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Pra liquidar de vez a pseudopolêmica…

Maio 15, 2008

…Colo aqui e-mail enviado para a menina do blog do outro post. Não deixa de ser alimento para a urubuzada que tem visitado esta página. Enjoy.

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Ó, seguinte: essa história tá virando uma tempestade em copo d’água e vou tentar solucionar o mal entendido, ok? O e-mail vai ser um tanto longo porque eu sou prolixa pra cacete. Se não quiser ler, não leia e fique cada um com sua opinião. Enfim.
 
Reli tanto o meu comentário no seu blog quanto o texto que publiquei no meu e, em ambos, está claro que não estou falando só de você. Afinal, eu não te conheço – o que é óbvio. Eu usei o que você escreveu de MOTE para falar da atitude que muitas pessoas têm. Isso está muito claro. Eu não escrevi “você” nem se esforça, não escrevi “você” lê Machado esperando Surfistinha. Escrevi “tem gente que”. E você, talvez por erro de interpretação ou por se identificar de alguma forma com isso, assumiu toda a crítica para você - ou, como dizem por aí, “vestiu a carapuça”.
 
Você há de concordar que o seu texto dá a entender que, como “todo mundo” diz que Dom Casmurro é importante e todo mundo comenta, você decidiu ler o livro. Mas, como a narrativa era devagar e, em alguns trechos, você não entendia e tinha que ler duas vezes, classificou que o Machado era “chato”, pura e simplesmente. Até aí, ok, todo mundo tem o direito de ter sua opinião sobre qualquer livro. Mas, de novo, você há de concordar que encerra seu texto dizendo: “de agora em diante, vou falar que o Machado é chato e foda-se!”. Primeiro, não sei se você leu outras coisas dele. Acho, no mínimo, equivocado rotular o autor de “chato”por uma obra só. Da mesma forma, como você pode dizer “não gosto de literatura brasileira, confesso que não leio muito mesmo”? A gente só pode falar com tanta convicção do que conhece bem. É que nem dizer que não gosta de jiló sem nunca ter comido jiló.
 
Quando digo que algumas pessoas (não somente você) culpam os outros, eu me refiro à parte em que você diz que as pessoas dizem que gostam de Machado (ou de outros autores, enfim) só para pagarem de intelectuais e excluírem os outros (porque, sim, você deu a entender isso e muita gente além de você diz o mesmo). Tanto que, quando foi se defender, uma das primeiras coisas que você veio dizer foi isso: que, pelo simples fato de eu gostar e estar defendendo o Machado, eu era uma “pseudo-intelectual”. Não sou nem quero parecer nada, sou simplesmente uma pessoa que gosta de literatura brasileira e acha que as pessoas deveriam dar valor a ela, só isso.
 
O texto que eu escrevi usando o seu texto como MOTE dialoga com outro, que escrevi usando o blog “te dou um dado” como mote (se tiver interesse, http://marjorierodrigues.wordpress.com/2008/04/23/114/). No texto deles, eles falam o mesmo que você acaba de falar no seu email:
Se nem na época do vestibular onde existia essa obrigação eu a cumpri, quisá agora que sou uma balzaquiana muito bem resolvida com o meu grau de cultura “medíocre”.
 E é isso que eu chamo de “culpar os outros”. Ninguém te obrigou a nada. Ninguém te obriga a ler Machado. Ninguém põe a arma na sua cabeça. O que eu critiquei é essa mania, que não é só sua, de culpar os outros pela “obrigação” de ler os clássicos. Não é obrigação coisa nenhuma. Afinal, você mesma chegou aos trinta com um grau de cultura “medíocre” (quem diz isso é você mesma! e olha que medíocre é sempre um grau de comparação – se você o considera medíocre, é porque acha que deveria saber mais, não? Senão diria que seu grau de cultura é suficiente…) e tá pagando as suas contas. Como eu disse, é possível viver sabendo muito pouco, então, ler não é obrigação. Mas, quanto mais você lê, mais você reflete sobre si mesma e sobre o mundo. Para mim, isso é importante. Eu não quero passar pela vida somente vegetando, quero ser um ser humano PENSANTE. Não apenas alguém que sobrevive e paga contas. Para outras pessoas, basta satisfazer as necessidades básicas e tá muito bom. E, para isso, não é preciso muita cultura mesmo. Bom… Cada um, cada um.
 
