Ajude-me a me tornar uma feminista de verdade.
Agradecida =)

O convite:
Duvido que alguém vá ter vontade (e, se tiver vontade, duvido que terá paciência) de ler 367 páginas em PDF, mas me pediram no Twitter para postar o arquivo do meu TCC, então aqui vai: “Backlash à brasileira — a construção do feminino em veículos jornalísticos impressos”.
O título é cheio de pompa, eu sei, mas não vá esperando que o santo da Susan Faludi tenha baixado em mim. Digamos que a pretensão do trabalho é bem maior que a sua execução. Resumo da ópera: separei 69 (no pun intended) matérias sobre mulheres, publicadas entre 2007 e 2010 na Folha, no Estadão, na Veja, na Época e na IstoÉ. Elas foram classificadas em seis núcleos temáticos (mulher no mercado de trabalho, mulher na política, violência doméstica, feminino x masculino e feminismo). Aí, o que se segue é uma versão mais acadêmicazinha do que eu já fazia no blog: meter o pau em matéria mal apurada e preconceituosa de jornalista mal formado que nunca pôs o pé numa aula de sociologia na vida. Aí, eu analiso tudo com base em Walter Lippmann (se você nunca leu “Opinião Pública”, pelamordedeus, leia) e na teoria do agenda setting.
Como já disse, não é um trabalho perfeito. Tem várias falhas. Mas, com o tempo que tive para elaborá-lo, estou feliz com o resultado. Algumas análises estão meia boca, mas outras estão inspiradas e me enchem de orgulho!
Então taí, pra quem quiser dar uma olhada. Se acaso você, leitor imaginário, também tiver interesse em me ver pagar mico defendendo isso diante da banca, a apresentação será no dia 7 de dezembro, às 10h, na sala 35 do departamento de jornalismo e editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP. O orientador é o (fofo) Dennis de Oliveira. A banca será formada por Alice Mitika e Tatau Godinho.
O teaser:
A partir de 2011, este blog vai voltar à ativa — de verdade, não desse jeito mequetrefe. Vai ficar mais bonito, mais profissa e com atualizações frequentes. Entre os projetinhos debaixo da manga, agora que terminei a faculdade, também está um blog de literatura (uiuiui) e um site coletivo. Rá! Aguardem, etc.
PS – E eu nem tive tempo de escrever um texto decente sobre a eleição da Dilma, né. Farei um no dia da posse (embora esteja me mordendo porque vou ter de trabalhar e não poderei ir a Brasília…)

Para o André, que me perguntou outro dia o que eu acho da Geisy.
Momento 1 — Comportamento de turba: quando Geisy foi humilhada pelos colegas e o vídeo caiu na rede, a moda era xingar muito os alunos no twitter. Unitaliban, animais, estudantes de uniesquina, etc. Parecia que todos percebiam quão atroz foi o que fizeram com a moça. Apesar das usuais manifestações de culpabilização da vítima, o tom geral era de condenação dos alunos.
Momento 2 — A cobrança de uma bandeira: Mas aí Geisy começou a aparecer na TV. E a fazer plásticas. E a virar uma subcelebridade. Aí um cara cujo nome não me lembro mais, mas era de uma universidade aí (veja você o quanto eu estou ficando velha. Olha o estado lastimável da minha memória), escreveu um artigo no Amálgama (tô com preguiça de procurar qualquer coisa pra linkar) condenando “as escolhas éticas” da Geisy: segundo ele, ao escolher ir a programas de baixaria, Geisy cometia a escolha ética de banalizar a própria história.
Esse cara foi convidado por um programa de TV, junto com a Maíra Kubik, do Viva Mulher, e uma outra pessoa muito foda cujo nome também me esqueci e tô no trabalho, não vou correr atrás de link. Ele levou uma massacrada da Maíra e da outra convidada. Que disseram: “a Geisy não é feminista. Ela não tem obrigação de carregar bandeira nenhuma. Ela é uma moça de baixa renda que cresceu, como todas nós, recebendo mensagens várias sobre o que é ser sexy e qual o lugar da mulher no mundo. Ela cresceu numa sociedade em que o espetáculo é o valor máximo, em que julga-se que tudo o que é bom aparece e tudo o que aparece é bom. Você não pode culpá-la por aproveitar-se dos cinco minutos de fama”. O tal acadêmico saiu derrotado no programa. Mas a visão dele era a visão que se estruturaria entre a maioria das pessoas, depois.
