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Pensamentos soltos sobre a humilhação

Outubro 29, 2009

nazi

Em Berlim, tem uma exposição a céu aberto chamada Topografia do Terror. No lugar onde ficavam os principais prédios da administração nazista, hoje destruídos, será construído um centro de documentação histórica e exposições sobre o período, com o objetivo de mudar a atitude (compreensível) dos alemães de evitar se referir a essa parte da sua história. Afinal, é importante que estas informações sejam acessíveis, tanto para calar a boca de quem diz que o holocausto não existiu quanto para garantir que não aconteça novamente. Pelo menos não ali, já que genocídios e atrocidades temos vários, neste exato momento, em tantas outras partes do mundo. Enquanto o prédio não sai (dizem eles que fica pronto no fim desse ano, mas pelo jeitão em que está a construção, não acho que vai rolar), a exposição fica a céu aberto mesmo. É uma das atrações turísticas mais famosas da cidade — e digrátis! –, então praticamente todo  mundo vai para lá.

Houve duas coisas nesta exposição que me amarraram a garganta. Não, não foram as fotos de milhares de corpos empilhados nos campos de concentração. Eu acho mesmo que a gente acaba se dessensibilizando em relação a essas coisas. Porque você sabe que vai encontrar isso ali. Você já espera encontrar uma foto com corpos empilhados numa exposição dessas. Então, embora ainda revolte, não surpreende. E penso que a surpresa é o que mantém a revolta forte. Se você se mantém surpreso, se aquilo nunca se torna corriqueiro para você, então você continua sempre disposto a lutar contra aquilo. Mas eu não sei se é possível manter a surpresa sempre no mesmo nível. Afinal, não é algo que se possa controlar. Eu devia sentir vontade de chorar ou vomitar toda vez que me deparasse com uma foto dessas, mas não é o que acontece. Eu ainda me revolto, mas meus olhos simplesmente se acostumaram.

(Já escrevi isso aqui, mas também senti que estava me dessensibilizando quando trabalhava na Reuters. No começo, chocava ler que 150, 200 pessoas morriam de uma vez só numa explosão nos cafundós do Afeganistão. Ou que houve trocentos mortos e mais trocentos feridos numa só batida da polícia zimbabuana, às vésperas daquela eleição fraudada que houve no ano passado. E isso acabava com o meu humor. Mas, com o passar do tempo, esse tipo de notícia vira rotina. É todo dia, todo santo dia. Então, o jornalista deixa de pensar nessas vítimas como pessoas e passa a enxergar só os números. “Morreram 10 nas Filipinas hoje. Acha que vale traduzir?”. Resposta: “Ah, não. É pouco para as Filipinas”. Ou: “espera um pouco que com certeza esse número vai aumentar”. E a gente falava isso friamente mesmo. Como se coubesse a nós determinar quantas pessoas precisam morrer em tal lugar para aquela notícia se tornar importante para o resto do mundo. Sendo que, se a gente parar para pensar, toda morte importa. Também me dessensibilizei com fotos de gente toda ensaguentada. Porque todo dia tinha várias. E eu ficava me perguntando se essa dessensibilização era uma coisa natural, apenas fruto da repetição e do fato das vítimas estarem distantes da gente; se era um mecanismo de defesa para conseguir continuar trabalhando sem se sentir péssimo o tempo todo; ou se nós, de fato, estávamos ficando um tantinho mais cruéis).

Mas enfim, voltemos a falar da Topografia do Terror. Duas coisas me deixaram de garganta amarrada ali. A primeira foi ver que algumas das citações de Hitler (e dos membros mais importantes do seu gabinete) continuam sendo ditas por outros líderes hoje. Eu pensava: “ei, péra aí, onde foi que eu ouvi isso? Ah, sim, foi na boca do Dick Cheney. Ele falou exatamente a mesma coisa!”. Fiquei chocada com a semelhança entre os discursos dos alemães em 1930 e todo aquele superpatriotismo que rolou nos EUA pós-11 de setembro. E as frases racistas? Não diferem em quase nada do que se lê em muitas caixas de comentários Internet afora, hoje. Só são um tantinho mais exageradas. Tem muito disso até no discurso sobre violência urbana aqui no Brasil. E isso me fez pensar na condição humana. É engraçado a palavra “humano” ser sinônimo de ter compaixão. Porque a verdade é que nós somos tão suscetíveis. Tão propensos a fazer essas merdas, sempre em nome do nós X eles. A semelhança das citações dos nazistas com muita coisa que eu ainda ouço nos telejornais de hoje me fez pensar que nós não mudamos nada. Nós não aprendemos nada. Não estamos numa escala evolutiva.

É fácil dizer que Hitler era louco, né? Não acho que fosse. Porque aí tudo se explica, lava-se as mãos, etc. Mas como se explica o tanto de loucos que trabalhavam pra ele e que acreditavam exatamente na mesma coisa? Como se explica o apoio maciço da população (que, apesar da propaganda enganosa, sabia muito bem que estava injustiçando os judeus, os homossexuais e os ciganos, porque o discurso racista era muito explícito)? Impossível tanta gente ser louca junta. Hitler não era louco, não. Ele só levou ao extremo o racismo que existia em todo mundo. E que ainda existe, dado que vira-e-mexe nos deparamos com discursos tão parecidos. Portanto, é algo que a gente precisa combater sempre, sempre-sempre-sempre, não pode relaxar nunca. Porque, se escorregar, merdas assim estão só esperando para acontecer. Como disse, não estamos numa escala evolutiva, na qual este é só um capítulo anterior. É uma luta constante.

Eu sei que é espinhoso comparar qualquer coisa com o nazismo. Já escrevi sobre isso aqui. Porque o nazismo tá no rol das coisas indefensáveis. Como poucas coisas têm de fato a mesma extensão, comparar algo ao nazismo é um recurso retórico bastante usado para encerrar uma discussão. O post passado já deu pano para manga por conta da minha frase sobre as muçulmanas. Então eu não me surpreenderia nem um pouco se alguém chegasse aqui dando mil razões porque o Bush não é o Hitler. Só queria que ficasse claro que eu não estou dizendo que é. Só estou dizendo que me chocou a semelhança entre os discursos. Me chocou o quanto do discurso nazista ainda é corrente. Apesar da gente se achar super avançado em relação a isso.

