
Humor para quem?
fevereiro 12, 2009Uma das coisas mais ditas sobre as feministas é que elas não têm senso de humor. Mas, bem, a verdade é que você não precisa ser feminista para ser acusada disso. Pelo visto, acredita-se que os seres humanos possuidores de vaginas têm bloqueada a parte do cérebro responsável pela criação e apreciação de piadas.
Dê uma olhada no elenco dos principais programas humorísticos brasileiros:



Pois é. Tente este pequeno exercício mental: quantas mulheres humoristas você conhece? E quantos humoristas homens existem, em contrapartida?
Pode-se argumentar: “ei, olha a Sabrina ali no meio!”. Mas ela não é considerada uma humorista. Ela é somente ”a gostosa”. O enfeite. Ela não faz piada — ela é a piada, pois sua personagem é burra como uma porta (sim, definitivamente é um personagem, ninguém é daquele jeito).
Também pode-se dizer: “ah, mas o Casseta & Planeta tem a Maria Paula! E ela faz umas piadas, sim! Cadê ela nessa foto?”. Bem, quando pesquisei “Casseta & Planeta” no google imagens, as cinco primeiras páginas não tinham nenhuma foto em que Maria Paula estivesse junto dos caras. Engraçado é que ela também não aparece nas capas dos DVDs que o google me mostrou. Ou seja: ela é uma reles coadjuvante, não é considerada parte do grupo. E, pelo que eu me lembre do C&P (faz muitos anos que não vejo), ela sempre apresentava o programa em trajes mínimos ou somente com uma tarja cobrindo os seios. Resumindo: as mulheres nos programas humorísticos não são humoristas. São objetos. São apenas peitos e bundas. E, quando abrem a boca, viram motivo de riso. (E reparem que eu nem estou citando o Zorra Total, ok?)
Vejo muita gente chamando o CQC de “mais inteligente” ou “mais elaborado”. Tenho vários amigos que gostam. Sim, o CQC parece melhor que o Casseta, o Zorra Total ou o Pânico na TV — mas, vamos combinar: não é preciso se esforçar muito para ser melhor do que eles. Se o CQC realmente se propõe a ser mais inteligente e elaborado, então por que insiste na fórmula “clube do bolinha com mulheres ocasionais apenas para os caras babarem”?
Recentemente, Marco Luque, um dos humoristas do CQC, disse que eles não pretendem ter uma mulher no programa:
“Não vai ter mulher, porque é o formato argentino que está dando certo há 12 anos. Já em Portugal tem mulher. Não sou fechado a ter só homem. O meu medo é que, quando tem mulher no humor, apela-se para o corpo, do tipo gostosa”.
Bem, Marquinho querido, tenho uma notícia para você: VOCÊ NÃO PRECISA APELAR PARA A FÓRMULA DA GOSTOSA! ELA NÃO É INEVITÁVEL! E sabe por quê? Porque mulheres também sabem fazer piada. Elas também têm cérebro! O humor é uma característica humana, não somente reservada a quem tem um pênis. Do jeito que ele fala, parece que ter mulher no humor é sinônimo de apelação.
Boa parte do elenco do CQC foi pinçado dos espetáculos de humor Stand Up. Rafinha Bastos e Danilo Gentili foram descobertos em um grupo chamado Clube da Comédia. Há muitos anos, faz parte do mesmo grupo uma mulher chamada Marcela Leal. Ela é tão competente quanto os colegas — veja o seu currículo. Por que ela não é convidada para a trupe do CQC? Será que até mesmo Marcela seria reduzida a um reles pedaço de carne, caso fosse convidada?
…Se levarmos em conta o “medo” de Marco Luque, sim.




Marjorie, meu namorado faz parte de um grupo de humor (não famoso, mas espero que um dia fique). Escrevi alguns quadros para o grupo e me convidaram para participar do piloto do novo projeto. Quando a gente se conheceu, perguntei porque (ainda) não havia nenhuma mulher no grupo. Ele disse que eles pretendiam trabalhar com o “cross-dressing”, o que é bastante comum em alguns grupos de humor famosos (p.ex Monty Phyton, de uma forma mais “bacana”, e o Casseta & Planeta, mais grotesco). Não acho que isso seja uma alegação machista, tanto que agora eles toparam “mudar” a formação (além de mim, outra menina deve participar, mas todos somos amadores).
Fiquei curiosa sobre a Marcela Leal, quero tentar ver alguma coisa dela. Vi um dia um show de stand up de uma moça, não lembro o nome. Não achei graça, vou ser sincera. Já chegou dizendo que não era revendedora da Avon e nem da Natura, e foi ladeira abaixo. Não consegui rir, fiquei bastante decepcionada.