Momento 3 – Guinada da turba: E aí surgiu o boato de que ela posaria pra Playboy. O que não houve (pelo menos não até agora). Aí está a gênese da guinada da turba. A turba que sempre pensou como os caras da uniban, mas é que não pegava bem apoiá-los. A turba que acha que, se a vítima fizer alguma coisa “de puta” depois (como posar para a Playboy), ela “dá razão” aos agressores. Assim: “ok, reconhecemos que a Geisy foi vítima ali. Mas agora ela precisa continuar no papel de vítima para todo o sempre, amém. Ela só pode ser vítima enquanto for a santa injustiçada. Se agir como ‘puta’, perde a razão. Se der a volta por cima, também”.
Momento 4 – Tirar sarro da Geisy vira moda: À medida em que Geisy ia consolidando seu status de subcelebridade, mais a turba guinava para o lado dos alunos da Uniban. E aí nasceu uma certa implicância com a garota. “Como assim essa gorda, essa menina fora dos padrões, virando celebridade?”. “Como assim ela ousa lucrar com a visibilidade de uma situação ruim?”. E aí já viu. ‘Geisy Arruda Wales’ nos trending topics do twitter, etc etc. O problema não é só que a Geisy é periguete. O problema é que ela é uma periguete segura de si, que se acha bonita, que faz e acontece mesmo estando fora do padrão. Ela tem a audácia de fazer isso. E isso parece incomodar um bom tanto.
Consideração 1 – Do preconceito de classe: Há um claro preconceito de classe nessa moda de tirar sarro da Geisy. Porque ela tem “cara de pobre”. Tanta subcelebridade periguete Brasil afora, não é mesmo? Mas a Geisy tem origem e “cara” de pobre. Aí já viu. Está no lugar errado, etc etc.
Consideração 2 — Do que eu acho incrícvel nela. Eu adoro o jeito como a Geisy deu a volta por cima. Não vejo muita coisa dela na TV. Porque assisto pouco televisão. Mas sei que ela lançou uma marca popular de vestidos cor-de-rosa e curtos. E aí vem gente dizer que o vestido é de mau gosto. Que o vestido é periguete. Mas a proposta é essa mesmo, uai: o direito ao mau-gosto e ao periguetismo. O direito a usar o vestido que você quiser. E o direito também a ter “cara de pobre”, a ser “perifa”: a marca da Geisy é da rua José Paulino, o comércio mais popular de São Paulo. Tem como não amar? Eu não sei se a Geisy pensou em tudo isso ao lançar a marca, mas é essa a mensagem que ela passa. Uma mensagem de audácia e auto-estima.
Consideração 3 — A Fazenda: Eu nem tô acompanhando. Mas tô torcendo por ela, claro. Porque haja peito para ser vítima de bullying na faculdade e depois vítima de bullying no Brasil inteiro. O mínimo que essa moça merece é uma história de Cinderella. Ficar rica e rir da cara de geral. Mas desconfio de que, se for pro paredão, ela deva sair com um alto nível de rejeição.
Consideração 4 — O mais importante. Somos todas Geisys. Todas. Todas sujeitas a esse escrutínio. De beleza, de periguetismo, de audácia. A condenação da Uniban na justiça ou a vitória dela num reality show são apenas vitórias pessoais. A dicotomia santa x puta continua.

Eu sei que ninguém mais aguenta esse assunto. Tod0 mundo já fez post a respeito e a mídia tradicional já se encarregou de banalizar a discussão, transformando tudo numa bela pizza. De todo modo, entre mortos e feridos do caso Geisy, gostaria de pensar que o saldo foi positivo — afinal, chegou ao mainstream, mesmo que momentaneamente, uma questão que sempre achei central no feminismo: o controle do corpo e da sexualidade femininos.
No entanto, depois de todo o debate, achei que ficou faltando uma coisinha. Muita gente disse coisas bárbaras (oi, a participação dda Tica Moreno no MTV Debate foi super bacana), mas eu acho que faltou enfatizar o quanto esse caso serve de prova de que as mulheres são cidadãs de segunda classe.
Essa é uma frase comum entre as feministas e eu suspeito que muita gente não entenda ou não concorde. Tipo: “mas vocês votam, trabalham, podem circular sozinhas. Onde que a tua cidadania é limitada?”. E aí o caso Geisy é uma explicação pra lá de mastigada de que, quando se trata da mulher, os direitos são vistos como negociáveis. Não são absolutos. São discutíveis. E a moeda dessa negociação é a sexualidade. Dependendo de como a mulher fale, se vista, se comporte, enfim, do quanto se revela ou não como um ser sexuado, ela é considerada mais ou menos digna de respeito. Mais ou menos digna de piedade. Mais ou menos digna de um tratamento humano. Mais ou menos digna de ser ouvida.