Eu acho, aliás, que é exatamente esta a mensagem que a exposição quer passar. Veja que é “Topografia do Terror” e não “Topografia do Nazismo”. Então, há mesmo a intenção de que você veja o quanto todos os regimes de terror são semelhantes. Empregam as técnicas e justificativas muito parecidas. Logo, falar de nazismo não é coisa do passado, mas do presente.

A segunda coisa que me chocou foi a parte da exposição dedicada às humilhações públicas. Pendurava-se cartazes no pescoço do “traidor” e o expunham em praça pública. Ou o forçavam a andar pela cidade, enquanto os outros atiravam pedras, xingamentos e ovos. De novo, é exatamente o tipo de coisa que se espera de um regime como o nazista, mas que eu, particulamente, não conhecia. As fotos me incomodaram profundamente. Em especial, uma na qual dois oficiais alemães cortam a barba de um judeu em público. E a expressão dos três personagens é muito emblemática. Nem precisa de legenda para você entender que, para o judeu, uma barba não é só uma barba. E os dois oficiais alemães estão rindo. Rindo muito sinceramente. Recortássemos os dois com photoshop e os colássemos num comercial de manteiga, ficaria ótimo. Porque há um prazer genuíno nos sorrisos dos dois. Eu fiquei muito tempo olhando para aquele sorriso. E pensando, de novo, que está em nós. A capacidade de dar esse sorriso ao causar mal para o outro. De sentir prazer na desgraça do outro. É assustador, mas é o que me martelava: isto é humano. Está em mim também. Este cara não é um louco nem um animal, é apenas um homem.

Enfim. Para mim, um dos grandes méritos da exposição “Topografia do Terror” é esse: deixar claro o quanto a humilhação psicológica é poderosa. Porque as pessoas tendem a relativizar, né? Tipo: agressão verbal não é tão grave quanto agressão física. Estupro sem porrada não é “estupro-estupro”, é menos estupro. Mulher ocidental reclama de boca cheia porque não tem mutilação genital. E por aí vai. Há uma valorização da violência física sobre a violência psicológica. E a gente tem que ficar desenhando que ambas são horríveis. E que ambas devem ser consideradas igualmente reprováveis.

E é aí que entra o negócio da Uniban. É no mínimo interessante chegar de viagem e dar de cara com uma notícia dessas. As pessoas ainda não vêem horror numa humilhação pública. Ainda acham que há coisas que alguém possa fazer para merecer isso. Ainda acham que há o que a justifique.  Não vêem um ato de extrema violência nisso. É fácil olhar para um monte de corpos empilhados e dizer “ai, que horror”, mas a gente não vê (ou se recusa a ver) que a força geradora dessas atrocidades está aí, na capacidade de dar aquele sorriso. Na capacidade de se juntar a uma turba e gritar “puta, puta, puta”.

A Mary W escreveu sobre isso. Muito bem, como sempre. Que a gente só vê a violência no outro e não percebe que a violência está em nós. Que a gente faz parte disso. Uma coisa que eu percebi em muitos comentários Internet afora (inclusive teve um mais ou menos assim aqui) é que a reação instintiva é dizer que os alunos da Uniban agiram como “animais”. Eu também já falei sobre animalização aqui. Mas nunca custa repetir. Que, quando você animaliza o outro, está distanciando ele de você. Porque animais não têm solução, não podem aprender a ser humanos nunca. Reduzir o outro assim é, também, uma violência. E, para cometer violência contra alguém, só mesmo não o considerando um semelhante.

Ora, os alunos da Uniban não são loucos, não. Não são animais, não. São seres humanos. Só levaram ao extremo uma forma de pensar que é muito disseminada: que a mulher é a culpada por seu estupro, que as roupas denotam recato ou promiscuidade e que promiscuidade é meio de avaliar o caráter de uma mulher. Os alunos da Uniban só levaram ao extremo o machismo que a gente vê disseminado de forma mais sutil em tantos outros lugares. Repare também que tem gente condenando os alunos da Uniban, dizendo: ”mesmo que ela fosse uma puta e desse pra todo mundo, não justifica”– ou seja: apesar de condenar a humilhação pública, ainda condenam a roupa. Ainda submetem as mulheres à dicotomia santa x puta. Ou seja: pensam igualzinho a quem criticam. São tão machistas quanto.

Punir os alunos da Uniban pelo que fizeram é justo e necessário, mas não basta. É preciso que a gente se esforce, dia após dia, para destruir essa cultura machista. É um trabalho de formiguinha, que exige sim, que a gente denuncie todo e qualquer mecanismo que perpetue esse modo de pensar. Já cansei de ler por aí gente me escurraçando porque eu sou cricri, porque eu acho pêlo em ovo, porque eu perco tempo destrinchando comercial de TV. E dizem: “estou cagando pro comercial de batata, eu quero é ver mais mulheres no Congresso”. Mas, meu filho, a falta de mulheres no congresso passa pelo comercial de batata. Porque é também ali, naquele comercial de batata, nas coisas mínimas, que a cultura machista se reifica.

O povo enche a boca para falar que vivemos numa sociedade “pós-feminista” ou que o feminismo acabou (quando não dizem que é o feminismo o culpado por todos os nossos males, como aquela recente reportagem da revista Época – tão equivocada, tão clichê, tão backlash, que eu fiquei com preguiça de comentar). Aí acontece um negócio desses. Para deixar claro. Que as mulheres não são consideradas donas dos seus corpos. Que a gente ainda vive num mundo absurdo onde se pensa que, por causa de algo tão pequeno quanto uma roupa, as mulheres estejam “pedindo” por uma coisa que ninguém nunca pede nem merece: a violência atroz do estupro.

