
Do que sobrou. Ou não sobrou.
Outubro 19, 2009Antevejo que este será um post longo, repetitivo, contraditório e difícil, para os outros e para mim – e o escrevo sem sequer saber se ele precisa existir. Afinal, é mesmo necessário tentar registrar estes pensamentos? É preciso mesmo dividir isso com os outros (ainda mais com estranhos)? Se sim, para quê?
Comecei a viagem tirando fotos de absolutamente tudo. Mais para o fim, já não tirava fotos de quase nada. Comecei a pensar que, se aquelas experiências eram inevitavelmente efêmeras, então eu devia aceitar. E vivê-las no único tempo possível: o presente. Para quê tentar apreender sensações que não durariam? Elas se apagariam pouco a pouco da minha memória, por mais fotos que eu tirasse. Em Praga, eu olhava os turistas na ponte Carlos, tirando fotos de tudo-tudo-tudo-tudo, e não conseguia parar de pensar que eles estavam tentando possuir o lugar de alguma forma. Mas ora, isto é impossível. Você não é dali, aquela beleza não é sua. Você vai embora e ela vai continuar ali. Estática. Você vai morrer e ela vai continuar ali. Debocharia de quem tenta possui-la com uma reles foto, então, se tivesse consciência para isso. Descobri que não há quase nada que uma fotografia consiga de fato enquadrar.
Um texto, por mais cuidadoso que seja o seu autor, também nunca é capaz de abarcar tudo o que ele deseja. Todo registro é sempre um recorte. Logo, nem você nem o seu leitor possuirão a coisa por inteiro. E, se ela não está por inteiro, é justo dar a si e aos outros a impressão de que a sua posse é possível? Vale a pena escrever se eu sei que será um registro incompleto, pobre e mal feito? Não sei. Resolvi fazer o esforço mesmo assim. O por quê, também não sei. Até porque não tenho certeza se o que está para ser dito é algo que eu queira guardar. Nem mesmo estes cacos. Não sei se quero guardá-los. Pensei que quisesse apreender tudo, com um caderno de viagem (que voltou praticamente em branco) e um cartão de memória de 8GB na mala. Agora, não sei. Sequer sinto vontade de fazer upload das fotos para o computador. Acho até que não me importaria se perdesse as fotos. O que eu tinha de viver na Europa eu vivi ali. E mais e mais sinto que deve ficar ali.
O objetivo da viagem, eu pensava, era ficar “perto de mim, longe de tudo”. Mas a verdade é que fiquei bem no meio do caminho entre mim e os outros. Bem no meio da ponte. Não voltei sabendo nada de mim que já não soubesse. Não voltei com nenhuma resposta nem com nenhuma pergunta que já não existisse antes. O verso da música mais adequado para descrever a viagem acabou sendo outro: “solidão amiga do peito, me dê tudo que eu tenha por direito”. Já já explico melhor, mas viajar sozinha por tanto tempo me fez chupar a solidão até o bagaço. Extrair dela o seu pior e o seu melhor lado.
Antes, deixa eu abrir um parêntese. Devo dizer que é engraçado ter me ocorrido justamente esta metáfora da ponte, pois a maioria das cidades por onde passei tinham belíssimos rios que as entrecortavam. E foi em cima de pontes que aconteceram os momentos mais e menos solitários da viagem.
Lembro bem do meu primeiro passeio no primeiríssimo dia: parei para ver o pôr do sol em cima da Pont Neuf. E me veio um contentamento enorme porque sabia que havia muito por vir. Havia muito para acontecer. Esta é uma certeza que, geralmente, não se tem. Em casa, os eventos importantes me parecem vir a conta-gotas, vagarosamente. Todo fim de ano eu faço (mentalmente) uma lista do que de mais importante me aconteceu e ela é sempre tão curta. Mas ali, não: eu sabia, de antemão, que havia muito por vir. E que tudo seria novo. E isso era muito gostoso.
Já no penúltimo dia de viagem, lá estava eu em cima da Pont Marie, tentando segurar as lágrimas porque não aguentava mais tanta coisa acontecendo o tempo todo. Não aguentava mais tanta novidade. Eu anseava por ao menos uma coisinha que me fosse conhecida. Eu sentia falta de sentir que algo era meu. Ou que eu pertencia a algo. Foi ali que me senti, de fato, brasileira — mesmo que nunca tenha me identificado com alguns estereótipos e não suporte alguns de nossos traços culturais (como o conservadorismo e famoso jeitinho, por exemplo). Mas não adianta. Está em mim. É a parte do mundo que me cabe e que me moldou. E não importa aonde eu vá, tudo o que eu experimentar será sob esta ótica. Será com os olhos de uma brasileira. Não existe essa de cidadão do mundo. A cultura do lugar onde se nasceu sempre será seu alicerce. Você pode pôr óculos estrangeiros, pode ter uma coleção deles, mas teu olho é brasileiro.
