
Geisy Arruda em tópicos
outubro 7, 2010Para o André, que me perguntou outro dia o que eu acho da Geisy.
Momento 1 — Comportamento de turba: quando Geisy foi humilhada pelos colegas e o vídeo caiu na rede, a moda era xingar muito os alunos no twitter. Unitaliban, animais, estudantes de uniesquina, etc. Parecia que todos percebiam quão atroz foi o que fizeram com a moça. Apesar das usuais manifestações de culpabilização da vítima, o tom geral era de condenação dos alunos.
Momento 2 — A cobrança de uma bandeira: Mas aí Geisy começou a aparecer na TV. E a fazer plásticas. E a virar uma subcelebridade. Aí um cara cujo nome não me lembro mais, mas era de uma universidade aí (veja você o quanto eu estou ficando velha. Olha o estado lastimável da minha memória), escreveu um artigo no Amálgama (tô com preguiça de procurar qualquer coisa pra linkar) condenando “as escolhas éticas” da Geisy: segundo ele, ao escolher ir a programas de baixaria, Geisy cometia a escolha ética de banalizar a própria história.
Esse cara foi convidado por um programa de TV, junto com a Maíra Kubik, do Viva Mulher, e uma outra pessoa muito foda cujo nome também me esqueci e tô no trabalho, não vou correr atrás de link. Ele levou uma massacrada da Maíra e da outra convidada. Que disseram: “a Geisy não é feminista. Ela não tem obrigação de carregar bandeira nenhuma. Ela é uma moça de baixa renda que cresceu, como todas nós, recebendo mensagens várias sobre o que é ser sexy e qual o lugar da mulher no mundo. Ela cresceu numa sociedade em que o espetáculo é o valor máximo, em que julga-se que tudo o que é bom aparece e tudo o que aparece é bom. Você não pode culpá-la por aproveitar-se dos cinco minutos de fama”. O tal acadêmico saiu derrotado no programa. Mas a visão dele era a visão que se estruturaria entre a maioria das pessoas, depois.
Momento 3 – Guinada da turba: E aí surgiu o boato de que ela posaria pra Playboy. O que não houve (pelo menos não até agora). Aí está a gênese da guinada da turba. A turba que sempre pensou como os caras da uniban, mas é que não pegava bem apoiá-los. A turba que acha que, se a vítima fizer alguma coisa “de puta” depois (como posar para a Playboy), ela “dá razão” aos agressores. Assim: “ok, reconhecemos que a Geisy foi vítima ali. Mas agora ela precisa continuar no papel de vítima para todo o sempre, amém. Ela só pode ser vítima enquanto for a santa injustiçada. Se agir como ‘puta’, perde a razão. Se der a volta por cima, também”.
Momento 4 – Tirar sarro da Geisy vira moda: À medida em que Geisy ia consolidando seu status de subcelebridade, mais a turba guinava para o lado dos alunos da Uniban. E aí nasceu uma certa implicância com a garota. “Como assim essa gorda, essa menina fora dos padrões, virando celebridade?”. “Como assim ela ousa lucrar com a visibilidade de uma situação ruim?”. E aí já viu. ‘Geisy Arruda Wales’ nos trending topics do twitter, etc etc. O problema não é só que a Geisy é periguete. O problema é que ela é uma periguete segura de si, que se acha bonita, que faz e acontece mesmo estando fora do padrão. Ela tem a audácia de fazer isso. E isso parece incomodar um bom tanto.
Consideração 1 – Do preconceito de classe: Há um claro preconceito de classe nessa moda de tirar sarro da Geisy. Porque ela tem “cara de pobre”. Tanta subcelebridade periguete Brasil afora, não é mesmo? Mas a Geisy tem origem e “cara” de pobre. Aí já viu. Está no lugar errado, etc etc.