É preciso que a gente reconheça não só a violência dos outros, mas a nossa. E o quanto a gente reforça isso todos os dias. A galera se acha é super bacana dizendo que tem mais é que castrar o Roman Polanski mesmo (que, não custa frisar, é um escroto sem tamanho, fez algo asqueroso e não deve nunca levar vantagem só porque fez meia dúzia de filmes considerados bons). E não vê que não há justificativa nenhuma para uma castração — a não ser a sede por uma vingança violenta. A galera não se acha violenta batendo nos filhos. Quando se diz que bater nos filhos é ensinar às crianças que a violência física é uma forma válida de punição ou ensino, que bater nos filhos é naturalizar a violência; aaah, o povo se esquiva. Diz que cada caso é um caso. Que apanhou quando pequeno e não pegou nada, etc. Enfim. Não enxerga a violência em si. Porque a violência só é coisa do animal. Só é coisa do bandido. É coisa de, como acabou de dizer o Lula, gente que “não é normal”. Mas de mim? Ah, não, isso nunca.

PS — Outro local que eu visitei em Berlim foi o campo de concentração de Sachsenhausen (deve estar escrito errado, mas, oi, tô com preguiça de googlar). E eu fiquei passada com as pessoas tirando fotos de TUDO ali dentro. Posando, com um sorriso de ponta a ponta, ao lado dos paus onde eles penduravam as pessoas para torturá-las. Em alguns dos prédios do complexo, havia exposições. E, claro, mais uma vez, tinha fotos de corpos empilhados. Tinha um monte de gente que não lia porra nenhuma do que estava escrito. Só parava em frente às fotos mais sangrentas, tirava foto da foto e ia embora. Pareciam ter uma espécie de fascínio pelas imagens mais horrendas. E eu ali, quase fazendo um facepalm, pensando: “meu filho, como é que você não percebe que é justamente essa falta de sensibilidade que gera tudo isso?”.

Para você ter uma idéia da falta de noção, teve um cara que perguntou para a nossa guia turística quantas pessoas tinham morrido ali. Ela disse que foram 300 mil. E o cara: “ah, mas eu já estive em Auschwitz e lá morreu mais de um milhão!”. E ela teve de falar o óbvio, né? “Não é uma competição”.

PPS — Eu não assisti ao vídeo. Tudo o que eu sei é por meio de texto. E eu sei que pode rolar um esquema “telefone sem fio” nisso aí. Mas eu me recuso a ver o vídeo. Não só porque também ele é um recorte, mas porque é um registro não-consentido de violência contra uma mulher. Ela não só foi publicamente humilhada, como não consentiu em ter sua humilhação exposta Internet afora. O vídeo, mesmo que a maior parte das pessoas que assistam o critiquem, é uma segunda humilhação. Torna a humilhação ainda mais pública, porque ultrapassa as paredes da faculdade e se estende ao país inteiro. Logo, eu não posso assistir a um vídeo desses. Por respeito à moça. Tampouco posso linká-lo.

(Pensei a mesma coisa quando vazaram as fotos da cantora Rihanna depois de ser espancada pelo namorado. Vi blog feminista ilustrando posts contra violência doméstica com aquela foto. E pensava: “WTF? Ao divulgar essa foto, você tá cometendo uma segunda violência contra ela!”)

47 comentários

  1. eu também não tive coragem de ver o vídeo. mas não havia me ocorrido essa coisa tão óbvia de uma humilhação não-consentida. confesso que tenho tentado ficar mais atenta pra essas sutilezas. porque às vezes parece que rola uma cegueira inconsciente mesmo.


  2. Se eu pudesse escolher UM blog para obrigar toda a população a acompanhá-lo, seria o seu.


  3. Esse choque que você teve quando trabalhava na Reuters é o mesmo que Naomi Klein teve quando trabalhava num jornal no Canadá. E isso a levou a um outro rumo na carreira. Agora não me lembro se li essa declaração em “Cercas e Janelas” ou em “Sem logo”.


  4. pensei em não postar o vídeo no twitter. mas tanta gente nem sabia, que achei que o que postei dava uma ideia dessa estupidez, sem chocar tanto.

    allanpatrick: foi em Sem Logo.


  5. [...] Marjorie Rodrigues escreve um longo post sobre a humilhação pública como arma de intimidação ditatorial e traça um paralelo ao caso recém [...]


  6. Interessante você falar de escala evolutiva. Porque a gente usa tanto a teoria da evolução em tudo na vida, irresponsavelmente. E quando a gente distribui as pessoas por degraus, o racismo é justificado. O cara é estuprador, e eu não? Ele está abaixo de mim, portanto eu não me importo com ele, portanto ele pode ser castrado / pegar pena de morte / ser assassinado na prisão etc. Também não é uma forma de racismo? O evolucionismo é essencial para as teorias eugenistas. O nazismo é um exemplo extremo, mas é possível identificar discursos eugenistas em vários lugares, como você disse.


  7. Esse texto mexeu muito comigo. Você explicou de forma muita clara o que eu penso acerca dessa dessensibilização. Porque sou muito criticada por não ser ’sensível’ à pobreza e miséria que me cercam aqui na Índia. Vou passar esse texto adiante, aos que não compreendem o óbvio: a repetição retira da gente os sentimentos ditos ‘nobres’. Banaliza. Estive no Cristo redentor com meu marido outro dia, e quase apanhei de algumas senhoras. O motivo? Eu estava ‘atrapalhando’ a foto delas. Brigaram feio comigo. E estávamos no Cristo, oi.

    E agora essa moça que sofreu tal violência. E ainda tem gente que vem me dizer que os (falso) moralistas são os indianos. Ah, eu me desanimo, sinceramente, desanimo. Desculpe o desabafo =/


  8. Nesses vídeos sobre a Uniban não dá pra ver nada. Câmeras de celular em movimento, sabe?
    No caso da Rihanna (não sei nem escrever o nome dela) eu pus a foto no meu blog porque o que mais li nos fóruns de discussão era que havia sido uma briguinha à toa, coisa sem importância, e um monte de gente defendendo o Chris Brown e vindo com aquele papo de “um tapinha não dói”. Foi importante mostrar que não foi um tapinha.
    Acho que muitas vezes as imagens precisam chocar para dar uma dimensão mais real do que aconteceu. Mas essa é uma discussão antiga do fotojornalismo, né?