Em Amsterdam e Viena, eu arranjei namoradinhos. Cinco dias com cada um. Ambos costumavam parar em cima das pontes para me beijar. E, embora não fosse amor, eu fechava os olhos e me abandonava ali, naqueles beijos. Afinal, embora também os soubesse efêmeros, aqueles namoricos eram o que de mais próximo eu poderia ter de conforto. De uma relação. De possuir e de pertencer. Era o que havia de mais próximo a ter alguém ao meu lado que me conhecesse e se importasse comigo. Eu sabia que eles não me conheciam direito e nem eu a eles, que eles não me amavam, que eu não os amava, que eles não eram meus e que muito provavelmente eu jamais os veria novamente — e era justamente esta farra, a consciência do no strings attatched, que tornava as coisas interessantes –, mas eu os beijava e abraçava como se não fosse assim. Pois abraçá-los era como estar em casa por um momento.
Enfim. Fim do parêntese. Como estava dizendo, viajar sozinha por tanto tempo me fez extrair da solidão o máximo que podia. Vamos por partes: o que faz dos seres humanos seres humanos é justamente essa birra que a gente tem com a efemeridade. Assusta a consciência da morte, a constatação de que as coisas são fluidas e mutantes, de que tudo está sempre em movimento. Afinal, isso significa que todo e qualquer controle que possamos ter sobre as coisas será somente momentâneo. E que o esforço para decifrar o entorno terá de ser sempre um trabalho em progresso. Daí que surgiram as religiões, certo? Todo o lance de acreditar num mundo diferente deste, em que as coisas seriam fixas e dadas. Imutáveis. As leis de deus não mudam nunca, etc.
Como todo mundo, também eu tenho os meus conflitos com a efemeridade, como já deve ter dado para perceber neste texto até agora. Eu gosto da sensação de conforto, de pertencer, de possuir e ser possuída. Desejo um lugar que me caiba e procuro, como todo mundo, o amor e a felicidade — e não raro os confundo com a idéia de fixidez. Mas, talvez pelo ateísmo, além da busca por algo duradouro, também há em mim uma grande, às vezes exagerada, paixão pela mudança. Paixão pelo nunca mais. Quando criança, pedia para minha mãe me mudar de escola de dois em dois anos. Nunca fiquei mais de um ano em um emprego. Nunca tive nenhum namoro duradouro. Perdi a conta de quantos cursos comecei e não terminei. Já tentei tocar vários instrumentos, aprender várias linguas, mas parei no meio. Neste exato momento, estou quase arrancando os cabelos só de pensar que ainda tenho um ano de faculdade pela frente — e, como cansei de dizer por aqui, já penso em mudar de profissão. Sinto um prazer inexplicável ao abandonar coisas. Adoro saber que nunca mais vou pôr os pés em determinado lugar, que nunca mais vou ver tal pessoa. Gosto muito da idéia de conclusão e recomeço, da chance de tentar ser uma pessoa nova. De botar uma pedra no passado e começar tudo de novo – embora o passado nunca morra de fato, pois a memória é uma grande filha da puta. Mas, se o passado não periga voltar à tona, quem se importa?
O mochilão foi um negócio que levou essas duas pontas ao extremo. Tanto o apreço pela mudança quanto o desejo de fixidez. Porque você esta encerrando e recomeçando o tempo todo. Quando finalmente começa a se guiar bem pelas ruas, sem precisar tanto do mapa; quando o burburinho da língua local finalmente começa a soar confortável e você já esboça algumas palavras; quando o albergue começa a parecer o seu próprio endereço e a sua relação com os coleguinhas de quarto começa a ir além, ultrapassando o mero “para onde você foi e para onde vai depois?”… Aí é que você tem de fazer as malas de novo e mudar de cidade. Chegar a um lugar completamente estranho, tudo outra vez. E quando decide ficar um pouco mais em determinado lugar, quando não é você quem tem de fazer as malas, são os outros. Eles estão sempre indo e vindo.
Como eu adoro um nunca mais e estava ansiosa por novidades, no começo isso era uma delicinha. É mesmo muito excitante. Só que, depois de um tempo, cansa. Lá pro meio da viagem, começou a irritar. E me fez sentir tão absurdamente sozinha. Triste mesmo. Porque todo e qualquer conforto é momentâneo. O default é o desconforto. ”Tristeza não tem fim, felicidade sim” — quase explodi quando essa música começou a tocar num barzinho a que fui em Praga. Você sabe que o coleguinha super legal que você arranjou só será seu coleguinha por alguns dias. Você sabe que o namoradinho que arranjou só será seu namoradinho ali e você não vai mais vê-lo, por mais que vocês troquem emails e jurem de pés juntos que vão manter contato. E isso, que era justamente o grande barato, perde a graça. Começa a doer. O desejo por algo duradouro começa a falar mais alto do que o gosto pela mudança. Ai, já viu: a besta aqui se viu chorando em plena Pont Marie. E sentiu uma alegria absurda ao avistar a rua de casa, depois de 12 horas de vôo.
