A pedra passou tão de raspão pela minha orelha que fez um ruído fino. O ônibus parou no meio daquele fim de mundo de terra batida e todo mundo apalpava o próprio corpo, à procura de partes perdidas. A gente não sente as grandes feridas logo de imediato: quando tinha seis anos, cortei o pulso direito numa porta de vidro, durante uma brincadeira de pega-pega. Fiquei uns bons segundos só olhando para o corte, estranhando o próprio sangue. Não doía. Era apenas quente e novo. Foi só com os gritos dos outros que eu me dei conta do que estava acontecendo.
Mas a pedrada aquele dia não acertou ninguém, estávamos todos vivos e ilesos e a criança mal-criada que fez a travessura já havia fugido.
Hoje eu me lembro bem disso porque todo dia é como se uma pedra atravessasse o meu vidro, todo dia ela zumbisse fina no ar, todo dia é como se eu quase morresse. Mas que droga, ainda não.






