
Passos de formiga
maio 25, 2009A São Paulo Fashion Week (que eu, sinceramente, achei o programa mais boçal ever) chegou a um acordo sobre a cota para modelos negros nos desfiles: 10%.
Pois é. Isso significa que 90% dos modelos ainda serão brancos, com cara de europeus. Isso, num país onde 44% da população é preta ou parda (de acordo com o censo feito no ano 2000). Mais da metade deles mora na região Sudeste, onde acontecem as principais semanas de moda. E aí esses bocós me vêm com essa cota pífia, quase risível.
É claro que 10% é melhor do que 2%, como era antes. Mas eu espero que as pessoas percebam que, ainda assim, é apenas uma migalha. Não considero essa cota um avanço porque é uma porcentagem que está dentro do que esse mercado racista considera aceitável.
Semana passada, comecei a ler “A negação do Brasil”, do Joel Zito Araújo (o que me lembra que, putz, preciso urgentemente atualizar o Lidos e Lendo). O livro analisa a participação dos negros nas novelas desde 1963, quando elas começaram a ser diárias. Pega tanto a quantidade de negros quanto a qualidade dos papéis — se as personagens são planas ou complexas, quão importantes são para a trama, etc. Ainda estou no começo, então não dá para falar muito. Até agora, o livro, embora interessante, só confirma o que eu já suspeitava: que os negros tendem a receber papéis subalternos, como empregadas domésticas, mordomos e malandros. O prefácio diz que essa tendência diminuiu um pouco nos anos 1990, então vou esperar terminar de ler para opinar direito.
Enfim. Fato é que, no comecinho do livro, o Joel diz que há uma cota não-declarada para negros nas novelas. Ninguém se reuniu para decidir isso, claro, mas ela existe de fato. É verificável empiricamente. Em toda a história da televisão brasileira, nunca houve uma novela em que os negros fossem mais que 10% do elenco. Então, quando a galera se opõe às cotas nas novelas, se esquece de que já existe, na prática, uma cota não-oficial de 10%. O que se propõe, portanto, é a troca da cota não-oficial por uma oficial, que represente mais apropriadamente a população brasileira. Porque, né, nós não somos suecos. Então vamos parar de querer ser, por favor.
(Aliás, o Joel Zito cita no livro que, nos comerciais de TV suecos, é mais fácil achar negros do que nos comerciais brasileiros. Ah, a ironia…)
Sendo assim, uma cota de 10% nos desfiles da SPFW não significa porra nenhuma, porque 10% já é a cota não-declarada. Trata-se de uma migalha aceitável para o mercado de moda, porque já é usada na TV. Sei que tô falando o óbvio, mas, às vezes, com números absolutos, a coisa fica mais clara: num desfile com 20 modelos com cara de suecas, haverá apenas 2 negras. Apenas duas. Numa população com 44% de negros. Porra.
Já escrevi aqui sobre como a falta de representação afeta a nossa auto-estima. Como a maioria da população é preta ou parda (e, entre os que se declaram brancos, tem muita gente que não tem mesmo cara de sueca), não é apenas uma parcela da população que se acha feia. Nós somos um povo que se acha feio. Um povo inteiro que acha que não é “nada de especial”.
(Manifestando-se contra a adoção de quaisquer cotas na SPFW, a estilista Gloria Coelho disse: “Não acredito em cota, acredito em mérito. Se você é inteligente, você entra em uma faculdade. Se você é especial, você desfila, independente da cor”).
Ora, se, até então, apenas 2% de negros desfilavam, basicamente o que essa mulher escrota quis dizer é que os negros não são especiais e não têm mérito. Ou seja: não podem ser bonitos. O bolo da cereja é que ela disse que eles não são inteligentes também. E que, por isso, só por isso, é que são minoria entre os aprovados no vestibular.
E aí, quando vão esfregar na cara dessa mulher que ela é racista, ela vira e diz: “Quanto a preconceito, não posso ter preconceito com negros, mesmo porque tenho avô negro”.
Eu fico tão, mas tão puta quando alguém diz isso. Porque, vamos combinar, se a gente bem fuçar, ABSOLUTAMENTE TODO MUNDO NO BRASIL TEM UM PARENTE OU UM AMIGO NEGRO. É impossível não ter nenhum contato com 44% da população. Então todo mundo pode usar essa desculpinha esfarrapada, enquanto, dia após dia, as discriminações existem. Sejam 2 ou 10%, os negros ainda ficam com as migalhas.