Mas, ora, a minha casa não é lá tão legal assim. Tem seus defeitos. E, se não tivesse, eu não teria me esforçado tanto em economizar para viajar. Como já disse, a memória é uma filha da puta. Ela se alia ao amor pela mudança ou ao desejo de fixidez, conforme for o caso, e vai floreando as coisas. Escondendo as sujeirinhas debaixo do tapete. Quando contei para a minha colega de quarto em Paris sobre o casinho que tive em Viena, aposto que devo ter soado mei’ apaixonada. E nem foi fingimento, não. A narração foi genuína. Agora mesmo, estou pensando: “poxa, ele era TÃO legal. Queria tê-lo conhecido em outras circunstâncias, etc”. Olho as fotos agora e o acho lindíssimo. Mas, na hora, quando nós estávamos juntos, eu não o achava nada de especial. Nem tão bonito. Era só um cara com quem eu estava passando um tempo. Tenho certeza de que, se nos encontrarmos de novo algum dia, eu vou pensar: “era só isto? Era desse cara que eu senti tanta saudade?”. Gosto mais desse cara agora, que ele está longe, do que quanto estava comigo — quando cheguei a desejar não ter alguém pendurado em mim 24 horas por dia. Por mais confortável que isso fosse.
Então, estou meio com medo. Medo do trabalho da memória. Estou adorando estar em casa, dormir na minha própria cama, rever meus pais e amigos. Mas eu sei (de novo, simplesmente sei) que logo o conforto vai parecer tédio. A sede de mudança vai se sobrepor ao desejo de fixidez. Então, a memória vai se encarregar de apagar as pequenas dorezinhas da viagem à Europa e eu vou voltar a economizar só para poder fugir, sozinha, daqui. É assustador, mas eu sei: isto vai virar um ciclo.
PS — Só pra constar, a música de que eu estava falando é esta aqui.




Estranho como este texto fala tanto sobre mim, me sinto tão assim… não sei muito bem o que comentar, acho que só posso dizer que me identifico completamente com isso…
Essa dicotomia me faz lembrar da Metafísica da Qualidade do Robert Pirsig. Você pode ler um pouco sobre isso aqui: http://robertpirsig.org/MOQSummary.htm
Se o assunto te interessar, os dois livros dele são ótimos.
A princípio você pode achar que tem alguma coisa a ver com religião por causa do Zen-Budismo mas eu também sou ateu e mesmo lendo com ceticismo curti bastante.
Lyrio —
Marco — Meio complicadinho, não sei se entendi tudo 100%, mas amei isso aqui: “without Dynamic Quality an organism cannot grow. But without static quality an organism cannot last”.
Oi, eu já acompanho seu blog já faz um tempo, adoro seus textos, mas nunca tive coragem de comentar.
Achei esse texto em particular bastante parecido comigo (não sei se é só comigo ou com a maior parte das pessoas).
Bem, não sei mais o que comentar, desculpe. Eu ainda estou refletindo direito tudo o que acabei de ler, haha.
Ah, eu acho o seu blog fantástico.
que texto fooooooooooooda. =)
Oi, Marj! Que bom que vc voltou! Espero que pra ficar porque aqui, aqui é o seu lugar (música do Roberto).
Então, eu não queria vir com esse papo de tia velha, mas não consigo evitar. Eu já fui exatamente assim. Me enjoava rápido das coisas, nunca ficava mais de um ano num emprego, namorado não durava um mês, e por aí vai. Daí eu mudei sem querer, e virei essa pessoa ultra conservadora que sou hoje. Ok, não sou conservadora no aspecto político, pelo contrário, mas pessoalmente, sou do tipo que, se gosta de uma comida, pode comer só aquilo todo dia, sabe? São fases, acho. Já já vc vai conhecer alguém e, mesmo pensando que vai enjoar num instantinho, não vai enjoar. E também vai gostar de uma profissão ou de um emprego e ir ficando. Vai querer estabilidade. Acontece: a gente muda. E nem sempre é pra pior.
