Ler as suas cartas todas é testemunhar o ápice e o declínio do nosso amor – que, moribundo, ainda insiste em engasgar, soluçar e sugar o ar, em espasmos a cada vez que relembra o quanto o auge da vida era bom. Mas o sangue todo já está no asfalto, tingindo as pedras, sujando-se de piche. A luta é em vão.
Ao lê-las, percebo que os únicos culpados somos nós mesmos. E o motivo? Por termos vivido. Só isso. Vivido e mudado. Você já não é mais o homem por quem me apaixonei e eu também não sou mais a moça cujo sorriso você dizia ser contagioso. Quando nos conhecemos, estávamos na linha de largada da vida – até então, éramos apenas café-com-leite. Endureceram-nos. Não pudemos escapar. É um processo, é a vida, é a vida, o que se há de fazer? Nada. Só pude chorar por três longas horas, ao lembrar do quanto era genuinamente feliz. Hoje, o contrário.
Mas acordei pedra – afinal é assim, é a vida, é a vida. Os religiosos atribuem a deus o fato de acordarmos calmos pela manhã depois de uma noite de choro. Mas isso é de todo mundo, até dos que em nada acreditam senão na impossibilidade de endurecer sem perder a ternura. Mas tudo bem. Chorar é bom porque me faz me sentir mais humana – só os humanos choram. Logo, ao chorar me aproximo da moça (tão moça!) por quem você se apaixonou um dia.