Quando é que a gente vai parar de fazer pirraça e lidar com isso abertamente? Tá cansando minha beleza isso já. Ou melhor: beleza, não, né. Já que, para o padrão “só a Suécia vale”, eu também tô longe de ser bonita.




Marj, vc nem colocou a pior parte que eu achei do comentário da Glória Coelho. Posso errar nas palavras, mas era algo mais ou menos assim: “já temos negros trabalhando nos bastidores, costurando, bordando, ajeitando o cenário e fazendo um trabalho maravilhoso e blá blá blá, pra que essa cota?”.
Quer dizer, que continue o negro serviçal, naquela posição que ninguém vê – basta as pessoas verem o fruto do trabalho deles que tá ótimo, e que o mundo continue girando.
Concordo com você que 10% é um avanço em relação aos 2%, mas que ainda é migalha. Que pelo menos isso ajude a amenizar a desculpa de “não temos tantos modelos negros pra atender a demanda”. Porque com o tempo essa demanda se transforma em mais modelos negros trabalhando, e quem sabe a equação se inverte.
Um abraço.
É muito broxante a forma como os estilistas estão lidando com essas cotas. É cada pérola! A minha opinião é que o meio da moda brasileiro é super racista porque quer atingir nível internacional. E quer fazer isso copiando. Copiando os EUA, a França. E se lá não tem negro, aqui não tem de ter também.
Há um tempo atrás teve uma grande discussão na moda brasileira sobre “O que é moda brasileira”. Tipo quais elementos da BRASILIDADE a gente devia abraçar. E, de novo, é cada pérola! Porque ninguém pensou, hm, acho que vou começar a usar mais modelos indígenas e negros. Mas rola de vez em quando coleção inspirada na África. Nos índios. Ou seja, os clichês.
Enfim, tem também isso aqui: http://astrocat.wordpress.com/2009/05/23/quantos-negros-e-indios-voce-ve/. Se tivesse mais negros estilistas e donos de marca, talvez fosse diferente. Quando eu estudei moda (me formei em 2006), não tinha nenhum negro na minha sala.
*Há um tempo.
Queria dizer que li agora o seu texto Beleza Branca e achei muito bom mesmo. Tem gente que fala que se o estilista quer usar só modelos suecas, é o conceito artístico dele e nada mais. Tem gente que fala que como os consumidores da marca são brancos, nada mais justo que usar modelos brancos. Mas a questão é. Que modelos representam um ideal de beleza. Do país todo. Às vezes mundial, no caso das tops. Não dá mais pra ignorar isso.
Pois é, sempre que leio sobre as cotas (em qualquer âmbito) me revolto com os comentários escrotos que leio. Tem gente que fala que se tem cotas para negros tem que ter para orientais também e etc, mas esquecem que os negros foram trazidos da África como objetos, tiveram sua língua, cultura e nacionalidade roubadas (por que afinal de contas nunca vi ninguém dizer que algum parente é descendente de angolanos, sul-africanos, nigerianos ou de algum outro país africano) e quando a escravidão foi abolida foram jogados para escanteio por que ninguém queria pagar pelo trabalho que eles sempre fizeram e preferiram chamar imigrantes para “embranquecer” o país, até parece que os imigrantes e os ex-escravos tiveram as mesmas oportunidades e que tem a mesma representatividade na população. Fico até com um pé atrás de responder estas pesquisas onde tem branco, pardo, negro etc por que não me considero de uma etnia, tenho a pele clara mas poderia ter a pele escura pois minha mãe é mulata (odeio esta palavra mas na falta de outra) e também tenho um tio que é negro (como a minha avó aliás mais escuro que ela até) mas puxou todas as outras características do meu avô que era caucasiano. Seria realmente bom parassem de fingir que aqui é a Suécia e começassem a agir como a Suécia (que busca incluir os imigrantes como suecos).
É muito dolorido ter de haver cotas para inserir qualquer tipo de ser-humano nesse mundo…
O mundo da moda é guiado pela beleza tida como a padrão, que desde sempre foi a européia.
