
Da frase que mais me irrita nessa vida
Maio 11, 2009Nos comentários sobre a entrevista da MM no site da Época, o que você mais vai ler é: “homens e mulheres são diferentes”. Tanto do lado de quem a defende quanto do lado de quem a defende, pero no mucho.
Não é a primeira vez que dou de cara com esta frase. Parece que, em toda discussão direta ou indiretamente relacionada ao feminismo, aparece alguém para soltar essa frase. Inclusive em círculos supostamente esclarecidos, como a lista de e-mails de alunos de jornalismo da ECA-USP.
Funciona assim: alguém começa a defender a igualdade entre os gêneros. O subtema pode ser o que for — igualdade de salário, licença-maternidade, padrão de beleza, whatever. É só alguém começar a defender a igualdade, que vem outro alguém e lasca: “mas homens e mulheres são diferentes!”. E aí a discussão desce pelo ralo. Porque o machista utilizou-se de uma malandragem retórica que coloca o seu discurso na esfera do indiscutível.
(E eu, que não acredito na ingenuidade das pessoas, tenho certeza de que a maioria esmagadora dos que usam esta frase sabe muito bem o que está fazendo).
Quando o defensor do machismo diz “mas homens e mulheres são diferentes!”, muitas vezes a pessoa que defende a igualdade não consegue argumentar contra este truísmo — dado que o Homo Sapiens é uma espécie com dimorfismo sexual. Não dá para negar que existem diferenças entre homens e mulheres. Eu tenho seios, eles não têm; eu tenho vagina, eles não têm; minha massa muscular é menor, etc etc etc. Isso sem contar a série de diferenças que a cultura patriarcal inventa e muita gente passa a acreditar que são naturais, que vêm do repolho ou são assim porque deus quis. Em suma, o defensor da igualdade fica com cara de tacho, parecendo um pateta.
Trata-se do mesmo recurso retórico daqueles que comparam qualquer coisa à Alemanha nazista. Qualquer coisa mesmo. Exemplos há vários, mas vou falar do livro que eu tava lendo ontem, para minha aula de terça. É do Guerreiro Ramos, sociólogo dos primeiros movimento negros, participou do Teatro Experimental do Negro and all that jazz. Num determinado ponto do texto, ele diz que os antropólogos de sua época transformam o negro num objeto, pois a maioria de seus trabalhos eram descritivos. Eram antropólogos que se consideravam brancos falando dos negros, como se se pudesse separar brancos e negros no Brasil. Como se pudesse existir um Brasil ariano. Até aí, tudo bem, é uma tese válida e eu concordo com vários pontos dela. O problema é que, para defendê-la, ele começa a citar os trabalhos acadêmicos que a Alemanha nazista produzia sobre os judeus. E os títulos que selecionou eram todos descritivos — sobre os costumes dos judeus, o que comiam, a história das diásporas, etc etc. Um leitor desatento vai ler isso e pensar: “óóó, meodeosdocéu, que horror”. Já quem parar um pouco vai pensar: “ei, péra aí, ele tá falando que os antropólogos brasileiros tratavam o negro da mesma maneira os nazistas tratavam os judeus? Mas que exagero!”
E é aí que está o problema das comparações com a Alemanha nazista. Quase todas elas são extremamente exageradas. Como o nazismo é o cúmulo do horror, há pouquíssimas coisas que, de fato, são comparáveis a ele. E, mesmo se a gente estiver comparando um genocídio a outro genocídio, ainda assim corremos o risco de sermos insensíveis às especificidades de cada genocídio. Se comparamos o genocídio de Ruanda ao nazismo, por exemplo, damos a entender que, embora tenha sido horrível, o genocídio de Ruanda não é tão ruim quanto o nazismo. O nazismo fica no topo de uma escala de gravidade — quando, na verdade, a gente não devia estar medindo porra nenhuma. Genocídio é sempre genocídio. Não importa se morreram um milhão ou dois milhões de pessoas, se os métodos utilizados foram mais ou menos cruéis (se é que também dá para medir crueldade). Da mesma forma, o racismo no Brasil é o racismo no Brasil. O racismo na Alemanha nazista era outra coisa. Desrespeitar as especificidades de cada caso, para mim, é tirar o valor do caso brasileiro.
(Ah, sim. Aqui no Brasil, como bem sacou o Alex, há também a mania de comparar tudo a Cuba, quando se discutem as liberdades individuais. “Meodeosdocéu, daqui a pouco isso aqui vira Cuba!”)
Mas enfim, divago. O fato é que, quando alguém compara alguma coisa (qualquer coisa) ao nazismo, joga-se a coisa comparada no campo do indefensável; do indiscutível. Ninguém quer defender o nazismo. Ninguém discute se o nazismo foi ou não horrível, porque isso não se discute. É um truísmo. Acabou a conversa.
Da mesma forma, quando Fulano diz “mas homens e mulheres são diferentes”, parece que o defensor da igualdade de gênero está querendo ir contra uma coisa que é óbvia. Só que o buraco é mais embaixo, claro.
O autor da frase não está apenas apontando as diferenças entre homens e mulheres. Dado que, oi, elas não são visíveis? Não são tão óbvias? Por que é preciso apontá-las? Ora, vamos pôr os pingos no is: se o que se está discutindo é a diferença de poder entre homens e mulheres na sociedade, se o que se está discutindo é discriminação, então a frase perde toda essa carga ingênua e passa a ser determinista.
Este “diferente” não significa apenas diferença. Trata-se de uma naturalização, uma biologização da discriminação. Só que dita de forma mais aceitável. É a hipocrisia mais clichê: o cara não vai falar que o sistema reprodutor das mulheres as torna inferiores — se ele disser isso com todas as letras, todo mundo vai dizer que ele é um escroto, pois trata-se de um discurso escancaradamente machista. E, no Brasil, a gente tem bastante medo de escancarar o preconceito. Discriminamos de forma efetiva, sabemos que estamos discriminando… Maaaas, se alguém perguntar, a gente nega até a morte. Adotamos um discurso cor-de-rosa.
Então, para não ser escancaradamente escrota, o que a pessoa faz? Troca o “inferiores” pelo “diferentes”. Voilà. Mas o significado da frase é a mesma. Está nas entrelinhas. Uma coisa é dizer que “homens e mulheres são diferentes” quando se está discutindo biologia somente. Outra coisa é usar a frase quando se discute a configuração de poder na sociedade.
