Posts de Julho, 2008

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A arte de enfeiar e emburrecer o homem

Julho 31, 2008

Xico Sá: 

jornalismo é a arte de emburrecer o homem e a mulher. É a arte de enfeiar a mulher e emburrecer o homem. Então essas meninas lindas chegam na redação e com dois ou três pescocinhos elas estão horríveis, cara (risos). Mata qualquer possibilidade de existência mais ou menos inteligente e de gostosura (risos). E não é a coisa física de estar gordo, isso não tem a menor importância. É o olhão de emburrecimento de redação. Notícia, plantão… Isso é uma idiotice. Por isso eu não quero ter filho, se for pra virar jornalista eu mato ele antes. É sério! Os caras se acham os fodões, mas são os mais burros da humanidade. Eu falo porque gastei minha alma na redação“.

Mas você sentia isso no inicio?

É igual a cachaça, você sabe que derruba, mas vai indo… É escrota a pretensão, o moralismo do jornalismo, a forma como acha que vai resolver o mundo”.

Você lê jornal?

Eu leio pra enganar os próprios jornais, mas eu não aconselho pra nenhuma família (risos)… afaste o seu filho da faculdade de jornalismo porque é emburrecedor. O jornalista não vai ter uma grande narrativa, não vai ser um escritor. Também não vai poder contar uma grande história, não vai poder porque o dono não vai deixar. Ele vai ser merda“.

Não tem nenhum orgulho dessa época, das coisas que você conseguiu?

“Claro que não.. mas me fez ganhar dinheiro. (…) Pobre tem duas profissões literárias no Brasil, jornalista ou advogado. Mas escolha, nunca. Eu queria ser Henry Miller e me fodi. Você acha que eu queria estar em plantão na casa do PC ou na porta da polícia federal esperando não sei o quê? Não… Eu queria escrever “Trópico de câncer”! As biografias são editadas e limpas, mas a vida é só angústia e frustração, velho. Aí vem um filho da puta como o Ruy Castro e deixa todo mundo lindo e gênio”.

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Xico, Xico, você está coberto de razão. As partes em negrito resumem com precisão meus sentimentos ultimamente.

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Almost like 2004

Julho 31, 2008

Meu eterno retorno é esbarrar em pessoas que me usam de muleta. A vantagem é que agora eu as reconheço um pouco mais rápido, rápido o suficiente para fugir antes que causem muito estrago.

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Julho 31, 2008

O locutor de voz grossa acaba de avisar onde ficam as saídas de emergência e pede para que todos desliguem seus celulares. As luzes se apagam. Detrás da cortina, espio o escurecer: primeiramente, o ambiente ainda guarda um resquício de amarelo e o escuro tem algo de amarronzado. Logo depois, vem o quase-breu. Sim, quase, porque os olhos dos espectadores são como vagalumes acesos na noite. E estão atentos, faceiros, como um bicho que se esconde entre as folhagens por horas a fio, esperando o momento certo de atacar a presa. Pois hoje a presa sou eu. Quem mais?

Sinto um empurrão nas costas. Não é forte o suficiente para me atirar no palco, mas é enérgico, para que eu não amarele. Tenho essa mania de perder a coragem nos momentos mais cruciais. Os joelhos arquejam, o ar foge dos pulmões e o coração fica fraco-fraco, pequenino como coraçãozinho de criança. Boto a mão no peito e o sinto batendo bem longe, como se tivesse se enterrado mais profundamente nas carnes por pura vergonha. Viro para trás e a pessoa já se foi: fico sem saber de quem eram as mãos. Ele (ou ela) podia ter me desejado um merda, não é isto que os atores sempre dizem?, mas a palavra já é minha velha conhecida e nunca me significou sorte. Bem, com ou sem boa sorte, tenho de ir. Estou numa sinuca de bico, no beco sem saída, no abatedouro. Não tem mais volta. A única possibilidade é o passo à frente – que eu dou. Abrem-se as cortinas pesadas e vermelhas.