Sendo assim, eu disse: na hora de pegar um livro clássico, a pessoa tem que estar disposta a enfrentar a chatice. Afinal, sendo o livro antigo, é óbvio que ele vai ter um ritmo mais devagar e vai ter palavras diferentes. Antes mesmo de abrir um livro do Machado, você SABE que ele vai ser assim, sabe que vai ter que ler algumas coisas duas vezes. Então, tive o “tremilique” porque vc reclamou do óbvio, reclamou do que já sabia que ia encontrar antes mesmo de abrir o livro. É impossível ler qualquer livro antigo sem estar disposto a enfrentar a chatice. É preciso sempre um pouco de esforço – esforço que, pelo seu texto, pareceu que você não queria fazer. Então, se é você quem não quer fazer, mantenha sua opinião (infundada, já que incompleta) pra vc mesma. Foi isso o que eu quis dizer.
 
Por fim, acho que vc devia refletir: o que é um bom livro pra você? Por exemplo: ano passado, eu li “Os filhos de Anansi”, do Neil Gaiman. Puta tijolão, mas devorei o livro, li rapidinho. Por quê? Porque a história era fácil, rápida, cheia de reviravoltas. Foi gostoso ler. Mas o que esse livro passou pra mim? O que eu aprendi com ele? Sobre o quê eu refleti? Se parar pra pensar, NADA. Foi só uma historinha que me entreteve. O “Memórias Póstumas”, ao contrário, foi mais complicado. Demorei pra ler, tive que ler trechos duas vezes, procurar palavras no dicionário. Mas, quando terminei, vi que tinha pensado muito sobre a condição humana e aprendido muita coisa.
 
Então é isso. Se você acha que um livro bom é a história pela história, realmente Machado não é o autor para você. Porque o mais importante não é se a Capitu traiu ou não – isso é o de menos, tanto que ele nem conta se ela traiu. O que importa é a confusão na cabeça do marido e o que isso diz sobre a confiança – até que ponto confiamos nas pessoas que amamos? Da mesma forma, na vida do Brás Cubas, não acontece nada de importante. O que importa são as reflexões que o livro oferece. Machado escreve pra quem quer pensar, não pra quem quer somente se entreter.
 
É isso.
Abraço.

7 comentários

  1. falar mal sem conhecer é mesmo complicado (por essas e outras que eu li dois do paulo coelho). mas o mais foda é não reconhecer a importância do machado (que não é dos meus preferidos, anyway) só por achá-lo chato. demonstrar preferências e ter birrinha são coisas bem diferentes…


  2. Concordo com você em quase tudo, Marjorie.

    Por coincidência, agora estou lendo um livro do Neil Gaiman – Deuses Americanos – e, sabe, não estou achando tão fácil de ler, justamente porque estou acostumada a ler os clássicos. Não estou acostumada com essa narrativa fácil (não fácil, mas talvez pobre). Inclusive, tive que despir meus olhos de todo pré-conceito para começar a ler esse livro. Gosto mais dos clássicos. Não por querer ser “intelectual”, aliás, não pretendo nada com minhas leituras a não ser me sentir bem aqui no meu cantinho, viajando nas hi(e)stórias e acho que acontece o mesmo com você. Como você disse, e concordo plenamente, bom mesmo é aquele livro que deixa algo em você. Algo que te faça crescer como pessoa e te mostre, talvez, até novos pontos de vista sobre vários aspectos da vida – o que acontece muitas e muitas vezes com Machado e vários outros autores brasileiros, como, por exemplo, Lygia Fagundes Telles, que fiquei feliz de ver um elogio seu a ela aqui no blog outro dia.
    Acredito que foi desnecessário esse texto expondo o e-mail enviado para a garota. Digo mais, se me permite, acho até mesmo que foi desnecessário você ter entrado em contato com ela para expor o SEU ponto de vista que, importante dizer, achei bem mais interessante. E o seu blog, que é tão lindo, merece mais. Gosto muito das suas dicas de leitura, de música, sites… E seus textos. Olha, seus textos são lindíssimos.
    Abraço.
    Paz e Harmonia.