Lembram daquele post infame do Marcelo Tas sobre a Juliana Paes, no qual ele dizia que ”mulher que faz da bunda o seu logotipo não devia reclamar”? É isso. Porque aproximou-se da figura da “puta” e não da “santa”, por ganhar dinheiro provocando o desejo sexual alheio, então o direito básico à voz é negado à Juliana. Ela perde o direito de se ofender — afinal, as putas estão aí para serem ofendidas. Só a mulher casta, comportada, não-sexual e não-sensual, é que teria o direito de ter sua reclamação levada a sério (ainda assim, depois que sua conduta for alvo de um segundo escrutínio. Se for encontrada alguma coisa, uma coisinha sequer, que macule a imagem de santa da autora da reclamação, então sua voz é automaticamente invalidada. Exemplo: caso Polanski, sobre o qual a colunista da Folha de S. Paulo, Barbara Gancia, escreveu: “a menina tinha 13 anos, mas não era mais virgem”. Como se não-virgens perdessem o direito de reclamar de um estupro).
Quando o assunto é se a Geisy vai ou não vai posar para a Playboy, sempre aparece alguém pra dizer : “poxa, mas se ela posar, vai dar razão para os caras”. Quem disse, cara pálida? Humilhação pública está errada e pronto. A moça pode mostrar até o cérvix na revista, seus colegas ainda cometeram um crime. Olha só a linha de raciocínio da pessoa que diz uma coisa dessas: ela só condena a humilhação pública se a Geisy não fizer nada que a classifique como puta. Acha que o direito de reclamar, para a mulher, é uma coisa negociada. Os alunos teriam razão em humilhá-la caso ela fosse mesmo uma puta. Portanto, cabe à Geisy, para o resto de sua vida, não fazer nada que a aproxime dessa figura. Não pode fazer nada que aluda ao sexo, senão seu direito de reclamar da humilhação é anulado.
No carnaval do ano passado, o portal Terra publicou em sua home uma foto de um cara tentando beijar uma moça à força, agarrando o rosto dela, enquanto outros rapazes riam. Era uma cena ultrajante, mas a legenda da foto dizia: “o melhor do carnaval da Bahia”. Essa imagem foi jogada no grupo de e-mails da minha faculdade e uma looonga discussão começou. E é claro que surgiu um monte de pessoas dizendo: “ah, se a menina vai para uma micareta, é porque ela tá a fim de pegação!”
Se apresentássemos a essas pessoas as seguintes afirmações…
a) todo ser humano tem o direito de escolher com quem manterá atos de cunho sexual e de recusar quem não deseja
b) nenhum ser humano pode ser obrigado a desempenhar um ato de cunho sexual contra sua vontade
… aposto meu dedo mindinho que todo mundo concordaria. Por que, então, quando se fala especificamente de mulher, esses direitos tão básicos passam a ser considerados negociáveis? Por que, a partir do momento em que ela escolhe ir a uma micareta ou a qualquer outro lugar de pegação, ela perde o direito de escolher quem vai beijar?
Acho engraçado que, ainda hoje, seja preciso ressaltar que defender direitos das mulheres é defender direitos humanos. A Nicole Kidman (atual porta-voz da ONU contra violência doméstica) falou isso num discurso esses dias. Não faz muito tempo, Hillary Clinton fez um discurso igual. E eu sempre fico pensando que parece uma babaquice falar esse óbvio ululante: que mulher é gente. Mas ainda assim tem que ficar repetindo. Justamente por conta disso. Mané concorda com “todo ser humano tem direito a…”, mas não pensa em mulher quando ouve isso. Quando se substitui o termo “ser humano” por “mulher”, aí as coisas viram negociáveis, deixam de ser preto ou branco e viram cinza. .