Com esta simples palavra, “diferente”, o machista já dá a entender que quer que a única função da mulher seja parir, enquanto o homem fica com todo o resto. Pare para pensar no tamanho da restrição. Na força das algemas. Só porque somos nós, mulheres, quem carregamos os bebês, então é SÓ PARA ISSO que a gente serve. Somos reduzidas ao nosso sistema reprodutor. Todo o resto de nosso organismo (principalmente, o cérebro…) é esquecido. Os machistas mais flexíveis podem até pensar que as mulheres servem para algumas outras coisas, mas não arredam o pé e continuam dizendo que a nossa “função” é essa. Eles não reconhecem que a capacidade de se engravidar e amamentar é apenas UMA das capacidades das mulheres. E cabe a ela, mais ninguém, decidir qual das suas capacidades quer desempenhar e quais quer desenvolver mais.
Sabe o que é mais engraçado? Que, sem esperma, a mulher não engravida. A gente ainda não adquiriu o dom da partenogênese. Por que, para os homens, não se considera que gerar vida seja uma “função”? Sim, estimulam os homens a querer espalhar sua “sementinha” pelo maior número de receptáculos, blablabla. Mas, se ele não desejar fazer isso, se não quiser engravidar alguém, ninguém vai dizer para ele que ele não está cumprindo sua “função”. Podem encher um pouco o seu saco, claro, mas dizer que ele não cumpriu sua “função”, nunca. Da mesma forma, se o homem é pai e trabalha, ninguém vai perguntar para ele se ele tem um dilema ao conciliar as duas coisas. Afinal, o homem não é reduzido ao seu sistema reprodutor. Admite-se que ele se perpetue por seu trabalho, por suas obras. Já a mulher, não. Ela pode fazer um trabalho foderoso, descobrir a cura para uma doença ou whatever. Se não pariu, foi uma monstra insensível ao seu dever. Se permanece solteira, diz-se que ela abdicou (veja bem, minha gente, “abdicou”, como se ter filhos fosse um posto, uma obrigação!) da família.
Enfim, só queria dar esse conselhinho mesmo. Não caia nesse papo de “homens e mulheres são diferentes”. Da próxima vez que alguém usar essa frase com você em alguma discussão sobre discriminação de gênero, deixe bem claro que você não é trouxa e percebeu o malabarismo retórico que a pessoa está tentando fazer.
Acho que a melhor maneira de desmascar os autores desta frase é perguntar qual dessas diferenças (ou supostas diferenças) justifica uma discriminação. Porque aí quem se estrepa é ele, porque fica claro justamente o que ele queria disfarçar: o fato dele defender que as pessoas podem ou devem ser discriminadas por conta de suas diferenças.
…E não é justamente daí que parte o discurso contra a homofobia, a xenofobia, o racismo, o ageism, o ableism, enfim, todos os tipos de preconceito? Aceitar e celebrar as diferenças? Call them on their bullshit: mostre que “homens e mulheres são diferentes”, esta frase aparentemente inocente e singela, está carregada de intolerância.




Todas as vezes que alguem argumenta comigo que “homens e mulheres sao diferentes” eu imediatamente concordo e completo “e sao equivalentes, e eh disso que eu tou falando.” Substituir “igualdade” por “equivalencia” acaba com o malabarismo retorico.
Também odeio esta frase com todas as forças do meu ser. Na última discussão que tive e ela apareceu até um amigo meu que não é necessariamente feminista (acho que nem sabe direito o que é feminismo e não tem uma visão feminista) concordou comigo que tirando as diferenças biológicas não há diferenças e estas não tem que existir.
Marjorie eu adoro seu blog, sempre tem algum post foderoso pra ler hehe quando tiver tempo de olhar pra cara do meu espero que eu consiga escrever bem e com uma clareza como a sua.
Eu sempre achei essas convenções um porre.
Alias, Já ouvi muito essa frase das diferenças em casamentos. “A mulher deve ficar sobre a proteção de seu marido.” ou “A mulher é a rainha do lar”. Me admira que num mundo cada vez mais informatizado ainda existam pessoas (muitas, infelizmente.. ) com esse tipo de pensamento.
Parabéns pelo seu blog Marjorie. Já virou leitura obrigatória pra mim =)
Também acho que é de má fé essa frase!!
Anula qualquer diálogo.
Outra que detesto quando se discute po exemplo miséria ou qq outra coisa é alguém dizer “Mas você já foi em uma favela? Como você pode saber se nunca pisou em uma?”
É tb a nulação de qualquer debate, pois pressupõe que se vc não tem experiência empírica não pode debater nada. Assim nunca poderíamos discutir nada, pois nossas experiências são de fato limitadas.
Também acho de má fé.
É iiso aí,, beijão e gostei do post!
Bárbara, excelente sacada a de substituir “diferentes” por “equivalentes”. Tá anotado aqui, vou passar a usar.
Marj, o que ferra mais nessa frase e nas parecidas é o determinismo delas. Usam ela bastante quando falam de sexo, aí vem aquele papo de “homem = visual X mulher = sensorial” (e olho não é sensorial, cacete?!), e justamente quando lançam uma dessas a discussão acaba indo toda pro ralo. Porque aí só participa o pessoal adepto do discursinho de “sentimento não existe/homem só quer comer/mulher só quer dinheiro/é assim que o mundo roda”.
Outra que me mata de raiva é o tal do “inconscientemente o homem/a mulher sempre procuram por X”. É argumento blindado: se vc concorda com o autor, ok, não há polêmica. Se vc discorda e diz que não é bem assim, o “inconscientemente” tá lá pra te lembrar que não tem jeito, vc faz assim mesmo que não queria. Tem coisa que quando é mal usada é soda…
Abraços
É,”mulher e homem são diferentes”:mulher tem que parir,casar e cuidar de filho,não faz sexo por diversão,tem que se “preservar”,….
Ô discursinho escroto!
