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De quem é a culpa?

Março 20, 2009

Dia desses, estava almoçando (ah, a maravilha que é poder almoçar em casa todos os dias!) e comecei a zapear os canais. Aí parei na MTV, onde passava um clipe do Hole. Surpreendi-me com o fato da MTV estar passando clipes — toda vez que meu zapping passa por ela, está no ar algum programa para adolescentes bobinhos, com bandas que eu não conheço, celebridades que nunca vi e apresentadores fazendo macacagens diante do fundo de croma key.

Então, no meio do clipe, apareceu uma mensagem no canto da tela: “Esta senhora matou Kurt Cobain — Fulaninha, SP”. Isto me fez matutar uma coisa: já repararam como costumam jogar a culpa, seja lá do que for, nas mulheres?

Kurt Cobain era suicida, deprimido, drogado e porra louca – era só o que sabia dizer na porcaria de música que fazia (cujo sucesso entre os adolescentes revoltados com os pais obviamente se explica. É só fazer um refrão com “I don’t care, I don’t care, I don’t care” e, pimba! Sucesso mundial). Parece lógico que, depois de tanto fazer alarde, uma hora o cara ia acabar se matando mesmo, certo? Não, não: tem de ser a mulher, ora! É para isso que servem as mulheres: para receberem a culpa. Mesmo que Courtney tenha um álibi consistente e a polícia não a tenha considerado suspeita, ainda assim a culpa é dela. Afinal, se não o matou  com as próprias mãos, com certeza o levou a isso. Porque, você sabe: nós, mulheres, sabemos como deixar os homens loucos. Literalmente. Somos o demônio encarnado e nosso hobby é levar os coitadinhos ao fundo do poço. Como Iaras. Se fosse a Courtney (que é igualmente porra louca) quem tivesse se matado, aposto meu dedo mindinho que não haveria teorias da conspiração que colocariam a culpa, direta ou indireta, no Kurt. Courtney seria dada como porra louca e pronto. Talvez fosse até apontada como péssima mãe, dado que se suicidou quando a filha ainda era pequena.

Há diversos outros exemplos. Quando “o sonho acabou”, quem foi culpada pelo fim dos Beatles? Yoko Ono, claro! A vaca afastou o John Lennon dos seus amiguinhos, jogando um contra o outro até que eles se separassem, você não sabia? Para isso, ela usou sua arma mágica: a vagina. De acordo com a cultura popular, basta oferecermos nossas vaginas aos homens que eles perdem todo e qualquer senso crítico. Inclusive um gênio como Lennon. Veja bem, não é que os caras estivessem de saco cheio de tocar juntos e de serem a banda mais famosa do mundo. É que o John estava enfeitiçado pela vagina hippie da Yoko. Pobrezinho.

No filme “Segundas intenções”, os irmãos postiços Sebastian e Kathryn são duas víboras que armam contra a vida (e reputação) de todo mundo. Embora tenham feito uma aposta para ver quem ganhava primeiro, o objetivo dos dois era o mesmo: transformar em “putas” duas moças consideradas “santas” (porque, sabe como é, as mulheres se desvalorizam ao fazer sexo. Como carros usados). Ao longo do filme, há várias situações em que os dois agem juntos e/ou se ajudam mutuamente. Não há dúvidas de que eles formam um time. No entanto, Sebastian se apaixona por uma das moças (a personagem de Reese Whiterspoon). Não me lembro mais por quê, mas tem uma hora em que Reese fica brava com ele e não quer mais vê-lo. Então Sebastian resolve entregar a ela o seu diário, para que ela saiba toda a verdade sobre a aposta, timtim por timtim. Confiando em que a personagem da Reese tivesse ao menos dois neurônios, eu não esperava que ela o perdoasse após ler o diário. Afinal, ela ficaria sabendo exatamente o tipo de pessoa que ele era. Mas, bem, eu  me esquecera de que, nos filmes, as pessoas acham que o amor é capaz de transformar o pior lobo em cordeiro.

Então, Reese corre para comunicar a Sebastian o seu perdão – mas, antes que consiga falar com ele, ele morre. No velório, Kathryn tenta fazer um discurso, mas todo mundo sai do recinto, com cara de nojo e revolta. Ao sair da capela, ela vê que Reese estava distribuindo cópias do diário de Sebastian. Com o xerox nas mãos, todo mundo olha para Kathryn como se ela fosse a culpada de tudo. Como se Sebastian não tivesse feito absolutamente nada de livre e espontânea vontade. Então, vem a cena que eu acho mais significativa: mostra o diário aberto e, numa das páginas, há uma foto de Kathryn com a mensagem: “I’m a whore”. Ah, então está explicado! A culpa é toda da Kathryn, simplesmente porque ela é promíscua! Ela não foi transformada em puta, como as outras: era uma puta nata. Logo, não tem caráter. Sebastian também transa com um monte de gente no filme mas, como é homem, para ele esse estigma não vale. Para fechar com chave de ouro, temos aqui, novamente, a idéia de vagina mágica: Kathryn prometera transar com Sebastian, caso perdesse a aposta. Então, taí: Sebastian não era uma pessoa má. De jeito nenhum. O coitadinho só foi manipulado pela vagina. E é por isso que todos a culpam e transformam Sebastian em um santo.