  3. Marjorie,

    Eu fiz um dos comentários no blog em questão. Aqueles que você, com desdém, recomendou a seus leitores como se fossem um monte de bobagem. Não considero bobagem o que escrevi lá, mas a questão nem é essa.

    Meus próprios blogs nunca duraram muito, por diversas razões: preguiça, excesso de trabalho, excesso de estudo e gente chata fazendo crítica destrutiva. Uma coisa é expor um ponto de vista; outra bem diferente é sair disparando cobras e lagartos em direção a um desconhecido, tratando uma pessoa com quem nunca se falou como se fosse uma anta. O que não é o caso, nem meu e nem dela.

    Ao vir aqui, depois do bafafá, tive a grata surpresa de perceber que, também, não é seu caso. Seu blog é bom, gostoso de ler, você escreve muito bem e sobre assuntos interessantes. Me alegrou e chateou ao mesmo tempo, porque lendo seus textos, percebi que o que poderia ser uma crítica construtiva da sua parte virou um blá blá blá pedante.

    Meu approach em direção à dona daquele blog, quando ela escreveu sobre o Machado, foi diferente. Recomendei tentar com mais afinco – iria achar lindo se mais pessoas falassem comigo sobre um dos meus escritores favoritos. E vi gente fazendo o mesmo, sugerindo a contextualização da obra, sugerindo tentar ler outra coisa dele… Mas se ela nao gosta e não quer, azar ou sorte dela.

    Enfim, não é o teor do comentário que incomoda. É o tom que vc usou. Não acho que seja assim que nós, que curtimos literatura, iremos conseguir que pessoas nao tenham preguiça de ter contato com esses clássicos.

    Concordo com o comentário anterior: seu blog é muito bom, sendo desnecessário que você perca tempo com este tipo de ação. E o fato da garota não gostar de Machado não faz com que o blog dela não seja bom também. Não faz dela uma ameba. Não faz de NINGUÉM uma ameba.

    Só minha opinião de prolixa. Espero não ter incomodado. Continue mandando bem por aqui.


  4. Ah francamente! Você deveria deixar as pessoas em paz. A menina tentou ler, se ela não conseguiu e diz que não gosta problema dela. Duvido que você tenha ouvido inúmeros cds de música que considera sub-cultura só pra poder dizer que não gosta, você pode até dizer algo do tipo “não precisa, já sei que tal tipo de música é tudo igual mesmo”. Mas é claro que não precisa ser especialista no que não gosta só pra poder dizer que não gosta. E também se você faz isso, deixe quem não faz em paz. Se não isso aqui vai acabar virando um anti qualquer coisa de novo. E antes que você diga que isso está mal escrito e patati patata, não importa. Pode ter certeza que meu lattes é bem melhor que o seu, e isso sim importa. Bom pelo menos mais do que achar que tem um blog que presta. Não que seu blog seja ruim mas também não é top não viu.


  5. Meninas, concordo com praticamente tudo o que vocês disseram. Talvez seja mesmo desnecessário publicar o email, mas, como ele explica que a intenção do texto não era atacar a menina, a meu ver, ele encerra a questão. Por isso publiquei.

    Obrigada a quem elogiou :)

    Juliana, eu nunca disse que meu blog era top qualquer coisa. Ele é só um blog, onde eu brinco de escrever ficção e publico relatos e opiniões. Não tenho nenhuma pretensão além disso.

    Abraço a todas.