Consideração 2 — Do que eu acho incrícvel nela. Eu adoro o jeito como a Geisy deu a volta por cima. Não vejo muita coisa dela na TV. Porque assisto pouco televisão. Mas sei que ela lançou uma marca popular de vestidos cor-de-rosa e curtos. E aí vem gente dizer que o vestido é de mau gosto. Que o vestido é periguete. Mas a proposta é essa mesmo, uai: o direito ao mau-gosto e ao periguetismo. O direito a usar o vestido que você quiser. E o direito também a ter “cara de pobre”, a ser “perifa”: a marca da Geisy é da rua José Paulino, o comércio mais popular de São Paulo. Tem como não amar? Eu não sei se a Geisy pensou em tudo isso ao lançar a marca, mas é essa a mensagem que ela passa. Uma mensagem de audácia e auto-estima.
Consideração 3 — A Fazenda: Eu nem tô acompanhando. Mas tô torcendo por ela, claro. Porque haja peito para ser vítima de bullying na faculdade e depois vítima de bullying no Brasil inteiro. O mínimo que essa moça merece é uma história de Cinderella. Ficar rica e rir da cara de geral. Mas desconfio de que, se for pro paredão, ela deva sair com um alto nível de rejeição.
Consideração 4 — O mais importante. Somos todas Geisys. Todas. Todas sujeitas a esse escrutínio. De beleza, de periguetismo, de audácia. A condenação da Uniban na justiça ou a vitória dela num reality show são apenas vitórias pessoais. A dicotomia santa x puta continua.




Amei cada virgula. Somos TOdas Geisys.
Nossa, eu tenho que voltar a assistir tv.
Achava que depois daquela confusão toda, da turba da Uniban, Geisy tinha sido entrevistada, aparecera na tv e só, ué.
Quem diria, até agrife agora ela tem. Isso é que é dar a volta por cima.
Hmm… Onde assino?
marjorie, você é incrível.
coisa linda esse texto seu.
adorei, concordo, disse tudo!
eu gostei demais. pq vc elencou todos os motivos possiveis pra admira-la ainda mais. #teamJayZArruda
Nossa! Não podia concordar mais.
Off-topic, meu comentário dois posts atrás ainda aparece como “aguardando moderação”. O que houve?
Morro de orgulho da Geisy. Achei muito foda quando ela foi chamada para A Fazenda. Porque a discussão na época foi essa, mesmo, gente vindo me falar que “ah, olha aí, vocês ficaram defendendo a Geisy, e ela indo contra as suas bandeiras”. Eu não defendo feministas, eu defendo mulheres, defendo a possibilidade de essas mulheres serem senhoras de si e fazerem as escolhas que quiserem. Inclusive serem celebridades piriguetes com cara de pobre, mas cheias de autoconfiança, que desafiam a lógica impecável do preconceito.
“Não defendo feministas, defendo mulheres”. ISSO.
Eu também acho que a defesa da mulher tem que ir muito além de estereótipos. A Geisy representa um grande número de meninas da periferia e tem cara de gente comum.
Adorei adorei adorei o post…
E o pior é q ela ainda está sofrendo com tudo isso q vc falou dentro da fazenda… Vira e mexe o povo joga isso na cara dela…
Enfim, viva o Brasil!
Adorei o blog tb!
Bjusss
amei o texto! é exatamente o que eu penso da geisy! ;~~
Concordo com cada vírgula do texto.
hahhaaha afinal a garota tem direito de ser puta né gente.
vinicius — mais do que isso, amigo. Ela tem o direito de rir da cara de quem tem a cabeça limitada e ainda separa as mulheres entre “santinhas” e “putas”
Iara — vixe, eu aprovei todos que apareceram.
Andre v – Team Jay-Z forever! \o/
Adorei, assino embaixo. É aquela: eu posso até não gostar do que ela fez depois (no sentido de “pessoalmente eu não faria isso”), mas acho ridículo quem condiciona a defesa dela ao seu comportamento posterior (“se eu soubesse que ia dar nisso nem tinha defendido”).
Marjorie não acho que ela seja tão perspicaz, mas tá valendo… =]
vinicius — talvez não seja, no sentido de que ela provavelmente não estruture essa crítica com sofisticação.
Mas a mensagem que ela tá a fim de passar é essa aí mesmo: “sou assim mesmo e tenho orgulho, vcs vão ter que me engolir, etc”.
Marjorie,
Q alegria poder te ler novamente
Não fecha mais o blog, não… por favor!
