
Tiro no pé
Abril 11, 2008Então o cara é filósofo e articulista do jornal de maior circulação do país e, ainda assim, destila asneiras e preconceitos. Veja o que Hélio Schwartsman escreveu nesta coluna.
Primeiro, ele diz que concordaria com o infanticídio no caso de doenças congênitas. Ou seja: no mundo de Helío, matar criança é muito feio, mas se ela for te dar trabalho, manda ver. Querido, você tem de se decidir: ou condena o infanticídio por completo ou não condena. Atente para as aspas que ele coloca em “sabedoria dos povos da floresta”, como se todos os índios fossem uns tapados subdesenvolvidos que não sabem de nada. Aliás, ele põe aspas em tudo que diz respeito aos índios, como forma de diminui-los. Em “bons selvagens” para dizer que são maus, em “maldições” para rebaixar as crenças indígenas… Hélio ainda tem a audácia de dizer: “fazendo um pouco o papel de advogado do diabo, quer dizer, dos índios…”. Alguém devia processar esse cara por um artigo tão preconceituoso.
Não contente só com as aspas, ele torna seu preconceito ainda mais explícito, ao sugerir que as diferentes civilizações podem ser colocadas em uma escala evolutiva. Afinal, já que desenvolvemos o cálculo infinitesimal e mandamos o homem à lua, nossa cultura seria muito mais “desenvolvida” do que a dos indígenas. Esse povinho só vive no mato mesmo, não é?
Hélio, querido, seu tiro saiu pela culatra. Você tentou fazer um texto politicamente correto, mas acabou demonstrando que não tolera certas diferenças. Seja uma criança com doença congênita ou um índio que não segue os seus costumes.
Largue a mentalidade do século XIX, chuchu. Não é porque uma cultura é diferente da sua que ela seja subdesenvolvida, pior ou melhor. Ela é apenas diferente. Aliás, seus comentários só demonstram que você pouco sabe sobre a diversidade da cultura indígena. Até porque é impossível estudar qualquer outra cultura se o objetivo for apontar o que é “certo” e “errado” para os NOSSOS parâmetros…
Para o Hélio e para quem pensa como o Hélio, eu pergunto: quantas barbaridades nós, caras pálidas, também não fazemos em nome da religião ou de outras instituições, como a democracia e o mercado, por exemplo? Quantas crianças nós matamos, direta ou indiretamente, todos os dias? Matamos mais ou menos do que os índios matam? Nós mandamos o homem à lua, mas ainda não aprendemos a conviver. E aí, quem é o selvagem? Ou melhor: faz sentido sequer achar que alguém deve ser o mocinho e o outro, o selvagem a ser “civilizado” (lê-se: descaracterizado, expatriado, arrancado de sua identidade)?
A cultura indígena brasileira é das mais ricas, mesmo que eles não tenham acesso aos bancos das escolas de filosofia, como você teve. Aliás, se for pra frequentar faculdade para continuar propagando senso comum, era melhor ter ficado em casa. E, se o senhor não tiver o que escrever no jornal, dê espaço para outro que pelo menos estude um pouco antes de opinar.
update: os últimos parágrafos deste texto mostram bem como as pessoas deveriam se comportar diante da cultura alheia – procurando entender os motivos de cada hábito, desvendando, antes de soltar um “ai, que horror”. Não é mais divertido assim? Agora, imagine o Schwartsman escrevendo o mesmo texto.




“Enquanto esses índios mal contam até quatro, nós desenvolvemos o cálculo infinitesimal e com ele mandamos o homem à lua”. Cara, que mundo é esse? QUE JORNALISMO É ESSE? Tipo… Mayra Dias Gomes, Lúcio Ribeiro, Hélio Schwartsman… qualquer mané escreve pra esse jornal, é isso?