Intriga-me o fato de que algumas pessoas “conversam” com o google na hora de fazer suas pesquisas. O contador do wordpress mostra as buscas que remeteram ao blog e todo dia aparece algo como “quero saber como tirar passaporte” ou ”como forrar parede com tecido?”.
Há ainda os que usam o Google como confessionário. “Ah, este vazio que me assola”, coisas do tipo. Aí, por um termo ou outro, caem em posts daqui. Ok, sabemos que o Google está dominando o mundo ( e que Sergei e Larry são os novos messias), mas não é para tanto!
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Meu lado rabugento e resmungão vê nisto uma prova de que a Internet não é o espetáculo da democratização do conhecimento, como dizem os mais eufóricos (e o que há de blogueiro falando sobre democracia e liberdade em relação às mídias tradicionais, como se isso fosse absoluto e irrestrito…)
Não adianta nada ter a ferramenta de busca, se você não sabe muito bem o que está procurando. Não adianta saber o que está procurando, mas não ser capaz de delimitar palavras-chave. E, por fim, não adianta pesquisar palavras-chave, se a pessoa não souber separar o joio do trigo (e a Internet tem mais joio do que trigo, creio eu). Tem que ter faro, filtro, enfim, tem que saber sacar que tipo de site presta e qual não presta. Senão, a pessoa fica perdida em uma infinidade de informações e, embora tenha a sensação de que conseguiu o que queria, a verdade é que não apreendeu o conteúdo em profundidade.
E esse traquejo é algo que se aprende do modo tradicional, creio eu. Se a pessoa lê pouco, tem pouca orientação de professor e não está acostumada a pesquisar, o google não adianta nada. A pessoa já vai ao google esperando encontrar uma resposta pronta. E, mesmo que encontre algo bem legal, leia e preste atenção, ainda assim acho que seu aprendizado vai ser um pouquinho mais pobre. Afinal, boa parte do aprendizado está na busca, nessa fase de adquirir o traquejo: fazer perguntas que despertem outras perguntas e não sossegar enquanto não respondê-las de forma satisfatória.
Só fui ter computador aos 15 anos e acho que isso foi positivo. Antes disso, tinha de me virar com biblioteca e enciclopédia. Claro que, hoje, é impossível manter a criança longe do computador - e nem precisa. Mas acho que é legal estimulá-la a pesquisar de outras formas. Fazer com que ela desenvolva o gosto pela investigação. “Não sei, vamos ver no google” é fácil e rápido, mas pode criar dependência. E se o google não existisse? Como é que a gente pesquisaria as coisas? Por onde começaria? Tenho medo de que as próximas gerações entrem em parafuso se não tiverem a Internet por perto.
Por isso, torci o nariz quando fiquei sabendo que já tem escola embutindo laptop na carteira. Dizem que é para que o aluno pesquise as coisas no momento em que sente curiosidade sobre elas e, assim, possa complementar o que o professor diz – afinal, professor não é dono da verdade.
Olha, mesmo sem google, nada impedia que as gerações passadas pesquisassem e complementassem o que o professor dizia. Se a maioria dos alunos era passiva, isso se devia (e se deve) ao sistema pedagógico centrado no professor e à própria cultura da passividade, que ainda é muito presente na sociedade (de novo, “creio eu”). A gente está acostumado a aceitar e admirar a opinião de especialistas, de intelectuais, de gente “grande”. O próprio jornalismo é um dos meios que implementam essa cultura. Jornalista sempre ouve que tem que botar tudo na boca dos outros, de preferência com aspas de alguma autoridade ou acadêmico de alto garbo. Não importa que as informações estejam certas ou que você mesmo tenha sido testemunha. Nego vira e fala: “pô, consegue uma aspa aí”. Como se isso fosse atestado de credibilidade.
Mas sempre houve alunos que, apesar da cultura da passividade e da escola estilo “senta aí e fica quieto”, desenvolveram o tal do tino, do senso crítico (e isso acontece por uma série de fatores. Pode ser um único professor foda, que estimule o cara. Podem ser os pais. Pode ser ele mesmo, enfim).
São essas as pessoas que formam a “elite” (termo idiota e batido, que uso na falta de outro) que sabe interpretar as coisas. Essas pessoas comandavam a produção de informação e conhecimento antes do google e continuarão comandando depois dele – a não ser que a educação deixe de ser essa porcaria que pouco estimula as pessoas a fazer as coisas por si mesmas.
Por enquanto, somente as pessoas que já têm o “faro” produzem conteúdo e adquirem conhecimento aprofundado na Internet. As outras infelizmente se perdem, ficam só com uns cacos de informação, um monte de peças que não se encaixam.
E não vai ser uma mísera plataforma (nem blog nem orkut nem google nem twitter nem digg nem you tube nem banda larga nem nenhum site de jornalismo coletivo) que vai mudar isso, por si só. Deixem de ser ingênuos.
(Tampouco se “muda o mudo” ou se faz “democracia midiática” com blog de piadinha, fofoca e cultura inútil. Coincidentemente ou não, a maioria dos blogueiros que vejo celebrarem a si mesmos como produtores de informação na era democrática têm blogs que só falam besteira. Resta saber se o que as pessoas querem é o direito de se comunicar ou o direito de comunicar porcaria…)