Vertigem. Os vagalumes todos parecem ainda mais vivos e brilhantes, fluorescentes. Pisco vinte vezes para focar os olhos, mas tudo se embaralha e tranço as pernas feito bêbado. Alguém ensaia uma risada: “será comédia?”. Pois é, nenhum deles sabe o que será. Nem eu. Caí nessa desavisado e minha única arma é o improviso. Para isto, não há curso preparatório. Não há ensaio nem camarim nem exercícios vocais. Aqui é preto no branco, meu filho, porque só se vive uma vez.

(continua… Acho).

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Guarulhos

Julho 30, 2008

A despedida era só café-com-leite, não valia, não era a última. Disto ela tinha certeza (culpa dos filmes, livros e músicas que sempre pregam que o que é bom nunca aceita interrupções). Estava tão convicta que recusou-se até a dizer um “até breve”. Sabia que o reencontraria em alguma trivialidade futura – supermercado, esquina, fila de banco, viagem inesperada. 

Sedenta de futuro, esqueceu-se até de ver que ele tinha os olhos fixos nas ásperas curvas da realidade.

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Procuro novo emprego

Julho 28, 2008

…que pague o mesmo que o atual, mas com menos exploração e encheção de saco.

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Nevermind the hype

Julho 26, 2008

Esta semana assisti ao Batman. Não é meu tipo de filme, mas a avalanche de resenhas, comerciais e blogs (fora as vinte mil matérias que tive de traduzir) sobre o assunto acabaram me deixando curiosa, principalmente em relação ao desempenho do ator Heath Ledger. Eu cheguei a traduzir algumas notícias que qualificavam a atuação dele como “brilliant”, “outstanding”, “unbelieveable” e coisas do tipo. Tem gente até que está falando em Oscar póstumo, ao que os membros da academia responderam dizendo que é exagero, claro, já que, em toda a história do prêmio, apenas um único defunto levou a estatueta.

Pois bem, saí do cinema dizendo: “bah, não é nenhum Jack Nicholson”.

O filme não é ruim. Pelo contrário: é interessante, bem feito, mas não é nem metade de tudo isso que estão falando. Aliás, como a maioria das coisas que viram “hype”: as pessoas elogiam TANTO (talvez a fim de convencer os outros a também virarem fãs) que é impossível não ficar decepcionado ao se deparar com a realidade. A atuação do Ledger não tem nada de excepcional. O papel é bem executado, a maquiagem borrada ornou muito bem com o personagem, mas a atuação não é “brilhante” nem “inacreditável”. É apenas boa (e, como o desempenho da maioria dos colegas é fraco, fica fácil para Ledger se destacar). Não sei se vão indicar o cara ao Oscar – se indicarem, ele talvez ganhe com facilidade: ultimamente, tão dando o prêmio pra qualquer um que mude um pouco a voz e invente uns tiques (lembra da Renée Zellwegger em Cold Mountain? Pois é, minha gente, é só estar disposto a engordar uns quilos ou raspar a cabeça que automaticamente você vira um ator de qualidade!).

Eu, particularmente, tenho quatro pequenas ressalvas:

a)achei que o Ledger exagerou um bocado no tique de passar a língua pelo canto dos lábios – ele faz isso tantas vezes no filme que chega a incomodar, como a performance cheia de caretas da Zellwegger.

b) ficou meio bocó a voz monstruosa que colocaram no Batman, quando ele veste sua roupa de morcego – é caricata demais! Parece aqueles caras que conseguem recitar o alfabeto inteiro enquanto arrotam.

c) a risada do Coringa me lembrou a do Tickle Me Elmo, aquele brinquedo de 300 reais (que eu ganhei de jabá no ano passado e vendo por 150!!), mas isso é implicância minha, admito.

d) Por último e mais importante, o Coringa fica previsível da metade para o final do filme. Tudo o que ele diz que vai fazer, faz exatamente o contrário. Se diz que a mocinha está no endereço X e o mocinho no Y, a verdade é que a mocinha está no Y e o mocinho no X. Se diz que as pessoas explodirão caso passem com seus carros por cima das pontes da cidade, é porque o perigo está mesmo nas outras rotas. E por aí vai. Para se safar, é só pegar o que ele diz e fazer e-xa-ta-men-te o contrário! É fácil!