Olá Marjorie!
Estudamos francês na mesma turma por dois semestres, não sei se você se recorda (não tome esta indagação como ofensa às suas memórias, hehe). Lí recentemente uma reportagem, no Jornal do Campus, da qual você participou como entrevistada, e resolvi procurar por algum blog pessoal, imaginando que você desse pitacos sobre o assunto. Lembro-me da sua présentation (trés fantastique) sobre a Simone (da boa vista, rs), mas não sabia que você se dedicava tanto ao assunto. Lí vários de seus posts e adorei, bastante. Sua iniciativa é salutar, tanto pelo caráter “educativo” (digamos assim), quanto pela produção de conhecimento, no sentido de desdobrarmos esta prega moral. Lí uma tese, recente, feita sobre dados empíricos coletados (e vivenciados, infelizmente) pela pesquisadora, que trata da aplicação da lei Maria da Penha na região de Santo André, e fiquei chocado (talvez tenha serventia pro seu TCC – ou talvez mereça um post, sei lá, rs; posso enviar, caso queira).
Ah, lendo sua entrevista (ao JC) na íntegra, fiquei chateadíssimo por terem aproveitado tão pouco o caldo da sua contribuição. Na minha opinião, além de perderem a oportunidade de fazer uma grande matéria, o jornal abriu mão da obrigação de contribuir socialmente, para o esclarecimento do assunto. Não dá pra falar em parcialidade/imparcialidade quando o assunto é direitos humanos. Mas pensando um pouco melhor agora, seria interessante se editassem aquele anexo “Claro” com matérias, entrevistas, resenhas, etc sobre o assunto. Acho que vale a pena sugerir.
Bem, voltarei aqui mais vezes.
Mal pelo comentário grande = /
Beijos!
muito bom mesmo, perfeito.
Marjorie, é ótimo ver seu blog de novo. Concordo totalmente.
Uma pergunta. Não sei se você conhece e curte o cartunista Laerte, que faz um tempo tem feito uma discussão de gênero interessantíssima em suas tiras, ligada principalmente ao mundo travesti.
Falo disso porque, logo depois de ler teu comentário sobre a ambivalência hipócrita das reações à Geisy, eu por acaso acabei lendo esta tira (http://murieltotal.zip.net/arch2010-09-19_2010-09-25.html#2010_09-23_12_20_49-2063478-0) da personagem Muriel (que é a versão travesti dum antigo personagem dele, o Hugo). Pra mim tem muito a ver.
me peguei super concordando com o cara entrevistado com a maíra kubik. eu, pessoalmente, preferiria que ela fosse mais consciente e carregasse a bandeira. o fato dela ter virado subcelebridade banaliza sim o acontecido na faculdade, quer se concorde ou não. mas como isso não parece não importar mais pra própria geisy, então por que NÓS deveríamos?
mas nada disso justifica o fato de a chamarem de oportunista e de quererem colocá-la numa posição de inferioridade justamente por ela ser pobre e periguete.
ela incomoda porque não tem medo de ser quem é.
Marjorie, eu lia bastante o teu blog. Senti saudades (e pelo que li por aí não fui o único). Como é bom te ver postando de novo!
Sobre o caso da Geyse, lembro que na época copiei um texto da Lola, postei como resposta num fórum (citando os créditos, claro), e… decepção total, me deparei exatamente com a situação do ítem 4, todo mundo só queria desviar a discussão, fazer piada e chamar a Geyse de feia, como se isso tivesse alguma importância com relação ao absurdo que aconteceu com ela, que era pra ser o tema discutido no tópico, mas que nessas alturas já ninguém mais lembrava.
Gostei tanto, tanto. “Somos todas Geisys”, vc diz, e resume o que eu tento às vezes explicar para quem não entende pq a defendo. Vc explica bem. É isso. Exatamente isso. Somos nós.
Fiquei sabendo recentemente da participação dela no programa Fazenda(aliás, nem sei se ela continua por lá). Tb não assisto tevê. Confesso que não tenho paciência. E mais, jamais teria saco pra acompanhar o programa aí…Me dá tédio só de pensar!
Mas, assim como vc, desejo muita sorte a ela. Merece e muito.
