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Assvertising: criança, a alma do negócio

Abril 29, 2009

(Esta aí é a parte 2. Veja as outras partes: 1, 3, 4, 5. Vale muito a pena).

…E eu adquiri um novo sonho de consumo depois de assistir a este documentário: uma laqueadura.

32 comentários

  1. Marjorie,

    Putz, que tapa na cara!
    Sou mãe de duas meninas, de 8 e 14 anos, posso dizer que não dou tudo o que querem, explico meus limites (inclusive financeiros), mas ainda assim, tive que vestir a carapuça.

    A gente só percebe certos comportamentos quando os vemos, não quando atuamos neles.
    É difícil pra caralho.
    A última colocação sobre o sentimento de pertencer é terrível e a gente tenta ajudar os filhos a pertencer, muitas vezes sem questionar se isso é bom ou ruim, sempre buscando o que se acha que é o melhor para eles.

    Posso garantir que não acertamos sempre. Mas que tentamos, tentamos.


  2. Só tem uma coisa a ser dita: MEDO.

    Minha parte preferida (se é que alguma parte desse terror pode ser chamada de “preferida”) é quando falam dos comerciais de cerveja.

    E olha, ainda bem que não conheço nenhuma criança desse tipo (e olha que vivo rodeada delas), porque já estou quase cansada de me preocupar com as palhaçadas desse planeta – tá me fazendo mal.

    Ótimo post, Marjorie. Sou sua fã :)


  3. Fiquei chocada, reforcou ainda mais minha decisão de não ter filhos, tá difícil de lidar com tudo isso.
    Ótimo post. Ótimo documentário, coloquei no meu blog os vídeos também, pois vale à pena divulgar, e coloquei o link pro seu blog.

    Beijo


  4. Eu vi o video 2, ainda nao vi os outros. E acho que se existe alguma culpa de alguma coisa alí, essa culpa nao é das criancas. Porque, primeiro: o mundo ocidental e capitalista e bla bla bla é assim, logo, eles estao adaptados ao meio. E ainda nao tem massa crítica pra questionar, quem sabe quando cheguem a adolescencia…

    E, segundo, eu acredito mesmo que a “criacao”, a influencia dos pais na vida da crianca pode ajudar muito na formacao desta visao crítica de mundo, né? Deve dar um trabalho danado fazer isso e lutar contra a maré… como a Marie mesmo comentou antes.

    E se as pessoas que tem uma ideia diferente de mundo nao querem ter filhos, aí a o destino do mundo é cair no Idiocracy mesmo…


  5. Marie – pois é, é dificílimo para os pais nadar contra a corrente. Primeiro, porque eles não têm como ver muita coisa, segundo porque ninguém quer ser o pai chato que proíbe tudo. E, numa certa idade, não dá para explicar para a criança que isso faz mal para ela, porque ela não vai entender. Ela ainda não tem maturidade e vai querer ser como os amiguinhos, cujos pais ou tb não percebem ou não tão nem aí.

    Enfim. Você vai tentar fazer do seu filho uma pessoa bacana, mas vai ter mil correntes na direção contrária (a escola, a publicidade, os amiguinhos… Enfim, o capitalismo e o patriarcado vão querer sugar seu filho. E aí, como faz?).

    Mel – Eu fiquei muito triste com a parte da maquiagem e roupas. Das meninas já sendo ensinadas desde cedo a se restringir e reprimir. A menininha de… o quê, seis anos no máximo?… dizendo “gosto desse sapato porque me faz parecer mais alta” acabou comigo. Ou a professora dizendo que as meninas não conseguem correr por causa das sandalinhas de salto. Cara, isso acaba com o humor da gente.

    Luciana – pois é, também não tenho a MENOR vontade de ter filhos. Nunca tive, nem pensando num futuro distante. Gosto de ler e discutir coisas relacionadas à infância e maternidade, mas pelo viés feminista, não por aspiração pessoal. Afinal, eu não quero ter filhos mas tem gente que quer — e é importante que as coisas sejam justas para elas.

    …E ver documentários assim, que mostram o quanto as crianças já são doutrinadas desde a mais tenra idade (e os pais não podem fazer muita coisa) só reforça a minha não-vontade de ter filho um dia. Porque é uma luta gigantesca, né? Dá desânimo de entrar nela.

    Alessandra — É claro que a culpa não é das crianças. Ninguém disse que era. O documentário é muito claro em culpar a publicidade — ou melhor: a falta de proibição da publicidade para crianças no Brasil, ao contrário do que ocorre em vários outros países. Afinal, estando liberado, a publicidade vai ser predatória mesmo, não tem jeito. Coloquei a parte 2 porque achei a mais interessante, mas você deve assistir o doc inteiro para entender tudo. É muito bom mesmo.

    Sobre o Idiocracy: eu ainda tenho de escrever sobre esse filme, mas vivo procrastinando. Tem tanta coisa errada com ele. Primeiro, pela idéia completamente zoada do que seja a seleção natural. Segundo, porque encara a burrice e a alienação como se fossem exclusivsmente uma herança genética, não o resultado de uma estrutura econômica e cultural que fomenta a alienação.

    (Fora todo o racismo e elitismo do filme, né? Reparou que a língua burra do futuro está cheia de gírias do Hip Hop? Que o presidente é negro e canta rap? Que, no começo, as famílias “erradas” que se reproduzem são pobres e é o casal rico que deixa de se reproduzir? Cara, esse filme é um prato cheio de preconceitos…)

    Pelamordedeus, eu não posso culpar as pessoas críticas por não terem filhos, deixando assim de “fazer o seu trabalho de formiguinha para mudar o mundo”. Eu tenho é de protestar contra a estrutura que faz com que a maioria não tenha senso crítico.


