Posts de Maio 6th, 2008

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Lisérgica

Maio 6, 2008

Nesses últimos meses, a maior prova de amor que posso oferecer é esta: ficar acordada por você. No dia seguinte, não me importo de meus olhos fecharem quase involuntariamente o dia inteiro, não me importo que ficar acordada seja tão insuportável – afinal, você não é como ressaca, que sempre me deixa arrependida. Nada de boca seca. Você mata a minha sede de sentido, de sentir, de achar graça nas coisas.

Porque nada mais tem graça.

Ando de rosto virado contra o mundo, porque nada mais surpreende. São apenas números e estimativas e estatísticas; tudo medido, metrificado, mensurável. Eu gosto é do que não tem borda. Eu gosto é de metáfora, de pleonasmo, de despejar as palavras como criança espalhando água pelo quintal com sua espadinha que faz bolhas de sabão – afinal, depois que as palavras saem da boca ou das mãos, elas estouram feito bolhas mesmo. As palavras são redondas e instáveis, feito bolhas. Não se sabe onde começam, não se sabe onde terminam. Elas têm cor de gasolina no asfalto, essa cor que é de nada e ao mesmo são todas, essa cor que é o que você quiser, basta escolher de onde olhar. As palavras são assim e eu sou toda palavras contigo.

Sou toda fluidez e eternidade, relativismo, o tempo suspenso. Não sentir o peso do tempo nos ombros simplesmente porque ele não conseguiu entrar, está com a cara enfiada no vão da porta entreaberta com a correntinha. É o vácuo, é o vazio – mas não o vazio que sufoca, que mata, essa necessidade humana e urbana de preencher tudo com gente, com dinheiro, com qualquer coisa (mas nada, nada mesmo basta). É vazio como cama grande e macia: poder esticar os braços e as pernas e sentir todos os músculos e os ossos, o corpo vivo.

Você me enche de verborragia e esta sou eu, esta sou eu, toda errada. Cansei de escrever sem artigos nem adjetivos, com precisão, checagem, rechecagem, nunca escreva por extenso números com muitos zeros, cansei da vida com manual de redação. Cansei de relógio. E é isso que você me dá, a tal da elasticidade. Não tenho ânsia de ser mim mesma nem sequer de descobrir quem é essa pessoa no espelho. Contigo posso ser qualquer coisa. E mudar, mudar de um minuto para o outro. Sem remorso nem regras, porque a essência está aqui, o caule, a espinha dorsal, que é sua, é sua. Minha única constância é essa, esse sentimento inomeável que eu chamo de amor, mas me arrependo logo depois de pronunciar a palavra, porque ela limita, rotula, reduz.

Eu quero que você saiba que meu sentimento por você são todas as palavras do mundo. Meu sentimento por você é vertigem e linguagem. E quero que saiba que ele, o meu sentimento, não tem cor definida – sempre pensei que as cores, por mais que tenham zilhões de subtons, são finitas. Pense em todas as cores que você conhece… Se não pensar em “claro”, “escuro” e apostos, logo ficará sem nomes para citar.

O que eu sinto por você se abre em flor a cada quarto de segundo. As pétalas todas caindo sobre nossas cabeças, como chuva leve. E fica maior e maior e explode, como fogos de artifício. Como orgasmos. Como soluços, um dentro do outro. E isso é mais potente do que qualquer droga, posso ficar acordada a noite toda, o resto da vida, criar bolsas debaixo dos olhos, não importa. Com você, só não posso dormir porque dormir é, sobretudo, silêncio.

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Todo mundo vai embora

Maio 6, 2008

Ela fala tanto de si que às vezes dá vontade de enfiar o dedo médio na garganta. Também se cobre com o estereótipo da mulher cosmopolitan, a mulher sex & the city, a mulher Bridget Jones, a mulher revista Nova, a mulher livro mais vendido da lista de auto-ajuda: aquela que, embora linda, moderna e bem-sucedida, só quer casar, ter filhos e ser amada por um homem. Enfim, o beco machista, simplista e mercadológico em que o feminismo foi desembocar. Logo ela, que parece tão rabugenta e rara (a parte que desperta a minha identificação), ela que diz evitar mediocridade…  Devia pensar nisso antes de publicar alguns de seus escritos. Se não está justamente se enfiando em um mercado para mulheres medíocres.

De todo modo, ela escreveu este texto, que é um dos mais bonitos que já li – e não há nenhuma palavra nele com que eu não me identifique ou não gostaria de ter escrito. Tiro o chapéu e sempre o releio de tempos em tempos.

Leiam.

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O futuro do jornalismo

Maio 6, 2008

Abro o jornal laboratório dos alunos do primeiro ano e leio: “Saiba como prevenir o  câncer de cólo de útero”.

Thumbs up.

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Jornalista desinformado existe? Existe sim, senhor!

Maio 6, 2008

Nada me dá mais raiva que jornalista desinformado (paradoxo? imagina!) bradando que deixar que os índios adentrem a Raposa Serra do Sol (o que já foi determinado pela justiça porque cumpre com todos os aspectos da lei – já era, perdeu, preibói) é “ameaçar a soberania nacional”.

1) A lei estabelece que as terras serão utilizadas pelos índios, mas a propriedade continua sendo da união. Os arrozeiros, ao contrário, querem a propriedade do local. Não sei onde uma terra da união oferece mais ameaça à soberania que uma propriedade privada.

2)Embora tenham tido (bastante) contato com a nossa cultura, a organização social e política dos índios não pressupõe um Estado. Aliás, mesmo se quisessem, eles iam se separar do Brasil como? Eles lá têm condições militares e financeiras para isso? É diferente da Bolívia, onde os mais ricos é que estão a fim de se separar para não perder algumas regalias. Há quem diga: os índios vão se associar a empresas estrangeiras que desmatam e querem a Amazônia todinha porque são filhas do Belzebu. Olha, até onde sei, existem mais fazendeiros que índios associados a gringos filhos de Belzebu.

3) Os jornalistas desinformados (ou a serviço de alguém…) dizem que a área demarcada é grande demais para cerca de 17 mil índios. Mas omitem o fato de que os arrozeiros que se recusam a sair  de lá podem ser contados nos dedos das mãos.

Ou seja: essa galera sai por aí fazendo matéria e escrevendo artigo sem ao menos dar uma conferida na lei que permitiu a demarcação das terras. Simata.