Posts de Junho, 2008

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Nevoeiro

Junho 29, 2008

O nevoeiro cobriu a cidade de branco, como se aquela fosse a última vez em que fechavam os olhos. Fechavam: ela e a cidade. Dizem que antes de morrer fica tudo branco: é quando deixamos de ser as panelas de pressão que são todos os seres humanos e, enfim, percebemos o que nunca se consegue em vida: que nada importa, que tudo desfalece em branco. Erro nosso achar que branco é sempre o começo, é sempre papel pedido para ser preenchido, obra de arte ainda por nascer, a fúria de produzir algum legado, qual que seja. Nada disso. Branco é onde tudo morre, quietinho. Basta respirar e esperar porque a morte vem. Ora, para quê perambular tanto, se a morte sempre vem?

Pensava nessas coisas todas, miúdas-miúdas, quando sentiu a presença de alguém. Não fez barulho, mas tinha aura de gente, a gente sempre percebe quando tem mais alguém. O que a emaranhava era que não sabia a que distância. Não, não era medo. Se fosse ladrão, se levasse o pouco que tinha, o melhor estava nas memórias. Tá ouvindo, seu ladrão? Leva as minhas coisas, mas não leva a mim. Nem se me matar porque o momento imediatamente anterior à faca nas minhas entranhas terei pra sempre: o branco do nevoeiro. É o mesmo branco que circunda o barco que leva… Pra onde? Não sei. Pouco importa. Nada importa. Acho que talvez não exista lugar nenhum aonde ir. Mesquinho achar que o além é lugar para penitências. Justo seria se fosse apenas uma realidade diferente, totalmente desconectada da que há aqui. Imagina? Dar de cara com sua mãe no além e não saber quem é. Dar de cara com todas as pessoas já lhe fizeram mal  e ficar tudo bem. Não é bonito? 

Ela achava que o queria: o nevoeiro eterno. Havia meses só se lamentava, querendo o leve. Rotinatrânsitocronogramacracháhoramarcada. E cada hora de sono contada: a vida com cartão de ponto. Então, percebeu: como tinha de comer e morar, talvez não se sentiria leve nunca. Ei, seu estranho, ladrão sem rosto, enfia logo essa faca no meu bucho que tá demorando muito. Não se preocupe, não terei rancor, afinal seu rosto apenas goteja em branco. Goteja e gotejará, para todo o sempre-branco. Vai, senhor ladrão, desconhecido que já aprendi a querer bem, me leve lá aonde o barco sibila, onda cá onda lá. Para onde eu posso pensar.

E ele levou.

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Junho 26, 2008

A matéria do Guimarães e do Machado saiu também no Correio do Brasil.

Valeu, Dani. ♥

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Junho 26, 2008
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XL

Junho 24, 2008

Depois de passar o dia inteiro ouvindo falar de Gisele Bündchen e da macacagem que se faz em torno da pobrezinha toda vez que ela vem ao Brasil, registro uma breve opinião sobre o assunto.

Acho Gisele belíssima. Muito bonita mesmo. Desde que…

a)Tenha um fotógrafo orientando suas poses. Caso contrário, ela sucumbe a uma série de tiques nervosos (piscar o olho, fazer V da vitória, levantar o pézinho, fazer careta; não necessariamente nesta ordem) que fazem a top model parecer miss festa do morango.

b)Ela esteja calada. A moça tem muitos atributos, mas fluência verbal infelizmente não é um deles. Quem já assitiu a alguma entrevista deve ter reparado que ela não articula as frases direito: é a rainha do anacoluto. De mais a mais, não me lembro de alguma declaração digna de nota vinda da modelo. Bom, isso talvez não seja culpa dela - e sim dos jornalistas que fazem perguntas cretinas.

Se eu fosse a moça, já teria me aposentado ao arrecadar metade da grana que ela tem hoje e ficaria o dia inteiro comendo brownie. Ou pelo menos jamais pisaria no Brasil novamente. Eita Zé povinho que adora babar ovo em produto de exportação.

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Mantra

Junho 23, 2008

“Cara, não tenho o menor saco para isso” tem sido meu mantra, essencial para a sobrevivência na ciranda social (que às vezes dá tanta preguiça – e até um certo desgosto).

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Junho 23, 2008

Entrevista muito boa com a Yoani Sánchez, autora do blog sobre o duro cotidiano cubano.

A mulher é foda. Vale a pena ler o blog dela, mesmo que seu espanhol seja tão capenga quanto o meu.

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Junho 23, 2008
Acordei com os dedos entre as tramas da rede — um peixe. E o meu corpo todo tinha cheiro de mar, o cheiro salgado de mar e de lágrimas: é o mesmo, é o mesmo, nunca reparou? Não quis debater-me.
 