  6. Eu gostei bastante do documentário, mas achei um pouco pretensioso. O vídeo vitimiza os pais e coloca a propaganda como única vilã da história.

    Lembro-me que na década de 80/90 as propagandas para crianças eram tão massivas e até mais agressivas que as de hoje (lembra do “eu tenho, você não tem?”). No entanto, meus pais sempre me ensinaram a dar valor as coisas e nunca me davam presentes fora das datas festivas (aniversário, dia das crianças e natal). Eu tinha que ter muuuito critério para escolher o famigerado brinquedo e, com isso, aproveita-lo ao máximo.

    Não vou cair na besteira de dizer que do jeito que fui criada era o certo e perfeito. Até porque, eu ainda não estive do “outro lado” para saber das dificuldades que é ser responsável por um ser que ainda não tem muita noção de mundo. Mas o fato é que criança não trabalha. Um pouquinho mais de autoridade na hora de dizer NÃO não vai gerar filho problemático. Sou sim a favor de regulamentação e bom senso dos fabricantes, da mídia e principalmente da propaganda. Mas isso sozinho não vai resolver esses problemas se nós, os adultos, fomos escravos da fútilidade e do consumismo. O buraco é mais embaixo.


  7. Esse documentário é muito assustador! Para mim, a parte mais chocante é a que mostra que as crianças não quererem mais brincar. Os brinquedos que elas pedem aos montes são só mais um item de consumo, assim como o celular, as roupas, a maquiagem etc.

    O “abandono” precoce da infância provavelmente é um dos responsáveis por adultos imaturos, que se comportam feito crianças mimadas.

    Ah! Para quem preferir, o documentário inteiro está reproduzido no site do Projeto Criança e Consumo: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=8&pid=40


  8. Responda sinceramente:

    Você acha que algum rapaz irá mostrar sua indignação ao ver esse documentário? Afinal, não vi nenhuma vez alguém ser apresentado como pai no documentário inteiro. Estariam de maneira subliminar dizendo que os pais não amam os filhos, sendo esses amados somente pela mãe? Que o homem não se importa com as outras pessoas, nem mesmo com um filho? E sendo assim é uma ameaça pra humanidade? Perceba, as mulheres querem acabar com a reputação dos homens, igual você diz que fazemos com vocês!

    Parece absurdo, bobear você até está rindo, isso se não foi pro seu chamado limbo. Mas se você parar pra perceber, é assim que você redige seus posts aqui. Acha um pelo no ovo e transforma isso em um caos generalizado.

    Obs.: Muito bom o documentário, vou mandar para uns conhecidos.


  9. Marjorie,

    Como a Marie, eu tenho duas filhas, de 8 e 10 anos. E acredito que antes de a culpa ser da publicidade, é dos pais, sim. Minha avó já dizia que educar é, em suma, dizer “não”. E que criança é o ser de mais bom senso do planeta – inclusive para ver como é fácil manipular os pais.

    Na escola das meninas as garotas vão de tamanquinho de salto, apesar de a escola proibir; maquiadas; unhas pintadas; as que ficam no integral tomam banho e se produzem como a maioria das mulheres adultas não o fazem, com roupas tão elaboradas que invariavelmente chegam atrasadas para o jantar. Minha mais velha veio me dizer que uma amiga disse a ela que as roupas que eu mando na mochila (camisetas de algodão, shorts, vestidinhos de malha ou calça jeans) não são “populares”.

    Os meninos – alguns mais altos do que eu – saem da escola à frente, conversando com os amigos enquanto o séquito de empregadas domésticas se arrasta atrás, carregadas de mochilas, material esportivo (incluindo as chuteiras de R$ 400 o par), cadernos e o que mais os pimpolhos levam para o colégio (incluindo seus iPods e celulares).

    Desde cedo as meninas aprenderam que terão a vida inteira para pintar o cabelo, fazer as unhas, usar salto. E que agora elas são crianças. E que o dinheiro da mamãe acaba. Se gastar R$ 200 numa calça de shopping vamos a pé para a escola, my dear. Questão de sobrevivência – sinto muito. Se elas me enchem o saco? Todo o dia. E a resposta é uma só: não.

    Brinquedos só no Natal – e é Papai Noel quem traz que é para não achar que quebrou, mamãe compra outro (Papai Noel está incomunicável e não dá repeteco de presente). Dia da Criança ganham coisas para crianças – um vídeo legal, uma roupa mais transadinha, um tênis colorido, um passeio mais comprido (ano passado passeamos um fim de semana em Paquetá). E elas são felizes.

    A publicidade influencia, ao meu ver, porque é tão fácil deixar a criança na frente da TV, ela própria ditar o que vai se comprar, dizer “sim” pra não se aborrecer. Eu me aborreço todo dia. Mas faz parte, paciência.


  10. Carol;

    Eu fui criada assim; no aniversário ganhava UM presente – e me lembro com carinho o primeiro de que tenho lembrança: um boneco Feijãozinho cor-de-rosa. Mas seus pais (como os meus) souberam dizer “não”, e é isso que eu aplico com as meninas.


  11. Eu sempre tenho minhas ressalvas em relação a documentários. São quase sempre muito imparciais e construídos para darem a entender que o que estão falando é definitivo.

