h1

Da lucidez

maio 8, 2009

Achei tão bela a entrevista da Fernanda Montenegro para a Bravo deste mês. A Fernanda vai interpretar a Simone de Beauvoir a partir do dia 20 (quem vai? Quem vai? Eu já tô lá),  então a entrevista é cheia de bons elogios à Simone e ao feminismo — que, pasmem, não é retratado como algo já encerrado. E, véi, isso é tão raro na imprensa que eu tô até meio chocada, confesso.

Gostei muito da parte em que Fernanda fala sobre velhice. Ela diz:

“Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir. Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia. Noto, porém, que algumas pessoas já me olham com assombro: “Ainda fala! Ainda se locomove!”. Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade”.

Minha avó morreu aos 87 anos, quando eu tinha 17. A vida inteira eu ouvi isso sobre ela: “mas como é lúcida!”. Como se ela não devesse estar lúcida. Era quase como se algo tivesse dado errado. Como se todos os idosos ficassem dependentes e gagás — e a gente sabe que não é verdade. Com os avanços da medicina e o aumento da expectativa de vida, a tendência é ter cada vez mais gente de 70, 80, 90, todos muito ativos e lúcidos. E eu me pergunto: “e aí? Como é que vão lidar com isso?”. Porque vai ser preciso romper mesmo com este estereótipo.

Acho um absurdo, por exemplo, que os professores da USP sejam aposentados compulsoriamente aos 70. Porque, quando se tem até pós-doutorado, 70 é a flor da idade, né? Eu peguei o último ano em que o Bernardo Kucinski deu aula – e ele estava em perfeitas condições de desempenhar sua função. Me arrisco até a dizer que ele teria continuado, se pudesse. Porque parecia bem animado.

Na minha aula de quarta-feira, sobre ecologia humana, tem vários alunos da terceira idade. Na de quinta, história da arte, também. Só que os alunos de ecologia humana já são formados, pelo que tudo indica. Têm uma puta base. Então acho que não estão ali por meio do programa de inclusão, mas por alguma outra coisa. Tem um senhor lá que, putz grila, quando ele abre a boca, humilha todo mundo. Até o professor abaixa a orelha. Porque o homem é um poço de conteúdo. Mas não chega a ser um exibicionista (como aqueles alunos que sabem pouco, mas adoram levantar a mão para falar um monte de clichês, como se quisessem ganhar uma estrelinha dourada no caderno. Ah, se todo mundo tivesse o dom do semancol…). Ele só complementa  o que o professor diz, quando julga necessário. Enfim, é como ter aula com duas pessoas. Adoro. Já na aula de quinta-feira, os alunos da terceira idade não necessariamente têm uma formação ligada à arte. Então, eles falam muito pouco. Às vezes, sinto que eles têm medo de se manifestar, o que é uma pena.  Mas, enfim, o fato é que estão ali. E tem gente que se assombra. Porque é óbvio, pedro bó, que eles estão lúcidos e pensantes. Se não estão doentes, por que não haveriam de estar? Parece que é só chegar a uma certa idade, que as pessoas esperam que você se imbecilize. Automaticamente.

Minha avó não só era “lúcida” como era inteligentíssima. Eu adorava conversar com ela. Não sabia ler nem escrever, mas tinha um raciocínio que puta que nos pariu. Uma capacidade ímpar de encadear as coisas, de dar lógica para elas. E nunca, nunca foi frágil. Em tempo algum. Depois dos 80, um dos meus tios queria porque queria que ela fosse morar com ele. “Para o caso de cair, se acidentar, etc. Morando sozinha, ela vai morrer ali e ninguém vai perceber até alguém visitá-la”. Mas ela não arredava o pé. Gostava do seu cantinho, onde mantinha tudo à sua maneira. Tinha vezes da gente chegar e ela estar lavando o tapete, no quintal. Meu pai: “quê isso, mãe? Tá louca? A senhora não pode fazer isso”. Ela: “não se mete. Não posso viver num pulgueiro. Devagarzinho, eu consigo fazer”. E conseguia.

