Adorei!
UPDATE: adorei a intenção do juiz porque ele mostrou que sabe que ler boas histórias é uma excelente maneira de passar o tempo – e melhor: não prejudica ninguém.
Há alguns anos, eu tive senhas devassadas por algum engraçadinho, que destruiu blogs e mandou e-mails horrosos com a minha assinatura. É constrangedor, dá dor de cabeça e você só consegue pensar: “putz, essa pessoa não tinha nada melhor para fazer?”. Eu até “entendo” um hacker que se sinta orgulhoso ao invadir uma página do governo ou desenvolver um vírus que dê pane em algo aparentemente intransponível, porque é uma questão de “vaidade”, de vencer um desafio, de saber que, se quisesse subverter o “sistema”, conseguiria.
Mas a maioria é de pés-de-chinelo que não sabem o suficiente para burlar sistemas mais complexos. Então, criam vírus que qualquer técnico conserta por 100 reais, roubam blogs, emails, perfis no orkut, senhas… Enfim, prejudicam gente normal. Gente que não fez nada pra eles. E isso não aconteceria se essas pessoas não tivessem muito, mas muito tempo ocioso. Logo, o juiz pensou: “tá sem fazer nada? Vai ler Vidas Secas em vez de azucrinar a vida dos outros!”
O blog Te dou um Dado, que rende boas risadas mas já está começando a perder a graça, como tudo que entra no mainstream (afinal, quando você vira chegado da MTV, da Rede TV e da editora Símbolo, tem de fazer vista grossa e deixar de ”chochar” muita gente que merece…), publicou um post quase tão besta quanto algumas das coisas veiculadas pela MTV, pela Rede TV e pela Símbolo.
Disseram: “Se nem a gente lia esses livros na época de fuvest porque se revoltava que era obrigatório, imagina os caras tendo que cumprir pena lendo. É o Poder Judiciário ensinando o prazer de uma boa leitura </ironia>”
Pra começo de conversa: os livros da Fuvest não são obrigatórios. Ninguém põe uma arma na sua cabeça. Se você não quiser, não leia. Afinal, as questões de literatura respondem por uns 5% da prova de português. Ou seja: se você for bem nas outras OITO matérias, pode até passar na USP sem ter lido nenhum dos livros recomendados.
Mas o fato é que a lista da Fuvest tem livros bacanas. No meu ano teve “A hora da estrela”, por exemplo. Uma leitura pra lá de prazerosa (e Clarice é até pop). Ninguém pediu pra ler José Sarney! Nem a bíblia, nem o código civil. Te pedem pra ler Machado e Clarice Lispector e você ainda reclama? Não me diga que queria que o vestibular perguntasse da última revista Caras…
O que vocês não entenderam, queguidos blogueiros do TDUD, é que o juiz NÃO puniu. O juiz foi legal. Eu prefiro ler “A hora e a vez” do que ir pro xilindró ou pagar multa. Da mesma forma, a Fuvest não está enchendo o saco: ela está só recomendando livros importantes para a formação de qualquer um que queira entrar numa faculdade.
Acho a frase-feita “brasileiro não gosta de ler porque, na escola, isso é obrigação” a coisa mais babaca do mundo. Porque quem vê como obrigação é VOCÊ. Os meninos podem encarar a decisão do juiz como uma obrigação ou aproveitar para mergulhar na história do Matraga, que é no mínimo interessante. Quantas coisas não começam como “obrigação” e depois a gente aprende a gostar? Essas coisas que os hackers sabem também não são trabalhosas? Também não exigem tempo para aprender? “Invadir” o computador alheio não deve ser fácil, senão todo mundo era hacker. Mesmo assim, eles decidem aprender - porque se interessaram. A intenção do juiz foi despertar pela literatura o mesmo interesse que eles têm por informática. Só isso.
PS – A interpretação de texto do pessoal do TDUD tá tão falha que eles não viram que o juiz proibiu que os meninos tenham acesso à internet. Logo, ter acesso ao Zé Moleza vai ser meio difícil a não ser que façam isso através de algum amigo. Mas, ei, pessoas que perdem tempo invadindo o pc dos outros não devem ter muitos amigos…
PPS – Eu ia escrever o quanto acho absurdo que um site como o Zé Moleza exista, todo mundo conheça e fique por isso mesmo, mas nem vou me estender nessa história. É o famoso “jeitinho” brasileiro: você baixa o trabalho, entrega pro professor que finge que não vê (afinal, eles sabem, ninguém é tão trouxa quanto parece), o aluno ganha a nota, o professor ganha o salário e fica tudo certo. Depois, quando cai um Machado de Assis na mão, geral acha difícil, enfadonho, não entende. E os outros é que são chatos por “obrigarem” a ler isso…