    O fato é que ele é muito condescendente com os pais. Tem poucos argumentos aí contra os pais, necessariamente — eu mesmo só consigo lembrar da mãe que diz que dá o presente para suprir a ausência –, num mar de argumentos contra a publicidade. Diz ainda que a publicidade tenta colocar as crianças contra os pais. Não estou negando. Mas é passar a mão na cabeça do pai que satisfaz o desejo consumista do filho por não querer ser por ele visto como vilão.

    Eu sinceramente não sei se com a regulamentação da propaganda dirigida às crianças o consumo iria diminuir. Porque não existe, nessa regulamentação, a previsão de ensinamento aos pais sobre como lidar com os desejos imediatistas que seus filhos têm. Talvez, sim, diminua o apelo por mil coisas diferentes na mesma hora. Mas as crianças convivem com crianças, e serão crianças, imaturas, inexperientes, e logo vão querer o que o amiguinho tem, também. No fundo, em que isso muda? Nada. Porque já existe um mercado tão diversificado que é dirigido às crianças que ele provavelmente se sustentaria sozinho com publicidade restrita. Não há no documentário um fato sequer sobre os países com legislação nesse sentido que indique que lá, ao contrário de cá, o consumo infantil não é desenfreado. Aliás, a julgar pelos programas e filmes americanos que vejo, creio não existir fato para contar mesmo. É igual.

    Veja bem. Eu não quero expiar a publicidade. Especialmente a publicidade dirigida às crianças. Mas o pensamento tem de ir um pouco além da própria publicidade. Que vá à família — que eu acho que também não é o ponto, mas que poderia trazer alguns resultados substantivos. Macular a publicidade por si só, sem questionar o mercado que controla essa publicidade, a falta de controle desse mercado, a quem ele serve e que interesses ele tem, é validar este mercado.

    Achei, sinceramente, um documentário sensacionalista. E sem um propósito verdadeiro e realmente útil. Tenho uma irmã de nove anos em casa, sei bem o que acontece, ela já tem o seu segundo celular, bonecas com que não brinca, infinitas roupas e sapatos e tal. Mas não acho que desligar a Nickelodeon e toda a sua porrada de comerciais vai aliviar alguma coisa, neste ponto em que estamos.


  12. “…E eu adquiri um novo sonho de consumo depois de assistir a este documentário: uma laqueadura.”
    Hauhauahaua,ri muito quando li isso.
    Agora falando sério,o vídeo me deu medo,não que tenha me surpreendido,mas ainda assim deu medo.
    Eu não vou ser hipócrita e dizer que quando eu era criança (anos 90) era uma maravilha,mas meu Deus,como mudou.
    Quando eu era criança,as crianças eram sim consumistas,mas existiam outras coisas.As crianças brincavam na rua,e nunca (pelo menos não me lembro de ter acontecido comigo ou de eu ter presenciado)excluiam uma outra crinça por não ter o brinquedo tal.E o ímpeto consumista era por brinquedos mesmo,não celulares!
    No fundo eu sinto pena dessas crianças.
    Meu instinto maternal é quase nulo mas nas raras vezes em que eu penso em ter filhos eu desisto imediatamente da idéia só de pensar nas crianças de hoje em dia.


  13. Ahh esqueci de dizer,quando eu não brincava mais com um brinquedo,minha mãe doava pra caridade.


  14. O que eu acho mais interessante, durante todo o documentário, é como ele é, ele próprio, uma peça de publicidade. Anti-publicidade, mas, ainda assim, publicidade. Além de só contar com pessoas que partilham da mesma opinião que o tal idealizador do filme — não existe uma opinião contrária sequer durante todo o documentário, e eu duvido muito que o mundo inteiro seja essa pretensa unanimidade –, todos os clichês da propaganda estão lá. Mães (nunca pais) demonstrando preocupação com o que é melhor para seus filhos; médicos (cercados de livros) dando o atestado de que a comida da propaganda só faz mal; professores (na sala de aula) dando seu testemunho sensível de como as crianças são hoje em dia, e de que o são por causa da propaganda; sociólogos, dados, estatísticas, que conferem verdade científica à ideia propagada pelo documentário.

    Eu tenho muitos pontos contra a publicidade. Mas não acho que esse é o jeito certo de atacá-la.


  15. Excelente, muito obrigada pela recomendação. Só achei que eles poderiam ter falado mais sobre o comportamento dos pais nisso tudo. Vendo o documentário, fica fácil dizer: “Ah, é tudo culpa da propaganda. Meu filho nunca mais assiste tv”, e ficar por isso mesmo. Acho que deveria existir um documentário ensinando os pais a serem ativos na vida dos filhos, a fazê-los se interessar por outras coisas que não tv/computador/consumo. Porque é como a mulher entrevistada disse: a gente tá cansado, manda o filho ver tv. Na minha opinião, eles não focaram a culpa dos pais nisso tudo. Tenho a mesma opinião que uma vez você escreveu aqui: deveria existir um vestibular fuvest para quem quer ser pai. Ou, pelo menos, alguns programas educativos para os ADULTOS ao invés de alguma das 4 novelas do horário nobre… Mas, enfim. O documentário é ótimo para abrir os olhos dos desatentos. Mandou bem. Adoro seu blog, abraço!


  16. Carol Antunes — Eu não acho que o documentário colocou a propaganda como a única vilã da história. Sim, ele pôs MUITA ênfase na propaganda e não falou quase nada sobre o papel dos pais. Mas, pelo menos quando eu assisti, senti que todas as falas dos pais revelavam uma certa fraqueza (sobre esta fraqueza, leia o comentário que deixei para a Blanca, abaixo). Então, embora não tenha sido dada a ênfase necessária à responsabilidade dos pais, não se pode dizer que isso não foi abordado at all.