querida, que esta terra – à qual eu agora pertenço menos, porque vivo em Santiago, mas pertenço ainda mais que antes, porque conto os dias para voltar para a minha gente, eu que sempre fui tão brasileira, tão orgulhosamente bunda e sorrisos e samba, mais que nunca sinto um esboço de lágrimas quando reconheço qualquer ocorrência fortuita do verde e amarelo – que esta terra lhe seja doce, e lhe receba bem. Porque você aqui [aí] faz falta, como cada um desses lugares e pessoas que você conheceu e que desde então começaram a fazer falta…
que seja doce! bem-vinda!
marjorie, que coisa, eu tinha escrito um comment enorme, e ele nao foi! =T enfim…welcome back! muito bonito esse post. nossa. sinto muita coisa que tá escrito nele. obrigada por compartilhar esses “cacos” com a gente. pode ser egoísmo meu, e tal, mas suas palavras com certeza fazem muitas pessoas pensarem e se sentirem “aquecidas”… nao só eu. pelo visto a viagem foi boa, ne? apesar do post melancolico, e tal. nossa, eu sinto muito isso, a paixao pela mudanca, eu sou assim, uma pessoa bem “inconstante”, mas que as vezes sente falta de uma certa “normalidade”…
Sabe qual é o maior barato? É que dá pra viajar de novo no texto, pra fora e pra dentro, porque parece que na verdade – fora a realidade da viagem real – você foi mesmo nas pontes e ruas e vielas e escuros e claros que a gente vai todo dia, na vida toda. Aposto que todo mundo que leu, sentiu sua ponte, abraçou seu mocinho, chamou ele de lindo. Ele são o mesmo. E Ponte Neuf e “Os amantes da Ponde neuf”… ah… cegar pra ver e ver pra nunca mais querer enxergar… porque a luz cega… lindo, lindo
Que bom que está de volta. Descobri seu blog durante seu período de viagem e acho que acabei lendo todos os seus textos enquanto você não voltava a escrever. Adorei esse texto, por sinal, dá pra viajar bastante nele, aposto que cada pessoa que lê se identifica em pelo menos um pedacinho.
Olá querida Marjorie!
Há tempos eu olhava a atualizacao do seu blog e pensava: Marjorie ainda esta pelo mundo… e desejava por um segundinho que voce estivesse a viver… viver muito!
e vejo por este post delicioso o quanto voce viveu… e vejo o quanto concordo com ele.
Escrevi algo parecido de minha ultima viagem a Paris… e ao mesmo tempo que dada momento parecia unico e iria durar uma eternidade na minha memoria eu sabia que ele logo seria sucumbido por outra coisa qualquer.
Nao fiz mochilão, mas entendo o que vc diz… e acho que ao mesmo tempo que estar num outro canto tao diferente de uma sensacao inexplicavel de liberdade ela nos coloca de volta de onde saimos… nunca me senti tao brasileira quanto me sinto agora… eu falo mais duas linguas e me adequo perfeitamente a vida na suecia, mas eu sou e sempre serei mais brasileira do que eu mesma gostaria de ser.
A metafora da ponte e lindissima… pensei nas pontes todas que ja passei tambem e sobretudo pensei na ponte do Munch. Suas angustias me lembram isso e sua ideia da ponte tambem. So em minha ultima viagem tive um insight que talvez seja muito basico para qualquer outro, mas nao era pra mim: de que a moca da Ponte do Munch era ele mesmo e ele era o unico que nao olhava para o curso do rio.. era o unico a olhar adiante perdido imaginando onde queria parar.
Voce me parece tao Munch e fico imensamente feliz de que voce tenha se perdido, se achado e se perdido de novo em algumas pontes por ai…
ainda que a memoria seja mesmo uma filha da puta.
que bom que voltou. eu vivo adiando essa viagem de auto-desconhecimento. porque acho que vou sentir parecido. sou um exilado mineiro no Piaui. e isso acontece dentro do país, mesmo. imagine viajando. mas, quem sabe? bom mesmo que você voltou.
http://antoniocicero.blogspot.com/2009/10/nelson-ascher-nacao-de-paria.html
Bem vinda de volta… vc fez muita falta por aqui!
Marjorie, você cresceu com essa viagem. É tão legal notar isso em alguém, mesmo sendo você, que eu só ‘conheço’ pelo blog.
PS: e se for um ciclo, voce não tem nada a temer, tem?
Nossa, tu voltou muito julie delpy! imagino diálogos fantásticos com teu gatinho de praga. quem sabe nao rola um ‘antes do entardecer’ daqui uns 10 anos?
Sabe q tua narrativa me lembrou qdo cheguei em Munique e adorei as diferenças e algum tempo depois, em Londres, já me emocionava quando ouvia português, detestando as diferenças. Quem eu sou afinal?, eu pensava.
Welcome back! Vc fez falta na blogosfera.
