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Golpe

Junho 6, 2008
Meu amor, me perdoe, mas hoje estou ventando. Muito, muito rápido o vento vai passando por mim, me invadindo, entrando por um buraco e saindo por outro. O vento é tão rápido e gelado que é quase vertigem, é quase medo, é quase o calafrio que a gente sente logo antes de ser empurrado para o tobogã, para dentro do trem, para a vida. Um tapa na testa, sonoro. E eu não sei, não sei, simplesmente não sei o que dizer porque abro a boca e a baforada fria me escapa sem que eu sopre, como naqueles dias muito frios, de nevoeiro tão pesado que por um momento você acredita poder apanhá-lo se esticar a mão. Os meus pensamentos estão todos embaralhados, me desculpe. ‘Me desculpe’ é só o que eu sei dizer. É como uma crise de soluços, o ar golpeando o peito, é como um desfibrilador, esse choque no fim das costas. É como sair de um banho quente e lançar-se na rua para a chuva fria, é como estar na corda bamba, mambembe. Só há duas opções – sugar o ar de súbito: viver; ou deixar escapar um leve e lento sopro: morrer. Veja bem, meu bem, eu quis chorar no meio da rua porque o vento me irritava os olhos. Nunca me senti assim tão oca, tão necessitada de um peso no estômago ou talvez fosse mesmo de um soco o que eu precisava. Daqueles socos que fazem subir sangue vermelho e fervente pelo esôfago, só para me sentir viva, um chafariz de vida: a minha boca. Mas sou um chafariz seco, gelado e feito de pedra, sozinho no meio da praça. Eu pareceria muito mais menininha, muito mais frágil, de vidro, de vidro velho e opaco, se você me visse chorar. Não posso. Não posso, é preciso disfarçar o vento, manter os músculos da cara estáticos para que ninguém perceba nada, nada - como pastel barato que ninguém prevê que o recheio seja apenas de vento, de vento. Só quando você morde. Amor, pelo amor de deus, alguém me morda? Arranque um pedaço bem tarugo, para que saia o vento e o sangue e eu murche, como uma bexiga assim meio velha, fim de aniversário, os convidados todos indo embora, só a bagunça e as sobras e os anos nas costas. Quero murchar, sim? Quero sentir a cara toda afundando, até que a minha frente e o meu verso se toquem, se colem, se beijem e eu de fato possa ser abandonada num canto, como uma coisa velha, sem serventia, e ninguém-ninguém-ninguém vai se dar conta. Nem eu.

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