    Concordo com você que a regulamentação da propaganda não vai resolver essa questão. No entanto, embora não resolva, já ajuda um bom tanto. O fim das propagandas p/ crianças não acabaria com o consumismo infantil, afinal não é só pela propaganda que as crianças absorvem este valor — ele se reflete em diversas outras situações. Mas pelo menos freiaria um pouco essa tendência, eliminando um foco bastante significativo de “doutrinação”.

    Eu também cresci nos anos 80/90 — e gostava bastante de televisão quando era pequena. Mas, na minha época (heh, quem vê pensa que eu sou velha), não rolava esse consumismo entre as crianças. Pelo menos não desse jeito. Sinto que as propagandas daquela época já tinham um embrião disso, mas não era tão forte. Outra é que a TV por assinatura não era tão difundida (pelo menos não na minha classe, a média-baixa). Então não tínhamos um canal só para criança, que passasse só desenho (e propaganda) o dia inteiro. Então, quando acabavam os desenhos de manhã, na TV aberta, a gente ia brincar.

    Para terminar: eu não acho que o fato de eu ter sido menos consumista do que as crianças de hoje tenha a ver SÓ com a criação que os MEUS pais me deram. Porque as outras crianças da minha vizinhança também não eram desse jeito. O nosso “gatekeeper” ainda era a habilidade para jogar queimada e não o modelo de celular (ou de qualquer outra coisa) que cada um tinha. A atuação dos pais só vai até certo ponto. A outra metade a criança aprende fora de casa, com os colegas. Então não adianta o pai se esmerar para cacete para formar uma criança crítica, se há N outros lugares onde a mensagem é contrária, fica difícil.

    Aécio – Sim, é uma bosta que apareçam muito mais mães do que pais neste documentário — fica parecendo que só as mães se importam ou que só as mães DEVERIAM se importar com o que os filhos estão aprendendo. Só aparece um único pai no documentário inteiro. E isso reflete um valor MACHISTA, que é a idéia de que cuidar dos filhos é uma jurisdição exclusivamente feminina — portanto, os homens deveriam ser apenas provedores.

    Sobre o resto do teu comentário, deixa eu ver se entendi: vc tá querendo me atacar pelas falhas de um documentário QUE NÃO FUI EU QUE FIZ? Eu só linkei o doc, meu filho, pois acho que ele aborda uma questão que vale a pena ser pensada e discutida. Nunca disse que era um doc. perfeito, sem falhas — até pq isso não existe.

    Por fim, se vc acha que todos os meus posts só fazem achar pêlo em ovo, então eu te pergunto: o que raios vc está fazendo aqui? Vc não é obrigado a ler o blog se não gosta dele. Vá para onde lhe agradar, uai.

    Suzana — ei, vc recebeu meu email???

    Então, como disse para a Camila, os pais têm, obviamente, sua parcela de culpa neste processo. Mas a atuação dos pais só vai até certo ponto. Vc pode dizer não para um monte de coisas, pode não presentear a criança com uma tonelada de coisas. Mas até que ponto isso impede a absorção do consumismo como um VALOR?

    Pq o que me preocupa neste doc. é isso: a questão do consumismo como VALOR. Até que ponto os pais conseguem passar para a criança que ela não é a sua roupa, o seu celular, o seu carro? Que o valor dela não advém disso? Que comprar não é tão importante? É muito difícil fazer isso — e eu acho que ser bem sucedido é, em certa medida, uma questão de sorte. Porque essa mensagem está em todo lugar.

    Victor – Teu comentário é muito pertinente, mas a gente sempre tem de pensar que documentários são RECORTES. É como uma reportagem. Ela NUNCA vai abordar uma questão por todos os lados necessários — pq não dá, não cabe no formato. Se falasse de tudo em detalhe, o doc ficaria longo demais. Poderiam ter falado mais dos pais, sem dúvida — isso é uma falha grande. Mas se fossem falar em detalhe da publicidade, dos pais e do mercado… Haja rolo, héin! Enfim, o máximo que uma boa reportagem (ou um bom documentário) pode fazer é jogar a bola para vc pensar além. Claro, se vc for fazer uma série de docs ou uma série de reportagens, aí dá para aprofundar. Mas, pelo visto, este é um doc filho único. Então tem que escolher um recorte mesmo. Não tem jeito. Aqui, escolheram a publicidade. Mas eu não vejo o doc tentando dizer que a publicidade é a única culpada. Não vejo mesmo.

    Sobre os pais: minha resposta para a Camila (acima) serve para vc tb. Lê lá. Pelo menos deu para perceber que rola uma certa fraqueza por parte dos pais — assim como tb dá para perceber que, por trás de tudo, há um mercado predatório (e é ele quem contrata e aprova as peças publicitárias). As mensagens sobre os pais e o mercado estão nas entrelinhas.

    Agora, cabe perguntarmo-nos de onde vem essa fraqueza dos pais. Pq ela tb é uma tendência coletiva, pelo visto. Não é algo individual. Então, só dizer “olha só que pai frouxo” não adianta nada. (Leia o comentário que deixei para a Blanca, abaixo).