Outra questão latente (e que pouca gente deu a ênfase necessária, na minha opinião) é o quanto o caso demonstra a posição de pária que a prostituta tem na sociedade brasileira. O que os alunos da Uniban deixaram claro é que, se fosse uma prostituta, Geisy seria persona non grata na universidade. Não teria, para eles, o direito de frequentar os mesmos bancos escolares. Deixaram claro que consideram que o lugar da prostituta (ou mesmo da mulher “promíscua” — aspas, afinal, o que é promiscuidade senão uma atribuição arbitrária, feita sempre pelos outros?) é à margem – não pode frequentar certos espaços. E, se os frequenta, tem de esconder o que é, já que o expurgo e a violência contra a prostituta (ela, a mulher menos dotada de direitos; ela, a quem não cabe nenhuma negociação) são considerados justificáveis. A carta oficial de expulsão era muito clara nisso: “expulsamos a Geisy para manter puro o ambiente escolar”. Ou seja: não pode ter prostituta aqui. Não pode ter puta aqui. O ambiente para a puta é outro que não esse. A gente não vai conviver com ela porque ela macula o recinto.
….Não preciso nem lembrar daquele caso dos rapazes que espancaram uma mulher na rua e disseram “pensamos que era uma prostituta”, não?

Simplesmente NÃO CONSEGUEM falar de mulher sem comentar a sua aparência ou mencionar se é solteira, se é casada, se tem filhos — se os tem, perguntam a ela se sente algum tipo de culpa (como se a mulher que trabalha estivesse cometendo um crime ou um pecado por se afastar, mesmo que temporariamente, da esfera da domesticidade); se não tem, perguntam se deseja tê-los.
Veja você que o abre da entrevista descreve as roupas, a beleza e o estado civil de Vanessa ANTES de informar que ela comanda o primeiro juizado especial contra violência doméstica de São Paulo. Este, que é o atributo mais importante, o que torna a Vanessa uma pessoa entrevistável, o que a torna relevante… É o que aparece por último. Como se fosse secundário em relação às roupas, à beleza e o estado civil. Como se, antes de qualquer coisa, antes de qualquer mérito, fosse preciso frisar que se trata de uma mulher. Frisar que é “Outro”.
Pode reparar: quando o entrevistado é homem, o abre costuma ser uma descrição sobre a sua CARREIRA. Sobre o que faz daquele cara uma notícia. Quando a aparência, o estado civil e o número de filhos chegam sequer a ser mencionados num perfil ou entrevista com um homem, é somente para “dar cor” ao texto. São dados secundários, que vêm depois. O entrevistado homem é tratado, antes de tudo, como indivíduo, como sujeito, alguém dotado de autonomia, que existe para e em si mesmo. Mulher não. É enfeite, esposa e mãe primeiro, todas as características que a singularizam depois.
Vejo nisso não só uma tentativa de reduzir a Vanessa, mas também de neutralizá-la. Colocá-la na esfera historicamente reservada às mulheres me parece uma estratégia para que ela não pareça tão ameaçadora para a ordem patriarcal. Tipo: “olha só, gente, ela é juíza e tal, combate a violência doméstica e tudo o mais… Mas não se preocupem não, que ela continua cumprindo suas obrigações, viu? Olha só como ela é bonitinha!”.
Não duvido das boas intenções do colega da Época. Mas é o que eu sempre digo: o diabo está nos detalhes. Manifestação explícita de machismo caricato ninguém vai fazer. Ele sempre vem de forma sutil, reificado pela linguagem. Não adianta nada fazer uma matéria supostamente combatendo a violência contra as mulheres (que é um produto do machismo) sendo que o próprio texto reserva à mulher um tratamento machista. Prestenção, pô.

Quando digo que as mulheres são tratadas como se sua função primordial fosse enfeitar o mundo, agradando aos olhos dos homens , chove gente dizendo que eu estava exagerando. E eu sei que parece exagero mesmo – até porque nem sempre (ou melhor: quase nunca) eu consigo explicar direito do que é que estou falando.
…Pois bem, eu estou falando DISSO. Obrigada, Marcelo Coelho, por desenhar isso pra mim.
Veja que o texto não fala do embate entre Dilma e Lina Vieira. Ele apenas compara a aparência e a “amabilidade” das duas. Como se isso fosse uma questão importante. Como se isso fosse relevante para o caso. Imagine que o bafafá fosse entre dois homens. Você acha que haveria colunas de jornal tratando a coisa por este lado? Comparando a beleza, as vestimentas, a maciez do tom de voz, a postura e o charme dos envolvidos?
Em vez de falar sobre como as alegações de Lina Vieira podem afetar a imagem de Dilma Roussef como candidata presidencial (que é o que realmente interessa), Marcelo descamba a falar de Marina Silva, Marta Suplicy e Heloísa Helena. O que elas têm a ver com a história? Nada. É só que ele não gosta do jeito como elas falam, se vestem e se portam. Coitadinho.