Por vezes estão engordando o perfil de beleza, em outras, emagrecendo… Põe e tiram peitos, põe e tiram bundas; mas o considerado ‘rostinho bonito’ sempre foi o europeu.
O Brasil é eurocêntrico desde que existe, até no quesito de beleza!
(não só o Brasil, claro, mas é daqui que estamos falando)
Ô Lyrio, eles não “esquecem” da condição dos negros quando exigem cotas pra orientais. O nome disso é filhadaputagem (embora as putas nada tenham a ver com isso), má fé, brincar com coisa séria.
Eu fico sem saber se parto para a agressão física, verbal, ou pra gargalhada quando falam “mas e o preconceito contra os judeus, os descendentes de japoneses, de árabes, que também são minoria?” Mas, no final, como a Marjorie, também me bate aquela preguiiiiça, e viro as costas e vou embora de repente, sem falar nada. Tem determinados posicionamentos cmo que nos confrontamos cujo debate não vale a pena. Na verdade, não tem nem sentido debater. Eu nunca vou entrar numa discussão com alguém que diga que não existiu o holocausto, não faz sentido (acho que foi o Alex Castro que usou esse exemplo, muito bom, por sinal). O problema é que estou muito novo pra fazer isso. Imagina o que eu não farei quando tiver cabelos brancos.
Marjorie;
Este fim de semana eu estava conversando com minha caçula; falávamos sobre as professoras das duas e ela se referiu a uma delas como “moreninha”. “Filha, sua professora não é ‘moreninha’; ela é negra.” “Mãe, não fala isso! É ofensa!”. Então. Ela aprendeu que dizer que alguém é negro é ofensa. A cor da pele é ofensiva. A simples menção deve ser evitada em conversas bem-educadas.
E aí você fala sobre mérito independentemente de cor (que ninguém diz que “aquela professora branca é maravilhosa!”), que “raça”, já dizia Einstein, só existe uma – é a humana – que são várias etnias, que a professora dela tem extremo orgulho de sua ascendência (e por isso ensina isso às crianças como ninguém) etc.
Minha filha tem 7 anos. E já aprendeu que tem que chamar quem é negro de “moreninho”.
Rafael, eu também cansei minha beleza dessas discussões. Com gente grande eu simplesmente rio e viro as costas. Mas sou obrigada a explicar isso às minhas filhas. E me sinto esmurrando parede a frio. Minha filha se recusa a dizer que a professora é negra. É “moreninha”, e acabou. Porque ouviu uma mãe dizer, com a maior cara de nojo, quando a professora botou o filho dela (que grampeou o cabelo da amiga na mesa) de castigo, que “tinha que ser negra, mesmo”. “Negro” agora virou o pior dos xingamentos – principalmente porque foi dirigido à professora que ela ama mais do que todas na escola. E ela se recusa a magoá-la.
E eu me lembro de uma enquete da Marie Claire com estilistas que perguntava “Sua moda veste pessoas GRANDES?” – grandes, veja bem). Cândida Sarmento, da Maria Bonita, seguiu a linha Glória Coelho: “Moda e gordura não combinam. Cheguei a fazer até 46, mas estou parando, porque o que vendo mais é 38 e 40. É uma opção de trabalho – quem faz moda não pode fazer roupa para mulheres gordas. São mercados diferentes. Se a Maria Bonita começasse a fazer roupas grandes, sei que haveria fila na porta, mas não é essa a minha intenção.”
Pegando carona no comentário da Vanessa e da Suzana, esse lance da cota pra negro é um graozinho da mudança de padrões pq não se trata só de cor, mas de altura, de peso e etc. Mulheres brasileiras não são altíssimas. A população mundial não é magérrima. Então colocar ou não mais negros não muda a insatisfação ou a auto-estima de ninguém. Sou super a favor de cotas sim, mas nessa caso da moda … putz, é caso perdido. São tantas coisas em questão que mais negros na passarela não mudam o padrão. Mesmo pq pode ter certeza que os poucos negros escolhidos terão características não muito negras. Aposto nisso.
Olha aqui, Gabi:
“Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?”
“A estilista Glória Coelho é da opinião que ‘a cota pode interferir na obra do estilista’. ‘Nosso trabalho é arte, algo que tem de dar emoção para o nosso grupo, para as pessoas que se identificam com a gente”, diz.”