    Não sei se o mercado infantil se sustentaria igualmente, mesmo com a publicidade restrita. Pode ser que sim. Vc tem toda a razão ao dizer que o doc falha ao não apontar se as restrições funcionaram ou não nos outros países (ei, Paola, se estiver lendo isto aqui, diz aí: como rola a coisa na Suécia?). Mas eu ainda acho que temos de testar a restrição da publicidade AQUI, para saber ao certo. E, olha, eu defendo a restrição até por uma questão de ética. Pode não adiantar o tanto que esperávamos, mas é questão ética a publicidade não cair matando em cima das crianças, que não têm como discernir direito. São muito influenciáveis.

    Raiza – como outra criança dos anos 90, só posso concordar. Já tinha um embrião disso aí, mas, puta que pariu, como a coisa se agravou em tão pouco tempo.

    Victor, de novo — sobre a ausência dos pais, já falei para o Aécio.

    Sobre o médico, o professor e o sociólogo: com quem vc falaria, então, se tivesse de fazer um doc com este recorte? Não vejo problema nenhum em se falar com professor, médico, pedagogo e sociólogo. Ora, não tem como fugir disso. Vai falar com quem? Com engenheiro, que não tem nada a ver com isso?

    Também não acho que sempre tem que dar o outro lado em TUDO. Essa é uma das críticas que mais me irritam. Porque, ora, o que o publicitário iria dizer? É a lógica da profissão dele, uai! É a lógica do mercado! Ele vai, obviamente, se esquivar. Pq se vai perder tempo com alguém que vai falar o óbvio, se vc pode usar esse tempo para aprofundar o argumento que vc quer apresentar no teu doc (cuja duração é restrita)? Ora, o doc é sempre uma dissertação: apresenta-se lados contrários se o autor achar que deve. Não é uma obrigação.

    E repito: documentários são sempre recortes. Este é o recorte que se escolheu fazer. Não dá para falar de tudo, infelizmente. Senão não é documentário, é tese.

    Blanca – Pois é. Eu tento me colocar no lugar desses pais, sabe? Não é só a propaganda, é todo um ideário capitalista. É toda a idéia de que seu valor vem do que vc consome e de que vc precisa ser competitivo no mercado.

    O pai, exposto a esta cultura, tem de trabalhar para pôr o filho numa escola particular, pagar aulas de inglês, etc. Então, trabalha pelo menos 8 horas por dia. Com a hora de almoço, nove. Mais uma ou duas horas no trânsito e pronto: quase não passa tempo com o filho durante os dias úteis. Mas, fazer o quê? Ele tem de trabalhar para bancar as coisas que ele acredita que ele e seu filho devem ter.

    O filho, então, tem pouco contato com o pai e muito mais contato com os coleguinhas da escola e do inglês — o que confere importância extra ao peer pressure.

    Se pegarmos uma família de classe média, a babá geralmente é empregada, ao mesmo tempo. A babá/empregada, como tem de limpar a casa, não tem como prestar atenção na criança o tempo todo e deixa-a na frente da TV. Se pensarmos em um lar pobre, a TV então é a única fonte de informação. E aí vêm a porrada de propagandas que refletem um mercado predatório.

    Quando o pai chega em casa, ele está cansado demais para brincar com o filho. E se ressente de não ter tempo para ele (mas, de novo, fazer o quê? Tem de trabalhar!). Então, quando o filho lhe pede algo com aqueles olhinhos que só as crianças sabem fazer, é óbvio que o pai quer agradar. Não quer ser chato no pouco tempo que passa com o filho. Então, presenteia. Simples assim.

    Eu não posso demonizar esses pais por serem fracos, sabe? Porque é toda uma espiral que os empurra (ele e os filhos) para o consumismo.


  17. Nossa, a parte do documentário em que eles mostram legumes para as crianças, e elas não sabem o nome dos legumes! É triste. Eu acho mesmo que incluir as crianças nessa parte do dia – cozinhar – é super importante. porque não é forçando que ela vai aprender a gostar de salada ou arroz integral. Sem contar que o momento de cozinhar junto é um tempo que a criança passa com um adulto que gosta, se diverte longe da tv, aprende a cozinhar, e aprende que comida não brota do mercado com a embalagem colorida. (Com reservas – não precisa dar a maior faca nem deixar que ela controle o fogão.) Mesmo fazendo uma mini horta num espacinho apertado, já ensina responsabilidade. e o menino que disse que nunca provou um suco “da fruta”? Breaks my heart. Mas, sei lá, a minha impressão é que os pais também tão vêem uma fruta faz um tempo. Quero dizer, as mães, né. Engraçado que eles entrevistam só mães, mas elas falam muito que são ocupadas, trabalham, não têm tempo, etc. Então. Né. Não é que elas passam o tempo todo em casa. Mas elas ainda são as representantes da família nessas “questões domésticas”.


  18. Também senti muita tristeza… A primeira reaçao foi a de querer mandar imediatamente pra todas as amigas-maes, irmas-maes… Sò as maes. Nao pensei instantaneamente em amigos-pais. Depois fui lendo os comentarios e me envergonhei pelo lugar-comum-machista tao evidente em minha reaçao instintiva.

    Falando em instinto… Eu nunca soube o porque de nao querer ser mae quando era mais jovem e nem sei bem direito porque quero ser mae agora, mas uma coisa é certa: um documentario assim me dà mais vontade ainda. Muito doido isso.

    Um trabalho semelhante feito aqui na Italia, com analise da relaçao entre pais e filhos, que classificava o comportamento atual de muitas crianças como “tirania infantil” traz, de uma maneira muito mais abrangente, nao somente o aspecto do consumo, mas toda uma gama de atitudes que, segundo os especialistas, advem quase que exclusivamente da ausencia de limites criados pelos pais. Eu concordo com o estudo. Concordo, claro, que todos os seres sao influenciados pelo meio em que vivem, sejam dentro ou fora do ambiente familiar. E entao, limitar a exposiçao à outros meios externos, e suas influencias, também cabe aos pais, nao?

