Em setembro do ano passado, Henrique Goldman, diretor do filme ”Jean Charles”, publicou na revista Trip um texto chamado “Carta Aberta para Luísa” (leia aqui). A chamada para o texto diz: “nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos”.
Para começo de conversa, não existe “sexo contra a vontade”. Existe um nome para a atividade sexual exercida contra a vontade de um dos envolvidos: estupro. Luísa (exista ela ou não) não fez sexo naquela tarde. Ela foi estuprada.
Estupro não necessariamente envolve porrada. Estupro não necessariamente envolve uma faca no pescoço. Estupros também são praticados mediante pressão psicológica. E foi isso que aconteceu com Luísa — que, além de uma opressão de gênero, sofreu uma opressão de classe. Se não fosse pobre, se não precisasse do emprego, Luísa não se veria forçada a deitar-se com o filho adolescente do patrão.
Tal opressão tem cheiro de escravidão. Não podemos esquecer que, se hoje somos um país que acha bonito se dizer miscigenado, isso foi graças ao estupro de milhares e milhares de escravas negras. As moças “de família” tinham de se casar virgens, mas os rapazes precisavam de uma iniciação sexual para provar sua macheza. Luísa é, portanto, uma velha personagem de nossa história.
Julgo extremamente ofensivo achar que a questão está resolvida ao publicar essas porcas desculpas numa revista que a Luísa, se existir, sequer tem dinheiro para comprar. Escrever um texto como este, caro Henrique Goldman, é um insulto a todas as Luísas. As de ontem e as de hoje.
Não acredito que este seja um texto ficcional, como você alega. Primeiro, por conta da chamada, já citada. A Trip foi clara. É ”nosso colunista pede desculpas à empregada”; não é “nosso colunista traz um conto sobre um rapaz que pede desculpas à empregada”.
Segundo, por conta da assinatura: “Henrique Goldman se tornou mais jeitosinho com as mulheres” (esta frase não está na versão online, mas estava no impresso). Ora, se não é o próprio Henrique o autor da carta, que importaria saber quão jeitosinho ele é? Qualquer leitor com habilidades mínimas em interpretação de texto percebe que esta frase tem o objetivo de limpar a sua barra. De dizer: “calma, gente, ele melhorou. Ufa! Não precisem se preocupar”.
Mas eu me preocupo, sim. Eu me preocupo com as tantas Luísas por aí. Luísas que não têm voz. Que não tem espaço numa coluna de revista, no noticiário, na mídia. Estupro, caro Goldman, não é algo de que se aprende a rir depois. Porque ele não é engraçado nunca. Não importa quanto tempo passe.
Nós, mulheres, temos nossa sexualidade tolhida. A mulher sexualmente ativa infelizmente ainda é tratada como uma mercadoria que perde valor. É rodada, é biscate, é puta, não vale nada. Nós ainda somos assediadas pelo simples fato de sair sozinhas. Não importa onde: na rua, no metrô, na balada. Se está sozinha, vestida assim ou assado, considera-se que esteja pedindo para levar uma cantada, uma encoxada, uma pegada na cintura. A coisa mais eficaz que uma mulher pode fazer para evitar ser assediada é ter um homem ao lado. Seu texto, caro Goldman, reflete justamente isso. Se Luísa “dá” para o taxista, então tem que “dar” para todo mundo. Ela não pode escolher. Se não é santa, se não é propriedade de ninguém, então é propriedade pública. Achar que o estuprador (real ou ficcional) merece uma colher de chá apenas porque a Luísa tinha seios fartos, seios que ela não pediu para ter, é perpetuar a cultura da mulher-objeto.
Talvez os editores da Trip não percebam isso no seu texto. Talvez achem que há ambiguidade aí. Que a ofensa, se existe, é demasiado sutil. Não me surpreendo. Esta é a mesma revista que anualmente reduz as funcionárias aos seus corpos. Os funcionários homens são avaliados pelo desempenho. Já as funcionárias, apenas por serem mulheres, têm de passar por outro teste: é preciso ser gostosa o suficiente para inspirar punhetas nos rapazes. Eu não caio na sua balela da “beleza de verdade, sem photoshop”, revista Trip. Eu não caio na balela de que isso tem o objetivo de valorizar a mulher comum. Eu não caio no discursinho metido a descolado, mas que no fundo se revela extremamente conservador. Eu não caio na discriminação de gênero disfarçada de polêmica.
Tampouco caio na conversa (pra boi dormir) de que o texto é ficcional. O leitor não é burro — tampouco o é o editor. Se a coluna de Goldman costuma publicar crônicas e a própria chamada do texto o anuncia como uma crônica, então não venham nos fazer de bobos. Não digam que seu único erro foi ter deixado de ressaltar que aquilo era ficção. Porque, ficção ou nã0-ficção, é um texto irresponsável, machista e extremamente nocivo — em um país onde a violência contra a mulher é um problema comum e grave. Em vez de fugir da responsabilidade, vocês deviam ter reconhecido o enorme erro que cometeram e pedir, desta vez sim, desculpas públicas às Luísas.
A culpa, sr. Goldman, não é do Brasil – essa entidade amorfa à qual você atribui a responsabilidade pela desgraça da Luísa. A culpa é sua. Discursos como o seu ajudam a fazer com que, a cada dia, várias Luísas continuem vítimas. Discursos como o seu passam a mão na cabeça de seus algozes.
Como você fugiu da responsabilidade, eu vou fugir do seu filme, sr. Goldman. Boicotarei “Jean Charles” e tudo mais quanto você dirigir. A bala na cabeça do Jean Charles é tão grave quanto o estupro da Luísa. Quem acha que o segundo é apenas um mero valor de choque para um texto, motivo de riso talvez, não tem moral para falar do primeiro. Eu não dou dinheiro a quem promove uma cultura que passa panos quentes no estupro.
Se quiser saber da história do Jean Charles, não irei ao cinema. Darei um Google.
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[update] achei outra (ótima) carta aberta aqui.