Posts de Maio 15th, 2008

h1

A dor dos outros

Maio 15, 2008

A parte mais difícil do meu dia foi escolher as fotos para ilustrar as matérias sobre o terremoto na China.

Até agora, escrevia 5 mil, 15 mil, 30 mil, 50 mil mortos numa boa. Considerar os números como meras abstrações é o que há de mais escroto nos jornalistas, mas, ao mesmo tempo, é o que permite que a gente mantenha (um pouco d)a sanidade.

Escolhi as mais amenas, sem corpos. Não sei dizer se essa foi a melhor escolha (até porque mostrar ou não o horror da dor alheia é uma velha discussão…). O fato é que não consigo parar de pensar na foto que mostrava as perninhas de um bebê (pelo tamanho, devia ter poucos meses de idade)  no meio de uma montanha de escombros. É aí que a gente percebe do que é que está falando.

h1

Dica

Maio 15, 2008

Faz um tempinho que comecei a ler o Pé na África, diário de viagem de um repórter da Folha que está percorrendo todo o continente.

Não sei se a decisão da viagem foi dele ou do jornal, mas, de todo modo, é uma boa iniciativa, já que os países africanos raramente aparecem no noticiário (a não ser quando há uma tragédia estratosférica) e mais raramente ainda aparecem em separado, com suas particularidades culturais. África é que nem índio – no jornal, “é tudo a mesma coisa”…

h1

Pra liquidar de vez a pseudopolêmica…

Maio 15, 2008

…Colo aqui e-mail enviado para a menina do blog do outro post. Não deixa de ser alimento para a urubuzada que tem visitado esta página. Enjoy.

——————————————————

Ó, seguinte: essa história tá virando uma tempestade em copo d’água e vou tentar solucionar o mal entendido, ok? O e-mail vai ser um tanto longo porque eu sou prolixa pra cacete. Se não quiser ler, não leia e fique cada um com sua opinião. Enfim.
 
Reli tanto o meu comentário no seu blog quanto o texto que publiquei no meu e, em ambos, está claro que não estou falando só de você. Afinal, eu não te conheço – o que é óbvio. Eu usei o que você escreveu de MOTE para falar da atitude que muitas pessoas têm. Isso está muito claro. Eu não escrevi “você” nem se esforça, não escrevi “você” lê Machado esperando Surfistinha. Escrevi “tem gente que”. E você, talvez por erro de interpretação ou por se identificar de alguma forma com isso, assumiu toda a crítica para você - ou, como dizem por aí, “vestiu a carapuça”.
 
Você há de concordar que o seu texto dá a entender que, como “todo mundo” diz que Dom Casmurro é importante e todo mundo comenta, você decidiu ler o livro. Mas, como a narrativa era devagar e, em alguns trechos, você não entendia e tinha que ler duas vezes, classificou que o Machado era “chato”, pura e simplesmente. Até aí, ok, todo mundo tem o direito de ter sua opinião sobre qualquer livro. Mas, de novo, você há de concordar que encerra seu texto dizendo: “de agora em diante, vou falar que o Machado é chato e foda-se!”. Primeiro, não sei se você leu outras coisas dele. Acho, no mínimo, equivocado rotular o autor de “chato”por uma obra só. Da mesma forma, como você pode dizer “não gosto de literatura brasileira, confesso que não leio muito mesmo”? A gente só pode falar com tanta convicção do que conhece bem. É que nem dizer que não gosta de jiló sem nunca ter comido jiló.
 
Quando digo que algumas pessoas (não somente você) culpam os outros, eu me refiro à parte em que você diz que as pessoas dizem que gostam de Machado (ou de outros autores, enfim) só para pagarem de intelectuais e excluírem os outros (porque, sim, você deu a entender isso e muita gente além de você diz o mesmo). Tanto que, quando foi se defender, uma das primeiras coisas que você veio dizer foi isso: que, pelo simples fato de eu gostar e estar defendendo o Machado, eu era uma “pseudo-intelectual”. Não sou nem quero parecer nada, sou simplesmente uma pessoa que gosta de literatura brasileira e acha que as pessoas deveriam dar valor a ela, só isso.
 
