Venho pensando em escrever esse texto já há algum tempo. Tenho certeza de que algumas pessoas não vão concordar com ele… E até eu mesma posso mudar de idéia – afinal, isso não é vergonha nenhuma. Aliás, é engraçado como as pessoas acham vergonhoso alguém que pensa diferentemente do modo como pensava antes, já reparou? E, como já disse aqui antes, o câncer do mundo são as dicotomias: ou você está do nosso lado ou está contra nós. Eu, héin. Acho que mudar de opinião na maioria das vezes significa evolução, amadurecimento, flexibilidade. E se “ficar em cima do muro” significa ter uma visão distanciada e panorâmica das coisas ou simplesmente não emitir opinião por admitir que não sei o suficiente sobre o assunto, então prefiro ficar em cima do muro, thanks.
Enfim. Tenho pensado bastante sobre os rumos que a arte tomou hoje em dia. Gosto muito do Duchamp e dos dadaístas, mas, infelizmente, a vanguarda (aliás, as vanguardas) podem ter sido mal interpretadas. E essa má interpretação abriu espaço para o samba do crioulo doido artístico de hoje.
O ready-made de Duchamp era uma piada, uma afronta ao purismo e ao elitismo. “Ah, é? Então você acha que arte é aquilo que se põe em museu? Tá bom”. Naquele contexto, a ação foi extremamente revolucionária e inteligente. Acredito que o grande objetivo dos dadaístas era abrir espaço para formas mais criativas e mais amplas de expressão artística.
Em vez disso, infelizmente, muita gente sem talento resolveu caminhar pela estrada já aberta. Duchamp queria denunciar o esvaziamento da arte, desconstruindo-a e propondo sua reconstrução (pelo menos é assim que eu enxergo sua obra… Corrijam-me se estiver falando alguma besteira). E, como a resposta para a pergunta “o que é arte?” ficou cada vez mais longe (se é que essa resposta existe), tem uma galera hoje fazendo qualquer coisa (qualquer coisa mesmo!) e chamando de arte, mesmo que não tenha nada (ou muito pouco) para dizer.
Nos anos 20, colocar uma roda de bicicleta dentro de uma galeria era transgressão, novidade, questionamento. Hoje, tantos anos depois, colocar o coitado do velocista para correr entre os visitantes da galeria significa o quê? Quer propor o quê? Quer transgredir o quê? Acho que voltamos ao esvaziamento que Duchamp criticava. Sem querer, Duchamp atirou no próprio pé – mas como ele poderia prever isso, não é verdade?
Aí, ninguém entende mais nada (até porque há pouco para efetivamente entender), mas fica com vergonha de dizer que achou aquilo uma porcaria, por medo de não parecer cool. Se você diz que tal obra é uma porcaria, a galera cool te esnoba, diz que foi você quem não entendeu, bobinho.
É como a moda, por exemplo. Nego veste a mulher de abajur e bota um abacaxi sobre sua cabeça e, quando perguntado sobre o que o desfile significa, diz: “é a atitude transcendental pós-moderna da luz no interior do indivíduo do terceiro mundo”, blábláblá. Enfim, o cara diz qualquer coisa, pois é fácil encher linguiça. Basta parecer convicto. Não é uma questão de conteúdo, é uma questão de atitude. É como diz o Guy Debord, em “A sociedade do espetáculo”: não importa o que você é, mas o que parece. Sabe quando você não sabe responder àquela pergunta da prova, começa a enrolar e escreve mil linhas? A rigor, você não disse nada, mas o professor acaba te dando um pontinho. Então. Muitos artistas estão fazendo a mesma coisa. E, como tudo virou um grande mercado, você abre o jornal do dia seguinte e lê que tal cara é um gênio.
(Nunca surgiram tantos gênios imediatos quanto agora. Afinal, é preciso vender AGORA. Não tem mais essa do cara morrer e, só aí, o povo ver que ele estava à frente de seu tempo. Não há mais tempo de digerir as coisas. Quando morrer, ele já terá sido esquecido há muito tempo, porque há montes de outros artistas nos quais prestar atenção).
Mas de onde vem tanta falta de criatividade? Será mesmo pura fanfarrice? Pura sacanagem? Talvez não. Acho que é pressa. Talvez estejamos menos criativos, menos profundos e mais limitados porque temos pressa de fazer arte. Vivemos numa época em que tudo acontece muito rapidamente, mas a arte exige uma atitude mais reflexiva, mais contemplativa. Se você não dispende tempo para (tentar) entender a si mesmo e entender o mundo, é impossível expressar alguma coisa sem ser superficial, concorda? Somos bombardeados com fragmentos de informações e, se não tivermos calma para juntá-los, apenas cuspiremos fragmentos de volta. Tudo bobo e mal costurado.
Daí advém a “literatura-vômito”. Você deve conhecer pelo menos um escritor contemporâneo que diz que “escreve para não vomitar”, “escreve para não se matar”, “escreve para não enlouquecer”, etc etc. Realmente, escrever é terapêutico. Ajuda a relaxar. É só pegar um papel e começar a lamuriar-se. Se isso pode ser arte? Na maioria das vezes, não. Muita gente vai se identificar com você (afinal, todo mundo tem seus momentos de lamúria), mas é difícil aquilo ter algum valor estético. E é mais difícil ainda que aquilo diga alguma coisa além do que está escrito.
E a maioria dos adeptos da literatura-vômito quer ser transgressor, revoltadinho. Woo hoo, sex, drugs & rock and roll. Mas, ei, repito: transgredir não é tão fácil. É preciso ter um bom questionamento para transgredir -novamente, é preciso gastar tempo refletindo. Porque, se o choque não contiver nada além do próprio choque, você não consegue tirar ninguém do estado blasé.
(Aliás: nego acha super cool dizer que é blasé, como se isso significasse que você está cagando para o mundo. Errado. Blasé é o estado de espírito de quem tem estímulos demais – ou seja: nada mais contemporâneo e normal, não tem nada de incrível… A defesa do cérebro para o excesso de estímulo é não prestar mais atenção em nada e aí a pessoa fica com aquela cara de bunda. )
Esses artistas apressados de hoje só fazem a pessoa blasé levantar as sobrancelhas por alguns segundos, dizer: “uau, estou chocado” e pronto, no minuto seguinte já volta à letargia.
Por isso que eu digo: gentê, menos Bukowski e mais Clarice Lispector. Acho que a verdadeira transgressão hoje em dia é fazer com que a pessoa pare e volte-se para si mesma. Mergulhe dentro de si. Ser beberrão, seco e escatológico é só mais um nicho de consumo.
PS – Pior foi a entrevista de Cecília Giannetti para o Portal Literal, na qual ela disse que Clarice Lispector é apenas “jorro emotivo desvairado no papel”. Querida Cecília, já que você é considerada por alguns uma das promessas da nova literatura, acho que tem a obrigação de reler a Clarice, pois claramente você não a entendeu. Clarice é justamente o CONTRÁRIO de jorro emotivo desvairado. Seus personagens se autodesvendam com minúcia, com cuidado, com calma. Aposto que boa parte dos escritores contemporâneos (Giannetti inclusa) não conseguiria escrever mais do que cinco linhas sobre uma mulher que reflete sobre medo e tolerância ao olhar para uma barata. Jorro emotivo desvairado é a literatura-vômito que muitos fazem hoje em dia. Nada a ver com Clarice.