    Nao sou adepta de discursos generalistas e costumo ser ainda mais cuidadosa com assuntos que nao domino, como é o caso da maternidade, mas me vem em mente uma frase de minha mae que tem muita razao: “é de pequenino que se torce o pepino”.


  19. Oi, Marj;

    Sim, recebi e já respondi. Cê não recebeu, não?

    “[...] a questão do consumismo como VALOR. Até que ponto os pais conseguem passar para a criança que ela não é a sua roupa, o seu celular, o seu carro? Que o valor dela não advém disso?”

    Os pais conseguem, sim. Não é uma questão de sorte. É uma questão de educação. Se você optar – como disse Jonathan Kellerman, em “Filhos selvagens” (livro que eu recomendo com força) – pela via mais radical e difícil: conversar. Gastar saliva. Botar em prática. Como eu disse, criança tem, sim, bom senso. Mas a maior parte dos pais não ouve. Conversando com outras mães e pais, o que se escuta mais é “Não faz mal”, “Depois a gente conserta mais adiante”, “Que mal tem passar um gloss pra vir pra escola”, “Tamanquinho é fresco e fácil de botar e tirar”, “Ela é pequena, não entende que dinheiro acaba” e outras barbaridades. E você respondeu à Carol “então não adianta o pai se esmerar para cacete para formar uma criança crítica, se há N outros lugares onde a mensagem é contrária, fica difícil.” Fica difícil mas não impossível. É um trabalho árduo, insano, que se torna quase (quase) impossível quando a criança ruma à adolescência.

    Os próprios pais sabotam a educação dos filhos, não apenas deixando pra lá pra não se aborrecer como dizendo pra criança que não tem dinheiro mas aparecendo com bolsa nova, relógio novo. Tirando o carro da garagem pra dar a volta no quarteirão pra deixar a criança na escola – andar de ônibus para alguns pais é mandar seu filho pra sarjeta. Comendo no McDonald’s no meio da semana porque a criança está impossível. E levando o impossível menino ao pediatra pedindo Ritalin porque o filho “deve ser hiperativo.” Não, ele não é. É mal-educado, mesmo. Sem limites.

    Tem recaídas? Claro. Tem choro, vela, malcriação? Sempre. Por isso que ser pai e mãe é desgastante. Como eu disse, educar é dizer não. Quando você tem dois com temperamentos opostos é uma eterna negociação de paz, onde as punições e prêmios têm que ser equilibrados. A gente envelhece educando uma criança.

    Tenho discutido muito isso com um grupo de professoras e mães. A escola hoje é o lugar onde se educa a criança – quando deveria ser o lugar onde se alfabetiza o menor. Os pais querem que seus filhos aprendam boas maneiras, cidadania, regras de civilidade e conduta na escola. A criança então vai pra casa direto ver novela, programa do Ratinho. “Caminho das Índias” e cama às dez, onze da noite. E no dia seguinte, quando a professora aperta, “cala a boca porque você não é minha mãe.” A escola suspende a criança. E o que ela acha disso?Ótimo: três dias em casa vendo toda a televisão que agüentar, computador da hora que acorda à hora que vai dormir – refeições ali mesmo, obrigado.

    Quando a escola trabalha de forma rígida, todos acham que seu filho é uma exceção. Se a regra diz que não pode objetos caros, o guri perde o iPod e a família quer que a escola pague porque “a mensalidade é altíssima e temos os nossos direitos.” Não, não temos, não. E foi essa brecha que os pais abriram (confundindo liberdade com liberalidade) que o mercado publicitário enxergou – e explora com extrema eficiência.


  20. E quanto a trabalhar, eu não tenho empregada – faço todo o serviço de casa – e trabalho fora das 8h às 18h. Pego as meninas na escola às 18h30m. Elas vão dormir às 21h para acordar às 5h30m. Aproveito para conversar com elas no ônibus, andando pela rua. Escrevo cartas para as duas, deixo bilhetes nas agendas e estojos. Acompanho os horários das aulas para dar uma ligada para a escola, pelo menos uma vez por semana, para dar uma palavrinha com elas. As duas ligam a cobrar para o meu celular.

    É sacrifício, Marjorie. Mas é um que vale muito a pena quando você de dispõe realmente a ser pai e mãe que educam.


  21. Sobre consumismo, eu fui crianca nos anos 80, e estudei numa escola de criancas “ricas”. Eu era a unica que nunca tinha ido a Disney, que nao tinha mochila da Company, que nao comprava roupas nas lojas bacanas. Nao era legal, eu me sentia pessima por ser mais “pobre” que os outros. Mas depois entendi que isso nao era tao importante assim.

    Deve ter sido muito dificil pros meus pais falar tanto “nao,” mas eles conseguiram me passar direitinho a ideia de que essas coisas nao eram tao importantes assim. (so lembrando que eu nunca fui pobre – meus amiguinhos eh que eram ricos de verdade)

    Hoje eu vejo MUITA gente dizendo “para ter filho, voce tem que dar o melhor para eles” e da-lhe de passar o dia no trabalho, se matando, deixar a crianca com a baba o dia inteiro, para depois pagar escola e brinquedos carissimos. Claro que ter dinheiro para algumas coisas eh essencial, mas acredito do fundo do meu coracao que o mais importante na vida da crianca eh a atencao dos pais.