Eu geralmente me identifico muito com os seus textos,mas esse foi demais.Sou eu ali.E isso me angustia.Mas quer saber?Graças a Deus que eu posso ficar angustiada.Isso é sinal de que eu não me conformo com as coisas tal qual elas me são dadas.E isso significa que eu ainda vou descobrir muita coisa nova na vida.Seja sobre o que eu sei que desconheço,seja sobre o que eu acho que conheço.
Não sei se ficou claro,mas é isso.
Nossa, eu me vi em várias das suas observações. Não sei quantos anos vc tem, mas eu, com os meus 26 (quase 27) até hoje não fiquei mais que 1 ano num emprego. Eu tbm mudava de escola com frequência. Algumas vezes pq queria, outras pq minha mãe queria, mas a constância nunca foi meu forte. Enjoo até de comer as mesmas coisas. Dou roupas quase novas por achar que estão virando rotina. Mas se pararmos pra pensar, até mesmo esse jeito de ser pode cair na idéia do ciclo. Eu acho que dei uma acalmada nos últimos anos. Consegui me casar, ainda não desisti do mestrado, o meu emprego tem data para acabar, mas pelo menos é daqui há dois anos… Eu acho que do efêmero da vida não podemos escapar. Algo ruim desse estilo de vida é que muitas vezes eu tenho a sensação de ter vivido muito pouco, de ainda estar num estágio lá atrás quando todo mundo está lá na frente, mas envelheço como eles, ou seja, mais perto do fim. Mas quando olhamos o que tanto vivemos um leve sorriso ilumina minha alma. Bom, já me perdi de onde queria chegar. Mas acredito que cada vez que vc refizer essa viagem mentalmente ou ler esse post ela se mostrará de uma forma diferente pra vc. É por isso que escrevemos ou tiramos fotos. Não podemos apreender nada, mas conseguimos colocar os significados de uma forma multifacetada para que sempre possamos ressignificá-los.
Lindo recorte, Marjorie.
Feliz em tê-la de volta.
Que bom Marjorie,já tava quase me perdendo de saudades
Adorei. O melhor dessas viagens eh que a gente descobre tanto sobre a gente que ate incomoda.
Que bom que voltou. Que delícia esse post.
Eu tive uma sensação de querovoltarpracasaagora um ês atrás, quando passei uma semana – !!! – em SP, sem família e namorado. Me dava um aperto, uma solidão. Não dá pra explicar. Algumas pessoas longe de vc fazem a gente se sentir sem casa, sem lar.
Que bom que voltou, tava torcendo!
beijos
Estava com saudades Marjorie
Eu conheci meu atual namorado quando a minha fase era “ficar”, em uma dessas o conheci e estamos há três anos juntos. É o maior clichê, mas tem de fazer o que “seu coração mandar mesmo”.
Em 2007 eu escrevi um texto que fala um pouco desse sentimento: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=31743799&tid=2530122552863369226&start=1
me identifiquei horrores lendo teu post. quero muito viajar também
você conhece Na Natureza Selvagem? É a história real de um cara que passa 2 anos fora e um tempo no Alasca… Por mais que adore essa contemplação que ele faz sozinho das coisas, ele chega a conclusão que “happiness only real when shared”
caramba, eu já tava com saudade de viajar… depois desse texto, então…
mas é incrível como a sensação é exatamente essa. antes de acontecer, o frio na barriga, expectativas, aquela ansiedade deliciosa… durante, o “não era bem isso q eu planejava”, saudade de casa, do conforto, do tédio, da previsibilidade. depois, a saudade de tudo e de todos que aconteceram na viagem. e a expectativa de voltar lá, ou de outras viagens.
Engraçado, esse seu sentimento. Sei que é comum, neste mundo da nossa época, tudo que é sólido desmanha no ar, e tal. Mas eu acredito na coisa-em-si. Acredito nas relações humanas, na cultura, na fraternidade, na política. Devo ter nascido no século errado, ou o mundo anda merecendo uma reconstrução?
P.S.: não sei como nessa virtualidade. entendo a virtualidade como ponte e como instrumento, talvez. Por exemplo, vi você várias vezes on line no gmail e tive vontade de lhe falar, tinha saudade de você (do seu pensamento) mas não falei porque achei que seria invasivo, porque isso aqui é ponte não pra indivíduos propriamente se aproximarem, mas pra compartilhar reflexões, e informações, até se articular, mas a coisa-em-si não está aqui. Como eu acredito nela, tenho um certo respeito por ela. Quando faço viagens como esta sua, volto sempre com alguma coisa-em-si, e uma série de sonhos, devaneios. Tenho cá os meus critérios pra diferenciar coisa e outra. Eles falham no tacante ao amor, mas no tocante a isso falham aqui também. Daí a importância de o amor romântico não ocupar tanto da coisa-em-si. Enfim. Bem-vinda, mais uma vez, seu pensamento faz de fato parte da minha vida, e fez falta.
