Posts de Julho 12th, 2008

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Julho 12, 2008

A pedra passou tão de raspão pela minha orelha que fez um ruído fino. O ônibus parou no meio daquele fim de mundo de terra batida e todo mundo apalpava o próprio corpo, à procura de partes perdidas. A gente não sente as grandes feridas logo de imediato: quando tinha seis anos, cortei o pulso direito numa porta de vidro, durante uma brincadeira de pega-pega. Fiquei uns bons segundos só olhando para o corte, estranhando o próprio sangue. Não doía. Era apenas quente e novo. Foi só com os gritos dos outros que eu me dei conta do que estava acontecendo.

Mas a pedrada aquele dia não acertou ninguém, estávamos todos vivos e ilesos e a criança mal-criada que fez a travessura já havia fugido.

Hoje eu me lembro bem disso porque todo dia é como se uma pedra atravessasse o meu vidro, todo dia ela zumbisse fina no ar, todo dia é como se eu quase morresse. Mas que droga, ainda não.

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Julho 12, 2008

Eu me traio demais. Meu inevitável é absorver os piores defeitos dos outros.

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Julho 12, 2008

Queria dormir e não acordar nunca mais.

(Amanhã vou pra terra-natal e lá é sempre muito triste porque eu me sinto feliz demais. Às vezes me culpo por ter tido fome de São Paulo, mas São Paulo me arrastou, a bandida. Fingiu que também tinha fome de mim. Fui como cobra enfeitiçada, mas não havia música nenhuma, era só ruído.

Saí da cama quente direto para a rua gelada, onde a única moeda de troca é o tapa. Agora é tão-tão difícil achar beleza nas coisas – todas elas têm o peso de mil mundos e eu sinto saudades dos dias de sol molenga me batendo nos olhos, enquanto eu caminhava calmamente ao lado da linha do trem.)

Deus do céu, que foi que eu fiz de mim?

Disseram-me que eu poderia ser o que quisesse, mas esqueceram de dizer que aquele era o único palco em que eu cabia.