Eu fico meio assim com essa questão de cotas, porque vejo como um “favor”, daqueles que desqualifica quem o recebe. Pra universidades, sou a favor de cotas sociais. Inclusive, saiu na Folha esses dias uma matéria mostrando que alunos de escolas particulares têm desempenho melhor no Enem que aqueles que estão em escolas públicas. Infelizmente, todo o ensino público está sucateado: criar cotas em universidades alivia os sintomas, mas não resolve o problema. O que resolveria, a meu ver, seria proporcionar à população de baixa renda um ensino tão bom quanto o que o “rico” tem.
Quanto à moda, é um mercado restritivo mesmo, infelizmente. O problema, como já disseram, não é só com os negros: é com os gordinhos, baixinhos, com quem tem pernas curtas, etc etc. Essa primeira declaração da Glória Coelho que a Suzana citou é absurda, mas a segunda até faz certo sentido pra mim: não lembro em que desfile (acho que foi no exterior) cuja temática era a cultura africana, a grande maioria dos modelos era negra. Os “olheiros” bem podiam parar também de só procurar meninas no shopping Iguatemi ou no Rio Grande do Sul, né?
Outra coisa: no MP não existe nem uma intenção de implantar programa de cotas… casa de ferreiro, espeto de pau, né?
Então, gente, vou responder todo mundo junto porque tô atrasada aqui. Depois eu volto.
Eu também acho que, na questão das modelos, tem muita coisa a se resolver – entre elas a magreza extrema e a altura.
(Isso sem contar os próprios bastidores da moda, né?. Outro dia li um comentário lá na Mary W que falava isso. Que as costureiras, o pessoal que faz os bordados, elas recebem uns 5 reais por uma peça que vendem por 5000. Esses 5000 servem para pagar publicidade. Enfim, a coisa toda é inflacionada em cima da etiqueta, o que reflete os ideais de status da sociedade, etc etc. A questão da moda é mesmo grande. Daria para discutir horrores isso aqui. Talvez eu faça um post então)
Eu tava pensando em termos práticos mesmo. Já que estavam determinados a criar cotas no SPFW, então vamos fazer isso direito, né? De que adianta sair do farelo para a migalha?
Eu sou a favor de cotas. Por esse motivo mesmo: que já existem cotas não-declaradas. A gente fala de cotas como se elas não existissem, e existem, só não são oficiais. Num mundo ideal, realmente cotas seriam injustas, mas não é assim que rola. Acho que é uma das maneiras válidas de tentar consertar a merda.
No caso dos vestibulares, srta T, sem dúvida o que precisa ser feito é dar um jeito no ensino básico. Que continua sendo sucateado, com essas merdas de interdisciplinaridade e prêmio cenourinha pro professor que puxar o saco. Então, eu fico meio em cima do muro em relação às cotas para alunos de escolas públicas. Porque eu acho que é descobrir um santo para cobrir outro. Para mim, essas cotas só fariam sentido se estivessem trabalhando MACIÇAMENTE para melhorar o ensino básico.
Mas o fato é que, mesmo com a escola sucateada, há alunos que se destacam. Mas não se destacam tanto quanto o menino criado a leite com pêra e escola de 1000 reais por mês, claro. Então, eu sou a favor de uma cota tripla: para negros, indígenas e alunos de escola públicas. Porque os brancos estão superrepresentados mesmo.
Sobre a escrotidão da Gloria Coelho: conseguiu reunir todo o discurso mais típico, numa cartinha só. Eu fiquei de boca aberta quando vi no SdE.
bjos!
“Eu fico tão, mas tão puta quando alguém diz isso. Porque, vamos combinar, se a gente bem fuçar, ABSOLUTAMENTE TODO MUNDO NO BRASIL TEM UM PARENTE OU UM AMIGO NEGRO. ”
Discordo,Marjorie,tem cidades inteiras de descendentes de italianos,alemães (que inclusive falam em alemão entre si e são fechados entre eles),japoneses,…enfim,as pessoas negras da população são parte significativa mas não estão em todo canto.
Mas concordo que pra significancia numérica e cultural da população negra do Brasil a cota de 10% é insignificante.
E não se justifica não ser preconceituoso por se ter contato ou parentesco com o tal grupo do hipotético preconceito.Da a idéia de que a pessoa tá se PERMITINDO tal contato ou a admição de tal parentesco.Em suma,esta mulher foi escrota mesmo e tentou ocultar seu racismo citando parentesco…A emenda foi pior que o soneto.