Beijos.
Obrigada a todos pelas boas-vindas! Vocês são todos uns fofos
M. – sim, a viagem foi ótima. Foi uma experiência muito rica. Eu me diverti, dei risada, fiquei triste, fiquei com raiva, senti saudade de casa, desejei não voltar mais, enfim, foi o pacote todo. Todos os sentimentos que eu poderia sentir eu acho que senti. Daí ter dito que chupei a laranja até o bagaço, etc.
Somnia — “ao mesmo tempo que estar num outro canto tao diferente de uma sensacao inexplicavel de liberdade ela nos coloca de volta de onde saimos… nunca me senti tao brasileira quanto me sinto agora… eu falo mais duas linguas e me adequo perfeitamente a vida na suecia, mas eu sou e sempre serei mais brasileira do que eu mesma gostaria de ser”.
Sim, é isso! Falar outras línguas te dá conceitos novos, idéias novas, mas não uma ótica nova. Foi isso que eu aprendi. Você é um brasileiro que fala inglês, um brasileiro que fala francês, etc. Mas não é um francês. E eu acho que nunca vai ser, mesmo que more lá durante muito tempo, etc. Eu sempre me senti meio outsider, meio desencaixada. Aí agora eu percebi que não há nada mais brasileiro do que isso. Não há nada mais brasileiro do que não se achar propriamente brasileiro. Essa não-identificação, essa quase recusa, é uma coisa muito nossa. Todo mundo tem complexo de vira-lata. Só que isso se manifesta de diferentes formas. Tem os manés que ficam babando ovo dos outros países, achando que só os outros prestam. E tem quem se sinta como na música dos Titãs (“não sou brasileiro, nao sou estrangeiro, não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum”). Que é o nosso caso. Mas são duas faces de um mesmo traço cultural que hoje eu acho que é brasileiríssimo. E aí é nesse não-pertencer que você mostra o quanto pertence, entende?
Mariana — eu tb acho que amadureci. Não sei como, mas me sinto mais crescida mesmo.
Ana Emilia — Hahaha, a menina de Paris tb me falou desse filme! Ainda não assisti. E acho que não quero ver, não… Vai que o filme influencia a minha memória a romantizar as coisas, a ficar imaginando um possível segundo capítulo para uma história que eu já considero encerrada, sabe?
Drixz — “Algo ruim desse estilo de vida é que muitas vezes eu tenho a sensação de ter vivido muito pouco, de ainda estar num estágio lá atrás quando todo mundo está lá na frente, mas envelheço como eles, ou seja, mais perto do fim.”
Nossa, eu me sinto muito assim também. Aliás, foi por isso que eu quis fazer a viagem. Porque eu sentia, como escrevi num post antigo, que estava “vivendo a conta-gotas”. Então queria ver o mundo, queria de fato viver. Só que aí você chega lá e pá: tudo o que vc tá vivendo é efêmero também. Não fica nada além dos recortes das fotos e a memória (que é traiçoeira). Então isso também é viver a conta-gotas. Por isso que eu tenho medo disso virar um ciclo. Porque parece que vc nunca está de fato dando um rumo pra tua vida.
Deborah — Mas então. É diferente porque o mocinho em questão é gringo, né? Mora há trocentos mil quilômetros de distância. Então o problema não é só que eu não quero compromisso. É tb todo o contexto da gente ter se conhecido numa viagem e morarmos longe um do outro. O que complica demais as coisas.
Temos trocado emails (pelo menos por enquanto), mas eu acho que ficar pensando no mocinho agora é cavar dor de cabeça — e pior: abrir espaço pra memória romantizar uma coisa que nem foi tão romântica assim.
Kori – Tb não vi esse filme (eu sou a pessoa menos cinéfila do mundo, gente), mas adoro a trilha sonora. Eddie Vedder rules.
Eulalia — então. Taí a minha corda-bamba. Talvez por ser uma moça do meu tempo, é que eu tenha esse prazerzinho no nunca mais. Mas, ao mesmo tempo, também acredito muito na coisa em si. E meu erro talvez seja procurar a coisa em si no meio do balaio do efêmero. Enfim.
É curioso vc ter dito que, qdo volta das viagens, o que há em você é que é a coisa em si. É isso que sobra. E eu tô começando a pensar isso mesmo. Que eu amadureci. Não sei o que fazer com o tal amadurecimento, mas ele está aí. E é a única coisa que de fato sobra. Que você não é o mesmo.