Agora a resposta da Maíra, cacetada…Foi certeira! Queria muito ver isso. Onde que rolou esse programa, Marj.?
Beijão
Olha,
Pela primeira vez parei pra avaliar a Geisy como vc…
Toda história tem dois lados,não podemos nos prender a um só.
E sobre todo o preconceito o qual ela é vítima,não posso deixar de te dar razão…
Acho que a maior parte do que falam da pobre pe inveja mesmo…
Te linkei por lá no meu canto!
Adorei aqui!
Beijos
Aí que né. Uns tempos atrás eu resolvi procurar o blog de novo pensando “será que a Marjorie voltou a atualizar? Bem, pelo menos eu posso salvar alguns links e me poupar de escrever muita coisa”. E O BLOG ESTAVA FECHADO PRA CONVIDADOS. FFFFFFFFFFUUUUUUUUUUU. Tá. Comi muito sorvete com bolo e superei. Aí um dia estou aleatoriamente vendo um blog aleatório onde há uma blogroll aleatória e lá consta “Marjorie Rodrigues – atualizado 4 semanas atrás”. E O BLOG ESTÁ NO AR. Amém.
Eu me abstenho de falar sobre a Geisy porque, sinceramente, vai prestar não. Me irrita o que falam da guria. No lugar dela, eu teria feito uma marca de VENENO DE RATO.
:*
[...] fazer pela mulher que foi com um vestido curto a faculdade e passou por um linchamento coletivo? Podemos não nos juntar a turba que a xinga por provocar a ira e a transgressão aos bons costumes? Podemos respeitar as mulheres independente dos estereótipos sociais criados? Podemos respeitar as [...]
marjorie, que texto excelente.
aí a beyonce lança uma coleção na c&a que tem o mesmo propósito que os vestidos da geisy, e a cantora mesma diz que é roupa pra realçar as curvas das mulheres e é bem justinho. a propaganda passa em horário nobre na tv do brasil e uma pá de gente pira porque, né, é a beyonce sendo sexy e poderosa.
Não concordo com tudo, mas com o que concordo, concordo pra caralho.
Muito bom este texto, sao do senso comum, do imediatismo midiatico.
FODA!
Babi, eu vi esse comercial da C&A e pensei a mesma coisa: “gente, é igual o vestido da Geisy”.
Marjorie.
Akemi,
é claro que eu também gostaria que ela tivesse levantado a bandeira. Mas nem sempre as coisas são como a gente deseja. O fato é que a Geisy não era uma feminista, não tem compreensão dos mecanismos de dominação, ela não é essa personagem.
E discordo da sua frase “se ela não se importa, por que nós deveríamos?” Ora, nós devemos nos importar pq o que aconteceu com a Geisy nao é problema só da Geisy. Como disse no fim do post, todas somos suscetíveis a passar pelo que ela passou. Então quando citamos o caso da Geisy e defendemos uma indenização gorda para ela, não estamos defendendo só a Geisy, mas a nós todas.
bjo bjo
Marjorie.
Oi, Francisco! Como vc tá, moço? Não foi fazer o básico 3?
Eu vi esse trabalho sobre as delegacias da mulher de Santo André. E usei como base pro meu TCC, sim. Mas obrigada pela dica mesmo assim
Os temas do “Claro!” são escolhidos pela própria turma que o faz. Ai eu acho difícil um “Claro!” feminista, viu… Porque a turma toda teria de estar de acordo e este é um assunto bem sensível… Houve, não sei se você viu, um “Claro!” cujo tema era “Macho”. Mas crítica zero. Era só uma série bem humorada sobre coisas consideradas de “macho”, como videogame, super-heróis, trocar pneu, essas coisas.
Desculpa a demora em responder seu comment. Larguei o blog de lado para escrever o TCC!
bjo!
marjorie
Gente, queria agradecer todos os comentários e pedir desculpas pela demora de quase dois meses para aprová-los (e responder alguns).
É que eu fui fazer TCC, trabalhar, etc etc e larguei o blog. Não passei mesmo pelo wordpress. Só agora que fui postar de novo é que vi todos os comentários.
Beijo para todo mundo.