Gosto bastante do humor inglês. Conhece a Jennifer Saunders? Ela fez a voz da fada-madrinha no Shrek, e tinha uma série chamada “Absolutely Fabulous”. Eu adorava, mas não acho que seria seu estilo… lembro que era bem “politicamente incorreto”, mas mais voltado pro sarcasmo e cinismo típicos do inglês.
Então, meu problema com o cross-dressing é que ele geralmente é usado para ridicularizar as mulheres. Geralmente, não é um homem vestido de mulher, fazendo piada sobre X, Y, Z. É um homem vestido de mulher, para você rir da cara daquela “mulher”. A intenção é dar um efeito jocoso, no qual a mulher é que o alvo da piada. Claro que há exceções, mas a maioria é isso mesmo. Acho que os humoristas têm de se questionar: afinal, por que estamos usando o cross dressing neste esquete, e não uma mulher de verdade? Qual a intenção disso? Etc etc.
É como o teatro “sério”. Antes, os homens se vestiam de mulheres — porque as mulheres não podiam estar ali. Aos poucos, elas começaram a entrar, mas eram consideradas “putas”. Agora, elas podem mostrar talento e criatividade. Por que e para quê se está fazendo o cross dressing? Acho que esta é a pergunta que se tem de fazer.
Mas claro que não é só colocar um “token”. Mesmo que se use uma mulher de verdade, temos de ver se estão dando espaço para esta mulher demonstrar sua criatividade; se ela está em pé de igualdade em relação aos outros humoristas. Porque se esta mulher também estiver apenas servindo para ridicularizar o seu sexo… Não adianta nada. Assim como naquela discussão sobre racismo que a gente teve no outro post, não é só uma questão de dar um espacinho. O “it” é como esse espaço está sendo usado e para quê.
Quando eu era pequena, aparecia na TV a torto e a direito gente com a cara pintada de preto, malha preta e uma peruca black. Hoje, isso quase não existe mais. Talvez tenham se tocado de que é um racismo gritante…
Mas que legal que você vai fazer parte de um grupo! Se tiver algum material para me mostrar, please!
Não conheço muito a Jennifer Saunders, não. Só o Shrek mesmo. Mas espero ansiosamente pelo surgimento da Tina Fey brasileira. Se não for pedir demais, quero uma Sarah Haskins brasileira também. AGORA!! Rs.
Não lembro onde eu li isso para poder indicar, mas acho que teve um estudo para saber o porquê dos homens rirem mais de piadas que mulheres. A conclusão foi que quando você diz a um homem que vai contar uma piada ele já está pronto para rir mesmo que não tenha graça, já a mulher espera ouvir para decidir se tem ou não graça e em grande parte a piada é só uma ofensa disfarçada, por isso não gargalhamos quando alguém faz uma piada sobre loira burra ou deficiente.
Débora — que pena que vc não tem o link! Queria dar uma olhada…
Enquanto os mais bestas podem usar (e com certeza devem ter usado) este estudo para dizer que há prova científica de que “mulheres não têm senso de humor”, este resultado é um claro indicativo de que, como não têm privilégios e estão acostumadas a ser ofendidas, as mulheres já esperam algo ofensivo na piada. E o homem, privilegiado que é, está acostumado a achar tudo muito bonitinho e engraçado, porque ele não sabe o que é ser ridicularizado.
bjs
Ah, lembrei da diferença: as piadas do Casseta não são muito legais, embora não ache que sempre que eles se vestem de mulher é para ridicularizar a mulher. Acho que é o estilão de humor mesmo, mais grosseiro, tanto nos textos quanto visualmente.
Agora, o do Monty Phyton é bem bom, sugiro. Lembro de um quadro, um deles vestido de mulher (Eric Idle, se não me engano), prestando um depoimento sobre alguém que havia morrido: “Uma pessoa ótima, muito respeitoso com os homens, mulheres e homens travestidos de mulheres”.
Aqui não dá pra ver vídeos, mas vou procurar coisas sobre a Sarah Haskins. E adoro a Tina Fey! Aliás, a série dela com o Baldwin (cacete, esqueci o nome… 3º alguma coisa) me arranca risadas, gosto muito.
E claro, quando o material estiver pronto, divulgo! Eles tinham um blog: revistaerrata.blogspot.com
Nossa, isso sempre me irritou muito. Cê viu nome próprio? por ironia do destino- visto que andaram criticando a clarah averbuck aqui- o que eu fiquei mais irritada com o filme foi isso. Como a protagonista é inteligente e intensa e forte e independente e etc e tal, ela não tem um pingo de senso de humor, ela é como o demônio: nunca se ri. Isso tendo em vista que o diretor é teorciamente uma pessoa esclarecida e liberal, mas esse clichê não se anula nunca, em meio algum. (aliás agora fiquei pensando nessa definição do demo e no fato de existir o proconceito de que mulher não tem senso de humor. O demônio é uma mulher, claro;))
bjim
CQC tá ficando cada dia mais fraco. Os quadros do Rafinha Bastos estão cada vez mais sem graça. E quanto a presença feminina no humor, basta ver que a idealizadora do terça-insana é uma mulher, Grace Gianoukas. São muitas as humoristas talentosas que se vê por ai no teatro, a TV só perde em fazer essa distinção. Marco Luque foi extremamente precipitado ao dizer que não funciona colocar mulheres no formato. O que importa é o talento do(a) comediante(a), e não se é homem ou mulher. Porque a gente ainda tem essa mania de dividir por gênero tarefas onde isso não importa?
