Corríamos enquanto o céu explodia, a polícia logo atrás: “não pode soltar isso aqui, seus moleques”. Mas se era justamente para isso, seu guarda: ser moleque. Não é vergonha nenhuma! O céu não está mais colorido do que o meu dentro.
Posts de Julho 4th, 2008

Julho 4, 2008
Os ossos tilintavam de frio: 5 graus na madrugada paulistana. Maria olhava a calçada malhada de manchas negras de chiclete, a gente mal-educada e mal servida. Os outros sentidos todos fugiram para detrás da porta ou do tapete, envergonhados, emaranhados, tristes, deixando só a visão no comando das caldeiras todas de Maria-máquina.
João falava alguma coisa para se esquentar. Achava graça na baforada branca que pulava da boca. As palavras mais pesadas tinham baforadas mais brancas, como uma afronta se espatifando na cara do mundo. Já as boas eram quase morte: só um sopro, soprinho.
Sem nem pedir, Maria foi entrando leve no Café Soneto, aquele para o qual olhava sem óculos e achava que se chamava café sorvete – café sorvete? Será uma lista sem vírgulas ou um cardápio incompleto? Até que atravessou a rua e percebeu quão simpático era o ambiente do lado de lá da portinhola. Quadros da São Paulo antiga (Marc Ferrez?), cardápio extenso e lamparinas de papel de seda sobre a mesa.
João comentou que o lugar era um hiato, todo mundo sem casaco. Mas aí xeque-mate.
As palavras foram subindo em turbilhão pelo fino esôfago da moça, enraivecidas e suicidas, atirando-se aos montes pela boca e contaminando o mundo de raivas velhas recém-despertas. O que era isso? Veja, veja, João! João quieto, olhos fixos na boca de Maria, boca sonora pelo mesmo motivo por que os bebês balbuciam: para ouvir, para experimentar-se. Nácar-Tucuruvi-Baticum-Particípio-Estrupício, todas as palavras de som curioso de mãos dadas. O rosto esquentando.
___ João, estou me divertindo!
João lamentou ter desperdiçado todas as respostas na rua.