Eu sempre achei esta frase um horror, mas discordo quento à má-fé sempre presente. Me lembro, por exemplo, de estar uns dez anos atrás conversando com um amigo muito sério, questionador. Ele perguntou se não era bom que os seres humanos fossem diferentes, eu perguntei por que esles tinham que se dividir entre homens e mulheres. Ele achou muito inusitada a ponderação, e logo concordou. Quero dizer, a força ideológica está na invisibilidade da intenção, e ela é muito forte, né…
Mas comecei a escrever por outro motivo. Pensei que hoje, finalmente, depois de tanto repetirem isso no meu ouvido, desisti de questionar a necessidade desta diferença (eu sei que você não está falando só da diferença em si, mas do recurso retórico. Eu, sempre tive uma tendência a me indignar mais com as diferenças que com as “inequivalências”. Por que acho que as diferenças são fruto de uma contrução social baseada em inequivalências, já que as diferenças naturais, são, em comparação, irrisórias e perfeitamente contornáveis). Por outro lado, desistir de questionar a diferença me propiciou um descanso. Acho que, no meu caso, bater de frente com as “masculinidades” ou com as “femininidades” ainda me prendia muito a elas. Melhor simplesmente pensar que os seres humanos que se prendem a tais construções, e o que é pior, o fazem como se não estivessem optando, e sim assumindo uma predeterminação, são todos (homens e mulheres) muito chatos. Vamos procurar os iguais em valor, diferentes em personalidades, com seus diversos níveis de “masculinos” e “femininos”: eles estão por aí, como nós.
Oi, Marjorie.
Aqui é a Bia. Gostei desse texto e acho que boa parte dele pode ser usada no nosso livro. Falando nisso, tô esperando o seu capítulo…
O que vc achou dos meus? Bom, não estão muito elaborados. Sou meio sucinta demais e vc consegue destrinchar melhor as coisas. Acho que as 2 juntas conseguirão fazer algo equilibrado.
Bjs! Não suma, mulher!! Hehehe
Ah, e sobre a comparação com o nazismo alemão: isso eu também acho que é má-fé. Diferente de se entender certa postura como essencialmente fascista – o que significa procurar a raiz da violência totalitária, sua constituição – a negação do outro como sujeito, e suas características, e perceber (concordando com alguns filósofos do século vinte) que há uma sementinha deste totalitarismo que atravessa toda a nossa civilização, e cresce com o que alguns chamam de progresso, ao invés de desaparecer. Isto não é o mesmo que ficar justapondo fatos históricos que aparecem em contextos totalmente diversos, e em se tratando de gente que tem intimidade com o pensamento reflexivo, sim, concordo, só pode ser má-fé e artifício retórico.
Esse é “O” PROBLEMA nesse campo.
Eu ia escrever um pouco sobre isso, mas vi no blog do Idelber (http://idelberavelar.com) algo que pode acrescentar uma visão bem derridiana (via Irigaray) da coisa:
“Tese IV: desde que o mundo é mundo (ou pelo menos desde que a linguagem é linguagem, ou que o Ocidente é Ocidente), não existe binarismo em que não esteja embutida também uma hierarquia, uma violência, uma exclusão. Isso se aplica a qualquer dicotomia que você queira tomar: essência / aparência, masculino / feminino, alma/ corpo, voz / escrita etc.
Em todas elas, a lógica não é simétrica, e sim suplementar: como naquela clássica fábula judaica sobre o nascimento do masculino e do feminino, um termo aparece depois do outro. Esse “depois”, no entanto, é escorregadio, porque o que é mais próprio do termo dominante, o primeiro, é estar faltoso em relação ao suplemento que está para chegar, estar esperando-o, por assim dizer. Ao ser suplementado, ele torna-se o que é: Eva confere a Adão, retrospectivamente, sua identidade.
Mas e o lado de Eva, do feminino, do termo subordinado no binarismo? Assim como o dominante, o termo subordinado tampouco é tranquilo, unívoco, idêntico a si mesmo. Ele também é atravessado pela temporalidade suplementar: “feminino”, na dicotomia masculino / feminino, não é só o nome de um dos termos do binarismo. É também o nome de algo que teve que ser excluído para que o binarismo se constituísse enquanto tal. No caso do feminismo, essa hipótese foi desenvolvida em dois livros monumentais de Luce Irigaray.
Em outras palavras? A dicotomia masculino / feminino, ela mesma, é narrada com linguagem masculina, é uma construção masculina. Não se constitui esse binarismo sem que o feminino se transforme em nome de algo que não cabe no binarismo enquanto tal.”
…
Então, quanto às diferenças… o problema não são só elas, é a hierarquia construída a partir delas.
O único modo de fazer os preconceituosos entenderem algo como “diferença-pura” é apelar para o mundo da música, ou das cores…
Todo mundo entende que o dó é diferente do lá, do mi, do sol, etc… e ninguém apela pra dizer que um é melhor do que o outro, certo?
E todas as 7 notas, juntas, compõem um universo magnífico, porque não hierarquizado. E pleno de diferenças, de nuances, de equivalências, de transbordamentos…
Perfeito Marjorie!
Lembro no supletivo, tinha um machão que sempre discordava dele. Ele dizia:
“Direitos iguais funções diferentes!”
Eu só faltava morrer!
O pior é que sempre eu era “a do-contra-atéia-vegetariana-from-well”. Aí antes mesmo de me expressar as pessoas já discordavam!
Muitos vegetarianos dizem “para os animais todos os humanos são nazistas”. Acho que dizer “todos” é generalizar. Mas os abatedouros lembram bastante campos de concentração =/
Vi isso aqui e lembrei de ti na hora:
http://diariosdemetacritica.wordpress.com/2009/05/01/sexo/
Bjos!
Muito bom o texto, gostei bastante. Ele caiu numa lista de e-mails que acompanho e tive que vir aqui comentar o que comentei por lá.
Se alguém me diz “homens e mulheres são diferentes”, eu digo “e eu também sou diferente de você, e nós dois de todos os outros seres humanos”. Bingo. Truísmo por truísmo, anula-se aquele retoricamente também. Mas com uma vantagem: se “todos os seres humanos são diferentes” por que é que falamos em direitos ou em igualdade, pra começo de conversa? O defensor da diferença entre homens e mulheres provavelmente vai dar uma balbuciada, dizer um “não, mas peraê… veja bem…” etc.
É como um professor meu disse uma vez: duas coisas só são iguais quando suas diferenças não importam. Creio ser o caso; por mais diferenças que existam entre seres humanos biologicamente falando, nenhuma delas importa para tratarmos todos com os mesmos direitos, sem discriminação.
