h1

torrente

Maio 2, 2008
Arrancaram a película de lirismo que recobria meus olhos. Não vejo nas coisas nada além da superfície, da casca dura, não sei adivinhar o interior, não sei precisar o que causam em mim. Não tenho mais memórias porque me forçaram a acreditar que o passado não importa, há tanto-tanto-tanto acontecendo agora mesmo, nesse instante, e, de tudo isto, o que menos importa é você, mocinha, você e seu passo arrastado de quem precisa viver de passado porque achou que ele iria durar mais um pouco para dar tempo de você decifrar o gosto.
 
Pois é, a vida tem sido assim: mantive tudo demais na língua, querendo saber qual era a essência do gosto das coisas (nada de apenas engolir, engolir, engolir). Eu queria sobretudo entender se o que sobrava ao final era doce, amargo, salgado ou o quê. Mas não houve tempo para isso e agora tenho aqui essa cartela de gostos mal rasgados, essa bagunça toda, nada catalogado, sem todo, sem corpo, sem mim. E isto é que é o mais complicado – porque, se não consegui entender essas coisas, estas, as mais cruciais, como é que posso voltar o olhar para fora?
 
Sou virgem da vida que não espera e agora essa luz, essa luz maldita que não sei quem pôs, estraga meus olhos e é como se alguém os forçasse a continuar abertos sempre, afinal, no momento em que fechá-los, o catálogo de gostos voltará em sonho e lá posso ser qualquer coisa, qualquer coisa de mais verdadeiro do que isto, esta máquina de separar o que é relevante para todo mundo, menos para mim. Decifrar o meu dentro é um perigo para alguém, não sei para quem. Sinto que é porque há tanto aqui dentro que inundaria tudo de verdade pura, aquela em que o relevante e o irrelevante são indissociáveis.

Deixe um comentário