso Geisy, gostaria de pensar que o saldo foi positivo — afinal, chegou ao mainstream, mesmo que momentaneamente, uma questão que eu sempre achei central no feminismo: o controle do corpo e da sexualidade femininos.
No entanto, depois de todo o debate, achei que ficou faltando uma coisinha. Muita gente disse coisas bárbaras (oi, a participação dda Tica Moreno no MTV Debate foi de foder de bacana), mas eu acho que faltou enfatizar o quanto esse caso serve de prova de que as mulheres são cidadãs de segunda classe.
Essa é uma frase comum entre as feministas e eu suspeito que muita gente não entenda ou não concorde. Tipo: “mas vocês votam, trabalham, podem circular sozinhas. Onde que a tua cidadania é limitada?”. E aí o caso Geisy é uma explicação pra lá de mastigada de que, quando se trata da mulher, os direitos são vistos como negociáveis. Não são absolutos. São discutíveis. E a moeda dessa negociação é a sexualidade. Dependendo de como a mulher fale, se vista, se comporte, enfim, do quanto se revela ou não como um ser sexuado, ela é considerada mais ou menos digna de respeito. Mais ou menos digna de piedade. Mais ou menos digna de um tratamento humano. Mais ou menos digna de ser ouvida.
Lembram daquele post infame do Marcelo Tas sobre a Juliana Paes, no qual ele dizia que ”mulher que faz da bunda o seu logotipo não devia reclamar”? É isso. Porque aproximou-se da figura da “puta” e não da “santa”, por ganhar dinheiro provocando o desejo sexual alheio, então o direito básico à voz é negado à Juliana. Ela perde o direito de se ofender — afinal, as putas estão aí para serem ofendidas. Só a mulher casta, comportada, não-sexual e não-sensual, é que teria o direito de ter sua reclamação levada a sério (ainda assim, depois que sua conduta for alvo de um segundo escrutínio. Se for encontrada alguma coisa, uma coisinha sequer, que macule a imagem de santa da autora da reclamação, então sua voz é automaticamente invalidada. Exemplo: caso Polanski, sobre o qual a colunista da Folha de S. Paulo, Barbara Gancia, escreveu: “a menina tinha 13 anos, mas não era mais virgem”. Como se não-virgens perdessem o direito de reclamar de um estupro).
Quando o assunto é se a Geisy vai ou não vai posar para a Playboy, sempre aparece alguém pra dizer : “poxa, mas se ela posar, vai dar razão para os caras”. Quem disse, cara pálida? Humilhação pública está errada e pronto. A moça pode mostrar até o cérvix na revista, seus colegas ainda cometeram um crime. Olha só a linha de raciocínio da pessoa que diz uma coisa dessas: ela só condena a humilhação pública se a Geisy não fizer nada que a classifique como puta. Acha que o direito de reclamar, para a mulher, é uma coisa negociada. Os alunos teriam razão em humilhá-la caso ela fosse mesmo uma puta. Portanto, cabe à Geisy, para o resto de sua vida, não fazer nada que a aproxime dessa figura. Não pode fazer nada que aluda ao sexo, senão seu direito de reclamar da humilhação é anulado.
No carnaval do ano passado, o portal Terra publicou em sua home uma foto de um cara tentando beijar uma moça à força, agarrando o rosto dela, enquanto outros rapazes riam. Era uma cena ultrajante, mas a legenda da foto dizia: “o melhor do carnaval da Bahia”. Essa imagem foi jogada no grupo de e-mails da minha faculdade e uma looonga discussão começou. E é claro que surgiu um monte de pessoas escrotas (que, para outras coisas, são tão inteligentes… Não entendo como, neste caso, conseguem ser tão burras!) dizendo: “ah, se a menina vai para uma micareta, é porque ela tá a fim de pegação!”
Se apresentássemos a essas pessoas as seguintes afirmações…
a) todo ser humano tem o direito de escolher com quem manterá atos de cunho sexual e de recusar quem não deseja
b) nenhum ser humano pode ser obrigado a desempenhar um ato de cunho sexual contra sua vontade
… aposto meu dedo mindinho que todo mundo concordaria. Por que, então, quando se fala especificamente de mulher, esses direitos tão fundamentais passam a ser considerados negociáveis? Por que, a partir do momento em que ela escolhe ir a uma micareta ou a qualquer outro lugar de pegação, ela perde o direito de escolher quem vai beijar?
Acho engraçado que, ainda hoje, seja preciso ressaltar que defender direitos das mulheres é defender direitos humanos. A Nicole Kidman (atual porta-voz da ONU contra violência doméstica, se não me engano) falou isso num discurso esses dias. Não faz muito tempo, Hillary Clinton fez um discurso igual. E eu sempre fico pensando que parece uma babaquice falar esse óbvio ululante: que mulher é gente. Mas ainda assim tem que ficar repetindo. Justamente por conta disso. Mané concorda com “todo ser humano tem direito a…”, mas não pensa em mulher quando ouve isso. Quando se substitui o termo “ser humano” por “mulher”, aí as coisas viram negociáveis, deixam de ser preto ou branco e viram cinza. Então, embora pareça imbecil, quando a Nicole ou a Hillary falam essa frase, elas estão reforçando isso: que os nossos direitos não devem ser negociáveis nem discutíveis. Quem é cidadão pleno tem direitos absolutos. Só cidadão de segunda classe tem direitos negociáveis.
Outra questão latente (e que pouca gente deu a ênfase necessária, na minha opinião) é o quanto o caso demonstra a posição de pária que a prostituta tem na sociedade brasileira. O que os alunos da Uniban deixaram claro é que, se fosse uma prostituta, Geisy seria persona non grata na universidade. Não teria, para eles, o direito de frequentar os mesmos bancos escolares. Deixaram claro que consideram que o lugar da prostituta (ou mesmo da mulher “promíscua” — aspas, afinal, o que é promiscuidade senão uma atribuição arbitrária, feita sempre pelos outros?) é à margem – não pode frequentar certos espaços. E, se os frequenta, tem de esconder o que é, já que o expurgo e a violência contra a prostituta (ela, a mulher menos dotada de direitos; ela, a quem não cabe nenhuma negociação) são considerados justificáveis. A carta oficial de expulsão era muito clara nisso: “expulsamos a Geisy para manter puro o ambiente escolar”. Ou seja: não pode ter prostituta aqui. Não pode ter puta aqui. O ambiente para a puta é outro que não esse. A gente não vai conviver com ela porque ela macula o recinto.
….Não preciso nem lembrar daquele caso dos rapazes que espancaram uma mulher na rua e disseram “pensamos que era uma prostituta”, não?