Carol: “Porque a gente ainda tem essa mania de dividir por gênero tarefas onde isso não importa?” — taí. You nailed it, girl.
Srta T – Sim, adoro Monty Phyton! Já Sarah Haskins vc acha tudo dela no you tube. Ela tem um quadro em um programa de TV chamado Infomania, chamado “target women”, no qual ela tira sarro das propagandas destinadas a mulheres. Pois é, humorista e feminista!
Separei os meus favoritos, espero que goste:
- Comerciais de pílula: http://www.youtube.com/watch?v=rFr9RK1L5pI&feature=PlayList&p=79E87A9F6D8A6D3C&playnext=1&index=43
- Comerciais de jóias (eu morri de rir quando ela disse “diamonds are forever. Just like roaches”)
- Comerciais de iogurte
- Comerciais de casamentos:
Ok, me empolguei, agora parei!
Dá uma olhada aqui ó: http://pryscila-freeakomics.blogspot.com/
Dps me fala se gostou…
Rebecca, não gostei não. Porque o “punchline” das piadas se baseia nas normas arbirtrárias de conduta para cada gênero. Tipo: mulheres são emotivas, homens só querem transar e não querem pagar pensão depois do divórcio. Enfim, same old same old.
Bjs
Engraçado, vc tocou em um ponto que eu tb achava, mas há algumas coisas que gosto, como o fato dela ser uma boneca inflável… acho bem irônico. Em muitas tirinhas, principalmente nas que não está o companheiro dela, o tom é mais crítico em relação aos estereótipos femininos… em relação aos homens é que acho que ela peca muito, tipo aquele papo de “são todos iguais, etc”… Sempre achei que uma das formas de questionar (ou de pelo menos não disseminar) essa linha de “igualdade” imutável era parar de falar que “homem é tudo igual”, “mulher é tudo igual”, etc…
Aliás, minha defesa foi sempre no sentido de não repetir piadas ou histórias que tenham essa “estrutura”, e passar a “espalhar” o inverso… que existem muitos tipos diferentes de homens e mulheres, que cada um é cada um, etc. E criar e incentivar produções onde a diferença e a multiplicidade dêem o tom. Não só no sentido de homens-frágeis e mulheres-fortes, pq só isso não basta, mas no sentido da máxima multiplicidade possível… enfim, acho que me estendi demais, mas o que basicamente penso sobre isso está aqui: http://umasoutras.blogspot.com/2008/03/sobre-mulheres-homens-e-pessoas.html
Queria muito ouvir sua opinião, que já respeito muito, apesar de conhecer vc (o blog… rsrsrs!) há apenas alguns dias.
Oi, Rebecca! Bacana esse texto. Deste eu gostei muito. Bjs!
[...] (Não me surpreende, inclusive, que o CQC não tenha mulheres, embora chance para escolher uma não ……) [...]
A Carol Cleveland não era considerada do Monty Python, também, mas isso, pelo menos, foi lá nos anos 60.
[...] isso tenha importância. Queria ver se ele fosse negro. Aliás, cadê os humoristas negros do CQC? Já sabemos que Danilo não faria parte da trupe se fosse mulher. E se fosse [...]
Se o formato do CQC Brasil é o Argentino, bora colocar uma mina no lugar do Tas:
http://www.cqc.tv/
Com a saída do criador e líder do CQC Argetina, Mario Pergolini, quem assumiu foi uma mulher.
O CQC argentina, o original, desde março desse ano é apresentado por uma mulher. E agora, Taz, qual a sua desculpa?
Marjorie,
Sobre o assunto, quem escreveu algo interessante foi o Christopher Hitchens. http://www.vanityfair.com/culture/features/2007/01/hitchens200701 . O título é “why women aren’t funny”. Eu gosto da abordagem evolucionista dele, e é sempre bom lembrar que somos, em muitos aspectos, diferentes.
Luiz — Uau. Que inovador! Eu nunca tinha visto…
a) um homem decretando que mulheres como um todo têm algum tipo de deficiência em relação aos homens;
b) gente atribuindo fatos sociais à biologia evolucionista;
c) matérias jornalisticas furreca tratando ciência como algo definitivo, uma ferramenta para provar que estereótipos procedem.
d) coisas nada a ver serem justificadas com o argumento de que mulheres pegavam frutinhas e homens caçavam.