E foi isso o que decepcionou mais: as resenhas prometiam um personagem mais astuto, mais sarcástico, mais ardiloso, não simplesmente um cara que explode coisas a cada cinco minutos. Enfim, faltou dar mais ênfase ao lado psicológico do Coringa. É interessante a idéia de um criminoso cujo único objetivo é provar a corruptibilidade da humanidade, mas isso não é muito bem desenvolvido porque há um monte de carros e prédios explodindo o tempo todo. A caracterização do personagem se faz então da maneira mais óbvia: o próprio Coringa falando, sempre que tem uma chance. Ledger diz pelo menos umas três vezes no filme que ele é o “representante da anarquia e do caos”, algo assim. Acho muito melhor quando deciframos um personagem pelos seus atos, em vez dele simplesmente entregar a mensagem de lambuja, tipo: “pra quem é lerdo e não entendeu, a interpretação do personagem é essa”.

Quanto às explosões, é algo que, sem dúvida, atrai os olhos, impressiona… Mas não acrescenta nada de substancial. É só uma maneira de Hollywood dizer: “olha, gastamos 200 milhões de dólares a cada filme, só pra explodir um montão de coisas de formas inverossímeis!”. A impressão que tenho é que a quantidade de explosões nos filmes hollywoodianos tem aumentado. Pode ser engano meu, mas acho que isso está diretamente relacionado à distração crescente das sociedades. Somos tão bombardeados de informações, tão blasé, que para prender nossa atenção é preciso dar um susto atrás do outro. Daí o monte de explosões. Mas enfim, já falei sobre isso naquele post sobre arte.

Fora isso, o filme é bom. Para um filme de super-herói, está bem acima da média.

Moral da história: nevermind the hype. As pessoas têm mania de chamar as coisas de “sensacional”, “genial”, “sem precedentes” e, na maioria das vezes, não é nada disso. No Tim Festival do ano passado, por exemplo, fiquei até assustada com o furor em torno do Arctic Monkeys. As pessoas se jogavam, berravam, diziam que o cara era a salvação do rock (sem brincadeira!). Uma menina (que estava junto com a gente porque veio com o meu amigo, o que confirma a minha teoria de que o inferno não são os outros, mas os amigos dos outros) não parava de dizer o quanto aquele show era o melhor que ela já tinha visto em toda a vida dela. Ai, pára, né? A banda é oquei, tem umas musiquinhas legais, mas, pera lá, salvação só jesus. Esse povo me dá uma preguiça… Vamos só ver onde vai estar a “salvação” daqui a cinco anos.

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Domingo

Julho 21, 2008

Liguei a televisão e um telejornal falava do velório da Dercy. Cercada por microfones, a filha contou que, quando pequena, Dercy encostou sua testa na dela e disse: “a gente vai ser feliz na porrada”.

Pois eu também.

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Porque não custa apelar também às superstições

Julho 21, 2008

Ok, não posso contar o que é porque, sempre que eu comento sobre coisas que ainda são somente uma possibilidade, elas não acontecem. Mas, de todo modo, gostaria de fazer um pedido à meia dúzia de pessoas que lêem este blog: torçam por mim. Desejem-me sorte. Caso a tal coisa aconteça, minha vida melhorará muito.

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Julho 21, 2008

Eu me sinto EXATAMENTE da mesma forma. Parece até que fui eu que escrevi o texto.

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Julho 21, 2008

Acho de uma babaquice tremenda aquelas pessoas que estufam o peito e dizem: “eu leio um livro por semana”. Ou aquelas enquetes que, depois de perguntar quantas geladeiras e televisores você tem em casa, perguntam quantos livros você lê por mês. Como se a simples quantificação fosse sinal de erudição, de inteligência, sei lá de quê.