    Eu tinha menos coisas do que meus amigos, mas tinha um montao de atencao dos pais, podia contar com eles sempre que tinha algum problema, e acho que foi muito bom.

    Quando tiver filhos, eu nao quero cair na armadilha de achar que preciso de muito dinheiro para cria-los bem. Eu preciso eh ter tempo para eles, energia para educa-los, paciencia, etc. E isso eu nao vou ter se estiver so pensando em ganhar montes de dinheiro e me matando de trabalhar (e eh ai que a publicidade ataca).

    Acho que ficou meio confuso, mas da para entender?


  22. Sensacional o documentário. Eu nem tinha tempo de ver, mas comecei a ver um pedacinho e não consegui parar. Vou tentar linkar amanhã, ao criticar um filme. Mas é muito triste o que é mostrado. Fico feliz de não ter filhos, porque eu sinto que, sinceramente, não teria a menor chance de competir com uma estrutura profissional de manipulação.
    Às vezes falo sobre isso com o maridão: pô, imagina só se a gente tivesse filho (não teremos), a gente que é frugal e até anti-consumista, que não dá a menor bola pra marca, e de repente nossa filha aparecesse querendo uma Barbie! Não acho que haveria escapatória, não. E não existe muita chance dessas crianças, que sofrem lavagem cerebral desde tão cedo, se tornarem seres pensantes e críticos. Que mudar o mundo o quê?! Elas querem é se integrar ao mundo! Os valores dessas crianças serão os mesmos dos comerciais que as educam: machistas, homofóbicos, racistas. Não vejo motivo pra qualquer otimismo.


  23. Amanhã volto pra ler todos os comentários, mas respondendo um após o meu. Isso de deixar de ter filho não tem a ver com o documentário e nem com a influência da propaganda, pessoas resolvem nao ter por diversas razões e pronto. Mas ao ver o quanto sai cara ter filho hoje em dia, reforca mais ainda minha idéia de não ter.

    Me assustei com o documentário, porque lembrei dos filhos e filhas de amigas minhas que já eram assim há um tempo atrás, agora a coisa tá pior. As criancas mal andam e já querem ter celular, computador, playstation 3, maletas e maletas de maquiagem e usam saltos altos. Já via isso, o documentário só me fez recordar e mostrou mais.


  24. Vi todo o documentário, muito bom.


  25. É… Eu como mãe também vesti a carapuça.

    Sempre fui contra o consumismo. Sempre neguei e nego aquilo que meus filhos me pedem, quando noto que não é necessário. Mas no fundo ficava e ainda fico me indagando: Será que agi certo? Será que sou uma boa mãe?
    Uma mãe do documentário disse que às vezes, nós pais, parecemos (e tb nos sentimos?) vilões ao negarmos aquilo que os filhos nos pedem…Sempre me senti assim, e, sempre culpei a minha falta de capacidade de ganhar mais dinheiro para poder dar aquilo que eles tanto desejavam.

    Como caí nessa armadilha? Como me permiti a cair nessa armadilha?

    Estou inconformada e pasma aqui…o.O

    Muitas vezes sabemos, mas tapamos os próprios olhos… Um bom tapão na cara (às vezes) é saudabilíssimo!

    Realmente, ser pai-mãe não é nada, nada fácil meeesmooo.


  26. Oi !
    Acho que alguns disseram aí em cima, sobre a importância do papel dos pais, mas poxa, os pais tb estão imersos nessa sociedade né. Eles tb sofrem igualzinho o impacto da publicidade. E nem é só isso, estas mensagens do “CONSUMA” não estão só sub-entendidas, como se bastasse não aceitar. Não q seja inpossível não ser consumista, mas a realidade , na sua maneira concreta tb exige isso da gente. POr exemplo, é fato q pessoas “mais apresentáveis” (leia-se: dentro de um certo padrão de beleza) consigam mais facilmente emprego.
    Daí, a questão do consumo de certos bens para se adequar a isso não é só um problema q se resume em “basta nos educarmos para não ser assim”.
    O que quero dizer é q estas propragandas causam um efeito real, e vice-versa para o cotidiano, e alterando-o , criando “novas necessidades”, assim não basta tentar “os pais” fugirem disso.
    É tudo muito mais complexo, estas necesidades acabam sendo criadas pela e com a propraganda, no meu ponto de vista.
    Eu q fui criada na década de 80-90 tb vejo q muita coisa mudou, muito rápido em 10-15 anos p cá, vejo isso nos poucos contatos q tenho com as crianças e adolescentes de hj.

    Tá foda em Marjorie,,,vixi…
    Abração


  27. Oi Marjorie!

    Vi só a parte 2 do documentário, mas vou ver as outras, achei muito bom. É mesmo de dar dó ver essas crianças sem infância, estragadas pela má (ou falta de) educação dada pelos pais e pela influência da publicidade, da pressão dos coleguinhas e tudo o que foi discutido muito bem aí em cima.

    Concordo com a Suzana, criar filhos é difícil mesmo, é dizer não o tempo todo, é conversar muito.

    Criamos duas filhas (já adultas) e elas não eram (e nem são) consumistas, sempre conversamos muito e elas sabiam que isso era caro, isso era barato, que precisávamos trabalhar para ter dinheiro para comprar as coisas, e presentes só no Natal e aniversários.

    Claro que isso só funciona se os pais estiverem mesmo presentes, participarem da educação dos filhos e não deixarem tudo a cargo da escola. Em compensação, era só olhar em volta (vizinhos, coleguinhas de escola) para ver como isso era raro. E hoje é bem pior; naquela época já víamos a falta de respeito com professores e funcionários (eu estou pagando, tenho direito), o que com certeza foi aprendido em casa.