Essa reflexão da virtualidade tb é outra que é muito boa. Eu não sei se quero continuar fazendo blog, sinceramente. Porque eu me exponho tanto — e, embora tudo seja recorte, as pessoas não estão acostumadas a ler as coisas tendo esse fato em mente. Fora que eu não tenho o controle do processo semiótico todo. Eu não tenho o controle de como as pessoas vão me interpretar na outra ponta. Então elas ficam achando que me conhecem e jogando palavra na minha boca. E é muito chato isso. Entrar em outros blogs e ver coisas lá sobre você. Fulano não me conhece, tem acesso a apenas um recorte extremamente restrito do meu pensamento, mas tá lá, se achando no direito de falar que eu sou isso e aquilo.
E eu não deixo de pensar que esta é uma situação que eu joguei sobre mim mesma, a partir do momento em que resolvi ter blog. Eu não estou inteira neste blog — mas é o meu nome, nome e sobrenome, que está aqui. Então sou EU que acabo exposta a escrutínio. Então transforma em pessoal uma coisa que não é, justamente por conta da virtualidade, disso que vc falou disso aqui ser uma ponte de idéias, mas não um relacionamento propriamente dito. E, se a linha é tão tênue, se é tão difícil para a maioria das pessoas fazer essa separação e ver que o virtual não é a coisa em si, então o jeito é eu não me expor. É reservar os meus pitacos pra mesa de bar então.
Enfim, acho que desviei do assunto, rs! Beijo grande — e pode mandar um oi, se quiser, claro!
Bom, mas teoricamente é um recorte de um recorte de um recorte… no fim não é nem você que é citada mais é uma coisa tão processada que vira ainda outro recorte. Não é?
Feliz e triste por você. Sabe porque?
Porque essa sou eu:
‘Paixão pelo nunca mais. Quando criança, pedia para minha mãe me mudar de escola de dois em dois anos. Nunca fiquei mais de um ano em um emprego. Nunca tive nenhum namoro duradouro. Perdi a conta de quantos cursos comecei e não terminei. Já tentei tocar vários instrumentos, aprender várias linguas, mas parei no meio.’
Não acho que ‘isso’ tenha solução. E sei como ‘isso’ incomoda e consome. PUTZ!
Já desejei e tentei mudar inúmeras vezes, mas não é possível – ao menos para mim não foi…
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Quanto ao lance das fotos…
Bem, sou demasiada cética e sofro demais com isso. Crio ’sentidos’ de maneira compulsória em minha vida, pois acredito que eles são necessários.
O ‘porque’ não me pergunte; eu sinto isso, somente….Ouso até dizer que acaba reavivando essa questão do próprio pertencimento.
Talvez por essa razão eu entenda tanto você&asfotos.
Bjs!
meu professor de filosofia é americano e mora há 30 anos aqui no Brasil. Ele diz que mesmo depois de todo esse tempo ainda continua olhando para a cultura brasileira com o olhar americano.
É bem como voce falou mesmo, nossa cultura faz parte do que somos e com certeza molda nossa percepção. Acho legal essa experiência do contraste, quando conseguimos enxergar de forma mais definida a cultura na qual crescemos e vivemos.
Voce fala que “Não voltei com nenhuma resposta nem com nenhuma pergunta que já não existisse antes”. Já tive essa sensação tb, de ir pra um lugar achando que me traria alguma reflexão e voltar “do mesmo jeito”. Mas se não foi naquela momento, com certeza mais à frente aquela experiência fará diferença na nossa maneira de enxergar certas coisas.
Voce fala “O desejo por algo duradouro começa a falar mais alto do que o gosto pela mudança”. acho legal essa reflexão, justamente nos dias de hoje que convivemos com tantas mudanças, novidades e “novidades”. e me pergunto: será que é tão legal assim esse mundo cheio de novidades? será que um mundo um pouquinho mais estável, onde os vários aspectos de nossas vidas fossem mais equilibrados e duradouros não seria tb legal? em que ponto uma mudança deixa de agregar e passa a descontruir coisas que seriam importantes para nós?..
parabéns pelo texto
um abraço
Rosi — Pois é! E é esse recorte do recorte do recorte que acaba se passando por mim, sabe? É foda.
Van — Fiquei surpresa com o tanto de gente que disse se identificar com o texto. Vai ver é algo do nosso tempo, então. Comecei a ler um livro muito legal. Chama-se “Amor líquido”, do Zygmund Bauman. Resenha aqui: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=123. E ele fala disso e tal. Da gente estender a lógica do consumo pra todo o resto da vida. A lógica do “sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. E aí a gente não se compromete com nada, fica o tempo todo querendo mudar, mudar, mudar, atrás de uma satisfação plena. Como se a satisfação pudesse ser garantida em todas as circunstâncias. E, no campo dos relacionamentos, vem esse desejo do duradouro, então a gente procura uma satisfação plena e eterna, sólida — mas aí é um paradoxo porque, se é pleno, exige compromisso total, etc. E a gente tem mais e mais dificuldade de se comprometer com as coisas, porque não quer arriscar a possibilidade de encontar novas satisfações. Enfim, isso aí é só a introdução do livro. Comprei ontem. Não sei se vou concordar com tudo, mas promete muito!
