Eu o vi pela primeira vez quando o ônibus quebrou no meio daquele lugar sem nome, onde tudo era terra batida, seca. Das casas de pau-a-pique, saíram as crianças descabeladas e desnutridas, sobressaltadas porque nenhum turista passava por ali. Ninguém nunca passava por ali. Se o esquecimento tomasse forma e rosto, seria exatamente como aquelas crianças de barriga grande, pele e cabelos queimados de sol. O motorista se esforçava para consertar logo a coisa – pelo celular (inacreditável, mas celulares pegavam ali), o gerente da agência de turismo já estava aos berros: dava pra ouvir de longe. Gritava que não podíamos ficar tanto tempo ali no meio do nada – para nós, paulistas, o Pernambuco não podia ser aquilo.
Depois o vi na sala de espera do consultório médico, quando senti um arrastar de chinelos atrás de mim. Espiei de rabo de olho mas não delimitei bem o rosto, só deu tempo de perceber os sulcos de cada lado da boca – coisa de quem já riu muito, mas o tempo tratou de punir a doçura. O chique-chique do chinelo soava como caminhar lento sobre folhas já mortas. Mesmo andando sobre concreto, a levantar nada além da poeira cinza-claro-quase-branco que sobe dos escapamentos direto para as janelas, ele não perdeu o jeito cabreiro de gente do mato: ele todo era um bicho selvagem, do tipo que não tem medo de fincar os olhos nas coisas. E os fincou em mim. Senti no cangote o feixe quente. O olhar alheio é sempre pesado e aparvalhado demais para não ser notado.
Então começaram a ficar mais freqüentes as suas aparições. Uns meses atrás, o encontrei no supermercado. Eu escolhia batatas-doces; ele, limões. Desta vez, fui eu quem finquei os olhos nele, para estudá-lo, entendê-lo, é como se o tivesse em uma lâmina de microscópio ou nadando em um tubo de ensaio: pensava-me diante de uma criatura exótica, o alheio em seu maior nível de alienação. Não sei se sentiu o calor do meu feixe – se sentiu, fingiu que não. Até eu mesma me incomodei com o som dos meus olhos percorrendo-o (enquanto o cabelo e as unhas de todos cresciam, os estômagos digeriam, os cérebros matutavam e a terra girava; enquanto envelhecíamos). Meu olhar era uma bomba-relógio, um universo prestes a nascer: era como o segundo anterior àquele em que o nada explodiu e nasceu o tudo, que começou a se expandir-expandir-expandir até o dia em que não der mais conta de si mesmo e explodirá novamente – desta vez, para morrer. Mas ele não se desesperou. Sequer esboçou movimento. Dirigiu-se ao caixa, pagou seus limões e saiu.
No dia seguinte, eu o vi dirigindo o carro que emparelhou com o meu no sinal vermelho. Quis lhe dizer algo, mas tinha os vidros fechados e usava óculos escuros. Quando o sinal abriu, ele disparou e logo dobrou a primeira esquina, enquanto os pedestres viravam as cabeças – não sei se por causa da velocidade ou pelo valor do veículo. Embasbacada, esqueci-me de arrancar também e os outros motoristas buzinaram em coro atrás de mim. Olhei pelo retrovisor e o vi carregando os malabares de volta para a calçada. Tinha uma queimadura na mão, deu para ver bem. Depois, um susto!: era ele no meu banco de trás, sentado, com o rosto virado para o lado. Fitava a paisagem como se já não a percebesse: o olhar devia estar do avesso, com o jato fervente virado para o seu dentro. Como parecia entretido, eu não disse nada. A verdade é que, embora sentisse muita vontade de dizer-lhe algo, não sabia exatamente o quê. Não era uma pergunta, pois senti que em breve eu o saberia sem necessidade de perguntar nada; tampouco queria informar-lhe algo de mim porque tive a impressão de que a minha vida desaguaria nele. Ele parecia já ter vivido tudo o que seria possível contar e, provavelmente, caçoaria dos meus medos, os meus medos tão pequenos que é vergonhoso assumir que me rendo a eles. Algumas lápides são demasiadamente criativas, mas o único feito da maioria de nós é colecionar miudezas.
Cheguei em casa e ele assistia à televisão com os pés esticados no sofá. Assistia ou tentava assistir, porque passava os canais freneticamente. Às vezes fico pensando se não é esse o maior atrativo da tevê a cabo: a chance de escolher. Sempre que o vejo assim logo me lembro da multidão em polvorosa, a tentar derrubar o muro de Berlim com as próprias mãos – afinal, um buraquinho bastava para pular de vez para a terra da livre escolha. Fui direto para o banheiro e, sem nem tirar os olhos dos canais que dançavam ciranda, ele perguntou se eu não ia lhe dar um beijinho. Disse que não, estava cansada. E, então, era ele na pia ao lado, escovando os dentes junto comigo. E era dele o corpo me envolveu durante o sono, o braço pesado em volta da minha cintura. Eram dele os olhos bonitos mas remelentos que se abriram pouco depois dos meus, quando o sol já brilhava alto lá fora.
E agora o vejo também em mim. Todos os meus banhos agora são de esponja porque ele está grudado nos meus pêlos, está se arrastando pela minha pele. É uma gordura que o sabão não tira. E se impregnou até no meu passado, está nas minhas fotos de infância, nas memórias, está pintando tudo de preto. Assuo o nariz e lá está ele no papel higiênico. Lá está ele no meio do suor do gozo das fezes da urina das lágrimas da saliva do vômito! Lá está ele quando tusso. Lá está ele quando, em dias frios, dou uma baforada branca no ar. É o rosto dele, não o meu, o oposto que o espelho devolve. É a foto dele, não a minha, que está colada no meu RG. Eu devo ser um desmembramento dele, um braço amputado que ele sente ainda. Talvez todos sejamos. Ele deve ser como aqueles deuses hindus repletos de braços, mas alguns foram arrancados por algum inimigo e agora caminhamos por aí, perdidos, pedaços dele.
É dele a cara do vendedor do estrangeiro do pai do irmão do transeunte do vizinho, de todo mundo. Era ele o comissário de bordo que me serviu uísque no meio da turbulência, dizendo que ia ficar tudo bem. Era ele o pássaro que avistei de cima, no meio da vertigem, momento em que senti uma pureza tão adocicada que me desesperei de sede. E foi dele o sopro que fez meu sobressalto ficar fino-fino até sair do sangue. Foi ele quem me fez adormecer, esperando que tudo quanto sobrasse fizesse o mesmo. É ele o fantasma que vela meu sono e meus passos, o onipresente fantasma do Desencanto.




