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Heroísmo ou investimento?

Junho 20, 2008

Por isso que eu digo que não existe altruísmo. E que heróis são poucos. Acho que, infelizmente, o ser humano é individualista-fura-zóio por essência e que toda ação tem, sim, um fundo de vaidade. Tem gente que brinca de fazer revolução mais para se considerar herói, bondoso, justo, do que pela causa que defende em si.

Vejo bastante isso na universidade, no discurso de algumas pessoas. Quer fazer greve (o que é legítimo), mas só se tiver reposição de aulas (geralmente, dois dias por dois meses de paralisação, total picaretagem), para dizer para o papai que não perdeu o semestre. Quer fazer greve, mas acha absurdo não receber salário pelo tempo em que ficou parado. Ou seja: querem ser heróis, mas sem nenhum tipo de sacrifício.

Enfim, acho que falta coragem para fazer as coisas de peito aberto. Acho que a ideologia só tem beleza se houver coragem para defendê-la  a todo custo – os prejuízos têm de parecer menores diante da possibilidade de atingir o objetivo. Mas não é isso o que acontece na realidade.

E um grande exemplo disso são os figurões que receberam indenizações milionárias do Estado por terem sido perseguidos na ditadura. Ora, se você decide ir contra o sistema vigente, SABE que vai ser perseguido, não?  Mas, para quem é herói de verdade, isso é de menos. Herói é quem enfrenta isso, quem se sacrifica pelo ideal, quem dá a cara a tapa. Não quem choraminga depois.  Enfim, acho que protestar não é brincadeira: se você vai entrar, não venha com essa de ser café-com-leite.

Acho engraçado que a maioria destes figurões tenha defendido o “povo”, mas hoje exigem que o povo lhes pague por isso. Sim, eles estão processando o Estado porque o Estado os prejudicou, mas o dinheiro, todos sabemos, é público. Vem de todo mundo. Então, na prática, nós estamos pagando por alguém que decidiu, por livre e espontânea vontade, nos defender. A gente não contratou esses caras para combater a ditadura pra gente, mas ainda assim tem de pagar salário pra eles. Incrível.

Aí eu pergunto: o que faz um cara como Cony ou o Ziraldo pedir indenizações milionárias? Ganância, claro. Eles podem ter passado dificuldades, perderam o emprego, mas tinham uma vida confortável. Aposto que nenhum deles passou fome - diferentemente de muita gente que também protestou, mas não fazia parte da elite.

Mas é como o próprio Ziraldo disse na revista (sim, as aspas são um recorte e provavelmente um recorte malicioso, como quase sempre é em qualquer reportagem, mas são aspas muito explicativas): “Se receber indenização prejudica minha imagem? Prejudica nada!”. Pois é, Ziraldo, é exatamente esta a questão. Vocês JÁ ficaram ricos e célebres justamente pelo que produziram em combate à ditadura. Ou seja: já foram pagos. Precisam de mais? Se o que fizeram fosse ideológico, o próprio fato da ditadura ter acabado já seria pagamento suficiente. Mas, já disse… Ser humano é um bicho fura-zóio ganancioso da porra. 

E o Estado reafirma sua posição anti-Robin Hood: a viúva do Herzog recebe míseros 100 mil enquanto o Cony, que tá vivão e “só” perdeu o emprego e passou “míseros” 30 dias na cadeia ganha $ 1,4 milhão, além de uma pensão mensal de 19 mil. Quem sofreu mais? O vivo ou a viúva? 

Durante boa parte da minha vida, morei perto de um cemitério chamado Dom Bosco (dê um google), onde foram encontradas várias valas comuns cheias de ossadas de gente desaparecida durante a ditadura. Duvido que as famílias delas recebam 19 paus todo mês.

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