
Café com leite ou água e azeite?
Julho 1, 2009
Tive de assistir a esse documentário para uma aula e achei que vale a pena dividi-lo. Essa primeira parte é meio devagar, mas as outras são muito boas. Aqui: 2, 3, 4, 5 e 6.
Sobre essa primeira parte, duas observações:
- “Racismo é que nem ácaro: todo mundo sabe que existe, mas não percebe. Só que tem muita gente que sofre com isso”. HAHAHA, melhor frase!
- O documentário tem N declarações que visam a derrubar o mito da democracia racial, mas eu acho que a cena com os alunos da faculdade Anhembi-Morumbi já faz isso por si.
A menina no fundo da sala (4:08) diz sentir “orgulho de ser brasileira, orgulho dessa mistura” – mas veja que o tom dela é extremamente assertivo, quase agressivo. É um “cala a boca” para a colega que se afirma como negra. Só essa cena já diz tudo. Todo o resto do documentário é pleonasmo.




so vi essa primeira parte, pq to com muito soninho. amanha vejo o resto! meu, chocante essa galere da anhembi, parece o povo da minha sala, essa galere classe-media-branca-privilegiada fala pros indios e negros agirem e pararem de “tomar tapa na cara” como se no passado eles tivessem tido chances de reagir as agressoes, escravidao, etc. como se tudo fosse facil pra todo mundo como é pra eles. argh. da ate desanimo.
Marj, super valeu!
Adorei de verdade o documentário.
Lembrei de algumas aulas de de historiografia brasileira…e também da minha monografia, já que tive a ‘representação negra na imprensa do XIX’ enquanto foco….
não tem nada q me dê mais ódio do q branquinho riquinho dizendo q racismo não existe!!! ou q “não é com cotas q se resolve o problema, é com investimento na educação”… (não diga!!! resolve em quantas décadas?)
Assisti o trechinho citado pela Marjorie, fiquei com ainda mais vergonha deste povo brasileiro. Tou buscando aqui palavras para expressar minha raiva neste momento e não consigo.
Me irrita todo e qualquer posicionamento de recusa ao fato do preconceito por pessoas que não sofrem preconceito. É assim com os negros, homossexuais, velhos, mulheres, estrangeiros e sei lá mais o que. Óbvio que não vamos notar quando não é com a gente, mas isso não impede que saibamos que existe né? pls.
aproveitei e fiz um post-desabafo sobre isso. outra coisa que me ocorreu foi que, na hora do debate sobre racismo, todo mundo tem orgulho do avô negro. mas, fora desse contexto, ninguém comenta desse avô. só do costume italiano da família se reunir pra comer macarronada, do “sangue quente” espanhol, do sobrenome com trema alemão, etc.
Poxa, ja deixei 3 comentarios nesse blog que nunca foram aceitos pela moderação! O ultimo foi sobre a burca. O que tem de errado com meus comentarios???
Note que a menina do fundo fala que tem avó negra, acha linda essa mistura, e PORTANTO a gente não tem de discutir esse negócio de raça. É como se ela estivesse falando de uma deficiência que ela aprendeu a aceitar, e até apreciar. Mas não devemos ficar falando desse defeito. Ótimo exemplo de como é louca essa relação com a miscigenação no Brasil.
Verdade, Lauren. Cansei de ouvir gente dizendo que é descendente de italiano (uau, grandes coisas, como se uma pá de gente no Brasil nao fosse), de alemão ou de sei lá mais o que, mas só lembra do parente preto na hora de dizer que a mistura é linda e que racismo não existe e que preto tem q sair da defensiva.
Não vi tudo ontem porque eu tava caindo de sono, aí pulei direto pra parte da faculdade. Deu nojo, viu?!
Marjorie, amei o documentário!!! Frases impagáveis mesmo…
Você já assistiu “Com olhos azuis”? É fenomenal!!
Tem link no youtube, corre que eles tiram rápido de lá. Um grande abraço!!!!!
Excelente documentário! Fiquei realmente impressionado como final da primeira parte! Não que os argumentos sejam novos, mas ditos com aquela raiva, nunca tinha visto antes! O menino do “tá ligado” me deixou realmente assustado, porque ele faz FORÇA pra acreditar no nonsense que ele fala!
O resto é só desconstrução do mito de democracia racial, interessante pra quem não conhece, mas ligeiramente repetitivo.
Só queria levantar uma outra discussão, sobre a frase dita pelo antropologo (não lembro o nome dele e fiquei com preguiça de procurar): não existe racismo contra o branco. Acho que isso acaba levando em conta um universo limitado na dicotomia “branco x negro”, sendo que no nosso universo racial temos bem mais nuances que isso.
Os dois exemplos que são mais claros pra mim de preconceito racial de branco x branco, são o anti-semitismo e o preconceito entre colônias distintas de imigrantes no sul do país (de experiência pessoal anedótica sei do preconceito contra “polacos” em curitiba, por parte dos descendentes de italianos e outros “brancos” nativos).
