Posts de Maio 2nd, 2008

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torrente

Maio 2, 2008
Arrancaram a película de lirismo que recobria meus olhos. Não vejo nas coisas nada além da superfície, da casca dura, não sei adivinhar o interior, não sei precisar o que causam em mim. Não tenho mais memórias porque me forçaram a acreditar que o passado não importa, há tanto-tanto-tanto acontecendo agora mesmo, nesse instante, e, de tudo isto, o que menos importa é você, mocinha, você e seu passo arrastado de quem precisa viver de passado porque achou que ele iria durar mais um pouco para dar tempo de você decifrar o gosto.
 
Pois é, a vida tem sido assim: mantive tudo demais na língua, querendo saber qual era a essência do gosto das coisas (nada de apenas engolir, engolir, engolir). Eu queria sobretudo entender se o que sobrava ao final era doce, amargo, salgado ou o quê. Mas não houve tempo para isso e agora tenho aqui essa cartela de gostos mal rasgados, essa bagunça toda, nada catalogado, sem todo, sem corpo, sem mim. E isto é que é o mais complicado – porque, se não consegui entender essas coisas, estas, as mais cruciais, como é que posso voltar o olhar para fora?
 
Sou virgem da vida que não espera e agora essa luz, essa luz maldita que não sei quem pôs, estraga meus olhos e é como se alguém os forçasse a continuar abertos sempre, afinal, no momento em que fechá-los, o catálogo de gostos voltará em sonho e lá posso ser qualquer coisa, qualquer coisa de mais verdadeiro do que isto, esta máquina de separar o que é relevante para todo mundo, menos para mim. Decifrar o meu dentro é um perigo para alguém, não sei para quem. Sinto que é porque há tanto aqui dentro que inundaria tudo de verdade pura, aquela em que o relevante e o irrelevante são indissociáveis.
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Maio 2, 2008

“É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, que se espalham a cada ano em grande quantidade, como moscas.”

Tio Schop.

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Maio 2, 2008

As pessoas são mais belas quando ainda não as conhecemos. Platão tem toda a razão ao privilegiar o mundo abstrato. Toda-a-razão.

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ouvindo

Maio 2, 2008

“You act as if you don’t care/ you act as if you’re going somewhere/ But I just can’t convince myself/ I couldn’t live with no one else/ And I can only play that part/ And sit and nurse my broken heart”.

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Maio 2, 2008

Você me escapa entre os dedos feito areia. Ou como inseto bonito fugindo de gente que quer apreender um pouco de beleza. Dou golpes no ar, minhas mãos comendo vento. Acho que, como os bichos, você também tem medo de que minha admiração possa te matar.

Um dia talvez você saiba: só mata o amor não vivido. Ele é também como a areia, que escapa dos dedos, mas sempre sobra um grão ou outro nas mãos.

Se você perdesse menos tempo tentando escapar, poderia pôr bem os olhos em tudo e finalmente compreender do quê minhas preocupações se alimentam. Quem ama quer o todo do outro, não basta só pedaço.

Lembre-se: amar com franqueza não custa dinheiro. É só um contrato de tempo e ouvidos, passível de descrédito vitalício em caso de descumprimento. Não sei se você se preocupa em como ficará o seu nome na minha praça, mas talvez devesse pensar nisso.