Ainda não nos conhecíamos (embora eu sinta como se o conhecesse a vida inteira, tanto que tenho vontade de perguntar se você se lembra) quando, criança, eu observava a marola bater nos meus pés pequenos. O resto de onda já recuando e os corruptos correndinhos areia abaixo – para onde, para onde? Eles tinham medo do sol. Eu ainda não sabia se. Sair dali não pode, dizia o pai, que observava de longe porque eu me irritava de estar sempre acompanhada. Supervisionada sempre, sim, era o jeito, mas pelo menos sozinha. Mas aí: a água nos pés.
 
Eu era pequena demais para o mar, que me engoliria. Soube o mar e o mundo: me engoliriam. O tronco, a cabeça, a alma, tudo deglutido logo. Sempre. Mas, criança, a única esperança que tinha era a de que o dançar das ondas deixasse a minha imobilidade um tanto mais leve. Pensei que, talvez, se eu bem o olhasse, sentiria-me navegando somente com os olhos. Até que a onda fez bater uma concha nos meus pés e eu aprendi, criança, que o oceano inteiro cabia dentro dela.
 
Não, você não se lembra. Custa-me, mas sempre me recordo de que somos sim divisíveis, divididos, corpos-concha. Somos dois.
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Heroísmo ou investimento?

Junho 20, 2008

Por isso que eu digo que não existe altruísmo. E que heróis são poucos. Acho que, infelizmente, o ser humano é individualista-fura-zóio por essência e que toda ação tem, sim, um fundo de vaidade. Tem gente que brinca de fazer revolução mais para se considerar herói, bondoso, justo, do que pela causa que defende em si.

Vejo bastante isso na universidade, no discurso de algumas pessoas. Quer fazer greve (o que é legítimo), mas só se tiver reposição de aulas (geralmente, dois dias por dois meses de paralisação, total picaretagem), para dizer para o papai que não perdeu o semestre. Quer fazer greve, mas acha absurdo não receber salário pelo tempo em que ficou parado. Ou seja: querem ser heróis, mas sem nenhum tipo de sacrifício.

Enfim, acho que falta coragem para fazer as coisas de peito aberto. Acho que a ideologia só tem beleza se houver coragem para defendê-la  a todo custo – os prejuízos têm de parecer menores diante da possibilidade de atingir o objetivo. Mas não é isso o que acontece na realidade.

E um grande exemplo disso são os figurões que receberam indenizações milionárias do Estado por terem sido perseguidos na ditadura. Ora, se você decide ir contra o sistema vigente, SABE que vai ser perseguido, não?  Mas, para quem é herói de verdade, isso é de menos. Herói é quem enfrenta isso, quem se sacrifica pelo ideal, quem dá a cara a tapa. Não quem choraminga depois.  Enfim, acho que protestar não é brincadeira: se você vai entrar, não venha com essa de ser café-com-leite.

Acho engraçado que a maioria destes figurões tenha defendido o “povo”, mas hoje exigem que o povo lhes pague por isso. Sim, eles estão processando o Estado porque o Estado os prejudicou, mas o dinheiro, todos sabemos, é público. Vem de todo mundo. Então, na prática, nós estamos pagando por alguém que decidiu, por livre e espontânea vontade, nos defender. A gente não contratou esses caras para combater a ditadura pra gente, mas ainda assim tem de pagar salário pra eles. Incrível.

Aí eu pergunto: o que faz um cara como Cony ou o Ziraldo pedir indenizações milionárias? Ganância, claro. Eles podem ter passado dificuldades, perderam o emprego, mas tinham uma vida confortável. Aposto que nenhum deles passou fome - diferentemente de muita gente que também protestou, mas não fazia parte da elite.

Mas é como o próprio Ziraldo disse na revista (sim, as aspas são um recorte e provavelmente um recorte malicioso, como quase sempre é em qualquer reportagem, mas são aspas muito explicativas): “Se receber indenização prejudica minha imagem? Prejudica nada!”. Pois é, Ziraldo, é exatamente esta a questão. Vocês JÁ ficaram ricos e célebres justamente pelo que produziram em combate à ditadura. Ou seja: já foram pagos. Precisam de mais? Se o que fizeram fosse ideológico, o próprio fato da ditadura ter acabado já seria pagamento suficiente. Mas, já disse… Ser humano é um bicho fura-zóio ganancioso da porra. 

E o Estado reafirma sua posição anti-Robin Hood: a viúva do Herzog recebe míseros 100 mil enquanto o Cony, que tá vivão e “só” perdeu o emprego e passou “míseros” 30 dias na cadeia ganha $ 1,4 milhão, além de uma pensão mensal de 19 mil. Quem sofreu mais? O vivo ou a viúva? 

Durante boa parte da minha vida, morei perto de um cemitério chamado Dom Bosco (dê um google), onde foram encontradas várias valas comuns cheias de ossadas de gente desaparecida durante a ditadura. Duvido que as famílias delas recebam 19 paus todo mês.