Sei que em termos de importancia (numérica) esses episódios de racismo contra alguns grupos “brancos” são menores, mas a gravidade e o arcabouço ideológico por trás é sempre o mesmo da democracia racial! Acho que esse tipo de discussão é importante de ser levantada, porque o próprio combate ao racismo “contra negros” eclipsa as outras formas de racismo que acontecem no Brasil.
E claro levanto a bola aqui porque quero saber sua opinião!
Amanda — seus comentários, sei lá por que razão, caíram direto na caixa do spam, então eu nem tinha visto. O wordpress é louco. Desculpa, viu?
m. — Né? É bem isso mesmo: as pessoas têm de perceber que nem tudo é fácil quanto é pra elas. Essa coisa de sair do próprio privilégio é o primeiro passo para entender qualquer coisa que não seja a sua própria realidade.
Porque senão fica esse dicursinho tosco, descontextualizado. Que nem minha irmã, quando eu disse pra ela que achava um absurdo o jeito como ela tratava a empregada (aliás, eu acho que as pessoas não têm de ter empregada pra começo de conversa. Desde essa discussão, a gente não se fala mais).
Disse minha irmã: “mas, eeei, eu também trabalho 12 horas! A vida também é difícil pra mim!”. Aham. Como se ser empregada doméstica e ganhar 400 reais por mês fosse comparável às dificuldades da minha irmã, arquiteta que trabalha o dia inteiro sentada e ganha trocentas vezes mais. Sofrimento igual, né?
Lauren — Exato. Aí, quando democratizam um pouco mais a educação (não estou falando de qualidade, mas de acesso), o que fazem? Consideram abolir a necessidade de diploma. Porque, né, já que não serve mais como diferenciador de status, foda-se o diploma. Vamos arranjar outras maneiras de excluir os pobres: agora tem que falar trocentas línguas, viajar para o exterior e patati-patatá.
Agripino — eu fiquei com raiva tb. Mas no resto do doc, passa um pouco.
Haline — pois é. É algo TÃO básico. Mas as pessoas não conseguem, cara. Eu não entendo.
Astrocat e Gabi — exatamente. E é engraçado que é sempre um avô que as pessoas tiram da cartola, né? Igual à Glória Coelho. Na maior parte dos casos, eu duvido até que esse avô exista. Se existia, só é considerado negro quando convém. Ou seja: nesse tipo de discussão. Senão, é “moreno”.
E que porra de orgulho da mistura é esse que as pessoas ficam fazendo plástica, alisando cabelo, tingindo de loiro, comemorando quando o filho nasce de olho azul?
Talita — vou procurar!
Girino — gente, estivesse eu nessa sala, mandava o menino do “tá ligado?” à merda. Eu não ia me segurar.
Então. Eu acho que, no escopo do doc, a frase do antropólogo se aplica. concordo com ele. O que ele quis dizer é que, quando se discute a relação entre brancos e negros no Brasil, quando um negro vem dizer que sofreu preconceito, SEMPRE aparece um branco dizendo: “ah, mas e o preconceito dos negros contra os brancos?”. O que é uma coisa super descontextualizada. Ignora que, se alguns negros tenham uma relação ríspida com os brancos, isso é uma reação a uma estrutura de poder, na qual o branco tem acesso ao topo e exclui os outros. Sendo assim, o negro pode ter preconceito contra o branco o quanto quiser, não vai conseguir impedir o seu acesso à renda, à política, às boas escolas, etc etc. Preconceito é ruim, mas quando se alia ao poder, ou seja, à possibilidade de discriminar o outro efetivamente, aí é que tá a bomba.
Mas, claro, você tem razão. Em outros recortes, que não esse do documentário, existe preconceito branco-branco, negro-negro e por aí vai… Mas, de novo, se não existir discriminação efetiva (ou seja: se não existir um acesso desigual ao poder entre esses grupos), eu acho que é um problema menor. Quer dizer apenas que eles não vão conviver juntos. Mas se nenhum estiver fodendo o outro, então menos mal.
> se não existir discriminação efetiva (ou seja: se não existir um acesso desigual ao poder entre esses grupos),
Por isso eu citei explicitamente o caso dos “polacos”, onde pelo menos até uns anos atrás existia um acesso desigual ao poder.
Existe o mesmo problema na região norte (só lembrei agora) em relação ao índio, com a mesma estrutura de miscigenação (ser índio é “pior” que caboclo que é “pior” branco). Só que a estrutura de poder tem mudado um pouco no caso do índio, já que ele, hoje, tem acesso a uma série de benefícios que minimizam o efeito da estrutura de poder racista. O resultado é que o efeito do racismo recai no caboclo.
Alias, era uma idéia estudar se o que vem sendo feito em prol da população indígena é aplicável à população negra (tem a questão de escala e do modo de vida rural x urbano, etc)
O que mais me incomodou foi a random loira dos olhos claros dizendo que o Brasil NÃO tem uma dívida com índios e negros e que, mesmo se tivesse, não seríamos nós que seríamos obrigados a pagar por ela.
Tipo… Quê?
Essa faltou nas aulas de Brasil…
Escravidão? What? Nunca ouvi.