Josue — Pois é. Teve um episódio na viagem que foi o exemplo cabal disto. Tinha eu, outro brasileiro e um americano dividindo o quarto do albergue. Eu estava num papo super animado com o brasileiro, em português, quando chegou o americano. Que, como chegou no meio, não se intrometeu. Fez as coisas dele, se preparou pra dormir, etc. Aí quando o brasileiro saiu do quarto pra escovar os dentes, o americano sorriu e perguntou: “do que vcs estavam falando?”. Porque o papo estava animado mesmo. Ele queria rir tb, etc. Aí eu meio que tive de parar pra pensar num tema central da conversa, pra tentar resumir. E só o que consegui dizer foi: “ah, falávamos sobre a viagem dele. Das coisas diferentes que a gente encontra aqui”.
O americano ficou meio desapontado, sabe? Como se eu estivesse escondendo coisa. Tipo: “como assim vcs tavam rindo tanto DISTO”? Mas a gente tava falando disso mesmo! Da novidade que é pegar trem, de não saber lidar com tantas moedas, de entrar numa loja e de repente ouvir Vanessa da Matta, de se surpreender com a educação das pessoas no metrô, etc etc etc. Enfim, comentávamos a viagem SOB A PERSPECTIVA DE UM BRASILEIRO. Como explicar essas coisas direito prum americano? Não dá.
Sobre as reflexões: eu acho que agora elas estão se assentando. Não voltei mudada nem com resposta nenhuma, mas acho que ainda pode sair alguma conclusão, alguma lição disto. Só que é lento. Demora pra processar, sei lá. É o que vc diz: uma hora a viagem vai fazer diferença para me fazer entender algo. Seja o que for.
Sobre a última parte do comentário: eu nem comecei a ler o livro direito e já tô recomendando pela segunda vez, rs. Enfim, acabei de comprar “Amor líquido”, do Bauman, e ele fala disso (veja o comentário pra Vanessa). Quem sabe depois de ler eu consiga entender um pouco mais esse negócio. Porque a dicotomia expressa no post é *A* questão do momento pra mim. Então eu fui atrás do livro pra tentar entender mesmo.
Beijão!
Olha só. Eu vim aqui justamente com duas citações de Bauman na manga… Achei seu texto excelente quando li, mas não sabia o que comentar até que, lendo Identidade, do Bauman, resolvi postar uns trechinhos. Eu pretendia escrever algo como “imagino que você tenha acesso ao autor”, o que foi confirmado pelo seu comentário acima. Enfim, eis os tais:
“Um dos maiores nomes da longa relação de refinados escritores de língua espanhola, Juan Goytisolo, que andou por Paris e pelos Estados Unidos até se estabelecer no Marrocos, resumiu a sua experiência de vida observando que ‘a intimidade e a distância criam uma situação privilegiada. Ambas são necessárias’”. (p. 20).
“O anseio por identidade vem do desejo por segurança, ele próprio um sentimento ambíguo. Embora possa parecer estimulante no curto prazo, cheio de promessas e premonições vagas de uma experiência ainda não vivenciada, flutuar sem apoio num espaço pouco definido, num lugar teimosamente, perturbadoramente, ‘nem-um-nem-outro’, torna-se a longo prazo uma condição enervante e produtora de ansiedade. Por outro lado, uma posição fixa dentro de uma infinidade de possibilidades também não é uma perspectiva atraente. Em nossa época líquido-moderna, em que o indivíduo livremente flutuante, desimpedido, é o herói popular, ‘estar fixo’ – ser ‘identificado’ de modo inflexível e sem alternativa – é algo cada vez mais malvisto”. (p. 35).
BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Beijos.
(Desculpa o comentário tão longo).
Hum…. engraçado, eu sempre viajo e não tenho a menor vontade de voltar pra casa nem a menor pretensão de aprender algo. Viajar é apenas viajar! Uma coisa deliciosa (para mim) e que eu nunca enjôo.
Nao entendo pq as pessoas acham que obrigatoriamente tem que aprender (e apreender) muito numa viagem! É filosofar demais por coisas tão banais (não quis soar pejorativa de modo algum, espero q me compreenda!),Talvez eu esteja ficando velha e rabugenta hahahahaha
Beijos, tava com saudade!