É claro que temos outros exemplos mais práticos, fora do campo da cultura pop. No caso da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos ao ser estuprada pelo padrasto, a primeira coisa que perguntam é: “mas onde estava a mãe?”. Porque, sabe como é, as mães, esses seres sagrados, têm de zelar pelos filhos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se se descuidam por um minutinho e aí acontece uma merda dessas, a culpa é delas por serem desatentas, não do cara que estuprou. A culpa é delas por confiarem em quem não deviam, por levarem um cara desses para dentro de casa (afinal, essa coisa de confiar em alguém que não merece é algo que nunca aconteceu com nenhum de nós!)

Se tem uma gravidez indesejada,  a culpa é da mulher. Porque ela abriu as pernas. Porque ela deixou o cara gozar dentro. Era função dela estabelecer um limite. Afinal, os homens são assim mesmo! Não se pode exigir responsabilidade deles também. Eles só querem espalhar sua sementinha. (cara, se eu fosse homem, ficaria ofendidíssimo com uma idéia dessas. Como é que nenhum homem reclama disso?). Se é mãe solteira, a mulher é considerada puta. Ou uma papadora de pensão. Já o cara que não assumiu ou não é presente na vida do filho? Está só agindo de acordo com a sua natureza. Afinal, como diria Daft Punk Bloodhound gang (é verdade, obrigada pela correção, Srta T!): you and me, baby, ain’t nothing but mammals.

Enfim, eu poderia continuar citando exemplos a tarde toda. Nos países onde vigora a Sharia, então… É célebre o caso do cara que traiu a mulher e a pena recebida foi que SUA IRMÃ seria estuprada. A irmã, que nada tinha a ver com a história! E não adiantou a comunidade internacional intervir. O mais engraçado é que nós só nos surpreendemos com as histórias deles. Da galera da Sharia. Não percebemos que  os fundamentalistas islâmicos não estão tão distantes da gente quanto se pensa. Eles só levam ao extremo uma cultura que também existe entre nós.

Então, da próxima vez que alguma merda acontecer, já sabe: não precisa se desesperar. Foi assaltado, perdeu o emprego, bateu com o dedão no batente da porta? Aponte para a mulher mais próxima e bote a culpa nela. Alguma coisa ela deve ter feito, oras. Estamos aqui para isso.

17 comentários

  1. Claro! Porque “o homem pode nao saber porque esta batendo, mas a mulher sabe porque esta apanhando!”

    Ja dizia Nelson Rodrigues.


  2. Essa história da Courtney teve essa repercussão porque o pai dela participou de um documentário, dizendo que acreditava que ela estava envolvida na morte do Kurt. Um pai bacanão, daqueles que abandona a filha quando criança e tenta pegar carona na fama dela quando ela consegue o sucesso. Enfim, deram crédito pro discurso do cuzão, não sei porque. Ah, eu gosto de Nirvana, e de Hole…hehe.

    Mas ó, uma coisa que eu fiquei pensando, quando você diz da personagem da Reese perdoar o Sebastian no “Segundas Intenções”: eu pensava como você, que seria imperdoável. Aí vi aquele Globo Repórter sobre violência contra a mulher, e uma moça que havia largado o marido que lhe batia disse que o amor não acabava em um soco. Disse que achava difícil perdoá-lo, mas não descartava a possibilidade. E o cara parecia realmente arrependido, se propôs a fazer tratamento psicológico e tal. Aí fiquei pensando: será que realmente o cara pode mudar? E hoje acho que pode haver uma chance. Ou melhor, gosto de achar. Vai saber. Ah, e a cena que me marcou no final do filme nem foi essa da foto que você citou (nem lembro dela, pra falar a verdade): foi a do crucifixo da menina se abrindo, e caindo um tantão de cocaína de dentro. Achei a cena bem boa, mas o filme é lixão.

    Sobre culparem a mãe da menina grávida, comentei no outro post. Também acho que a carga sobre as mães é demais, é injusta. E esse lance dos homens manipulados, de não serem tão penalizados quanto às mulheres numa gravidez indesejada, por exemplo, volta no que já falamos por aqui: que homem é esse, tão idiota, manipulável e primitivo, incapaz de raciocinar logicamente?

