Posts de Junho 18th, 2008

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Rosa e Machadón

Junho 18, 2008

 

Guimarães Rosa te despreza.

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(Escrevi essa matéria para o Jornal do Campus, o laboratório from hell deste semestre. Vou ver se publico em mais outro lugar).

Dois gênios sem herdeiros

Um deles é cético, cruel, de narrativa certeira. O outro, um malabarista da linguagem, criador de neologismos como “amormeuzinho” e “circuntristeza”. As histórias do primeiro se passam na cidade. As do outro, no sertão mineiro. Um é avesso ao misticismo, o outro é pura mágica. Mas, mesmo diferentes, Machado de Assis e Guimarães Rosa investigam a alma humana como pouquíssimos outros. Ambos mostram que, tanto no ralo cotidiano da classe média-alta do século XIX quanto no lento andar de um carro de bois, latejam questões universais. E mal nascia um, já morria o outro. Apenas três meses separam o nascimento de Rosa da morte de Machado, há 100 anos.

E eles não deixaram herdeiros. É o que pensa João A. Hansen, professor do departamento de Letras e estudioso do diabo em Grande Sertão: Veredas. “Machado e Rosa são buracos negros que chupam para dentro deles tudo o que está à sua volta. Suas obras são singulares, impossíveis de imitar sem que o ridículo seja imediato”, diz. “Como Dante e Joyce, Rosa se recusa a escrever numa língua degradada, a nossa, e reescreve a língua portuguesa”. Quanto a Machado, Hansen acha que lê-lo nos deixa “mais livres, porque ele não tem esperança nem medo”. A variedade que Rosa apresenta na forma, Machado apresenta no estilo. “Ele não é só realista. É tragicômico, paródico, humorado, terrível”. Mas não caia na besteira de tentar eleger o melhor. “É como eu disse a um repórter da Folha que me perguntou qual dos dois era o maior”, diz Hansen. “A literatura não é um concurso de Miss Geléia Real”.

Se compará-los ou imitá-los é ser ridículo, Rinaldo de Fernandes, professor da UFPB, não vê problema em reescrevê-los. Ele convidou vários autores – entre eles, Fernando Bonassi e Silvano Santiago – a criar sua própria versão para contos de Sagarana ou partes do Grande Sertão. A coletânea, chamada Quartas Histórias (Garamond), foi publicada em 2006. “Sempre reúno escritores consagrados, emergentes e jovens promessas. E não dou exclusividade ao eixo Rio-São Paulo”, conta. O resultado o surpreendeu. “Há escritor que pôs Rosa no morro carioca”. Para comemorar o centenário, Rinaldo preparou também uma coletânea sobre Machado. Em julho, ele lança “Capitu mandou flores” (Geração Editorial), com ensaios e recriações. Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Marcelo Coelho são alguns dos nomes presentes no livro.

Diferentemente de Rinaldo, para quem “a literatura atual não está em entressafra coisa nenhuma”, Georg Ottes, professor da UFMG que estuda o diário de Guimarães Rosa à época da 2ª Guerra Mundial (quando ele era cônsul-adjunto em Hamburgo), acha que falta “amor pela diferença”. “O estranho atrai Rosa. O amor pela diferença permeia sua obra literária e o diário. Hoje, a diferença é exibida – na literatura gay, por exemplo – com precisão anatômica. Parece que a literatura se tornou playground da transgressão. Mas a transgressão em si, como a diferença em si, não vale nada se não despertar um interesse que vá além do voyerismo”, diz. Para Otte, ninguém abordou melhor a homossexualidade do que Rosa, com Riobaldo e Diadorim. “Diadorim pode ser um jagunço falso, mas as dúvidas de Riobaldo quanto à própria ‘macheza’ são verdadeiras”. Sua companheira na análise do diário, Eneida de Souza, também admira o amor de Rosa pela diferença. “Ele trazia em si o gosto pela aventura, pelo novo e o inusitado, computando tudo que passasse por suas mãos”. Eneida diz que, no diário, já está o “germe do escritor”.

Há, porém, quem reclame da complexidade das obras de Rosa e Machado, geralmente identificadas como “livros de vestibular”. João Hansen acha que o interesse pelos dois está restrito a “pequenos grupos, como os especialistas da universidade”, o que lamenta. “Eles não ensinam nada, mas o que escrevem é tão condensado de história que a leitura deles vale por muita universidade”, diz. O segredo é vencer o estranhamento inicial. “É sempre difícil, mas ao mesmo tempo prazeroso”, diz Eneida. Já Ottes, que é alemão, encarou o Grande Sertão assim que chegou ao Brasil, aos 28 anos. “É difícil para quem quer entender tudo na primeira leitura e não aceita não entender uma série de coisas. Somos todos estrangeiros ao ler o Grande Sertão“, afirma.

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Junho 18, 2008

Da arte de conseguir escrever muito sobre absolutamente nada.

Ó, quer sinceridade? Mó programa de índio.