Holocausto dos nativos? Hã… O que é isso, mesmo? Ahhh é, aquele povo canibal e selvagem. Tinha que ser exterminado, mesmo, né?
Abusos diários e estupros e escravidão em geral – Todas elas? Não tô nem ouvindo, tá? Você é só uma negra preconceituosa com nós, pobres brancos oprimidos! Nós brasileiros NÃO temos dívida com vocês! LEAVE ME ALONE!!1! ;A;
Tadiiiiiiinha. >_>
Isso me dá uma raiva danada. Eu me considero parda (Nos EUA devo ser negra, já que, no Brasil, é muito difícil definir quem é negro ou não). Parda porque meu sangue vem dos negros, índios e portugueses. Tenho olhim puxado, nariz largo, lábio grosso, pele morena-clara, etc. E pensar que, mesmo com gente me dizendo que eu sou a “única branca que já vi que tem nariz de batata” (Coisa que eu rapidamente respondi “NÃO SOU BRANCA”; acho que eles olharam minha cor de pele só, que por acaso definitivamente não é branca. Talvez tenha sido pra “amenizar” minha pardice, minha ascendência negra e índia, numa tentativa de elogio… eh… Só pra depois pôr o nariz “de batata” como algo ruim. Amo meu nariz, dik. Só odeio as espinhas dele ;_; LEAVE MY NOSE ALONE PLEASE), já sofri preconceito. Já me chamaram de pretinha: Claro, por brancos dos olhos claros e cabelos lisos. Por gente que, eh, não precisa se preocupar com ser chamado negativamente de “branquinh@”, porque, mesmo que seja chamado, no que vai importar? El@ não vai ser confundid@ com um@ ladra/~o se entrar numa loja chique. El@ não vai ser nivelad@ por baixo. Ninguém se espantará e perguntará se usou cotas pra entrar numa federal fodona.
É, tadinhos desses brancos oprimidos. Vou até calar a boca e aceitar que não temos dívida alguma e abaixar a cabeça quando me chamarem de pretinha de novo. Afinal, não é o pobre preconceituoso que tem que pagar, né? Afinal, não ser preconceituoso é um preço alto demais. Afinal, privilégio é uma coisa cara demais pra se desfazer dela, não é? Afinal, “nós não temos dívida alguma com mulheres, e mesmo que tivéssemos, não seríamos nós que pagaríamos por ela”.
Marj,
Achei o link do “Blue eyed”.
http://www.youtube.com/watch?v=Wj51mGbPL-E
Em algumas locadoras maiores pode ser que você encontre este documentário. Na dúvida, youtube…
Um beijo!
Sei que esse post já é “século passado” em tempo de internet, mas achei uma coisa interessante relacionada com o assunto. Nesse artigo (de uma série) sobre os estereótipos raciais nos EUA, ao final tem um update onde o cara fala algo que me lembrou da “italianinha” no final da primeira parte do documentário:
“Whites use their (often imagined) family stories of discrimination as a way to argue that systemic racism doesn’t exist and that they got to where they are by their family’s hard work, and nothing more.”
Vale a pena ler principalmente esse “update” do final do artigo.
http://contexts.org/socimages/2008/10/06/negative-stereotypes-of-the-irish/#
O argumento do vô/ vó é fraquíssimo mesmo. Até entendo quando meu irmão, com seus olhinhos verdes, diz que somos descendentes tanto dos exploradores quanto dos explorados, porque é a mais pura verdade. Não dava nem pra eu inventar ou esconder a avó negra, porque ela morava com a gente. Mas a questão é: sofreremos preconceito por ter avó negra, sendo brancos? Alguém vai, numa loja, me tratar com desdém?
Meu irmão (o de olhinhos verdes) namorou uma menina negra por dois anos. Ela, de classe média, disse que a única coleguinha na infência era a filha da empregada de sua casa – na escola particular ninguém queria brincar com ela. Andando de mãos dadas na rua com ela, meu irmão já foi ridicularizado. E a menina era muito mais elegante do que ele, sempre bem arrumada. Tava na cara que era de classe média. Mas também tava na cara que não dava pra usar adjetivos do tipo moreininha, mulata, etc. Era negra, com a pele bem escura, e nome em ioruba porque os pais queriam que isso fosse bem afirmado. Sempre foi discriminada por ser negra, porque tava na cara que pobre ela não era.
Uma vez ouvi uma frase ótima, sobre isso de saber dizer que é negro no Brasil. O cara dizia que era só baterem no seu carro. Se você saísse pensando “negão fdp!”, é porque o cara, mesmo que a pele fosse não fosse tão escura, era negro. Triste, com uma carga imensa de sarcasmo, mas é verdade. A gente sabe sim quem é negro. É que sofre por ser negro. Simples, não?
Aquele último moleque que falou na entrevista da faculdade merecia um processo por racismo.
Chama o Ivanir!
[...] Gentilli, portanto, é a mesma dos alunos da Anhembi-Morumbi que aparecem na primeira parte do documentário “café com leite ou água e azeite?” (o doc, aliás, derruba todo e qualquer argum… A carta da ”democracia racial” não é retirada da manga para uma celebração. O discurso [...]