Contudo, eu acho que até pode ser que quem diga “homens e mulheres são diferentes” não tenha noção da grande barbaridade que está falando. Só que isso não faz dessa pessoa uma inocente. Por definição, inocente é quem não é nocivo, ou seja, quem não causa dano aos outros. Quem diz isso, se não for machista convicto, é ao menos um ignorante – e não é à toa que ignorância e estupidez são sinônimos em muitos contextos (este por exemplo). Porque mesmo ignorante, quem diz tal truísmo colabora para destruir qualquer forma de diminuição das desigualdades. No fim das contas, como isso pesa…
“Num determinado ponto do texto, ele diz que os antropólogos de sua época transformam o negro num objeto, pois a maioria de seus trabalhos eram descritivos. Eram antropólogos que se consideravam brancos falando dos negros, como se se pudesse separar brancos e negros no Brasil. Como se pudesse existir um Brasil ariano. Até aí, tudo bem, é uma tese válida e eu concordo com vários pontos dela.”
Marjorie,tenho Antropologia Cultural na faculdade,e sou obrigada a discordar um pouco desse trecho.
O antropologo tem que encarar o grupo estudado como um objeto,se não não dá pra trabalhar.Isso não quer dizer que ele não esteja enxergando aquelas pessoas como seres humanos,nem que ele esteja indo estudá-las e tirando conlusões sem perguntar aquelas pessoas o que elas pensam,aliás a análise é feita também com o que as pessoas pensam da própria cultura.
O Antropologo define a cultura junto com os participantes dela.
E quanto ao fato do antropologo se julgar branco,ele tem que ter um certo distanciamento do “Objeto” estudado.Talvez seja isso que tenha causado essa impressão no Guerreiro.
Quanto aos trabalhos serem descritivos,essa é a primeira parte do trabalho de campo.Se os antropologos a que o autor se refere fizeram só isso,então é melhor que rasguem o diploma.
Espero ter explicado direitinho.
Acho que é só isso.O resto do texto tá perfeito como sempre.
[...] Bravo! Mas o que achei mais bacana é a maneira como a Marjorie explicita como a argumentaçao que: “homens e mulheres são diferentes” é a que mais a irrita. Quando se discute gênero alguém sempre acaba citando essa frase, e é [...]
Marjorie;
Há alguns anos li a tese de uma antropóloga/soci[ologa/professora inglesa que defendia exatamente isso – homens e mulheres são diferentes. Então, numa entrevista, perguntaram a ela se isso não ia contra ao que o feminismo pregava: homens e mulheres iguais. E ela entrou naquele viés que explora a utopia de que (como bem disse a Bárbara) homens e mulheres são equivalentes numa mesma sociedade. Expressam valores diferentes mas igualmente importantes. E (como eu estava de licença-maternidade) me chamou a atenção o caso que ela cita, a da executiva americana que, no dia em que deu à luz despachou do quarto da maternidade, e três dias depois estava de volta ao trabalho. Essa mãe, ao contrário do que ela possa pensar, jogou por terra anos de batalha, porque mostrou como pode viver dentro da idéia machista que a mulher deve ser, no fim das contas, um homem para sobreviver no mercado de trabalho.
O problema, me parece, é o fast food que se tornou o feminismo. E como ele tornou-se clichê ao descrever quem o defende – a mal amada, a gorda mal-vestida, a incapaz de encontrar o parceiro que a leve ao éden do casamento e da maternidade.
Eu, aos 43 anos, três idiomas e duas faculdades, procuro emprego para não ter que passar mais pelas agruras da vida de autônoma – opção que escolhi para acompanhar minhas filhas na primeira década de vida de ambas. Sou chamada, o currículo analisado, muitos elogios.
“Você tem filhos?”.
“Sim, tenho duas meninasm, de 8 e 10 anos.”
“São pequenas… Seu marido dá suporte a você?” (Oi, como assim? Marido?)
“Eu sou divorciada.”
“Ah, mas… você tem uma retaguarda, não?”
“Quando preciso, sim.”
Neste instante sou automaticamente desqualificada. Meu currículo é fantástico, minha dicção perfeita, mas… eu tenho filhos. O cara que está competindo comigo também tem, mas há uma mãe para se preocupar com eles. Para lidar com o problema.
Lembro (mal, mas lembro) de uma capa da IstoÉ em que uma criancinha puxava a barra da calça da mãe. A manchete era algo como: mãe, volta pra casa. A ‘discussão’ era sobre como conciliar ‘o lar’ e ‘o trabalho’. A primeira coisa que pensei: por que essa ‘obrigação’ é das mulheres? Por que não tem um homem na capa e a criancinha dizendo ‘pai, volta pra casa’? Preconceitos e preconceitos e preconceitos e…
Barbara — nossa, exato. Vou adotar o “equivalentes”.
Lyrio — nhón, brigada!
Má — nossa, odeio odeio odeio essa do “você nunca pisou na favela, então não pode discutir”. Ou o que uma menina que deu palestra lá na ECA disse ouvir: “você não é negra, por que tá no movimento?”. Acho que esse discurso revela a idéia de polarização, de desunião como regra. É preciso dar voz para quem realmente vive as coisas? Sem dúvida. É a voz mais importante a ser ouvida. Mas isso não significa que os outros não podem analisar a situação tb. Afinal, são coisas que a sociedade tem de resolver como um todo. Bjs
Gabi — nossa, tb odeio esse “inconscientemente”. Tem também o “cientificamente, está provado que X. Então pronto, acabou”. Isso já revela uma concepção bem zoada do que seja a ciência. Tô lendo um livro maravilhoso da Marilena Chaui e ela fala justamente isso: que a mídia ajudou a sedimentar uma idéia “mágica” de ciência. Fez o impossível: ligou ciência a magia. E aí as pessoas ficam achando, só porque leram sobre uma pesquisa em algum lugar, que é assim, pronto e acabou. Como se a ciência não se refutasse o tempo todo.
Eulalia — sim, nem todo mundo usa de má fé quando diz essa frase, claro. Ela também reflete um discurso machista já internalizado por conta da ignorância. Só que, ao dizê-la, mesmo que não saiba, você já tá se alinhando com um discurso que surgiu pela má fé, né? É foda.