  9. Soh para ilustrar a historia da Uniban, ha alguns meses li uma materia sobre como os bailarinos do musical Dirty Dancing aqui em Londres tinham parado de entrar no palco pela plateia porque eles estavam praticamente sendo estuprados pelas mulheres na plateia.

    As mulheres, quanto tem a opcao, agem igualzinho aos homens, considerando que se o cara ta ali, todo gostosinho e provocante, ela tem o DIREITO de dispor dele. Imagino que coisas similares acontecam em nightclubs e outros lugares.

    O que eu quero dizer eh que existe uma logica que dita que a atitude de uma pessoa esta relacionada ao que nos podemos fazer com ela. Esta errado? Logico!!

    Mas o que eu quero dizer eh que isso talvez nao seja machismo, mas conservadorismo, sei la.

    Alem disso, existe uma questao tambem da mensagem que a pessoa esta passando com as roupas. Uma menina de biquini na praia esta com aquela roupa por uma razao. Uma mulher vestida de periquete na rua pode estar muito mais vestida que a moca de biquini, mas esta passando uma mensagem bem diferente. Um cara andando no Soho a noite com uma roupa de “vem ca meu puto” esta dizendo alguma coisa, que nao eh a mesma coisa que um cara andando pelo mesmo lugar de bermuda e camiseta.

    Atencao: nao estou fazendo juizo de valor (ate porque eu defendo o direito de todo mundo poder se vestir de periguete se quiser). Estou falando que a questao eh complexa, as pessoas estao passando mensagens e lendo mensagens o tempo todo, e seria preciso nesse caso que a mensagem de “nao importa o que a pessoa vista, isso nao me dah direitos sobre o corpo dela” deveria ser a mais importante de todas.

    Acho que ficou confuso, mas deu para entender?


  10. Marjorie, achei interessante sua afirmação “Impossível tanta gente ser louca junta”. O Robert Pirsig, do qual falei em um comentário anterior, escreveu que o delírio de uma pessoa é loucura mas o delírio de várias é uma religião. Já Gustave Hervé foi além e disse que o patriotismo é uma superstição bem mais perigosa, brutal e desumana que a religião.
    É bom saber que existem pessoas contestadoras, dificeis de manipular como você. Cuidado apenas para não ser seduzida pelos extremos.
    Sobre o caso Uniban, sabe o que foi mais constrangedor pra mim? Quando li a notícia me peguei pensando em quão micro seria a microssaia dessa mulher para desencadear tamanho alvoroço. E foi só um milésimo de segundo depois que caiu a ficha: nem mesmo uma microssaia de 1mm justificaria qualquer tipo de violência.


  11. Lola — a versão da moça acaba de sair aqui: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,perdi-a-dignidade-diz-estudante-humilhada-em-universidade,458646,0.htm

    O relato é assustador. Ela estava assistindo à aula e os caras foram bater na porta, tumultuar a aula para assediá-la. O mais grave é que os seguranças da faculdade, quando chamados, também assediaram a menina, dando bronca nela. Ou seja: pelo amor de deus, cadê logo um advogado para ela meter um processo na fuça dessa faculdade de merda?

    O depoimento da moça no Estadão tb deixa bem claro por que eu não concordo com a divulgação do vídeo — e acho isso ainda mais grave num blog feminista. A moça não consegue nem sair na rua por causa do vídeo. Você vai ajudar a espalhar a humilhação dela? Não acho justo.

    Sobre Rihanna, é a mesma coisa: acho que não cabe a nós decidir se a foto dela vai ser usada para ensinar os outros que violência doméstica é ruim. Porque a Rihanna não escolheu ser porta-voz de nada. Ela não consentiu que a foto de seu rosto espancado fosse usado para este fim. Nem para qualquer outro fim. A foto VAZOU (o que já é uma puta sacanagem), não foi divulgada por escolha dela. Eu acho que cabe a cada vítima decidir se ela quer ser um porta-voz ou não, se ela quer manter sua história privada ou usá-la para conscientizar as pessoas. Acho de uma arrogância tremenda achar que essa é uma escolha nossa. É um direito dela manter sua privacidade se quiser, mesmo que seja uma celebridade. Afinal, celebridades ainda são pessoas com sentimentos.

    bjs


  12. Astrocat — Ai, eu não tava falando de escala evolutiva nesse sentido. Acho que ficou confuso.

    Quis dizer que as pessoas geralmente acham que estamos evoluindo, que estamos num caminho em direção a mais tolerância e pluralidade, menos racismo. Assim, o nazismo seria um capítulo anterior nessa escala evolutiva da humanidade. Toda vez que se fala de nazismo, eu meio que percebo essa idéia. E eu acho que pensava assim também. E agora já não, eu acho que esse é um risco que a gente continua correndo, porque é algo que está em nós. Acho que a luta contra a barbárie é uma luta constante.


  13. tá me impressionando demais isso tb. de como toda a violencia é jogada pruma esfera do nao-humano e os tais humanos se distanciam e bolam violencia pra punir os nao-humanos. e repete e repete.


  14. A fetichização da morte (que você falou tão bem da tua experiência), as condições que propiciaram o surgimento do nazismo, isso tudo é modernidade, isso tudo tá aí, tá aqui, tá em todo lugar, tá em nós, nas nossas instituições, nos nossos avanços. O nazismo não foi um acidente, como as pessoas gostam de pensar, foi possível porque as condições para que ele acontecessem existiam. Essas condições continuam existindo.


