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Lidos e lendo 2009

Gostei de comentar os livros lidos em 2008 – isso me ajudou a não esquecer da impressão que tive ao terminar cada um deles. Portanto, bóra começar tudo de novo em 2009!

LIDO – “A negação do Brasil”, Joel Zito Araújo

É um levantamento dos personagens negros nas telenovelas brasileiras, desde 1963, quando elas passaram a ser diárias. Virou clichê dizer que os atores negros são poucos, que só recebem papéis de serviçais e empregadas… Mas é verdade. Pelo menos no início da telenovela. O legal do livro do Zito é que ele mostra que, na verdade, há fases em que predominam certos estereótipos. A coisa da empregada doméstica é apenas uma das fases. 

Cabe ressaltar que o tratamento dos negros nas novelas deu uma melhorada dos anos 1970 para cá. Mas, ainda assim, é pouco. Muito pouco.

 O livro, separado por décadas, fica meio cansativo em certas partes. Mas eu recomendo para todo mundo que se interesse pelas questões raciais.

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LIDO – “Simulacro e poder – uma análise da mídia”, Marilena Chauí

Toda vez que me perguntaram por que não quero mais ser jornalista, eu não soube responder direito. Não conseguia expressar a sensação que tinha. Aí, pá: vem a Marilena e resume tudo. De forma tão simples, tão didática.

A primeira parte do livro, a que fala sobre mídia (são três ensaios, os dois últimos tocam a mídia apenas indiretamente), não tem nada que eu já não soubesse. Aliás, este foi um dos poucos livros que não me fizeram sentir chucra – pois eu já tinha lido quase todas as obras que ela cita. Algumas porque eram obrigatórias do curso de jornalismo, a maioria por livre e espontânea vontade. Mas aí eu tinha só esse bricolage no meu cérebro, com as obras e as sensações que as minhas experiências me causaram. Como já disse, Marilena juntou tudo e deu coesão. Pôs tudo numa ordem lógica. 

E, como eu também já disse, de forma tão simples e didática. Eu gosto dela por isso. Porque ela descomplica. Cada página do livro pesa uns trocentos quilos, de tanto que dá para pensar sobre. Mas você não sente. Não fica cansativo.

Aliás, eu fui lendo o livro assim mesmo. Fechando e pensando. Devia parecer uma imbecil, com o livro fechado e cara de “é mesmo”.  O livro é tão, mas tão bom que eu fiz orelhas em quase todas as páginas, querendo citá-las aqui no blog. Até perceber que o que eu tenho de recomendar é mesmo o livro inteiro.

Não sei como ser enfática o suficiente: comprem. Comprem. Comprem. É excelente.

Os outros dois ensaios, que versam sobre violência e direitos humanos, também não ficam atrás. Estes foram mais complicados pra mim, porque eu não tinha as leituras prévias. Mas não foram menos interessantes. Tanto que eu acabei citando uma parte do terceiro ensaio, num post chamado “ligue os pontos”.

Enfim, já falei que vocês TÊM de comprar esse livro? Nunca é demais.

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LIDO – “Reflexões sobre o racismo”, Jean Paul Sartre

O livro é dividido em duas partes — a primeira comenta a situação dos judeus na França e a outra reflete sobre as poesias do movimento da negritude. Eu gostei muito mais da primeira parte do que da segunda, acho que está mais bem articulada. Nela, Sartre diz que quem cria a figura do ”judeu”, baseada numa situação, é o próprio anti-semita.  Coloca, então, o judeu num dilema: ajustar-se ou negar-se. Aí, Sartre separa dois tipos de pessoas: o judeu autêntico e o não-autêntico.

O não-autêntico é como o tímido: vê-se pelo olhar do outro. Ao negar ser o que os anti-semitas lhe atribuem, ele acaba confirmando a sua sina — dado que o francês anti-semita se julga “mais francês” do que o judeu porque crê numa pretensa França indivisa, por mais contraditório que isso soe, a qual ele ajudou a criar. Ele se liga à França pela tradição e pela terra. O judeu inautêntico, a fim de integrar-se e neutralizar a discriminação, liga-se ao ideal de universalidade. Daí o apreço pelo conhecimento e pela economia, já que o dinheiro não é de ninguém. Mas quanto mais prospera, mais razão dá ao anti-semita para falar merda. Surge aí o estereótipo da mesquinhez, etc. Enfim, páro por aqui porque não dá para resumir tudo neste tiquinho. A coisa segue e eu tô com preguiça de escrever. Recomendo.

