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A mídia e o monstro

Abril 4, 2008

Eu não ia comentar sobre esse assunto porque geralmente torço o nariz para assuntos “de comoção social”, mas é que o caso da menina Isabella traz duas discussões importantes. Uma delas é sobre jornalismo.

Impossível não ficar de cabelo em pé com o que está fazendo a não-imprensa brasileira em cima disso. Olha, vou te falar, às vezes dá até vergonha de ser jornalista no Brasil. Eu sei que o mercado não é lá essas coisas e todo mundo têm de pagar o leitinho das crianças, mas é impressionante assitir a como pessoas que se intitulam “jornalistas” e possivelmente até têm diploma agem em total desconformidade com os preceitos da profissão.

Mesmo que você não tenha diploma, mesmo que você nunca tenha pisado em uma aula de ética na vida, é óbvio que essa espetacularização em cima do caso é errada. Nem precisa ser jornalista para perceber isso. Primeiro, está errado pelo aspecto jurídico: as pessoas são INOCENTES até que se prove o contrário, não o oposto.

Não importa que o depoimento do pai seja confuso, que a história esteja mal contada e que a primeira coisa que você pense seja: “putz, tá na cara que esse cara matou a criança”. A menos que você possa efetivamente provar a culpa, melhor não ter o dedo em riste. Gente, a vida é maluca – tanta coisa parece óbvia e, no fim, não é nada daquilo que a gente pensava. E aí? E se foi mesmo outra pessoa? E se alguém entrou mesmo na casa do cara? E se for algo completamente diferente disso, algo que ninguém pensou até agora? Tudo pode acontecer. É para isso que existe justiça para investigar.

A investigação também é território do jornalismo. Mas urubu que é urubu não gosta disso, não. É muito mais fácil arranjar um delegado wannabe superstar para abrir a boca sobre o que não deve. Essa menina vai virar a Madeleine brasileira: a mídia vai encher o saco com uma “pista” bombástica a cada dia, a maioria delas falsas, e o caso nunca vai dar em lugar nenhum. Simplesmente porque certas investigações têm de ser privadas para garantir sua efetividade. Quando o assunto vira motivo de histeria (ou como gostam de chamar, pra ficar mais bonitinho e todo mundo parecer solidário: “comoção social”), é impossível não entrar na onda e se embananar, perdendo a seriedade e o foco da investigação.

Foi ridículo o plantão que os jornais deram ontem, só para mostrar a mãe da menina entrando na delegacia para dar depoimento. Me diz: aonde que isso é de interesse público??? Precisa levar uma multidão de fotógrafos histéricos pra lá, como se fosse algo de suma relevância? Como se fosse fazer despencar a bolsa, congelar poupanças, derrubar presidentes?

E eis o segundo motivo por que isso está errado: não é de bom tom. É falta de educação. A mulher acaba de perder a filha e ainda tem de entrar no corredor polonês de um bando de sanguessugas que não estão fazendo “”"”"”reportagem”"”"”" para fazer justiça. Afinal, se se importassem com isso, respeitariam a mulher.

E é aí que entra a segunda reflexão: os espectadores. Se a urubuzada toda está lá, é porque está dando audiência. E por que dá audiência? Porque as pessoas se regozijam como os espectadores do coliseu. Querem mais é ver selvageria. PArece que as pessoas QUEREM que o pai seja culpado. Elas fingem estar comovidas, mas, para mim, isso é apenas uma desculpa para poder esbravejar e julgar alguém.

É uma tendência humana, infelizmente: antes de perguntar, de investigar, de ouvir a pessoa, é mais fácil jogar a pedra. Foi assim por toda a história da humanidade e ainda é. As pessoas devem sentir prazer em chamar os outros de assassinos, monstros e desalmados só para se sentirem bem consigo mesmas, ao pensar que não são assassinas, monstras e desalmadas. E é por isso que ficam tão ouriçadas quando surge uma história cabeluda – é uma chance de alimentar o ego delas.

E, quanto mais chocante e privada for a história, melhor. Afinal, por que as pessoas não ficam tão indignadas ao ver aquele comercial em que celebridades estalam os dedos a cada três segundos, simbolizando o intervalo médio entre mortes de crianças no mundo? Porque não ficam tão bravas assim quando uma criança indígena morre de desnutrição em Goiás? Ah, véi, porque é Goiás! Só tem graça ficar “comovido” quando é uma menina do eixo Rio-SP, bonitinha, branca, de classe média. Só tem graça quando podia ser você, porque aí você pode fingir que se sente ameaçado e começar a inquisição. O povo só fica puto quando o menino arrastado no carro é de classe média e os autores do crime, meninos pobres e favelados, que deviam ser punidos aqui e agora. O povo só fica puto quando quem mata os pais a pauladas é a garota rica e bem-nascida. Quando só há pobres envolvidos, é mundo-cão, é rotina, é sem graça.

Então, sem essa de que é “comoção social” ou compaixão de quem gosta de criança ou tem filhos, porque senão todo mundo ficaria emputecido ao parar a cada semáforo. O que guia essa “comoção” é somente a possibilidade de apontar o dedo a alguém.

Afinal, por mais que a história seja chocante, o cara não fez nada para você. Se ele for mesmo o assassino, só fez mal à filha, não fez mal à sociedade como um todo. Não oferece o mesmo perigo que um serial killer. Por mais “monstro” que seja, não é o tipo de monstro que vai vir puxar o seu pé de noite. Então, repito: cadê o interesse público nisso?

Quero só ver se, no fim, for uma segunda escola Base e, na verdade, o pai não tiver culpa nenhuma. E, se tiver, na boa, quem é você pra julgar? Quem julga é justiça. Jornalista não julga, descreve. E, ainda assim, só deve descrever o que é relevante. Quem quiser CSI, que ligue na Sony.

2 comentários

  1. gostei do texto. é isso mesmo.


  2. só falo uma coisa: colégio Base. lembra? pois é.



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