  15. Me impressiona muito os comentários sobre esse caso. As pessoas xingam pq são universitários, pq a universidade é particular, pq é paulista e etc. Ninguem percebe que é um caso ilustrativo do que existe. É bom pra pensarmos em como está a sociedade como um todo. Mas as pessoas ou estão contra ela ou se esquivam jogando a culpa em algum outro item. “ah, só podia ser em são paulo”, hã? Estréia da cegueira né? Não é nem ensaio. E olha que quem comenta tem tempo de pensar. É muito pior que quem estava lá, q se uniu ao grupo, que se deixou levar, enfim …


  16. ah, por falar em nazismo, vc devia ver “A Onda”, (apesar de não ser cinéfila, né?), filme que conta a experiência de um professor que criou um grupo fascista na sala de aula para exemplificar o totalitarismo. se é que já não viu…

    e ainda sobra nazismo, “Vá e Veja”, que fala da dominação nazista na Bielorrússia, mas de uma maneira muito crua, e por isso mesmo mais chocante do que os hollywoodianos de guerra. não tem casal apaixonado que se separa, trilha sonora de violino nem cachorrinho procurando o dono. é a verdade nua e crua.


  17. Ah sim, sobre esse assunto eu gosto muito do filme alemão “a experiência” e do livro “modernidade e holocausto”, do Bauman.


  18. O filme “A onda” vale a pena ver, com toda certeza. Eu adorei ele, e fala bem disso, de como um grupo segue facilmente as idéias que lhes são colocadas…


  19. Acho que, apesar de encher a cara de droga e trepar com Deus e o Mundo, a molecada está é cada dia mais careta, isso sim.


  20. Como sempre, Marjorie, ótimo texto. Só não sei se concordo com a parte em que vc condena a castração química para criminosos sexuais. Já li alguns artigos dizendo que este tipo de criminoso não tem recuperação, que basta voltar às ruas para recorrerem no crime, para fazer novas vítimas, então acredito ser mais correto – e justo com o mundo – pensar nas próximas vítimas desses criminosos, e não nele. Quer dizer, não seria melhor esquecer o bem-estar do estuprador e passar a pensar mais nas futuras vítimas?


  21. No caso da Uniban o que eu vi pelas imagens da TV (foi só o que eu vi) foi uma turba com as mesmas características e motivação de um linchamento. Acho que isso só não aconteceu porque entrou polícia no meio, mas a própria polícia teceu comentários em relação à roupa da jovem, dizendo que não “era adequada”. Adequada a quem, cara pálida?


  22. Ola marjorie

    voce diz “penso que a surpresa é o que mantém a revolta forte”. acho que além disso, nós temos um problema que é a forma como os fatos são explicados e justificados. se as pessoas estão sofrendo é porque elas merecem, é culpa delas, é o destino, é o carma, é isso e aquilo, e por aí vai. nesse mundo de explicações não existe uma fonte opressora, exploradora, alienadora, manipuladora. existe apenas o indivíduo idiota, culpado, loser, cujas ações e reações ocorrem no vácuo, de si para si, como uma entidade abstraída de sua própria realidade.

    voce fala em “semelhança das citações”. talvez a única diferença entre muitos dos discursos de grandes economias, a exemplo da China, EUA, Russia, seja apenas o idioma. Se tomarmos uma perspectiva história, olhando para a colonização das américas (matança indígena), a colonização absurdamente exploratória da África, as leis, políticas e mecanismos sociais de exclusão de minorias, chegamos à triste conclusão de que Hitler, e não Elvis, é que ainda não morreu.

    vc fala “Impossível tanta gente ser louca junta”. acho interessante essa observação. a primeira vez que refleti sobre isso, eu era adolescente, e foi através de um programa que passava na tv cultura sobre psicologia. Num dia, eles trataram justamente dessa questão, e expunham teorias da psicologia social que tentavam explicar como foi possível o povo alemão se entregar a tamanha atrocidade. Bem, as teorias estão por aí e em cada uma delas podemos reconhecer algum fundamento. O que acho estranho é o fato de que parece que não nos sentimos bem em admitir simplesmente que aquelas pessoas decidiram agir com maldade. Reconhecer que um povo decide ser mal, é como admitir que qualquer povo, qualquer pessoa, naquele contexto poderia agir da mesma forma. Em última instância, seria admitir que eu, voce, aquele outro, poderia agir como um alemão naziata fdp. É mais confortável acusá-los de um bando de loucos, porque isso purifica nossas almas.
    acho que o x da questão é justamente o “levaram ao extremo uma forma de pensar”. até que ponto nos permitimos pensar, sentir e agir de determinada forma. até que ponto nos permitimos ser maus. até que ponto nos permitimos agredir o outro, fisicamente, psicologicamente…até que ponto deixamos que a raiva, o ódio, o desejo de vingança domine nossa mente e comportamento…

    vc fala em “combater sempre”. acho que tão importante quanto combater é previnir. acredito na educação. a partir daí, devemos sempre nos perguntar que tipo de educação nossas crianças estão recebendo. com que tipo de valores elas estão crescendo. e talvez, o mais importante, que tipo de exemplo estamos dando.

    vc fala em “humilhação psicológica”. penso que uma das coisas mais perversas seja a descontrução da dignidade humana. e basta olharmos para o lado, em nossa própria sociedade, para vermos como ela ocorre de forma corriqueira, eu diria até sistemática. o outro tratado como objeto, como recurso, como massa, quando não, como bixo. o outro não precisa de direitos, de sentimentos, de identidade, de personalidade, de desejos, de espaço, de individualidade. o outro só precisa estar submisso e agradecer por lhe ser dado o direito de sobrevivência.

    pra finalizar esse meu “discurso”, vc fala em “espécie de fascínio pelas imagens mais horrendas”. penso que pessoas que admiram o horror, dariam belos nazistas.

    um abraço


  23. Olá Marj, sensacional post.
    Senti muita muita muita vontade de chorar quando você falou da foto dos oficiais nazistas cortando a barba do judeu. =( essa semana vi um ato horrendo de humilhação publica contra um negro e lembrei do seu post.
    A humilhação foi filmada


  24. [...] e deste da Marjorie [dica roubada da [...]