  6. Olá, moça! Eu vou ser sincero, ia simplesmente deixar algum comentário metido a engraçadinho e tirando um sarro. Até que li seu texto (aliás, muitos deles – muito bem escritos e interessantes, por sinal – mas principalmente os textos em questão) e os comentários desse aqui e fiquei, de certa forma, preocupado.

    Antes de falar sobre o que me preocupou, no entanto, vou comentar sobre o “Assunto Machado”: não sei onde todo mundo está vendo polêmica. Eu realmente não acho que você tenha atacado a Bê – e por outro lado, não acho que ela tenha ficado ofendida de verdade, mesmo tendo respondido ao seu comentário/post pagando de ofendida. Acho que você, simplesmente, não SACOU do que se trata… até brinquei em um dos meus comentários que ninguém estava percebendo que “the joke is on you” só porque você levou a sério algo que não é sério nem foi feito para sê-lo. Mesmo o post dela sobre o seu comentário não tinha a intenção de ser sério. Ela só aproveitou o comentário para tirar mais sarro e gerar outro post ranzinza, pagando de ofendida, e o humor ácido e extremamente sarcástico dela nem sempre é fácil de entender. Eu sei porque a conheço um pouco e já percebi que sou MTO parecido com ela no estilo de humor. Sei que essa pretensa maldade é pura diversão (aliás, te matei em um post meu, viu?). Algo como os quadrinhos dos “Malvados”, do Dahmer. O que é engraçado (para mentes deturpadas como as nossas) em zoar um comentário como o seu é que ele FOI sério. FOI uma lição de moral. Mas foi tudo isso sobre uma PIADA! É como ouvir uma das piadas sobre o famoso “Joãozinho” e, no final, fazer uma profunda análise do comportamento dele em um paralelo com a “ausência de valores familiares na sociedade atual”. Saca?

    O negócio é que há blogs onde gostamos de escrever ou ler pensamentos profundos e há blogs para escrever ou ler abobrinha. E há momentos em que queremos (e devemos) ler e refletir. E há momentos em que queremos (e devemos) simplesmente não ser tão sérios – mesmo o filósofo mais deprê da história, nosso amiguinho Nietzsche, disse: “Que consideremos FALSA toda verdade que não for acompanhada por pelo menos uma risada.” Do mesmo modo há livros que nos fazem analisar aspectos humanos e problemas sociais, etc., e há livros que incentivam a imaginação. Notei que você e a Caroline usaram o exemplo de Gaiman como “leitura fácil” ou “pobre”. Você diz que o livro não passou nada para você – talvez seja nisso que você falha e perde a oportunidade de aprender ainda mais, Marjorie. E a Caroline parece compartilhar sua dificuldade. Se eu puder dar uma sugestão, como alguém que tem certa experiência com transdisciplinaridade e interconexões de raciocínio complexo, um ponto de vista NUNCA é mais importante que outro. Pode conter mais informações e assim ser mais… rico, digamos. E pode ser mais convincente. Mas não mais importante. Todo ponto de vista é absolutamente vital, pois é apenas da divergência de idéias/opiniões e do questionamento de nossas crenças que podemos gerar NOVAS idéias, opiniões, conceitos e crenças.