Nossa, menino. Que abordagem inédita. Agradeço até o fim dos meus dias por vc ter me iluminado com essa pérola de jornalismo científico.
Marjorie,
a) “mulheres como um todo” têm não só um tipo de deficiência em relação aos homens, mas vários. O mais evidente é uma menor capacidade física e de desenvolvimento muscular, algo que pode ser muito facilmente verificado empiricamente pelos tempos dos recordes em provas esportivas de igual distância. O fato é puramente biológico (testosterona é um potente anabolizante). Mulheres têm uma predisposição maior à anemia e à osteoporose. Têm deficiências em relação a senso de direção e estimativa de distância e muitíssimas outras áreas, tanto físicas quanto cognitivas. É interessante notar que o fato destas deficiências existirem não estão muito abertas à discussão, são repetidamente verificadas empiricamente (a não ser que você tenha alguma questão metodológica a levantar), apenas a relação de causalidade (social vs. biológico) está. Me parece quase desnecessário dizer que homens apresentam várias deficiências em relação às mulheres também. Simplesmente somos diferentes. E não que faça diferença alguma (argumentos ad hominem são dos recursos mais desprezíveis), mas o melhor livro que li abordando o assunto foi escrito por uma mulher. “Por que amamos” da Helen Fisher.
b) Não vejo o porquê de assumir a priori que são fatos sociais. Por que não pode haver um componente biológico importante na forma que o ser humano e os diferentes sexos encaram o humor? Com que base você exclui essa hipótese?
c) Qualquer pessoa que conheça um pouquinho de ciência sabe que nada é definitivo. Nem mesmo a matemática, tendo em vista os teoremas da incompletude de Gödel. O que a ciência nos traz, geralmente, é a melhor explicação disponível com os fatos e estudos que temos, e, pior – freqüentemente essas explicações são conflitantes. Na matéria vi apenas argumentos sendo apresentados e estudos e fatos embasando-os. Chamá-los de definitivos quem fez foi você.
d) idem ao b).
E Marjorie, o fato de algo não ser novo não significa que seja errado. Sua ironia em relação à idade das idéias me parece absolutamente despropositada e, possivelmente, uma forma de fugir do argumento. Talvez mulheres sejam mesmo menos engraçadas que homens, de forma geral. Vocês, de forma geral, são menos velozes que nós e, de forma geral, são motoristas mais prudentes. O que há de tão errado assim em aceitar e celebrar as diferenças?
Olha, Luiz, é que isso pra mim É discussão velha. Eu já tive essa discussão, nesses mesmos termos, com estes mesmos argumentos — e não foi nem uma nem duas nem três nem quatro vezes. Então, sinceramente, não tenho mais saco para repetir e ouvir as mesmas coisas. Não tô com saco para ver A sendo oposto a B, B sendo oposto a C, C sendo oposto a D…. Aaaaaall over again.
Vc chegou neste blog agora, pelo visto. Porque é a primeira vez que vc comenta. Então leia os arquivos. Vc realmente acha que eu nunca me deparei com este tipo de reportagem? Que eu nunca ouvi falar nesse tipo de pesquisa? Coisas asism saem na mídia dia sim dia não. As feministas discutem isso há anos, dentro e fora da academia. Isso aí não é novidade pra gente.
Vc está sendo gentil ao vir aqui e dar o link, claro. Se a questão é nova pra vc, ótimo. Leia, pesquise sobre, procure todos os lados, escolha uma posição (ou não), enfim, se esbalde. Mas é que EU já postei sobre isso várias vezes. Já postei um monte de links. Já se discutiu sobre isso aqui, nos comentários — mais de uma vez. Tem resenha de livro que fala disso no “lidos e lendo”. Então é mais do que óbvio que eu não partilhe do mesmo ânimo que vc.
…E eu não acho que tenha obrigação de discutir com alguém, num post de sei lá quantos meses atrás, quando não estou com ânimo para isso. Ninguém tem essa obrigação, na verdade.
(*desabafo* Essa é outra coisa foda de ter blog, né? As pessoas deixam comentários e esperam que vc tem que estar SEMPRE super animada a entrar num debate com elas. Mesmo que aquele debate já tenha ocorrido. Mas, ei, elas não sabem que já ocorreu, porque não leram os arquivos. Não têm obrigação de lê-los, claro — mas eu tb não tenho a obrigação de discutir sobre. Mas aí, se vc não responde, ah, vc é a escrota. Ou então: “ui ui ui, faltou argumento”. Tô muito de saco cheio disso).
[...] #10 – Cristiano Schmitz, comentando neste post “Faz uma piada aí [...]