    Sharia e afins: extremo dos extremos. Concordo que nossa cultura não é lá das mellhores (longe de ser, aliás), mas isso vai além, MUITO além. É a violência institucionalizada, abençoada por deus (que deus é esse?), pregada como religião. Nesse caso, acho que é obrigação do ocidente, um pouco mais “avançado”, repudiar essa cultura. Estamos longe do ideal, mas ainda assim, melhores do que os países que ainda penalizam mulheres com apedreamento e estupro.

    (por fim, a parte chata: esse refrão é de uma música do Bloodhound Gang, não do Daft Punk. E a música, creio eu, se chama “Bad Touch”.)


  3. E digo mais (eu que já comentei uma caralhada, eita):

    Num programinha especial sobre feminismo que a MTV EUA fez, há muuuuuuuuuuuito tempo (uns 10 anos, no mínimo… eu ainda era aborrescente de cabeça raspada), a Courtney foi entrevistada. Falouo mais ou menos isso: “Então se eu entro em um bar vestindo um biquíni, eu mereço ser estuprada? É claro, é certo, é óbvio que não. Quem diz o contrário pode ir se foder.”.

    E veja se a Frances Bean Cobain sai em revistas. Veja se os papparazzi a perseguem. A Courtney, mesmo sendo uma porra louca, nunca usou a filha pra se promover. Pelo contrário, sempre protegeu a menina. Enquanto isso, Xuxa e outros bastiões da moral e dos bons costumes vendem foto dos filhos pra Caras, Contigos e revistecas afins. Francamente.

    (agora parei com a verborragia, juro)


  4. oi marje, não sei se vou poder ir à discussão do killing us softly, mas vou divulgar pro pessoal que eu conheço, ok?


  5. O cristianismo soube como ninguém fazer isso: a culpa de todo mal no mundo, da expulsão do paraíso e do sofrimento humano é da mulher. Nossa máxima culpa.


  6. quando comecei a ler o texto, ia citar exatamente o caso da Yoko, mas vc já fez isso. mas a verdadeira culpada não foi a Yoko, foi a Eva!!!! ahahaha

    a propósito, vou te linkar, ok? seu blog é ótimo, parabéns!


  7. Hei Marjorie!
    Uai, vc esqueceu o exemplo mais clássico, o livro básico do judaismo, do islamismo e do cristianismo: o velho testamento conta que, por CULPA de Eva, Adão comeu a maça. O pobre coitado do Adão jamais se atreveria a tocar na árvore da sabedoria se não fosse a sem vergonha da Eva. Viu!? É por isso que estamos pagando até hoje! Por isso que padre não pode casar! rsrsrs… bjos.


  8. Ola, finalmente mandei minhas fotos pro fantastico, e postei no meu blog tambem. Estou pagando um mico, mas elas estao la. Se vc puder dar uma olhadinha, eh http://www.baxt.net/blog/2009/03/20/cartinha-pro-fantastico/

    bjs!


  9. sobre a história da sementinha, eu sempre reclamei sim (minha mae vive falando isso). Sempre senti que é uma tentativa de…err…”animalizaçao” Nós homens também sofremos com estereótipos, pre-conceitos e babaquices em geral :)

    (e voltando ä Tetê, sou só eu que acha a Johanna Newson a Tete Espíndola Indie?)

    beijo.


  10. Barbara — Ora, é claaaro que a gente sabe por que tá apanhando! Porque a sociedade aprova veladamente, uai. Toda vez que a gente ousa agir diferentemente de um capacho, é isso o que acontece. Física ou simbolicamente.

    …Essa frase do capacho, se não me engano, é da Gloria Steinem — mas, ei, eu acabo de chamar Bloodhound gang de Daft Punk, posso estar completamente equivocada, rs!

    OBS: Adorei as suas fotos no museu. A do avião está muito fofa! Estou com dor de cotovelo da sua fotogenia.

    Srta — Odeio Nirvana, adoro Hole. E Pearl Jam. E Soundgarden. E Silverchair. Enfim, eu gosto dos grunges quase todos, menos do Nirvana. Não me desce. E acho que a morte do Kurt foi a melhor coisa que poderia acontecer para o Dave Grohl, claro.

    Pois é, eu nem culpo tanto a personagem da Reese. Seria bonitinho se eles terminassem juntos e tal — a morte foi meio forçada, achei. O engraçado foi terem colocado logo a Buffy nessa posição de “é a única culpada porque é puta”. Porque, pô, é a Buffy. A personagem mais kick ass (alguns acham que é mei’ feminista, não sei se chega a tanto) dos anos 1990. Fazendo o total oposto no filme. Enfim.

