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Domingo

Maio 26, 2008

Sempre acordo antes, só para vê-lo dormir. É como se a mesa virasse e eu assumisse o controle.

Prometendo a mim mesma ser o mais objetiva possível, passo os olhos por seu corpo, em busca de alguma parte de que eu não goste. Não encontro. Ao contrário: vejo a mais absurda beleza até nas partes mais banais, como o seu nariz ou as suas mãos. Os pés. As sardas nos ombros. Os mamilos. As unhas. O pescoço grosso e másculo, como quem não aceita ser trucidado pelas injustiças da vida. Enfim, não há nada (nada!) de que não goste. É como se alguém tivesse acesso aos meus sonhos mais íntimos e montasse uma fôrma com a minha idéia de homem perfeito. E você foi feito nela.

Então, te abraço forte-forte, com os braços e com as pernas, enterro o rosto em seu peito e penso: “puta merda, você não pode ir embora!”. Tem de ficar aqui, assim, sereno, dormindo. Para sempre.

Mas não vai ficar. Aí percebo seu único defeito. O pior que poderia existir. Seria melhor que você tivesse orelhas de abano, dedos tortos, queimaduras - qualquer coisa, menos isto! E largo você de súbito, afastando-me para o canto da cama, quase caindo. À medida em que meu coração desacelera, quilômetros se abrem entre nós.

E aí você acorda e sorri, dizendo: “o que você está fazendo aí, tão longe?”.

Respondo: “Não sou eu quem está longe, é você”.

Mas ele nunca entende. 

Um comentário

  1. texto bonito.



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