Bia — Biaaaaa! Sério, mil desculpas por estar tão enrolada! Eu sou uma completa incompetente na hora de administrar meu tempo. Tenho um arquivinho word aqui com seus capítulos, mas estou mexendo bem a conta-gotas. E os meus capítulos estão mal começados. Espero que vc não se importe. Desculpa mesmo! Mas, assim que o semestre passar dessa fase maluca, eu dou um gás. Juro que prometo.
Rebecca — caralho, eu amo o Idelber. Hahaha. É bem isso mesmo. As pessoas estão acostumadas com a idéia de diferença ser SEMPRE hierarquização. Por isso que a palavra “diferença” não é somente “diferença”. Então, o que o cara tá querendo dizer é isso mesmo: que as diferenças físicas justificam a hierarquização. Só que não tem coragem de falar isso abertamente. Mas, num mundo assim, tão cheio de dicotomias, apenas a palavra “diferença” basta. Beijão e valeu por trazer a citação!
Deborah — o foda é que lembram mesmo…
Thiago — nossa, outra boa forma de rebater. “A rigor, todo mundo é diferente”. Você pode dizer isso de absolutamente todo mundo! Brancos e negros são diferentes. Homos e heteros são diferentes. Jovens e velhos são diferentes. E por aí vai. Só que essas pessoas colocam como “padrão” a pessoa mais poderosa do kiriarcado: o branco, hetero, sem deficiência, rico, cristão. Ele não é “diferente” de ninguém. Ele é o padrão. Todos os outros só são “diferentes” NA COMPARAÇÃO com ele. São desvios.
E, sim, pela ignorância, a gente acaba se alinhando a discursos de má fé sem nem saber…
Raiza — então, eu dei uma MEGA simplificada para deixar a explicação sobre o Guerreiro Ramos curtinha. Afinal, ela era só um exemplo, não queria que ocupasse um espaço muito grande do texto. E, nessas, acabei simplificando demais, acho.
Concordo contigo. E o Guerreiro não necessariamente discorda disso, pelo que entendi do texto que eu li. O que ele aponta é aquela coisa: se a ciência só é feita por brancos (ou, como ele diz, por pessoas que se julgam brancas ou são brancas “socialmente”), então ela corre o risco de refletir preconceitos. E, para ele, o fato dos trabalhos (pelo menos até a época dele) serem predominantemente descritivos, sem analisar muito as injustiças, era um sinal de objetificação. Ele não estava criticando o fazer da antropologia e da sociologia em si. Mas a predominância da descrição sobre outros tipos de trabalho. Eu concordo com ele quanto à necessidade de ter negros falando de si também. E ele foi um dos primeiros que veio preencher essa lacuna.
Suzana — Então, não acho que a mulher que voltou a trabalhar 3 dias depois do parto tenha jogado todas as batalhas por terra. Ora, por que não?
É claro que essa escolha pode ter sido feita porque o trabalho dela a explorava, porque nos EUA não tem licença-maternidade remunerada, enfim, por motivos econômicos. Só porque ela é executiva, não quer dizer que os três meses sem salário não a prejudicariam. Acho que, num país como os EUA, colocar a escolha dessa mulher como estritamente pessoal, sem levar em conta a ausência de renda durante a licença, é ingenuidade. E má fé até.
Porém, ela pode ter escolhido fazer isso para deixar o bebê com o pai. Por que não? Ou pode ter escolhido isso porque era o que ela, de fato, queria. Porque gostava de seu trabalho e não queria ser só mãe, nem poralguns meses.
Uai, por que essa mulher estaria jogando fora anos de batalha? E pq isso seria uma atitude “masculina”? Acho que a mulher que a criticou acabou no mesmo preconceito da Maria Mariana: achar que trabalho é algo masculino e cuidar de filho, feminino. Então, se a mulher é workaholic, é porque é masculina. Ou porque a sociedade a obrigou a ser masculina, em detrimento de sua feminilidade, encarnada na maternidade. I call it bullshit.
Sobre a discriminação no mercado de trabalho: cara, que raiva, né? Outro dia vi uma vaga que especificava: NÃO-FUMANTE. Bando de empresa pau no cu. Pretendo escrever sobre.
Vitor — EXATO! Em entrevistas com celebridades, é sempre isso também: “como você tá fazendo para conciliar?”. Mas, se é um homem que acaba de ter filho, é só o “parabéns”. Porque ele não tem que conciliar — não é a tarefa dele.
Marjorie;
Era para não me alongar. A executiva em questão o fez porque ia perder seu posto de trabalho. Sua carteira de clientes começou a ser passada para seus colegas homens/mulheres solteiras. Ela trabalhava com mercado de ações, e disse que se sentiu pressionada desde que anunciou a gravidez. E voltou para mostrar que ser mãe não a impediria de ser também profissional – foi preciso ela abandonar o filho para PROVAR isso.
Eu acho, sim, que o exemplo que ela deu foi péssimo. Porque ela sempre será lembrada como a mulher pode largar o filho com três dias de vida para cumprir o que determina o bando de chefes homens. Em vez de fazer valer o currículo, o dinheiro que ganhou, seu valor como PESSOA, ela botou esses mesmos valores no saco para mostrar que pode fazer o mesmo que os homens.
É o que acontece comigo. Meus filhos são impedimento para que eu tenha um bom emprego. Era esse contexto a que a pesquisadora se referia. A mulher, na verdade, não fez uma escolha livre. Porque assim que ela pariu, correu pra dizer “Olha, fiz a burrice mas consertei: não faltei nem um dia ao trabalho!” (Ela ainda cita o exemplo de seus colegas homens, que faltam para ver a apresentação da filha no balé e são parabenizados por serem “pais presentes”). O que é extremamente ruim para mulheres que querem ser mães mas temem perder seus empregos. A solução deveria mudar as regras do jogo para que as mulheres possam escolher ser mães ou não – e isso não seja considerado perda temporária de sanidade (como um chefe meu gostava de dizer) e, por isso, passível de afastamento permanente do emprego.
Su, eu não acho que ELA deu um mau exemplo. Acho que considerrá-la um “mau exemplo” é ser um pouquinho preconceituoso, achando que a mulher SEMPRE deve pôr a maternidade acima de qualquer coisa, inclusive de seu emprego.