    Assim, desnecessário dizer que não são apenas as coisas que nos fazem refletir e analisar as condições sociais, humanas e psicológicas – assim como as que nos fazem ir ao dicionário várias vezes (até porque se assim fosse, o melhor livro do UNIVERSO seria o código civil) – que têm valor. De nada adianta refletir sobre problemas e não conseguir pensar em alternativas para solucioná-los, por exemplo. E é aí que entra a criatividade e a imaginação (assim como as disciplinas que mencionei acima): na hora de pensar em alternativas. Não desprezem essas “historinhas” e as dispensem de maneira tão leviana e displicente, Marjorie e Caroline. É MUITO mais difícil entreter e prender o leitor, envolvê-lo em sua imaginação, do que apresentar problemas sociais e fazê-lo refletir. Vemos isso no cinema, no teatro e também na literatura – Jodie Foster já declarou em entrevista (assim como outros atores e atrizes de respeito em diversas ocasiões, mas é que assisti “Plano de Vôo” recentemente e fiquei com ela na cabeça) que é muito mais difícil fazer comédia do que drama. Einstein resumiu esse mesmo ponto de maneira excepcional: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado, mas a imaginação envolve o mundo.” Portanto essas obras têm imenso valor. Tanto quanto qualquer “clássico”. Júlio Verne, em sua época, também foi classificado assim. No entanto seus livros previram grande parte das tecnologias modernas, do submarino às naves espaciais! Hoje suas obras são consideradas “clássicos”. E o que dizer sobre Monteiro Lobato? Um clássico da literatura nacional, sem dúvida nenhuma – mas era considerado “leitura simplória e infantil”.

    E é exatamente isso que me preocupou: vocês duas são obviamente altamente inteligentes. E noto que se intensifica a tendência da elite intelectual (brasileira ou não) desprezar e achar desimportante o que não consideram “à sua altura” ou “em seu nível de inteligência”. Exemplifico: recentemente o conselho de educação inglês incluiu Harry Potter na lista de leitura obrigatória (heh, pequeno cutucão para te provocar!) para o “vestibular” deles. Consideraram-no um exemplo válido de literatura contemporânea, mas imediatamente a elite intelectual se manifestou contra! Afinal, qualidade é Shakespeare; J.K. Rollins é, no máximo, entretenimento, e o conselho de educação estava “obviamente apenas incluindo Harry Potter na lista porque é fácil de ler e as crianças gostam, e assim estão emburricando o povo”! (sério, não é frase minha não, foi essa a declaração oficial) Por que limitar as crianças a lerem apenas o que seus pais leram? Apenas o que é sério e realista? EU digo: quanto mais livros lerem e mais diversificados esses forem, melhor, oras bolas! Se pessoas inteligentes como vocês continuarem, mesmo que inconscientemente, limitando as idéias de qualidade ao que é “comprovado” e “clássico”, a sociedade ficará estanque, congelada no tempo culturalmente. Vocês são exatamente as pessoas que mais deveriam ler de tudo e divulgar esse conhecimento e a importância da diversidade. Acho ótimo que vocês leram coisas diversas (eu mesmo li tanto American Gods quanto Anansi Boys), mas uma pena que o fizeram considerando entretenimento e não conhecimento, perdendo a oportunidade de fazer importantes conexões cognitivas que poderiam levar a aplicações reais. Se alguns engenheiros não tivessem lido Julio Verne ao invés de Arthur Schopenhauer, quantas tecnologias que utilizamos hoje em dia – indispensáveis para solucionar tantos problemas sociais – não teria deixado de existir? Interessante pensar nisso, não acha?

    O efeito boladeneve é fogo, porque imagino que muitos que lêem as coisas lá tomaram as dores fictícias dela. Talvez por isso o “urubuzando” do início do post? Não dá bola não. Eles só não entenderam a piada. ;)

    PS: e você se considerava prolixa… pois é! Encontrou um desafiante à altura!!


  7. Rodrogro, realmente encontrei um desafiante à altura haha!

    Demorei a responder porque as coisas estão beeem corridas aqui. Mas mancada deixar de responder um comentário tão grande, então lá vai:

