A sensação era a de abrir uma porta atrás da outra, uma porta dentro da outra: a minha casa inteira era só portas. E não te encontrava nos relances que tinha dos cômodos antes de meter a mão na maçaneta seguinte – era como se tudo tivesse acabado de ser abandonado, o sinal de presença humana ainda pulsando, nos cantos, nos objetos mexidos. E à medida em que abria mais portas, a fila de portas, mais frios ficavam os fragmentos de ambientes que já não eram mais meus porque lar é com quem a gente mora, não onde.
Me lembrei do horror que tinha quando menina, a minha mãe com fervor escorrendo poros afora, inundando o mundo de religião. Interpretava a bíblia toda ao pé da letra e me fez ler o apocalipse: os condenados serão abandonados no mundo: é o arrebatamento. Um dia, filhinha, você pode acordar e não ter mais ninguém. Se acordava e não ouvia nenhum barulho, eu logo me desesperava e ia vasculhar os cômodos inteiros. E dizia: jesus, jesus, talvez eu não queira viver com você, mas quero viver com eles, essas pessoas são minhas, seja onde for, elas sempre serão minhas. Claro que não tardou para eu descobrir que não são. As pessoas são nossas em flashes, tais como estes, a cama vazia, o lençol branco e preto revirado, você saiu depressa. Tinha pressa de quê?
Vai ver você foi junto com as minhas reflexões, aquelas longas reflexões que tínhamos enquanto brincávamos de inventar nomes para a banda fictícia que formaríamos, na qual tocaríamos todos os instrumentos do mundo, inclusive os não inventados, para sermos os primeiros a traduzir perfeitamente o som que se ouve depois do amor, depois do orgasmo cheio. Sim, porque nos vazios há muitos, inúmeros sons. Há sempre o som do mundo lá fora, incitando à escapada, para nunca mais voltar. Mas, cheios, nós queríamos ficar ali. Entre o lençol branco e preto, ying e yang.
Mas, um dia, depois da cheia, olhei pela janela e alguém me chamou. Então começaram todas as demandas. Já nem ando mais de relógio porque estou sempre atrasada para alguma coisa, para alguém. De início, as reflexões me esperavam em casa, de plantão na porta, mas sempre chegava exausta demais para examiná-las. Até que não me esperaram mais – e pior: sequer tive tempo de notar a ausência. Errei quando deixei que você virasse somente mais uma demanda e, agora, olha aí: tento escapar para os lados, mas estou presa no corredor polonês de portas. Tenho de abri-las, abri-las, abri-las, mesmo que nenhuma delas dê em alguma coisa que não seja somente outra porta.