Em vez de dizer se ela foi um mau exemplo ou não, acho que temos de focar no mercado que discrimina as mães. É esse mercado que gerou a atitude da mãe. É este mercado que exige que ela prove que ainda consegue se manter no topo. É este mercado que não lhe dá chance para ficar parada por três meses sem que seja jogada para escanteio. A atitude da mulher foi uma reação a todo o contexto predatório do mercado onde ela trabalha.
Percebe a lógica? Você a está culpando por largar o filho recém-nascido para cumprir o que determinam os chefes homens. Em vez de culpar os chefes homens por determinarem isso.
Se´ela tem de correr e dizer “fiz a burrice de parir, mas voltei” é porque o próprio mercado encara a maternidade como uma burrice, como um prejuízo, não como algo importante.
A atitude dessa mulher, para mim, é uma reação natural. E eu duvido que tenha sido fácil para ela.
Eu não estou culpando ninguém, Marjorie – quem sou eu! Nem estou afirmando que tenha sido fácil para ela. Mas eu acho que ser mulher que quer ser vista ombro a ombro com os homens passa por você assumir e bancar certas atitudes. Porque o negócio é, porco e grosso modo, o poder dos homens x as mulheres. Quando acontece algo assim, todas perdem. Quando um homem tem uma atitude positiva… nada acontece. Entende meu ponto-de-vista?
Cada uma faz o seu cada qual, mas na cabeça dos profissionais homens esse pensamento requintado – o poder de escolha e decisão da mulher – não existe. Eu não posso ser uma baita profissional E mãe. Eu tenho que ser uma baita profissinal OU mãe. Na cabeça do mercado (machista) de trabalho uma coisa exclui automaticamente a outra. E se insisto vem a tal história de “eu não sei como ela consegue” ou “no fim ela vai desistir de uma coisa” acompanhada da cara de fatalismo absoluto.
Mas acho sim que, infelizmente, as opções que cada uma escolhe acabam refletindo no todo – daí esse coro ridículo em torno das declarações da Maria Mariana. Ela fez – então TODAS temos que fazer.
Então, a mãe fez isso porque o mercado a discrimina, e o mercado continua discriminando porque há mães que se recusam a bater de frente contra a pressão de largar os filhos e deixar suas vagas para mulheres solteiras e homens – aceitam como a coisa funciona e assim vamos levando. Ela vai ser o “exemplo” citado na empresa de profissional comprometida com o trabalho – e como fica a outra grávida que quer brigar para ter seu emprego esperando-a quando ela acomodar os filhos? Ela briga mas escuta que a outra funcionária deixou o filho com um dia de vida em casa, botou o salto e foi trabalhar – essa é “comprometida com a empresa”.
Sei bem como é isso, fofa. Meu marido, por exemplo, vive alegando a diferença sempre a partir de um ponto de vista biológico. E por mais que ele negue, é evidente em seu discurso (digo discurso de maneira mais geral; que não fica só no âmbito do: eu tenho pênis e você vagina)
Ele também deturpa – completamente- a igualdade de direitos. Não só ele, mas acho que toda uma geração que não está sabendo lidar muito bem com isso. Por exemplo: Certa vez, descemos do carro cheios de sacolas de mercado. Ele tem 1,82 e eu 1,62, ele pesa 90k, eu peso 56k, ou seja, não é uma questão de igualdade de direitos, mas sim de noção, de gentileza… Mas não, ele disse: Vocês não querem igualdades de direitos? Então agüente carregar as mesmas sacolas que eu – VOCÊ TEM UMA NOÇÃO? Eu fiquei putíssima (olha a retórica!), e até desisti de falar qualquer tipo de coisa. Alguns minutos depois, ele disse que estava brincando. Mas nós bem sabemos que não é nada brincadeira, no fundo é o que ele realmente pensa. (e não só ele!)
Outra. Dois dias atrás estávamos discutindo sobre o ato de amamentar. Ele ficou praticamente de cara fechada pra mim quando afirmei que via a amamentação como escolha. (ele afirmava que não, que há comprovações científicas dos benefícios e tal, e que se mulher escolheu a gravidez, deve amamentar! Eu só não briguei mais, porque senão perderia meu sono. Mas olhe o grau!) Vou ser sincera, acho bacana o ato de amamentar, mas não posso ser hipócrita… Tive dois filhos, amamentei o primeiro até os 6 meses e a segunda 2 meses; mas juro por tudo, não suportava aquilo. Eu simplesmente odiava amamentar, mas até por uma questão de praticidade (muito ao contrário das que dizem que amamentar é prático)… Eu precisava limpar casa, colocar roupas na máquina, cozinhar, e claro, ver o dia, a luz do sol… Com uma criança mamando a cada 3 horas, você não consegue fazer absolutamente nada.
Olha, é complicadíssimo. Mas uma coisa é fato, e você colocou muito bem… São inúmeras as vezes que ficamos paradas e com cara de tacho, principalmente quando nos encontramos numa mesa – de bar – majoritariamente de pintos.
mais ibope. http://revistatpm.uol.com.br/blogs/redacao/2009/05/07/confissoes-de-mulher.html
[...] de seu novo livro. Depois, leia as brilhantes críticas de Marjorie Rodrigues (aqui e aqui), Lola Aronovich (aqui) e Srta T (aqui). Minha rápida opinião sobre isso? Em TEORIA, eu [...]
Puxa, Marjorie, obrigado. Sua resposta à Rebecca me faz até vencer a timidez (sim!) que sempre sinto ao comentar pela primeira vez em blogs que admiro muito. Tenho feito oferendas diárias ao santo Google Reader da minha amiga Ju Sampaio, através do qual conheci o seu blog. Quis muito comentar no post sobre o elevador, mas era tanto o que eu queria dizer que acabei desistindo (participei de duas iniciativas de combate à discriminação racial em elevador aqui em BH, uma liderada pela Associação das Domésticas, outra pela Asmari, que é a Associação dos Catadores de Papel, muito ativa por aqui; eu teria muito a contar sobre isso). Tenho curiosidade de saber como anda aquele tema no seu prédio. Achei legal a coincidência de que os nossos últimos posts, bem diferentes, eram basicamente sobre a mesma coisa: a desmontagem de falácias que acompanham certas oposições binárias. A Rebecca viu o parentesco muito bem. Um grande abraço e parabéns por este belo espaço,
Su — pois é, é foda. O pessoal da empresa vai usá-la como exemplo, claro. Assim como usam todo e qualquer babaca como exemplo de bom funcionário, quando, na verdade, estão é botando no rabo dele. Desculpe a baixeza, heh.