“Por que não fazer cota de japoneses, de árabes, judeus etc?”
Simples,pq os negros são a MAIORIA da população(pelo que eu li num jornalzinho ano passado,já passaram de 50%) e MAIORIA não se pode ignorar.
Mas claro,poderiam ter cotas menores pra estas outras minorias que não são tão numerosas mas não menos importantes.
Gente,que horror esta Glória Coelho.
Priscilla, minhas duas filhas estudam em escola particular. Durante essa conversa, eu exemplifiquei como a situação do país é. Perguntei às duas se tinham coleguinhas judeus (e a escola é metodista, veja bem). “Ah, tem sim; a família da Sara, a Simone, o Rafael, o Bernardo…” E japoneses (ou orientais, já que elas não fazem distinção)? “Tem o Kaoru, tem a Akiko, tem a Cláudia, tem o Maurício, tem o Jiro.” (A escola tem até uma família legitimamente muçulmana, vinda do Egito; mãe e duas filhas com as cabeçlas cobertas).”E negros? Quantos coleguinhas negros vocês têm?”
Elas não têm nenhum. Nenhum. Entre 900 alunos de turmas que vão do chamado Grupo III (para crianças a partir de 3 anos) do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio, nós lembramos de três alunos negros – sendo que dois, do ensino médio, são bolsistas de funcionários da escola (uma das mães é atendente no refeitório e a outra é agente educacional, ambas negras). O terceiro – uma menina absurdamente linda de tão exótica, que é a atração da creche – é filho de negro com coreana. E estão indo embora no fim do semestre para a Austrália, onde o pai nasceu.
Três crianças num universo de 900.
E quanto a ter um amigo negro: me lembro de estar, menina, numa excursão com meus avós pelo sul do país. Descemos numa dessas cidades de colonização alemã, e a guia que foi nos ciceronear foi contando a história da imigração alemã – acrescentando que seus próprios avós eram alemãos. A mulher tinha a pele azeitonada e os cabelos muito, muito crespos – denotando aquela mistura de etnias que a gente vê em cada esquina. Meu avô comentou então que ela era um exemplo de como a população brasileira se miscigenara de tal maneira que a beleza de várias etnias havia criado uma singular – a brasileira. Um elogio. A mulher ficou fu-ri-osa. Disse que era 100% alemã, que não havia nem uma gota de sangue “diferente” (leia-se negro – e meu avô não havia dito nada, até porque tínhamos visitado uma casa de imigrantes árabes). Virou as costas e foi embora.
Eu mesmo fiz bico em censo do IBGE na época da faculdade. A diversidade de cores que as pessoas se auto-rotulavam era impressionante. E quando se perguntava a um mulato, por exemplo, se ele sofria discriminação, a resposta invariavelmente era: “Eu? Por quê? Eu sou branco!”
Uma das coisas que eu pendurei na geladeira quando o preconceito racial começou a rondar as salas das meninas (comentários de tipo “fulana não presta porque é uma pretinha suja” – idade da criatura que soltou essa pérola: 8 anos) foi uma matéria da época sobre Eva, a mãe de toda a humanidade. “Eva veio de onde, mãe?” “Da África. Todos nós viemos da África. Somos todos africanos de nascimento, porque a humanidade nasceu na África.”
Eu tb tive pouquíssimos colegas negros. Não sei dizer quantos porque só fui pensar nisso depois de mais velha, quando resolvi investigar o “estranhamento” que eu tinha. Sabe aquela história de se dizer sem preconceito, mas que não namoraria um negro ou negra por não achá-los bonitos? Então, de certa forma conclui que veio da minha falta de contato com eles.
Foi eu entrar na faculdade e conviver com mais gente, inclusive estudantes angolanos, moçambicanos, de Cabo Verde, etc., que isso foi se esvaindo. É um processo pelo qual ainda estou passando e francamente, muito mais positivo que o racismo velado de não-tenho-nada-contra-preto-mas.