Quando a gente fala de privilégio masculino, muita gente também não entende e diz que estamos exagerando. De novo: privilégio masculino é ISTO. Por acaso é relevante quão atraente um jornalista acha Fulana de Tal ou não? Não, nem um pouco. Mas, como Marcelo embarca na idéia de que as mulheres têm de estar ali como enfeites para o seu deleite, ele se acha no direito de reclamar quando elas não estão fazendo isso. Ele se acha no direito de cobrar uma mudança.
Marcelo não vê ridículo em escrever um longo texto lamentando que as políticas não são “delicadas, agradáveis e charmosas” o suficiente para o seu gosto. Marcelo está de mimimi porque as quatro não agradam aos seus olhos e ouvidos como ele acha que elas deveriam.
Ele fala de Marina, Dilma, Marta e HH como se elas estivessem em falta. Com quem? Com a ética? Com o profissionalismo? Não. Com a tal da ‘feminilidade’. Se é mulher, tem que ser delicadinha e bonitinha; se não for, então não é mulher. É outra coisa.
Diz ele:
“A feminilidade de Heloísa Helena é de outra ordem. A militância abafa sua identidade. Poderia ser atraente, se não se restringisse ao cabelo puxado, aos óculos, à camiseta branca. Representa, na verdade, a mesma dureza que Dilma encarna, numa versão mais burguesa. Por que, indago, não ser simplesmente uma mulher?”.
Primeira coisa que me chama atenção: quem é Marcelo Coelho para saber mais do que a própria Heloísa sobre a identidade dela? Por acaso a militância não faz parte da personalidade dela? Não faz parte de quem ela é? Não é possível ser mulher e ser militante ao mesmo tempo? E esse “atraente” aí? É “atraente” em que sentido? Político ou sexual? Se for no sentido político, então Marcelo está dizendo que os eleitores só vão votar em uma mulher caso ela varie sempre de roupa e de penteado? E, se for no sentido sexual… Bem, qual a relevância disso? Por acaso HH tem o dever de ser sexualmente atraente para ser senadora ou para tentar ser presidente? Marcelo também parece pensar que a sua idéia de “mulher atraente” é universal. Como se absolutamente ninguém na face da Terra pudesse se interessar sexualmente por Heloísa, pelo menos não enquanto ela não trocar de camisa e de óculos.
A segunda (e mais importante) coisa que salta aos olhos: o que é ser somente uma mulher, cara pálida? O que é ser mulher, Marcelo? Faltou muito responder essa pergunta. Se eu entendi bem, para você, ser mulher é ser um protótipo de Stepford Wife – sempre impecável, cheirosa, arrumada; não grita, não reclama, não incomoda e não se incomoda. Nunca.
Por fim, cabe ressaltar que tá cheio de político (homem) feio, ríspido, grosso, mal educado, mal asseado e mal vestido. Pelamordedeus, liga a TV Câmara, né? Vocês sabem do que eu estou falando. Mas isso não vira coluna. Por dois motivos. O primeiro, já exposto, é que homem é considerado sempre sujeito, nunca enfeite. A análise de seu trabalho, portanto, se sobrepõe à análise da sua aparência. O segundo motivo é que analisar quão atraentes são os políticos homens seria dar voz ao desejo sexual feminino (hetero) e gay. E esses desejos não são retratados como a norma.
Eu não me canso de repetir isso também. Que sexualidade feminina é como se não existisse pra esse povo. Que colocar o homem heterossexual na posição de objeto a ser desejado sexualmente, e não na de sujeito que deseja, é algo considerado ridículo — e até ofensivo, às vezes. Mas essa é outra coisa que nem sempre eu sei explicar bem. Então deixa eu abrir um parêntese para indicar este post da Van Prates e estes dois textos (imperdíveis!) do Sociological Images. É por ISSO que aparência de político homem é considerada não-notícia ou notícia de mal gosto. Mas falar da cara da Dilma, das pernas da HH e do cabelo da Marina tá beleza.
PS – Repare, no trecho sobre a Marta, que a mulher não ganha nunca, viu? Se você, a fim de ser levada a sério, decide não se emperiquitar toda, te esculacham porque você não é “feminina”. Se você atende ao chamado e começa a se emperiquitar, aplicando botox, fazendo plástica, se maquiando… Ah, aí te condenam porque você é perua! Resumindo: vão te esculachar de QUALQUER maneira.
PPS – só pra relembrar, a revista Rolling Stone fez o mesmo “como ousa?” para cantoras como Marina Lima e Ana Carolina.