Mas eu não acho que essa mulher vá servir de bandeira para as workaholics. Eu acho que o coro de pessoas dizendo: “óóó, que monstra! Não está cumprindo sua função sagrada” foi/será muito maior do que o coro de gente dizendo: “viu só? Todas deviam fazer o mesmo”. Porque o estereótipo da mãe devotada fala mais alto. E o pessoal do mercado de ações, predominantemente masculino, quer mais é ver a mulher bem-sucedida dentro de casa mesmo.
Também reitero que acho, no mínimo, exagero dizer que esta mulher “traiu o movimento” ou está deliberadamente prejudicando as outras. Ela só está se virando de acordo com as regras do jogo, ora. Se a gente tem que reclamar de alguém, é do mercado. Não da coitada que foi fraca demais para peitá-lo.
No resto, concordamos. Sobre o mercado que estabelece o “ou” em vez do “e”. E sabe o que mais me incomoda? Que, aqui, a licença-paternidade é de 5 dias. Alguém sente dó do bebê por causa disso? Imagina. Os homens sequer se mobilizam para aumentar a sua licença. Tem umas ONGs a favor do aumento da licença, uns projetos de lei tramitando — mas, de modo geral, entre a população comum mesmo, não vejo nenhum homem se manifestando. Agora, imagina uma mulher que voltasse a trabalhar depois de 5 dias. Seria considerada uma monstra, claaaro.
Vanessa – Também já ouvi muita coisa parecida com essas do teu marido. Engraçado, eles só vêm dizer “vocês não querem igualdade de direitos?” quando é para a gente se foder, né? Como se a gente já não se fodesse o suficiente.
Se eu fosse vc, quando ele lhe entregasse as sacolas, eu diria: “Ah, é assim? Ok, eu levo as sacolas — mas, quando chegar em casa, você vai depilar a perna com cêra fria, estamos combinados?”. Humor passivo-agressivo a gente responde com humor passivo-agressivo…
Sobre amamentação: ele também pode achar o que quiser. Acho essa uma daquelas coisas que entram por um ouvido e saem por outro. Ele não vai entuchar o bebê a força no teu seio, vai? Então ele pode reclamar o quanto quiser, é só blablabla. No fim das contas, a decisão é mesmo sua.
Haline — “Hoje, dez anos depois, ela voltou ao trabalho, como roteirista da novela ‘Os Mutantes”.
HAHAHA, o nome da novela tem tudo a ver com ela. Mas, ei, péra aí, péra aí… A mulher tá TRABALHANDO COMO ROTEIRISTA ao mesmo tempo em que lança um livro dizendo que mãe não deve trabalhar? Olá, hipocrisia. Ela não está se achando incrivelmente masculina? Não acha que está deixando de cumprir seu papel no mundo? Os filhos não são pequenos ainda?
Idelber — também sofro de timidez internética. Por isso, não comento lá no seu blog, mas acompanho sempre. Fico feliz que você goste dos meus textos! Lisonjeada mesmo
Sobre o meu prédio: acabei não fazendo o cartaz. Preferi conversar com a síndica — que é nova e parece bem receptiva. Quem colocou as placas foi o síndico antigo, na última semana de mandato. Esperei ela se estabelecer um pouco no cargo e fui falar com ela, em particular. Não estava a fim de enfrentar os condôminos escrotões na reunião — porque eles também são escrotos ali. A própria votação do síndico foi uma troca de ofensas só. Ela disse que ia se consultar sobre a lei e depois me respondia. Isso foi há umas duas semanas, por aí. Até agora nada. Vou cobrá-la da próxima vez que a vir.
Mas, felizmente, pelo menos no que eu tenho percebido, os condôminos continuam a chamar os dois elevadores, sem fazer distinção. Os empregados (que são o que importa) vi um ou outro descendo pelo de serviço. Não vi nenhum no social. Tenho passado pouco tempo em casa, então não pude observar mais. Talvez o mais válido fosse conversar com as empregadas para ver o que elas estão achando. Digo: as empregadas domésticas. Porque os empregados do prédio não se manifestariam abertamente, eu acho. Por conta do vínculo empregatício. =-/
Abraço!
É, marj, ninguém merece esse povinho nojento…
A gente discutindo…
“Mulheres ganham menos que os homens, mesmo com mais anos de estudo…”
“Mulheres são sistematicamente estupradas e vendidas no tráfico de pessoas, temos que fazer algo a respeito…”
“Mulheres são constantemente espancadas e assassinadas pelo marido ou companheiro…”
“Meninas são estimuladas a usarem maquiagem desde pequenas e adolescentes a fazer cirurgias plásticas…”
e vem um panaca e diz
‘Mas homens e mulheres são diferentes…’
Olhe, dá um ódio…
“Mas eu não acho que essa mulher vá servir de bandeira para as workaholics. Eu acho que o coro de pessoas dizendo: “óóó, que monstra! Não está cumprindo sua função sagrada” foi/será muito maior do que o coro de gente dizendo: “viu só? Todas deviam fazer o mesmo”. Porque o estereótipo da mãe devotada fala mais alto. E o pessoal do mercado de ações, predominantemente masculino, quer mais é ver a mulher bem-sucedida dentro de casa mesmo.
Também reitero que acho, no mínimo, exagero dizer que esta mulher “traiu o movimento” ou está deliberadamente prejudicando as outras. Ela só está se virando de acordo com as regras do jogo, ora. Se a gente tem que reclamar de alguém, é do mercado. Não da coitada que foi fraca demais para peitá-lo.”
Mas esse é o ponto. Ela sofre dos dois lados. Dos homens que querem vê-la em casa e das mulheres que engrossam o coro do “COMO ela vai largar o filho recém-nascido em casa?”
Na entrevista, a pesquisadora não acusou a mulher de trair o movimento, mas sim mostrar que os exemplos de mulheres que se submetem à lógica masculina de que “se homens e mulheres são iguais, como querem as feministas, então homem não fica em casa cuidado de filho, recém-nascido ou não” são péssimos para a histórica briga pela equivalência dos sexos. Submetendo-se ao sistema ela o reforça, e abre um precedente perigoso.