Eu desisti de conversar sobre cota com a maioria das pessoas. Não pela opinião diferente, mas por cada comentário absurdo q eu ouço. E a maioria apenas querendo defender o rabinho deles, disfarçando isso de preocupação com o ensino. O “se for assim como é qu EUZINHO entro na faculdade, porque vai entrar um cara mal preparado no meu lugar e cair a qualidade do ensino”. Rá, até parece…
Tô quase me defenestrando de uma comunidade do orkut q eu adorava por conta de umas opiniões de merda dessa.
eu achava que era mais do que 44% a porcentagem de negros e pardos, não lembro onde li uma vez, mas dizia que era cerca de 60%…enfim, depois procuro, como sempre nao to com muito tempo pra comentar, eheh.
marjorie, eu ja fiz moda por 1 ano e meio (cruzes). é uó!!! enfim, foi bom pra pegar referencias de novos livros de design, arte, desenhar e exercitar minha criatividade. porém, eu queria meio que aprender o lado sociologico e mercadologico da coisa, mas vi que tudo (basicamente) se resume em tentar enfiar as pessoas dentro de um padrao tosco pra vender muito e ganhar dinheiro… eu heim, caí fora dessa porcaria! e fui fazer jornalismo (enfim, também nao é nenhuma maravilha hehehehe mas é bem melhor, na minha opiniao)…
como eu, longe do “padrão suécia”, baixinha, cheinha, de cabelo enrolado e muito feliz assim iria ficar tentando enquadrar todo mundo em um padrao massificado só pra ganhar dinheiro em cima dessas pobres pessoinhas?
esses desfilezinhos de bosta me cansam demais, nunca gostei. um monte de gente vazia achando, que se acha muito culta, muito entendida de arte, muito cheia de sentimento… mas nao passam de pessoas preconceituosas.
eu trabalhei na loja da gloria coelho, quando morei em sp. e todo mundo la sabia que ela nao chamava negro pros desfiles, ela nao faz muita questao de esconder isso entre os membros de sua equipe (fabrica,lojas,escritorio,etc). aliás, ela nao fazia questao de esconder um monte de coisa, que um dia passo aqui e te conto! heh…
FIKDIK -> não acho que só a dona da daslu tinha que ser investigada nao, mas todas essas lojas caras que só “pessoas superiores” frequentam…
sobre o preconceito racial, nem sei mais o que dizer, acho que seu post foi otimo, assim como os comentarios aqui geralmente sao.
esse assunto cansa minha beleza, sabe. se existe cotas pra negro aparecer, entao existe preconceito, prontocabou, simples assim. é muito diferente uma cota universitaria pra negros, que visa inclui-los numa faculdade para tentar (só tentar mesmo…) reparar os danos que eles sofreram com os abusos e a escravidao do passado e de hoje em dia (ou seja, uma cota que pretende torná-los VÍSIVEIS)…e uma cota de MÍSEROS 10% QUE CONTINUA DEIXANDO OS NEGROS INVISÍVEIS. hunf.
um beijo.
(pra variar, ficou tudo confuso, mas deu pra entender, ne? diz que sim…….hihi)
Falar que não tem preconceito contra negros pq tem um parente que é, pra mim é igual homem falar que adora as mulheres pq veio de uma.
Priscilla — sim, há cidades em que os negros são minoria. Mas essas cidades também são minoria.
Se você mora no nordeste e no sudeste, as duas regiões mais povoadas, acho que é absolutamente impossível não conhecer ninguém.
Mas mesmo assim, né? É o que vc disse. A própria frase é preconceituosa. Do tipo: “você não vai me aplaudir porque eu TOLEREI um negro do meu lado?”. Também é uma frase que se revela hipócrita ou ignorante (depende da pessoa), porque trata preconceito racial como o apartheid somente. Como no Brasil não há espaços separados, então não tem preconceito, porque a gente vive junto.
E, porra, se há acessos diferentes a renda e educação, se o ideal de beleza é branco e se há esterótipos negativos para os negros, então, oi, tá na cara que tem preconceito. É óbvio isso, né? Mas esses caras dão uma de desentendidos.
Suzana — nossa, muito obrigada pelo teu comentário. Essa coisa do “moreninho” para mim é a cartada final. É a grande prova de que, no Brasil, ser negro é feio. Ninguém tem pudores ao chamar um japonês de japonês, um judeu de judeu, um baiano de baiano e por aí vai. Claro que esses nomes assumem uma carga pejorativa, se o emissor assim desejar. Mas não são ofensas EM SI. A palavra “negro”, como demonstra a sua filha, tem.