  25. Acho que esse vídeos exemplifica o seu post:

    http://www.youtube.com/watch?v=_lyaK_uBXbk&feature=related

    Preocupante!


  26. Olá, Marjorie. Leio seu blog há algum tempo e só hoje resolvi comentar. É incrível como me identifico com suas idéias e sua visão do mundo. Dificilmente não concordo com algo em um post e, de qualquer forma, o texto sempre consegue mexer com muita coisa dentro de mim. Excelente o post sobre nazismo e violência. Assisti há alguns dias no cinema a um filme alemão muito bom sobre nazismo na atualidade: “A Onda” (Die Welle). Passa exatamente a mesma idéia do seu texto. Crítica àquela idéia de o nazismo é “capítulo superado”, que quem faz aquilo é o outro, o louco, nunca alguém com a mesma natureza do que eu. “Nós já entendemos, o nazismo era uma merda. Ninguém mais aguenta ouvir falar nisso. Nunca vai se repetir.” Mas o filme vem para mostrar que o que levou àquilo está ainda vivo dentro dos jovens, das “pessoas normais”, de todo ser humano. Pode ser despertado a qualquer momento e negá-lo é a pior forma de enfrentar a questão. É a maneira mais perigosa. Contudo, identificar, conscientizar-se e assumir a realidade exige muita reflexão e afastamento na nossa “capa protetora”. Exige que a pessoa saia da zona de conforto e se coloque numa (ou assuma a) situação de vulnerabilidade. É uma vitória para o mundo quando alguém se propõe a fazê-lo e a compartilhar suas reflexões com os outros. Parabéns pelo blog. Adoro.


  27. Ju Sampaio — Poxa, que fofa você! =-*


  28. Achei maravilhoso o seu texto. Me remete ao caso do Mike Tyson com a modelo no hotel.Muitas pessoas acharam “natural” só porque ela foi ao quarto dele de madrugada. Parabéns pelo blog.


  29. Isabella, Lauren e Danut – nossa, parece interessantíssimo o filme. Vou correr atrás.

    Isabella, eu sei bem o que é timidez internética, mas sempre que sentir vontade, teu comentário é super bem vindo.Beijo beijo.

    Juliana — Ah, cara. Parei no “esses professores comunistas…”. Porque já dá pra antever o tipinho do discurso, né? Fulano que em menos de um minuto de vídeo chama humilhação pública de cunho machista de “revolucionária” (revolucionária onde, cara pálida? Se é o mesmo discurso de sempre?) e fala em “comunismo” com essa carinha de desprezo a la revista Veja… Na boa, não precisa de mais nada. Já provou que é burro em menos de um minuto. Prefiro não perder meu tempo assistindo isso.

    Dani — esse vídeo foi divulgado com o consentimento da pessoa humilhada? Senão, prefiro não ver. Pelos motivos que expus no post… bjs

    Josué – Nossa, perfeito teu comentário. Vc destrinchou o que eu tava pensando e tal. Brigada mesmo.

    Adrina — pois é. Mas, pelo visto, a menina tá botando a boca no trombone. Não tá deixando quieto, não. E eu acho ótimo isso. Que ela lute. Entenderia completamente se não lutasse. Como disse pra Lola aí em cima, ser porta-voz é uma escolha de cada vítima e isso só cabe a ela, etc. E eu não acho que a escolha de se preservar e não tocar no assunto publicamente seja ruim, acho que é um direito da pessoa. Mas é ótimo ver que ela não se dobra à crítica machista. Que resiste. Continua defendendo seu vestido e o direito de sair com ele. Lindo, lindo isso.

    Patricia nardelli – eu acabei de pegar “amor líquido”. É o primeiro livro do Bauman que eu tô lendo. Nunca tinha lido nada dele antes. E já tô apaixonada, quero ler tudo.

    — Parece que tem pesquisa comprovando isso, né? Que a juventude sofreu um retrocesso em relação a essas questões “morais”. E eu vejo isso em muitos dos meus amigos. O blog é meio que uma válvula de escape porque, se eu conversar sobre aborto, homossexualidade e até bolsa familia com muitos dos meus melhores amigos, eu sei que vou ouvir opiniões bastante conservadoras. Embora, no caso das meninas, elas desfrutem das conquistas feministas hoje. Sei lá, eu tenho é MEDO. Não sei o que saiu “errado” comigo, mas eu faço parte da mesma geração e não sou assim.

    Túlio — O problema da castração é que reforça a idéia de que só quem estupra é quem tem desarranjo hormonal. O que não é verdade. Estuprador não estupra por desejo sexual. Estupra para humilhar, para exercer poder sobre a pessoa estuprada. Estupro é muito menos uma questão de descontrole hormonal do que uma questão cultural, de misoginia. Ainda é muito forte na nossa cultura a idéia de estupro como castigo (e eu acho que isso está muito claro no caso da Uniban, não? Tem tb a declaração recente contra o Minc. “Ele é uma bicha, então eu o estupraria em praça pública”. Tá latente aí a idéia de estupro como castigo para quem desvia das normas de conduta estabelecidas para cada gênero na sociedade patriarcal). Enfim, a maioria esmagadora dos casos de estupro é uma questão de poder. Não é questão de desejo sexual descontrolado. Portanto, estabelecer a castração como sentença é fugir do foco. Não é combater a raiz do problema, que é o que chamamos de CULTURA do estupro.

    Tem também uma questão de direitos humanos. Que não devem ser relativizados NUNCA. Um estuprador é um ser humano. As pessoas não são os seus crimes. Falemos em pena de morte, por exemplo. Para mim, não faz sentido condenar alguém porque assassinato é errado, mas aí o Estado vai lá e assassina a pessoa. Porque, se matar é errado, é errado também quando praticado pelo Estado, etc. Eu penso assim. Logo, se condenamos o estuprador por invadir e violar o corpo e a dignidade de outra pessoa, também não podemos aceitar que o Estado faça isso com alguém. Acho que já passamos da fase do “olho por olho”, não? Ou melhor: temos que nos policiar para não cair na lógica do olho por olho. Porque essa selvageria está em nós, etc. Mas nós temos cérebro e sensibilidade é pra fugir disso.