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LIDO – “Memórias Sentimentais de João Miramar”, Oswald de Andrade

Outro que segue o esquema de denunciar o vazio da vida burguesa — o sujeito almofadinha viaja para a Europa, casa, tem uma filha, trai a mulher, se arrisca nuns empreendimentos que acabam não dando certo… Soa familiar? Pois é, o enredo é i-gual-zi-nho a “Consciência de Zeno”. Igualzinho. E, em certa medida, também soa como Memórias Póstumas de Brás Cubas. Se esticar muito, dá para enfiar o primo Basílio aí.

Mas, assim como os outros, Memórias Sentimentais de João Miramar inova pela forma. Os capítulos curtinhos, em flashes. Porque é assim que é a memória, não? Ficam só os cacos das coisas. E a coisa oscila entre a primeira e a terceira pessoa. Os capítulos em terceira pessoa têm quase um estilo jornalístico. Enfim, é a memória-caleidoscópio.

Não é o tipo de livro que, ao ler, eu penso: “puta que pariu, adorei, queria ser o autor”. Não me tocou. Mesmo. Mas entendo que inova pela forma. Tem uns verbos bacanas também – tipo “norte-americava”, “mulatar”. É interessante, é ousado… Mas, oi, não conseguiu me arrebatar, não.

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LIDO – “Mística Feminina”, Betty Friedan

Gostei muito do formato do livro – embora, mais para o final, tenha achado que Friedan ficou meio repetitiva. O formato é muito bacana porque, mesmo verificando tudo com o rigor de uma pesquisa acadêmica, ela usa muitas técnicas jornalísticas. O próprio estilo da escrita, mesmo em 1ª pessoa, também se aproxima do jornalismo.  No entanto, não é uma narrativa jornalística na qual o autor tem todo o controle (como em “A Mulher do Próximo”, do Gay Talese, em que tudo o que as personagens dizem e fazem nos é informado em discurso indireto). Friedan entrevistou muita gente.  E não tem vergonha de intercalar seu texto com looongas aspas. Aliás, o grande pilar do livro são as entrevistas. E eu achei isso fantástico, porque humaniza a questão. Não é um exercício de retórica. Não é uma teoria pré-concebida, a qual ela busca comprovar ao sair a campo. Betty Friedan percebeu um problema ao conversar com mulheres reais — e a partir daí, tentou entendê-lo.

O problema era a “crise da dona de casa americana”. Elas estavam insatisfeitas, neuróticas, suicidas, apáticas, recorrendo a psiquiatras. Ao analisar as revistas femininas (que mudaram tão pouco de lá para cá…), ela percebeu uma coisa importante. Que essa crise talvez estivesse ligada a um reforço na mensagem de que “feminilidade” é casar, ter filhos e ser dona de casa. Embora gozassem do recém-conquistado acesso à universidade, as americanas não a levavam a sério. Porque a cultura colocava a inteligência em oposição à feminilidade. Mulheres que estudassem demais eram “masculinizadas”, assustariam os homens e não atrairiam um marido. E o que é pior: as próprias aulas do ensino médio e da universidade passavam esta mensagem. Então, as moças abandonavam os estudos para se casar. Ou se formavam, mas não seguiam nenhuma profissão.

Os psiquiatras, simplificando as teorias de Freud (ele mesmo um grande misógino, mas não vou me estender sobre isso, senão essa resenha fica muito grande. Digo apenas que a análise de Friedan sobre ele é absolutamente EXCELENTE) atribuíam a “crise” a uma falha em se adequar ao “papel feminino”. O tratamento, então, visava a fazer as mulheres aceitarem aquele papel. As revistas, obviamente, traziam mensagens parecidas. Esse povo não percebia (ou não queria perceber) que o problema estava justamente nessa definição do  “papel feminino” — que a Betty chama de “mística”.

Esta definição estava aprisionando as mulheres em casa e, assim, elas não desenvolviam todo o seu potencial como seres humanos. Não tinham personalidade. Não tinham projetos. Não tinham aspirações. Elas viviam através dos outros. Então, mimavam demais os filhos, infantilizando-os, ou esperavam que o marido fosse um ás na cama — procuravam no sexo uma forma de expressão, já que não tinham onde mais expressar-se. Nesse período, houve um boom de romances sobre fantasias sexuais (os precursores de “Sabrina” e “Julia”, talvez?). Afinal, a mulher não tinha vida própria e precisava de um escapismo. Precisava  imaginar uma vida que não era a sua.

Embora a mística de que Friedan fala em seu livro já tenha sido, em grande parte, desmantelada nos EUA (essa coisa de “lugar de mulher é na cozinha” está meio enfraquecida, não? Acho que os grandes problemas, agora, são a múltipla jornada e o mito da beleza), muitas das idéias de “feminilidade” da mística de então ainda vigoram. Principalmente na parte da análise das revistas, isso fica muito latente.

