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Carta a B.

Maio 16, 2008

Pra você eu sempre dou colher de chá. Se o mundo não te valoriza, eu valorizo. Se o mundo pensa que você não se esforça, eu penso. Se o mundo acha que você não tem talento, eu acho. E não sei se estou certa. Talvez você não passe de um porranenhuma, mas é um porra nenhuma que manteve a bondade. Logo, raro. Muito raro.

Sei de pouca coisa - me faltam respostas simplesmente porque não sei que pergunta fazer. Mas de uma coisa eu sei: que as pessoas boas, boas de coração e de verdade, genuinamente boas, deveriam ter algum tipo de recompensa. Sempre digo que admiro o fato de você não ter perdido a inocência de criança - mas parece que, para o mundo, isso é um grande problema. Afinal, só o que importa é cortar cabeças durante a escalada. 

Pelo menos enquanto estou com você, penso que, com jeitinho, pode ser até que o mundo tenha solução. Experimento de novo a sensação (há muito perdida) de ter os olhos virgens.

Não importa quão mal você se sinta quando os outros sorriem-de-canto-de-boca, pretensamente irônicos mas tão sutis quanto uma bigorna caindo sobre sua cabeça. Nunca, por favor, nunca mude, porque se tem uma coisa certa nessa vida é que a gente não deve pedir desculpas por ser quem é. Principalmente você.

Quantas vezes não ouvi da minha mãe: ”vai, menina, fala alguma coisa, dá um sorriso”; ela dizendo isso sem perceber que já me sinto bem participativa só ouvindo e pensando. Ser quieto é uma forma de precaução, de se calçar. Quando segui o conselho e dei um sorriso amarelo, forçado e provavelmente feio, mas socialmente ajustado, me senti triste. Violada, talvez: aquela não era eu. Era outra pessoa me empurrando para debaixo do tapete.

Então, aceitemos: eu sou assim, com a minha quietude e com os meus ouvidos atentos, e você é assim, com a sua bondade insuperável, imbatível. O natural é sempre mais bonito, meu bem. Já reparou que o artificial, o industrializado, sempre quebra mais fácil? É que a mentira não resiste. Não foi feita para resistir.

Quando estou esperançosa, peço para esse deus que não existe (mas às vezes é legal acreditar nele) que, no meio do seu caminho, apareça alguém de olhos virgens, como os seus, e lhe dê uma chance. Uma chance de dar um tapa na cara da vida e dizer: este sou eu.

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