
A piada que morreu no mar
Maio 14, 2008Minha vida toda sempre foi olhar a manada se aproximando, enfurecida, desvaiarada, em direção ao precipício. Tinha duas opções: virar de costas e correr para o precipício também ou continuar de peito aberto, diante da tropa, seguindo o meu caminho. Pois bem, olha só!, triunfei. A verdade é esta: o medo é infundado e idiota porque a gente sempre triunfa. O que dá pena é que nem todos tomam a mesma decisão. Sobra medo de morrer, de apanhar, enfim, de não ser o que, em todo canto, gritam que é a melhor opção. E então, muitos dos raros heróis acabam se juntando à manada precipício abaixo.
Nunca vou me esquecer daquele dia na praia em que o mar e o céu estavam cinzas. Não pensei em nenhuma palavra, mas, de fato, entendi completamente a resposta que há muito procurava e estava ali, no mar. Entendi que deve-se calar a boca do mundo com uma boa colherada de tempo.
Gosto de você porque você me faz lembrar disso. Que nada é tão ruim que dure para sempre – depois de quase ensurdecer com o passar da manada, a gente abre os olhos e constata que está ileso, com tudo no lugar. E forte. Assim como aquele dia no mar (ou naquela tarde em que eu olhei para o céu e entendi que ele era o mesmo sobre as nossas cabeças e que pelo menos isso nos unia), hoje eu sei – aliás, estou convicta de – que, não importa quão pesados sejam os escombros sobre as minhas pernas, o tempo virá dar uma bordoada nisto tudo e me levar adiante, para onde sei que devo ir. Que não é o mesmo lugar de todo mundo. É o mesmo lugar de pessoas como você.