    Eu tenho um post só sobre castração. Procura aí. A Cynthia Semíramis tem um excelente também. O dela é trocentas vezes melhor e mais explicadinho que o meu.

    Haline — Nossa, o que eu tenho visto de preconceito de classe. Ou porque Uniban é universidade “de playboyzinho” ou porque é universidade “de pobre”. “O que vc esperava dessa unibosta? Metralha tudo”. E o trouxa não percebe que tá sendo igualzinho. E eu fico aqui passada. Não sei como não percebem.

    Mary W — pois é. Over and over and over again. E eu não sei se a gente vai conseguir um dia sair desse ciclo. Por isso que eu falei que não é uma linha evolutiva. É um ciclo mesmo.


  30. Acredito que sim, Marj. A pessoa humilhada aparece no video comentando o caso.


  31. Marj, eu estive em Auschwitz este ano, e tbm fiquei horrorizada com a falta de educação de algumas pessoas, que gritavam, riam, cantavam e faziam piada … triste. E eu pensava q por estar na Europa seria diferente, quanta ilusão!

    Escrevi sobre:

    http://emformol.blogspot.com/search/label/Auschwitz


  32. Eu tbm escrevi sobre o episódio Uniban, comparando com um episódio recente q tivemos aqui em Salvador: o da professora q foi demitida por ser filmada dançando pagode em cima do palco. É muita hipocrisia, ambas situações me revoltaram profundamente!

    http://emformol.blogspot.com/2009/10/paraiso-da-hipocrisia.html

    (estou há anos-luz de escrever tão maravilhosamente e fantasticamente como vc, e nem tenho esta pretensão, mas se vc me fizer uma visitinha rápida, ficaria muito feliz!)

    Beijo!


  33. [i]” E eu fiquei passada com as pessoas tirando fotos de TUDO ali dentro. Posando, com um sorriso de ponta a ponta, ao lado dos paus onde eles penduravam as pessoas para torturá-las. Em alguns dos prédios do complexo, havia exposições. E, claro, mais uma vez, tinha fotos de corpos empilhados. Tinha um monte de gente que não lia porra nenhuma do que estava escrito.”[/i]

    Também fiquei espantanda quando visitei Dachau com um indiano e uma japonesa e eles COMERAM no restaurante perto da saida.Poxa,como alguém consegue COMER num lugar daquele?Fiquei só olhando enojada.

    [i]“Que a gente ainda vive num mundo absurdo onde se pensa que, por causa de algo tão pequeno quanto uma roupa, as mulheres estejam “pedindo” por uma coisa que ninguém nunca pede nem merece: a violência atroz do estupro.”[/i]

    Algo pequeno como a roupa,a frequencia com que tem relacoes sexuais e quantos parceiros tem ou deixa de ter….Enfim,uma estupidez absurda.Um meio asqueroso de nos tornar “controláveis”.


  34. [...] Pensamentos soltos sobre a humihação – Marjorie Rodrigues [...]


  35. Marj, eu estou concordando com você. Só queria chamar atenção pra essa mania de classificar barbárie e civilização. Tipo que o nazismo aconteceu porque eles eram bárbaros. Eles eram diferentes de nós. E não eram. Não existe essa diferença evolutiva.


  36. Marjorie, já lia seu blog “em segredo” – assim como o da Lola, e outros blogs feministas – mas dessa vez, diante desse post, resolvi comentar. Fico tão feliz em ver uma crítica a essa ideia de que “é coisa animalesca”, não é humana. Dói exatamente porque é humano, porque por um movimento a mais ou a menos, poderíamos fazer algo parecido – ou mesmo estar ali. É porque as proporções foram grandes que esse assunto tomou visibilidade, mas isso não é tão diferente de outras atitudes – talvez mais sutis e escondidas – que dão visibilidade aos nossos preconceitos. Tendemos a adorar um “bode expiatório”: é o outro, oa aluno da UNIBAN, nada tenho a ver com isso. O foda é perceber que temos, sim, algo a ver com isso, e que o machismo persiste em nós – mesmo que feministas. E que a luta deve ser persistente, e nas pequenas coisas.


  37. A Barbara falou uma coisa bacana: Sobre os bailarinos de Londres quase serem estuprados pelas mulheres.

    E também sobre a lógica onde ‘a atitude de uma pessoa está relacionada ao que nos podemos fazer com ela’.
    Certamente. Não é a toa que a maioria dos marmanjos acreditam que é permitido entrar num puteiro e apalpar todas as partes de todas as mulheres. E claro, também o caso citado por você.

    Tá, quando há a tal ‘opção’, as mulheres também ‘agem como os homens’(Acho isso terrível e desumano, seja com homem, seja com mulher). Mas e quando não há essa tal ‘opção’? Como no caso de um bailarino fora de seu horário de show e ainda com roupas provocantes?

    Já as mulheres…Bem, estando de roupinhas provocantes, seja num espetáculo, seja na rua, elas continuam correndo o risco – praticamente certeiro – de serem invadidas e(ou)estupradas.


  38. o ‘você’ do caso a que me referia, era o caso citado pela própria Barbara: o dos bailarinos…


  39. Totalmente de acordo. Em primeiro lugar, também não vi e e sou contra que se veja o filme. Acho que tem que ser tirado do youtube. É um registro, pra ser usado em juízo, não precisa de divulgação, divulgar não é denúncia, é exploração sensacionalista.
    Sobre a violência no outro, estávamos conversando no sábado no bar. Sempre procuramos explicações. Estavam bêbados, em alguns casos, é a cultura operária skinhead do abc, neste, torcedores são marginais, delinquentes, em outros. Mas está aí, a barbárie, e cada dia é construir a resistência.
    Sobre a moça ser puta ou não ser puta, no presente caso a masculinidade do ato bárbaro, pra mim, se ofende precisamente com o fato de que não seja puta. Não ser objeto, não se pôr como objeto. Se fosse puta, ou seja, mercadoria, não teria problema. Me disseram que ela não era magra, também. Então, mais um dado. Se fosse enquadrável nos padrões, também estaria, ainda que não manifestamente nem por vontade própria, “a serviço” da ordem e da subjetividade masculina. Mas o problema ali para o totalitarismo conservador e machista, era precisamente negar ao outro a subjetividade. A isto se presta a humilhação pública.