Foi o que aconteceu quando a Maria Silvia Bastos teve gêmeos. Ela não tirou nem mesmo um mês da licença-maternidade: com 20 dias estava de novo na cadeira de presidente da CSN. Eu me lembro que a quantidade de artigos que pipocaram para que se encurtasse a licença-maternidade foi um assombro. Os jornais acharam o máximo, as revistas idem. Finalmente iria cair uma lei que ia contra a coreente de um mercado competitivo, moderno e globalizado. Foram publicadas dezenas de matérias com o quadrinho básico, comparando o tempo das licenças-maternidade no mundo inteiro. E as grávidas que não tinham o dinheiro necessário para bancar (nem queriam isso) a estrutura necessária de apoio aos filhos viram-se ameaçadas de ficar sem a licença – me lembro que o resultado dessa bagunça foi, algum tempo depois, cair os 15 dias que a mulher tinha direito para amamentar a criança um pouquinho além dos 4 meses regulamentares. Eu mesma não tive direito a ela.
O que ninguém explorou na mídia é que Maria Silvia pediu demissão alguns meses depois exatamente porque sentiu a necessidade de dar mais atenção aos gêmeos do que à CSN. Ela mesma declarou que ninguém iria acreditar, mas ela estava deixando a siderúrgica para cuidar dos filhos.
Acredito que é esse o ponto que a pesquisadora quer ressaltar: homens e mulheres têm as suas diferenças, e por isso deve ser dado a ambos o direito de ESCOLHA dentro das suas especificidades – o que não acontece hoje, quando o mundo é nivelado por baixo, pela óptica masculina. Caímos então nos “como você concilia” feminino e no singelo “meus parabéns” masculino.
Concordo contigo Marjorie. Acrescentaria apenas que a desonestidade semântica no “mulheres e homens são diferentes” é de tal forma bem sucedida que posso dizer que ouvi mais mulheres dizê-la que homens. É como um míssil telecomandado, tão subtil que até algumas mulheres usam sem saber como e porque estão usando. O mesmo se passa com os gays. A confusão que se pretende incluir nos soubdytes (para que querem eles ser “normais” se não se comportam como “normais”) é do mesmo nível: fazer tudo para esquecer que o que se pretende é direitos políticos iguais, e não a igualdade que, felizmente, é impossível entre dois seres humanos.
Falou tudo, marjorie. Acho também que, ainda que as diferenças entre XX e XY fossem significativas (o que não acredito, estou com a turma da equivalência), o argumento continuaria frágil. Não se pode sujeitar a igualdade de direito a igualdade de fato.
A lista de e-mails também me irrita de vez em quando.
É sempre um aprendizado ler seus textos. Vou lendo e colocando estrelhinhas no GoogleReader.
Eu passei o link desse texto pra uma turma de pedagogia pra que dei aula recentemente. Era uma aula de história da educação e a gente tinha que falar sobre educação da mulher no Brasil colonial. Para não ficar algo distante, achei melhor discutir relações de gênero na atualidade. Foi aí que esse post entrou, falando das estratégias retóricas com que o machismo se impõe. A problemática colonial mesmo, ficou pra aula seguinte bfweukgbew.
E, ah!, outro dia, num congresso [de História], um professor defendeu posições mais relativistas, ligadas aos problemas colocados pelos teóricos da pós-modernidade, e o conferencista lascou: daqui a pouco você vai querer reabilitar o nazismo!
Parabéns pelo seu trabalho aqui.
[...] Eu sei, eu sei, homens e mulheres são diferentes — mas, como não me canso de repetir, a maio…. Afinal, por que separar salgadinho por sexo? Por acaso há alguma diferença na forma como meninos e meninas comem batatas? Então a menina não pode gostar de costelinha (imagina, carne é um negócio tão másculo!) e o menino não pode se interessar por uma batata “lisinha e suave”? [...]
Puxa, que texto hein?? Adorei!!! Esclarece bastante coisa sobre a aparentemente inofensiva frase. Engraçado, que esse tipo de dominação é bastante usado, não só para “diferenciar” homens e mulheres como também negros e brancos. É um absurdo alguns tipos de frases que encontramos na boca do povo e que as vezes ficam sem contra argumentos.
Assim como vc, milhares de mulheres passam por isso todos os dias, mas poucas são aquelas que botam a boca no trombone, e quando botam são mau vistas…MAs é isso aí, acredito que de pouco e pouco vamos fazendo a diferença! TEmos é que FALAR SEMPRE!!!
MA-RA-VI-LHA!
Texto pra acabar com esse mania de justificar a merda que foi feita desde o início dos tempos, tão somente, com a diferença biológica.
Isso é no mínimo desconsiderar a nossa inteligência. Odeio profundamente.
Maravilhoso texto. Outro dia ouvi isso, acompanhado de:
“em todas as espécies animais, machos e fêmeas são diferentes”.
Daí falei para o cara voltar para a caverna, já que ele tinha acabado de “suprimir” milênios de civilização kkkkkk
Lembrei de uma campanha das feministas aqui no Recife que dizia:
“VIVA A DIFERENÇA”…
Falou e disse.
SEMPRE mais que odiei essa frase, sempre. Mas agora eu tenho a melhor resposta de todas, que na verdade é uma pergunta. Questionar o interlocutar, querer saber qual é, afinal, essa diferença, quebra as pernas dele, sem dúvida.
Você tem toda a razão em relação ao feminismo e essa frase tosca; e também qdo diz sobre comparar tudo ao fascismo. Dá raiva ficar sem resposta. =)
Minha vontade era mandar esse texto pra todo mundo com quem eu já discuti sobre o direito das mulheres e recebi como resposta que homens são diferentes da gente.
Mas não vou fazer isso, vou retomar os debates. Terei uma carta na manga, HAHAHAHA. (Pode deixar que os créditos serão dados a você inclusive nas discuções orais).
Genial.
[...] sei que é espinhoso comparar qualquer coisa com o nazismo. Já escrevi sobre isso aqui. Porque o nazismo tá no rol das coisas indefensáveis. Como poucas coisas têm de fato a mesma [...]