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Rosa e Machadón

Junho 18, 2008

 

Guimarães Rosa te despreza.

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(Escrevi essa matéria para o Jornal do Campus, o laboratório from hell deste semestre. Vou ver se publico em mais outro lugar).

Dois gênios sem herdeiros

Um deles é cético, cruel, de narrativa certeira. O outro, um malabarista da linguagem, criador de neologismos como “amormeuzinho” e “circuntristeza”. As histórias do primeiro se passam na cidade. As do outro, no sertão mineiro. Um é avesso ao misticismo, o outro é pura mágica. Mas, mesmo diferentes, Machado de Assis e Guimarães Rosa investigam a alma humana como pouquíssimos outros. Ambos mostram que, tanto no ralo cotidiano da classe média-alta do século XIX quanto no lento andar de um carro de bois, latejam questões universais. E mal nascia um, já morria o outro. Apenas três meses separam o nascimento de Rosa da morte de Machado, há 100 anos.

E eles não deixaram herdeiros. É o que pensa João A. Hansen, professor do departamento de Letras e estudioso do diabo em Grande Sertão: Veredas. “Machado e Rosa são buracos negros que chupam para dentro deles tudo o que está à sua volta. Suas obras são singulares, impossíveis de imitar sem que o ridículo seja imediato”, diz. “Como Dante e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degradada, a nossa, e reescreve a língua portuguesa”. Quanto a Machado, Hansen acha que lê-lo nos deixa “mais livres, porque ele não tem esperança nem medo”. A variedade que Rosa apresenta na forma, Machado apresenta no estilo. “Ele não é só realista. É tragicômico, paródico, humorado, terrível”. Mas não caia na besteira de tentar eleger o melhor. “É como eu disse a um repórter da Folha que me perguntou qual dos dois era o maior”, diz Hansen. “A literatura não é um concurso de Miss Geléia Real”.

Se compará-los ou imitá-los é ser ridículo, Rinaldo de Fernandes, professor da UFPB, não vê problema em reescrevê-los. Ele convidou vários autores – entre eles, Fernando Bonassi e Silvano Santiago – a criar sua própria versão para contos de Sagarana ou partes do Grande Sertão. A coletânea, chamada Quartas Histórias (Garamond), foi publicada em 2006. “Sempre reúno escritores consagrados, emergentes e jovens promessas. E não dou exclusividade ao eixo Rio-São Paulo”, conta. O resultado o surpreendeu. “Há escritor que pôs Rosa no morro carioca”. Para comemorar o centenário, Rinaldo preparou também uma coletânea sobre Machado. Em julho, ele lança “Capitu mandou flores” (Geração Editorial), com ensaios e recriações. Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Marcelo Coelho são alguns dos nomes presentes no livro.

Diferentemente de Rinaldo, para quem “a literatura atual não está em entressafra coisa nenhuma”, Georg Ottes, professor da UFMG que estuda o diário de Guimarães Rosa à época da 2ª Guerra Mundial (quando ele era cônsul-adjunto em Hamburgo), acha que falta “amor pela diferença”. “O estranho atrai Rosa. O amor pela diferença permeia sua obra literária e o diário. Hoje, a diferença é exibida – na literatura gay, por exemplo – com precisão anatômica. Parece que a literatura se tornou playground da transgressão. Mas a transgressão em si, como a diferença em si, não vale nada se não despertar um interesse que vá além do voyerismo”, diz. Para Otte, ninguém abordou melhor a homossexualidade do que Rosa, com Riobaldo e Diadorim. “Diadorim pode ser um jagunço falso, mas as dúvidas de Riobaldo quanto à própria ‘macheza’ são verdadeiras”. Sua companheira na análise do diário, Eneida de Souza, também admira o amor de Rosa pela diferença. “Ele trazia em si o gosto pela aventura, pelo novo e o inusitado, computando tudo que passasse por suas mãos”. Eneida diz que, no diário, já está o “germe do escritor”.

Há, porém, quem reclame da complexidade das obras de Rosa e Machado, geralmente identificadas como “livros de vestibular”. João Hansen acha que o interesse pelos dois está restrito a “pequenos grupos, como os especialistas da universidade”, o que lamenta. “Eles não ensinam nada, mas o que escrevem é tão condensado de história que a leitura deles vale por muita universidade”, diz. O segredo é vencer o estranhamento inicial. “É sempre difícil, mas ao mesmo tempo prazeroso”, diz Eneida. Já Ottes, que é alemão, encarou o Grande Sertão assim que chegou ao Brasil, aos 28 anos. “É difícil para quem quer entender tudo na primeira leitura e não aceita não entender uma série de coisas. Somos todos estrangeiros ao ler o Grande Sertão“, afirma.

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Junho 18, 2008

Da arte de conseguir escrever muito sobre absolutamente nada.

Ó, quer sinceridade? Mó programa de índio.