    Sobre Sharia: sim, estamos muito, muito melhores, sem dúvida. Mas acho curioso ver que, na raiz, é o mesmíssimo mito. É misoginia hardcore ou softcore, mas no fim é tudo misoginia.

    E sobre a Frances: verdade! Nunca vi a menina em lugar algum. Ela poderia ter virado uma Paris Hilton da vida. No entanto, não. A Courtney pode ser porra louca, mas proteger a filha ela soube.

    Carol — que pena que vc nao vai poder ir! Mas obrigada por ajudar a divulgar! O horário é meio complicado, tenho medo do auditório ficar às moscas.

    Ashen Lady, Lauren e Fidelis — eu ia citar a Eva, mas já falei sobre ela no texto da rosa… Aí, para não ficar repetitivo, deixei de lado. Mas sim, ela é o primeiro e maior exemplo! Tudo começa com Eva, a lambisgóia que entuchou a maçã goela abaixo no Adão, com a serpente servindo de bondage.

    (Para Lauren: obrigada pelo link!)

    Fernando — ah, é que você é um chuchu, tá acima da média! Hahaha

    (Não sei quem é Johanna Newson. Vou jogar aqui no Soulseek).


  11. Minha fotogenia, Marjorie? Acredite, a grama do vizinho eh sempre mais verde! Achei que estou papuda, bracuda e com cara de boba nas fotos, e achei as suas bem melhores. :)

    (o que provavelmente significa que nos duas estamos sendo criticas demais com nossas proprias fotos, hehehe)

    ps: Recebi uma resposta automatica do Fantastico, duvido que eles tenham mesmo se dado ao trabalho de ler! ;)


  12. Vixi, não acompanhei Buffy, nadinha. Tenho implicância com a Sarah ahkajhskjh Geller, assumo… mas não lembro o suficiente sobre o filme, só que ela era a vilãzinha morena e a Reese, a mocinha loira. Só isso já me incomodou. Blé.

    Meio nadavê com o post, mas olha só: tava aqui pensando naquela questão da caastração para criminosos sexuais e “Laranja Mecânica” me veio à cabeça. É muita viagem?
    Acho que o Kubrick deve tá dando tapões na própria testa de dentro do seu caixão.


  13. É, vc só esqueceu (como de costume!) de dizer que o filme Segundas Intenções é uma das versões do romance epistolar Les Liaisons Dangereuse do francês Choderlos de Laclos e foi escrito no séc XVIII às vésperas da Revolução Francesa e está, portanto está atrelado a todo um contexto. Através das personagens, a questão do “ser” e “parecer” é explicitada de forma a refletir o momento pelo qual aquela sociedade passa.

    Sua visão é totalmente diacrônica e oriunda de uma falta de informação e cultura sem par.


  14. Bem, Sofia, creio que a maioria dos espectadores não tenha essa referência. Logo, minha ignorância não tem nada de “sem par”. Mas obrigada pela informação.

    De todo modo, vários filmes são baseados em livros e, nem por isso, é preciso tê-los lido para poder interpretá-los. Fosse assim, “Segundas Intenções” não teria sido um sucesso de bilheteria. Afinal, quantas das milhões de pessoas que viram o filme leram Les Liaisons Dangereuse? Eu falei aqui da interpretação que eu fiz do filme, ao vê-lo. E a minha interpretação é tão válida quanto a de qualquer outra pessoa.

    Da próxima vez, tente não cuspir tanta arrogância, chuchu.


  15. eu gosto de Nirvana e…não gosto de Segundas Intenções, haha :P

    mas, compreendi totalmente sua mensagem. No final das contas, as pessoas sempre culpam as mulheres mesmo. É até estranho, né? Porque, analisando assim, nós somos altamente superestimadas e ao mesmo tempo, subestimadas pelas mesmas pessoas!

    uma coisa que me marca bastante foi isso que você falou dos filhos. A quantidade de pais do sexo masculino que não estão nem aí pro filho é ENORME, mas, as pessoas sempre tem uma visão negativa de mãe solteira. Por quê hein? A culpa do relacionamento ter dado errado é só dela, e oi? O certo seria aplaudir porque alguém, tá sendo financeiramente e sentimentalmente um pai e mãe para uma criança.


  16. [...] quando eu escrevo ISTO, vem mané comentar que estou exagerando ou sendo [...]


  17. cara despois de ler aqui nem penso mais em falar da injustiça que sofremos no mundo de hoje. Vc ja disse tudo. E sabe o que mais?( uma futura historiadora falando) até mesmo na antiguidade amulher tinha esse stigma. Não foi só Eva quem recebeu a culpa, mas Pandora tb. As vezes fico na duvida se acredito nas sociedades matriarcais…



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