Mas a melhor história é mesmo a da geladeira. Meses antes de morrer, ela telefonou para uma prima minha, pedindo para que a levasse para comprar uma geladeira. Minha prima levou, mas desconfiada: “com o minguado dinheiro da aposentadoria, como ela vai comprar uma geladeira? Acho que está querendo dizer para a gente que quer uma geladeira nova. Tá dando uma indireta, para a gente dar de presente”. Mas a velha parecia determinada quando minha prima foi buscá-la. Ao chegar na loja, foi direto para o lugar onde estavam as geladeiras mais caras.

Minha prima chamou o vendedor de lado e disse: “olha, moço, me desculpe, mas é que ela tem 87 anos. Insistiu para que eu a trouxesse aqui. Eu acho que ela não tem nem noção de quanto custam essas geladeiras que cantam, dançam e sapateiam. Mas o senhor não se incomoda de atendê-la, né?”. O vendedor respondeu: “imagina, não tem nada, não” e continuou a fingir que acreditava que minha avó compraria a tal geladeira foderosa. Ninguém botava na fé na velhinha.

Eis que, do nada, ela lasca: “vou levar essa aqui” — apontando para a mais cara de todas. O vendedor continuou o teatro (talvez pensasse que a minha prima se solidarizaria e terminaria por comprar a tal geladeira?) e perguntou como ela ia pagar. “À vista”, respondeu minha avó. E tirou todo o dinheiro do sutiã.

Dias antes dela morrer, aquele tio que queria que ela morasse com ele levou-a para a sua casa, no interior – porque ela estava meio doentinha. Sim, “meio”. Ninguém pensava que ela fosse morrer. Porque era uma gripe de nada, uma coisa à toa. Mesmo contrariada, ela concordou em ir. Chegou lá, pá: teve um derrame. Do nada. No fim, foi enterrada justo no lugar onde, a vida inteira, ela disse que não queria morar.

Depois do enterro, quando meu pai foi à casa dela para ver se queria ficar com alguma coisa, encontrou dentro do armário um envelope. Do lado de fora, escrito: “para quando eu morrer”. Dentro, um bolo de dinheiro e um bilhete: “não quero dar gasto pra ninguém”. E, de fato, a quantia equivalia às despesas funerárias todas.

…A gente só não sabe, até hoje, quem escreveu o bilhete por ela.

19 comentários

  1. Nossa Marjorie, esse post é o que me emocionou demais, muito mesmo, e por isso resolvi dar um pitaco aqui. Sempre passo por aqui, mas hoje vc matou a pau. Essa história da sua avó, tirar o dinheiro do sutiã e comprar a geladeira, lindo, linda avó que vc teve. Será que nós chegaremos lá.
    um gde abraço
    madoka


  2. Que linda a historia da sua avo! Adoro gente assim, e quero muito ser uma velhinha arretada desse jeito.

    Meu avo morava numa casa com um quintal bem grandinho, e sempre fez questao de cortar a grama. Eu achava o metodo genial – ele cortava um trecho por dia, e dizia que “quando terminar, a grama ja vai estar grande onde eu comecei, e ai eu continuo o processo” Ou seja, devagarinho, ele estava sempre fazendo as coisas.

    Pena que ele morreu quando eu tinha 15 anos, entao nao deu para aproveitar mais.

    So para completar o assunto, ontem vi um blog muito bacana: http://advancedstyle.blogspot.com/


  3. Que belezinha que ela devia ser. Tempinho atrás escrevi sobre a minha. Inteligentésima também, divertida, dinâmica, era meu role model. Morreu cedo, teve câncer. Foi há uns 13 anos atrás. Se quiser, dá uma olhadinha no meu post, sobre um dos feitos da Vó Maria: http://calmaqueficapior.blogspot.com/2009/04/vovo-maria.html

    Te digo que não foi o único, tampouco o “pior”. E deu uma saudade do caralho dela, esse seu post.