Gabi — sim, em relação a vestibular, o que eu vejo é isso. “Mas e eu?”. A pessoa só se incomoda quando é ELA ou o seu filho que não passa por conta da cota. Quando o negro não passa(va) por conta da exclusão social, e ela se escondia por trás de um discursinho descontextualizado de mérito, aí tava tudo bem. Não passar no vestiba, no rabo dos outros, é refresco.
M. — então, essa conta aí fui eu que fiz, olhando o gráfico do IBGE. Mas, como eu sou uma anta em matemática, pode ser que seja mais mesmo. As outras tabelas que achei eram todas em números absolutos e eu fiquei com preguiça.
Eu tb tenho muita preguiça de moda. Eu gosto de olhar as roupas. Se tá passando algum desfile na TV, dependendo de como forem as roupas, eu assisto. Acho que criar roupas tb é uma forma de arte. Mas aí tem todo um contxto que me faz broxar. Os comentários dos estilistas e do povinho da moda (a maioria, nojentíssimos), as modelos todas iguais, enfim, isso me dá preguiça mesmo.
Elyana — hahaha, exatamente.
Gente eu sou de S.Tomé e Príncipe e estou muito decepcionada com a forma como os negros são tratados no Brasil. Aposto que a maioria dos “Brancos armados em europeus” que pintam cabelelinho de loiro são descendentes de negros! Posso apostar mesmo. Eu não diria que a Carla Perez é filha de um negro e escuro ainda por cima! Tudo bem que ela é baiana e fica díficil não haver mistura néh?! Mas há muitas como ela que a gente não julga serem descendentes de negros mas que são. Tentam esconder mas todo mundo sabe que é díficil um branco não ter relação de parentesco ou de amizade com um negro!. Beijinhos!
Li isso e gostei da forma como a Marjorie escreve. Olha minha linda, eu sou mistiça, tenho 21 aninhos, meu pai é alemão e minha mãe moçambicana. Nasci e cresci no meio deste “ceio colorido” e me orgulho dos dois lados. Sou formada em Gestão de empresas e apesar de de ser negra, pois é assim que me considero, estou trabalhando em uma grande empresa como estagiária. Mas me disseram que assim que o meu estágio acabar eles me contratarão porque dizem que tenho talento. Nunca usei o facto de ser negra para não buscar os meus objectivos. Neste caso, particular, que você escreve aí, já é problema de racismo dos próprios estilistas que não se importam de ter negros fazendo seus desenhos virarem obras de arte mas colocar um negro desfilar as maravilhas não. Porque acham que estão na Europa. Eu sempre morei na Alemanha e aqui encontra-se mais negros a ocupar bons cargos do que no Brasil que é um país de maioria negra, pois é néh! E aqui há modelos negros a fazerem publicidades e a participar de muitos disfiles. Espero que vocês conscientizem-se mais e valorizem mais a vossa raça.
EU acho que seria bom se as pessoas não fosse obrigadas a contratar negros pro que quer que seja, e sim contratassem por livre espontanea vontade.
Livre mercado, é isso. Meio chato esse negócio de obrigar as pessoas a contratar alguém só porque é negro. A coleção é do cara, ele escolhe que vei desfilar.
Mas sem dúvida mais legal ainda é se as pessoas soubessem apreciar a beleza negra. Não ia precisar de cotas.
Mas esse seria um mundo ideal, ne^?
[...] orgulha de ser negro está apenas reagindo a este passado de escravidão e a todas as mensagens que estimulam o negro a ter baixa auto-estima (entre as quais as piadas de Gentilli se [...]
Nós, os negros que conseguimos furar o bloqueio, se quisermos ver a discriminação diminuir no Brasil, precisamos urgentemente, e em todos os momentos possíveis, esclarecermos os nossos irmãos negros de que precisam estudar, trabalhar, poupar e construir riquezas.
Não devemos mais esperar a boa vontade dos brancos.Temos que lutar. Nas eleições somente votarmos nos candidatos mais escuros. Precisamos ganhar visibilidade na politica, nos serviço público.
Meu povo negro, deixem de choro, lute, fique rico, fique famoso, defenda sua gente em todas as ocasiões. CORAGEM! CORAGEM! CORAGEM! DÁ PRA VENCER.