    Sobre o Neil Gaiman:
    Parece mesmo que eu tirei todo o mérito do cara ter escrito uma história interessante. É mesmo muito difícil prender o outro não só em literatura, mas em qualquer tipo de arte. Aliás, acho que esse é o primeiro objetivo de toda obra de arte: manter o interesse. Afinal, se não conseguir isso, o cara não consegue mais nada. Tanto Machado quanto Gaiman têm esta qualidade (só que o fato do Gaiman ser nosso contemporâneo faz com que seja mais fácil para ele nos prender do que um cara de outra época, com outro léxico e outra mentalidade). À parte isso, para mim, o Machado tem o plus de provocar reflexões maiores e mais bem elaboradas, mais redondas. Errei quando disse que o livro do Gaiman não acrescenta “nada”. Quis dizer que ele acrescentou “pouco”, se comparado com outros. A marca que o Gaiman deixou em mim depois da leitura foi só de raspão, sabe? Embora tenha me entretido e me feito pensar sobre uma ou outra coisa, não foram reflexões que me fizeram sentir como se tivesse crescido como ser humano. Haha, sim, do jeito que estou falando, estou parecendo o Walter Mercado, mas, enfim, você entendeu.

    É como o Don DeLillo, considerado foda na so called pós-modernidade, não sei se você já leu. Eu li um livro só, então não posso dizer muita coisa. Mas, assim como o Gaiman, a impressão que tive é que ele quer provocar reflexões, mas não consegue fazer isso profundamente. As coisas ficam meio misturadas, meio rasas. E, por isso, não deixam uma marca tão grande no leitor. Acho que é isso que faz de um autor um clássico ou não. Essa habilidade de fazer pensar PROFUNDAMENTE sobre algo. Afinal, prender o leitor, embora seja difícil, é o mínimo que se espera de um livro minimamente bom.

    Quanto a não considerar certas obras “à sua altura”, esse preconceito existe e é claro que eu tenho de vez em quando. Acho que todo mundo tem. O Rubem Fonseca (aliás, na época em que li isso, eu pus um link aqui) diz algo com que eu concordo: primeiramente, o importante é gostar de ler. Ele diz que começou lendo muita porcaria. E eu também. Já li muita bosta quando mais moça!! E não faz mal! Não importa como você comece – o que importa é que perceba a importância de ler e o que ler pode te trazer. Depois disso, Rubem diz (e eu continuo concordando) que a curiosidade e o gosto pelos clássicos vêm naturalmente. Naturalmente, você amadurece, aprende a discernir o que é porcaria e o que não é e, então, se sente encorajado a enfrentar a “chatice” dos clássicos. Logo, não importa se a criança começa com Harry Potter. Isso não é problema. O problema é chegar aos 20, 30, 40 querendo encontrar pêlo em ovo, ou seja: querendo encontrar a “facilidade” do Harry Potter em tudo quanto é livro. Isso demonstra, pra mim, falta de maturidade. Eu acho que os clássicos não são “chatos”. Eles só exigem de você um certo tanto de maturidade para ler. Justamente pela profundidade da reflexão que alguns deles oferecem. Se você não está entendendo nem a pau, deixe de lado e leia daqui a alguns anos. É provável que você não tenha vivido o suficiente para entender aquilo. Não chame de “chato”. Chamar de “chato” demonstra justamente essa “criancice”. Sabe? Querer diminuir a brincadeira só porque você está perdendo? Então.

    Quanto ao texto da sua amiga ser uma piada sarcástica. Ok, se assim foi, assumo que sou uma tapada que não entendeu e levou a sério. Hahaha. Mas, acho que, mesmo sendo uma piada… Não teve muita graça!

    Aliás, sobre o sarcasmo, eu acho que ele é tão ou mais difícil de fazer do que o humor “puro”, digamos assim. É preciso ter uma puta habilidade. E aí a gente vê todo mundo colocando no orkut “humor: sarcástico” (é que nem religião: todo mundo se diz agnóstico, uahaha).

    Será que todo mundo ali tem essa habilidade? Acho que não. Mas é que dizer “meu humor é sarcástico” é fácil e cômodo – afinal, você joga sobre o outro a responsabilidade de tornar aquilo engraçado. Se não é engraçado, é porque você não entendeu a sutileza, a fina ironia de quem fez a piada. A culpa fica sendo toda de quem ouve. Então, sob a desculpa do sarcástico, muita gente faz piada ruim e boba por aí…

    Bom, acho que é só (ufa!).
    Abraço.



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