O texto que eu escrevi usando o seu texto como MOTE dialoga com outro, que escrevi usando o blog “te dou um dado” como mote (se tiver interesse, http://marjorierodrigues.wordpress.com/2008/04/23/114/). No texto deles, eles falam o mesmo que você acaba de falar no seu email:
Se nem na época do vestibular onde existia essa obrigação eu a cumpri, quisá agora que sou uma balzaquiana muito bem resolvida com o meu grau de cultura “medíocre”.
 E é isso que eu chamo de “culpar os outros”. Ninguém te obrigou a nada. Ninguém te obriga a ler Machado. Ninguém põe a arma na sua cabeça. O que eu critiquei é essa mania, que não é só sua, de culpar os outros pela “obrigação” de ler os clássicos. Não é obrigação coisa nenhuma. Afinal, você mesma chegou aos trinta com um grau de cultura “medíocre” (quem diz isso é você mesma! e olha que medíocre é sempre um grau de comparação – se você o considera medíocre, é porque acha que deveria saber mais, não? Senão diria que seu grau de cultura é suficiente…) e tá pagando as suas contas. Como eu disse, é possível viver sabendo muito pouco, então, ler não é obrigação. Mas, quanto mais você lê, mais você reflete sobre si mesma e sobre o mundo. Para mim, isso é importante. Eu não quero passar pela vida somente vegetando, quero ser um ser humano PENSANTE. Não apenas alguém que sobrevive e paga contas. Para outras pessoas, basta satisfazer as necessidades básicas e tá muito bom. E, para isso, não é preciso muita cultura mesmo. Bom… Cada um, cada um.
 
Sendo assim, eu disse: na hora de pegar um livro clássico, a pessoa tem que estar disposta a enfrentar a chatice. Afinal, sendo o livro antigo, é óbvio que ele vai ter um ritmo mais devagar e vai ter palavras diferentes. Antes mesmo de abrir um livro do Machado, você SABE que ele vai ser assim, sabe que vai ter que ler algumas coisas duas vezes. Então, tive o “tremilique” porque vc reclamou do óbvio, reclamou do que já sabia que ia encontrar antes mesmo de abrir o livro. É impossível ler qualquer livro antigo sem estar disposto a enfrentar a chatice. É preciso sempre um pouco de esforço – esforço que, pelo seu texto, pareceu que você não queria fazer. Então, se é você quem não quer fazer, mantenha sua opinião (infundada, já que incompleta) pra vc mesma. Foi isso o que eu quis dizer.
 
Por fim, acho que vc devia refletir: o que é um bom livro pra você? Por exemplo: ano passado, eu li “Os filhos de Anansi”, do Neil Gaiman. Puta tijolão, mas devorei o livro, li rapidinho. Por quê? Porque a história era fácil, rápida, cheia de reviravoltas. Foi gostoso ler. Mas o que esse livro passou pra mim? O que eu aprendi com ele? Sobre o quê eu refleti? Se parar pra pensar, NADA. Foi só uma historinha que me entreteve. O “Memórias Póstumas”, ao contrário, foi mais complicado. Demorei pra ler, tive que ler trechos duas vezes, procurar palavras no dicionário. Mas, quando terminei, vi que tinha pensado muito sobre a condição humana e aprendido muita coisa.
 
Então é isso. Se você acha que um livro bom é a história pela história, realmente Machado não é o autor para você. Porque o mais importante não é se a Capitu traiu ou não – isso é o de menos, tanto que ele nem conta se ela traiu. O que importa é a confusão na cabeça do marido e o que isso diz sobre a confiança – até que ponto confiamos nas pessoas que amamos? Da mesma forma, na vida do Brás Cubas, não acontece nada de importante. O que importa são as reflexões que o livro oferece. Machado escreve pra quem quer pensar, não pra quem quer somente se entreter.
 
É isso.
Abraço.