  4. Eu que nunca tive avos lamento a não experiência de conviver com pessoas idosas, o que agora só será vivido com os meus pais.


  5. sabe que tenho pensado muito sobre isso. que eu nunca vou parar de “produzir”. não sei o que, mas sei que não vou parar. fico vendo minha avó que vive pros problemas e coisas dos outros. filhos, netos e bisnetos. ah, não quero isso não. quero ter coisas minhas. projetos meus. não pode parar. é loucura parar pq vai morrer em breve. a gente não sabe quando vai morrer, não faz o menor sentido. ah, sobre a peça da fernanda, aqui no rio foi encenada em uma lona cultural (espaço de arte, principalmente de teatro, estabelecido em inúmeros pontos dos bairros mais pobres). dai que teve uma entrevista enorme e emocionante do globo sobre as impressões dela e como o público reagia. tão diferente do que as pessoas costumam achar, eles tinha muitas opiniões coerentes e tals, mesmo sem estudo, sem nada. vou tentar achar pra linkar aqui. bjobjo


  6. Ei Marjorie. Queria dizer que você está me atrapalhando muito rsrs. Fiquei viciado nos seus textos, e nos comentários também. Que bom ver gente como você. Já li quase tudo nos arquivos, e não consigo parar. Sobre o polêmico/conservador, pensei imediatamente no lobão/mtv e no Jô (apesar de não ser polêmico, usa o expediente de ridicularizar através do riso o diferente/não-mainstream. Parabéns. Só de curiosidade, vc é do interior de Minas?


  7. Fiquei emocionada com a matéria da Fernanda Montenegro, e não foi diferente por aqui. Que lindo isso Marjorie. Sua avó parecia ser uma pessoa incrível …


  8. Sobre Velhice & Sociedade ver: Solidão dos Moribundos, de Norbert Elias.
    Obra fantástica (e curtíssima, só não terminei de lê-lo por pura preguiça!) que trabalha temas como: envelhecimento, sociedade, exclusão e morte.

    Besitos
    =)


  9. Adorei sua avó. A maior paixão da minha vida são meus avós. Eu não canso de falar deles no blog, porque é paixão mesmo. E eles são absolutamente lúcidos, meu avô inclusive é atleta, pula muro e o escambau, com 80 anos. A família morre de medo dele se machucar, eu tbm, mas no fundo morro de orgulho. Dele ser rebelde assim.
    E eu acho que vai acontecer cada vez mais, pessoas mais velhas e normalmente ativas. Bacana.

    Bjos


  10. Muito lindo o que você escreveu. Sempre visito o blog mas nunca tive vontade de comentar como agora. Não conheci meus avós, mas tenho pais que são idosos e são muito ativos, meu pai com 85 anos sobe em muros, no telhado da casa e é um excelente analista político. Minha mãe aos 72 faz planos pro futuro que é uma maravilha, e não para o dia todo. Tem sempre uma atividade. Sua avó com certeza era uma mulher extraordinária. Parabéns.


  11. Adorei, adorei. Eu também não conheci meus avós paternos, e tive pouquíssimo contato com os avós maternos, já falecidos.
    Hoje, vejo meus filhos convivendo intensamente com meus pais e meus sogros, e quase invejo a doçura, a leveza, a profundidade dessa relação tão bonita. Fico feliz por eles, tanto os meninos quanto os avós, que têm essa oportunidade e estão aproveitando.


  12. Eu me lembro de uma entrevista que a Fernanda Montenegro deu no programa do Clodovil (antes de ele surtar). Ele perguntou se ela ia fazer plástica para tirar as bolsas sob os olhos. E ela respondeu com um “Não. Pra quê? Não, não dá. Vou me olhar no espelho e não me reconhecer. Minhas bolsas, minhas rugas, minhas marcas de expressão são meu patrimônio, é a experiência que acumulei na vida. Como simplesmente apagar isso?”


