
Esta semana assisti ao Batman. Não é meu tipo de filme, mas a avalanche de resenhas, comerciais e blogs (fora as vinte mil matérias que tive de traduzir) sobre o assunto acabaram me deixando curiosa, principalmente em relação ao desempenho do ator Heath Ledger. Eu cheguei a traduzir algumas notícias que qualificavam a atuação dele como “brilliant”, “outstanding”, “unbelieveable” e coisas do tipo. Tem gente até que está falando em Oscar póstumo, ao que os membros da academia responderam dizendo que é exagero, claro, já que, em toda a história do prêmio, apenas um único defunto levou a estatueta.
Pois bem, saí do cinema dizendo: “bah, não é nenhum Jack Nicholson”.
O filme não é ruim. Pelo contrário: é interessante, bem feito, mas não é nem metade de tudo isso que estão falando. Aliás, como a maioria das coisas que viram “hype”: as pessoas elogiam TANTO (talvez a fim de convencer os outros a também virarem fãs) que é impossível não ficar decepcionado ao se deparar com a realidade. A atuação do Ledger não tem nada de excepcional. O papel é bem executado, a maquiagem borrada ornou muito bem com o personagem, mas a atuação não é “brilhante” nem “inacreditável”. É apenas boa (e, como o desempenho da maioria dos colegas é fraco, fica fácil para Ledger se destacar). Não sei se vão indicar o cara ao Oscar – se indicarem, ele talvez ganhe com facilidade: ultimamente, tão dando o prêmio pra qualquer um que mude um pouco a voz e invente uns tiques (lembra da Renée Zellwegger em Cold Mountain? Pois é, minha gente, é só estar disposto a engordar uns quilos ou raspar a cabeça que automaticamente você vira um ator de qualidade!).
Eu, particularmente, tenho quatro pequenas ressalvas:
a)achei que o Ledger exagerou um bocado no tique de passar a língua pelo canto dos lábios – ele faz isso tantas vezes no filme que chega a incomodar, como a performance cheia de caretas da Zellwegger.
b) ficou meio bocó a voz monstruosa que colocaram no Batman, quando ele veste sua roupa de morcego – é caricata demais! Parece aqueles caras que conseguem recitar o alfabeto inteiro enquanto arrotam.
c) a risada do Coringa me lembrou a do Tickle Me Elmo, aquele brinquedo de 300 reais (que eu ganhei de jabá no ano passado e vendo por 150!!), mas isso é implicância minha, admito.
d) Por último e mais importante, o Coringa fica previsível da metade para o final do filme. Tudo o que ele diz que vai fazer, faz exatamente o contrário. Se diz que a mocinha está no endereço X e o mocinho no Y, a verdade é que a mocinha está no Y e o mocinho no X. Se diz que as pessoas explodirão caso passem com seus carros por cima das pontes da cidade, é porque o perigo está mesmo nas outras rotas. E por aí vai. Para se safar, é só pegar o que ele diz e fazer e-xa-ta-men-te o contrário! É fácil!
E foi isso o que decepcionou mais: as resenhas prometiam um personagem mais astuto, mais sarcástico, mais ardiloso, não simplesmente um cara que explode coisas a cada cinco minutos. Enfim, faltou dar mais ênfase ao lado psicológico do Coringa. É interessante a idéia de um criminoso cujo único objetivo é provar a corruptibilidade da humanidade, mas isso não é muito bem desenvolvido porque há um monte de carros e prédios explodindo o tempo todo. A caracterização do personagem se faz então da maneira mais óbvia: o próprio Coringa falando, sempre que tem uma chance. Ledger diz pelo menos umas três vezes no filme que ele é o “representante da anarquia e do caos”, algo assim. Acho muito melhor quando deciframos um personagem pelos seus atos, em vez dele simplesmente entregar a mensagem de lambuja, tipo: “pra quem é lerdo e não entendeu, a interpretação do personagem é essa”.
Quanto às explosões, é algo que, sem dúvida, atrai os olhos, impressiona… Mas não acrescenta nada de substancial. É só uma maneira de Hollywood dizer: “olha, gastamos 200 milhões de dólares a cada filme, só pra explodir um montão de coisas de formas inverossímeis!”. A impressão que tenho é que a quantidade de explosões nos filmes hollywoodianos tem aumentado. Pode ser engano meu, mas acho que isso está diretamente relacionado à distração crescente das sociedades. Somos tão bombardeados de informações, tão blasé, que para prender nossa atenção é preciso dar um susto atrás do outro. Daí o monte de explosões. Mas enfim, já falei sobre isso naquele post sobre arte.
Fora isso, o filme é bom. Para um filme de super-herói, está bem acima da média.
Moral da história: nevermind the hype. As pessoas têm mania de chamar as coisas de “sensacional”, “genial”, “sem precedentes” e, na maioria das vezes, não é nada disso. No Tim Festival do ano passado, por exemplo, fiquei até assustada com o furor em torno do Arctic Monkeys. As pessoas se jogavam, berravam, diziam que o cara era a salvação do rock (sem brincadeira!). Uma menina (que estava junto com a gente porque veio com o meu amigo, o que confirma a minha teoria de que o inferno não são os outros, mas os amigos dos outros) não parava de dizer o quanto aquele show era o melhor que ela já tinha visto em toda a vida dela. Ai, pára, né? A banda é oquei, tem umas musiquinhas legais, mas, pera lá, salvação só jesus. Esse povo me dá uma preguiça… Vamos só ver onde vai estar a “salvação” daqui a cinco anos.