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Junho 23, 2008
Acordei com os dedos entre as tramas da rede — um peixe. E o meu corpo todo tinha cheiro de mar, o cheiro salgado de mar e de lágrimas: é o mesmo, é o mesmo, nunca reparou? Não quis debater-me.
 
Ainda não nos conhecíamos (embora eu sinta como se o conhecesse a vida inteira, tanto que tenho vontade de perguntar se você se lembra) quando, criança, eu observava a marola bater nos meus pés pequenos. O resto de onda já recuando e os corruptos correndinhos areia abaixo – para onde, para onde? Eles tinham medo do sol. Eu ainda não sabia se. Sair dali não pode, dizia o pai, que observava de longe porque eu me irritava de estar sempre acompanhada. Supervisionada sempre, sim, era o jeito, mas pelo menos sozinha. Mas aí: a água nos pés.
 
Eu era pequena demais para o mar, que me engoliria. Soube o mar e o mundo: me engoliriam. O tronco, a cabeça, a alma, tudo deglutido logo. Sempre. Mas, criança, a única esperança que tinha era a de que o dançar das ondas deixasse a minha imobilidade um tanto mais leve. Pensei que, talvez, se eu bem o olhasse, sentiria-me navegando somente com os olhos. Até que a onda fez bater uma concha nos meus pés e eu aprendi, criança, que o oceano inteiro cabia dentro dela.
 
Não, você não se lembra. Custa-me, mas sempre me recordo de que somos sim divisíveis, divididos, corpos-concha. Somos dois.

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