  13. saudades do meu avô, que fez vestibular para Direito aos 55 e ia fazer para medicina aos 72. estudou, estudou, mas teve um infarto uma semana antes do vestibular. “vô, cê vai fazer vestibular pra medicina pra que, ja que quando se formar vai ter uns 80 anos?”
    “uai, porque eu tô velho eu preciso deixar de pensar, ter vontades e sonhos? vou me formar e atender as pessoas de graça, já que não preciso mais de dinheiro”.
    não conseguiu.
    morreu aos 77. era pianista desde os 5. tocou até um mês antes de morrer.
    meu ídolo.


  14. Minha avó paterna morreu quando meu pai tinha 15 anos; minha avó materna morreu antes de eu fazer um ano; meu avô paterno morreu quando eu tinha uns sete e meu avô materno é o único de pé. Meu bisavô materno morreu também quando eu era pequenininha e minha bisavó materna – A grande matriarca da família – Morreu esse ano. Fail? XDDD

    Mas, se me permitir falar do meu avô… Ele tem 74 anos. Minha família materna é uma família de musicistas mesmo: Todos meus tios e vários primos tocam algum instrumento (Minha mãe canta, minha irmã toca violão e eu, teclado e violão). Ele é que começou isso tudo: Toca clarinete, violão, flauta, cavaquinho e tudo que seja de sopro ou cordas. Compositor, também, fez músicas em homenagem aos pais dele. Desenha como ninguém e pinta do mesmo jeito: Um belo dia ele disse “Vou desenhar a Lady” (Nossa cã de estimação) e em meio minuto já tinha um rascunho dela. Também é mestre na çagassydad e da última vez que veio aqui, disse algo tipo “Eu não treino há muito tempo, sei tocar muito pouco!” e pegou o violão da minha irmã e humilhou todo e qualquer so-called rockstar. Também é um gênio matemático e etc etc etc… XDD Ele PODE. É BOM. Ainda vai fazer cirurgia pra acabar com a catarata dele.

    Mas isso me lembrou de um senhor que eu vejo todo Sábado, na Parmê que vou antes do curso: Vem um táxi, sai um casal de velhinhos, a moça vai pegar uma mesa enquanto o moço vai pedir a comida. Ele anda encurvado e devagar e sempre, mas todo santo sábado ele tá lá, bem vestido, comprando a pizza e levando pra mesa pra comer com a esposa. Os dois são muuuuito bons. Fazem sem ajuda de ninguém, com geral olhando, como se dissessem “DEIXA EU COMER MINHA PIZZA EM PAZ PORRA”.

    Ótimo post sobre Ageism. Poderia pedir um post sobre ageism contra jovens? XDD


  15. Que linda! Que forte!!
    Que bom que absorveu seus exemplos de uma maneira positiva. :-)


  16. Marjorie,
    Esse texto aqui pode ilustrar o último capítulo do livro (aquele das mulheres idosas.
    Do jeito que seus textos são bons e abrangem uma quantidade imensa de assuntos relacionados ao feminismo, vai ser moleza terminarmos o livro.
    Será que vão nos dar tanto espaço na mídia quanto dão pra bobagens pseudo-sábias de Paulo Coelho ou declarações arrogantes e neo-machistas de Maria Mariana?? kkkkkkk


  17. [...] dos melhores comentários publicados no site da revista. Traz também, como um alívio, a dica da entrevista da Fernanda Montenegro na Bravo! Mas o que achei mais bacana é a maneira como a Marjorie explicita como a argumentaçao que: [...]


  18. Nossa, estou viciadíssima no seu blog. Faço pós-graduação em Estudos Literários e morro de inveja da forma como escreve. Parabéns!
    Estou muito emocionada com esse post. Lembrei-me da minha avó tbm. Era uma mulher de ferro, super determinada.

    Bjs e sucesso.


  19. nossa, inveja? Poxa, e eu aqui me achando mó medíocre. Brigada pelo elogio, Jéssica! Beijo!



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.