    Como a gente acaba ouvindo o que não precisa, somos testemunhas auditivas de crianças mimadas da vizinhança; depois de muita birra e gritaria, a mãe diz “não vou aí, espere. Está pensando que sou sua escrava?”. Depois de mais birra e choro, a mãe diz: “já disse que não vou, está pensando que sou sua empregada?” (?!?)

    Dá para ver como as coisas estão (mal) estruturadas na cabeça de algumas pessoas…

    É difícil, mas não é impossível. Respeito a posição de quem não quer ter filhos, mas acho que quem quer tê-los deve estar ciente das responsabilidades que terá de assumir e depois tentar fazer o melhor possível. Não dá para ser pais perfeitos, mas o que se vê por aí são pessoas completamente despreparadas emocionalmente para assumirem a condição de pais. E as crianças são as vítimas disso. Elas não nascem do modo como vimos no documentário: são levadas a isso pelo modo como foram (ou não) educadas.

    Criança pequena não precisa de celular, salto, maquilagem, chuteira de 400 reais, etc. Precisa ser criança, estudar e brincar, e não ser um adulto em miniatura com uma agenda cheia de compromissos. Mais tarde será um adulto-eterno-adolescente, querendo curtir a infância que não teve, comprando brinquedinhos de adulto e fazendo feliz o comércio e as agências de publicidade. É um círculo vicioso e o único modo de rompê-lo é pela educação das crianças, desde pequenas.

    Nossa, é a primeira vez que comento aqui, acabei falando um bocado…

    E o post de hoje da Lola sobre consumismo também está muito bom, gostei!

    Abraços!


  28. esqueci de assinar aí em cima:

    Um abraço,

    Cristine


  29. Adorei, Marjorie, e ao mesmo tempo senti medo, tristeza, desgosto.
    Acho que eu sou um pouco mais velha que a maioria do pessoal que fez seus comentários aqui. Tenho 43 anos, fui criança na década de 70, de família clásse média baixa, morando no subúrbio do Rio. Mas num esquema parecido com o que algumas pessoas relataram: ganhava UM presente no Natal e no aniversário (dia das crianças nem sempre), não sentia esse impulso consumista todo à minha volta (sempre tinha um amigo ou amiga que tinha algo que eu não podia ter, desde um
    estojo com 36 cores de lápis – o meu só tinha 12 – até uma casa na praia, mas não ia muito além de um desejo momentâneo, a minha vida não ficava pior por isso). Nem existia shopping, que maravilha!

    O documentário pode ser debatido por diversos ângulos, cada um mais perverso que o outro. Eu gostei muito quando uma pedagoga fala que eles vão querer comprar isso, e aquilo e depois aquilo outro “porque isso sembolicamente não é o que de fato elas estão precisando” . É isso, o ato de comprar tenta tapar um buraco que produto nenhum no mundo vai preencher, uma angústia que poderia ser mais aplacada com amor, tempo, atenção, limite. Discursinho clichê, mas é verdade.

    Eu tenho dois meninos, um de 16 e outro de 14 anos. Celular foi presente de 12 anos, para cada um deles, porque foi a idade em que eles começaram a andar sozinhos, pegar ônibus pra voltar do inglês, essas coisas. Antes, não. Cada um tem um celular básico dos básicos, não tira foto, não tem mp3, nada. O de 16 está no 3o. celular agora, porque perdeu o primeiro (e só teve outro quando comprou do seu próprio dinheiro de mesada) e o segundo levaram num assalto na porta da escola. O de 14 anos ganhou o celular aos 12 e é o mesmo até hoje. Cada um deles tem um par de chinelos, dois pares de tênis e um sapato social porque começaram a aparecer as festas de 15 anos das amigas. E tudo isso é de comum acordo com meu marido, que é outro que também não liga pra compras.

    Eu não conto isso pra parecer que eu sou legal, nada disso. Conto até meio assustada e grata nem sei a quem ou a que, a eles mesmos talvez. Porque eles simplesmente nunca ligaram pra comprar coisas, pra ter coisas. Curtem o que tem, e se não dá pra ter, beleza, é chato e tal, mas aprenderam a economizar para comprar, ou a valorizar quando ganham. A vida tem outro sabor e sobra tempo pra apreciar o que realmente importa. fico feliz de ver que essas são as bases sobre as quais eles estão construindo também suas amizades e relacionamentos.

    Não sei como seria se eu tivesse tido meninas, ou se eu tivesse filhos hoje. É assustador e cansativo o esforço que a gente tem que fazer pra contrabalançar os apelos que existem. Mas vale a pena.

    Leia o “Vida para consumo”, do Bauman. É uma porrada, e destrincha diversos outros aspectos que não cabem no formato do documentário, como vc bem disse.


  30. [...] do jornal.  Não é porque nós sejamos estimuladas a nos enfeitar feito pavões. Não é porque aprendemos, desde muito cedo, a sermos “princesinhas” cujo maior e mais importante atrib…. Nada disso! É tudo original de fábrica. Nascemos assim. Umas [...]


  31. Marjorie,

    você e Mary W estão mudando a minha vida.
    Não é muito, eu sei.
    Mas as coisas acontecem assim, né?

    Obrigado, de verdade.


  32. [...] possível, pois a mulher é um bibelô. A gostar de crianças para criar gosto pela maternidade. A consumir muito. A trocar beijinhos e mimos. A procurar um homem que dê “segurança” (ou seja, [...]



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