    Pra finalizar o assunto, um português muito lúcido no bar sábado se perguntou o que teria acontecido se estivesse ali “o próprio” referindo-se a Jesus Cristo, em referência à passagem de Madalena. A princípio, a comparação me pareceu curiosa, posto que me chocava mais na postura dos agressores o juízo a respeito do outro, e a deslegitimação do outro. Para mim, até ali, o grande absurdo e a violência estavam expressos no fato de alguém achar que tem poder para decidir sobre o certo e o errado na sexualidade do outro, e efetivar este poder pela força (física ou moral). Mas, em seguida, me detendo sobre o assunto – o “quem não tiver pecado que atire a primeira pedra” me pareceu muito justo. É alguma sabedoria do senso comum, talvez não tão elaborado mas não de se jogar fora. No sentido da vitalidade do óbvio. Algo como “Deus deu a vida pra que cada um cuide da sua.”, como eu andei dizendo pra um morador de prédio que se incomodava em saber quantos homens frequentavam minha casa. Neste resgate da caridade cristã, do amor, no sentido de um respeito incondicional e mútuo, talvez seja mais possível mobilizar o que queremos chamar, em nós mesmos, de humanidade.


  40. O relato do terror é sempre impactante, a memória dele ter existido é essencial. Estava conversando disso hoje e concordo: Chamar o cara de louco é facilitar pro lado dele. Até porque ele comandou uma nação inteira nessa onda, o que que rolou? insanidade temporária coletiva? Blah.

    Vc já leu Maus? É uma HQ que conta a história de um sobrevivente a Auschwitz-Birkenau. É beeeeeeeem foda. Leia, quando puder.

    Quanto a mulher da uniban: O que comentar? É dificil até de começar. Mas a minha opinião é simples: Expulsão e cadeia em cada um dos envolvidos. Não sou a favor de vingança e nem de pedras, mas de justiça, e acho que sim todos tem que ser punidos. TODOS. Do alunos escrotinhos, aos seguranas, a própria faculdade.


  41. Oi Marjorie! Não li os comentarios dessa vez, então pode ser que alguém ja tenha falado isso, mas a humilhação não era coisa so dos nazistas não. Depois da guerra, os vencedores rasparam a cabeça das garotas francesas que haviam namorado alemães, por exemplo. A barbarie existiu dos dois lados, como quando no fim da guerra os franceses usavam o uniforme alemão e saiam perguntando pra pessoas que encontravam pelo caminho “frança ou alemanha?” e obviamente as pessoas respondiam alemanha e eram mortas. Bom, o que eu quero dizer é que numa situação extrema, tudo perde a humanidade e o valores se deturpam. O que esta longe de ser o contexto da garota do vestido.


  42. Amanda — eu acho que eu falo no post que isso é coisa de todos os regimes totalitários, mas que eu não sabia direito dos detalhes. Agora tô com preguiça de reler tudo e ver se eu disse isso mesmo ou se dei a entender que era só no regime nazista, rs. Não era mesmo…

    Mas então, não entendi a tua última frase. “o que está longe de ser o contexto da garota do vestido”. Não entendi se vc quis dizer que o vestido da menina não era extremo a ponto de explicar a perda da humanidade e a deturpação dos valores ou se vc acha que eu exagerei ao traçar um paralelo entre as duas coisas.

    Bjo!


  43. Seu post está perfeito. Há um texto da Hanna Arendt, “A Banalidade do Mal”, que toca exatamente nesse ponto que tantos nos desconcerta: os carrascos nazistas eram pessoas normais, pais, filhos, irmãos… “está na natureza humana”, como você disse. É mesmo assustador… E por falar em nazismo, achei o filme do Tarantino, “Bastardos Inglórios”, excelente.


  44. Concordando com o acertado post, vai o link para uma reflexão adicional.

    http://blogdoseditores.blogspot.com/2009/11/o-afeganistao-nao-e-aqui.html


  45. Marjorie, fantástica a sua reflexão.

    Acrescentando uma coisa: eu presenciei coisas parecidas (em grau menor, mas da mesma “natureza”) na USP, num campos do interior (São Carlos).

    Anos atrás, quando estava na graduação, havia um rapaz que estudava química que estava se transformando numa moça, estava num processo transsexual.Várias vezes o vi entrar no Refeitório e ser recebido com a seguinte “gentileza”: os lá presentes começavam a bater em suas bandejas de metal com os talheres, em uníssono, em velocidade crescente, o que produzia uma barulheira infernal.
    Não havia ameaça nem menção a violência corporal — em comparação com o caso da Uniban, era algo “sutil”(põe aspas nisso) — mas quando vi o vídeo da moça e li você discorrendo sobre humilhação, não pude deixar de lembrar desse “bullyng” coletivo, machista e assustador.

    Que, é bom repetir, se deu naquela considerada “a melhor universidade do país”.


  46. toda a violencia é jogada pruma esfera do nao-humano e os tais humanos se distanciam e bolam violencia pra punir os nao-humanos. e repete e repete.

    Achei esse comentário tão básico e tão sério que quis repetir. Começa na (des)educação das meninas e dos meninos e acaba nessas situações extremas. A coisa é complexa demais, tem faces demais pra ser abordada num único olhar. Se a gente conseguisse puxar o fio da meada da violência resolveria metade dos problemas da humanidade e entenderia a outra metade.


  47. [...] Carta da Compaixão chegou ao mundo no mesmo momento em que Geisy era violentada na Uniban. No mesmo instante em que centenas de pessoas morreram em todo o mundo – seja por guerra, fome, [...]



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