Mas, no fundo, não importa quais as características que a mística prioriza em cada época. O X da questão é a EXISTÊNCIA DESSA DEFINIÇÃO.  Dessa caixinha do que é feminino e do que não é. Dessas regrinhas que estabelecem como as mulheres devem se portar. O lance do patriarcado é convecer as mulheres de que elas têm se encaixar nessa caixinha.  Hoje, a caixinha é dominada pelo mito da beleza (resenha abaixo). Dizem que ser mulher é se enfeitar, se cuidar. Antes, era ser discreta, afável, prendada, dona de casa dedicada. 

A Naomi Wolf nos convoca a desmantelar o mito da beleza. Mas, pensando aqui com meu botões, acho que, se desmantelarmos só ele, vai entrar outro mito no lugar. O que a gente tem de fazer é convencer nós mesmas e outras mulheres A MANDAR A PATRULHA DA FEMINILIDADE ÀS FAVAS. Só desmantelaremos o patriarcado quando não nos preocuparmos mais em nos encaixar nos padrões de comportamento estabelecidos para cada gênero (reconhecendo que são todas características humanas, independentes de pênis ou vagina). E, sim, isso passa pelos homens também. Homens E mulheres têm de parar de ter medo de ter características supostamente exclusivas ao sexo oposto. Porque o patriarcado se assenta nisso: nesse medo que a gente tem de não se adequar. De não parecer “normal”.

Uma das melhores partes do livro é aquela em que Betty fala com um especialista em publicidade. Ele diz que a mística feminina era reforçada na mídia da época porque os fabricantes precisavam da dona de casa. Ela era a principal consumidora na sociedade. O homem ganhava o dinheiro, a mulher o administrava em prol da família. E, como ficava o dia todo sem fazer nada, comprava muito. Ela se sentia feliz com um produto de limpeza novo, por exemplo — como se saber qual produto serve para cada coisa tornasse a tarefa de ser dona de casa um ofício, um saber. Iludia-se, atribuindo mais utilidade àquilo do que realmente havia. Os publicitários sacaram isso. E exploraram as fraquezas das mulheres. Embora parecesse que os eletrodomésticos liberassem a mulher, diminuindo o tempo necessário para desempenhar as tarefas domésticas, a verdade é que esta praticidade tinha um limite. Afinal, não se podia facilitar o trabalho a ponto da mulher sair de casa e parar de consumir tanto. Por isso, com a tecnologia supostamente facilitadora, também vinham mais detalhes com que se preocupar. Novas funções, novos produtos, novas falsas necessidades.

De novo, é interessante traçar um paralelo com “O mito da beleza”, que também aborda as técnicas publicitárias — mas da indústria de cosméticos. Essas indústrias multibilionárias ganham dinheiro com a mística — seja qual for a mística da vez. Então, colocam em seus slogans mensagens que liguem tal produto à libertação que, no fundo, as mulheres  desejam. Mas é justamente este consumerismo que as prende. Enfim, são uns filhos da puta. Por essas e por outras que eu acho que um dos pilares fundamentais do feminismo é consumir menos…

Enfim. Como disse, em certas partes, o livro é meio cansativo, principalmente nos últimos capítulos, mas vale a pena. Vale muito a pena.

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LIDO – “He’s a stud, she’s a slut — and 49 other double standards every woman should know”, Jessica Valenti

 A gente PRE-CI-SA de uma versão brasileira para este livro. Precisa. Oi, se você trabalha em uma editora bacana, eu me ofereço para o trabalho!

Sério: gostaria que houvesse uma versão em português deste livro para poder presentear todo mundo que eu conheço. Amigo secreto? “He’s a stud, she’s a slut”. Aniversário? “He’s a stud, she’s a slut”. E se for aniversário de criança? “He’s a stud, she’s a slut”, não tenha dúvida. Uma hora a criança vai ter que saber dessas coisas mesmo.

Jessica Valenti é a criadora do site Feministing.com, que eu tenho lido todo dia há alguns meses (vai lá você também, é bom!). Aí resolvi encomendar o livro. Ele segue o mesmo estilo bem humorado que Jessica usa no blog (as outras blogueiras são um pouquinho mais sérias) e tem como alvo o público leigo. É fácil de ler e de entender. É um ponto de partida, para fazer a pessoa se interessar pelo tema e aí partir para uma teoria mais encorpada.

Acho que dá um bom presente porque cala a boca de quem acha que o feminismo não tem mais razão de ser ou que as mulheres já conquistaram tudo o que tinham para conquistar. Ah, é, bocó? Então taí uma lista de 50 situações nas quais homens e mulheres são submetidos a um sistema de “dois pesos, duas medidas”.

Alguns exemplos (fora “ele é garanhão, ela é puta”, que dá nome ao livro): ele é político, ela é um ícone fashion; ele é romântico, ela é neurótica; ele sai sozinho e é considerado independente, ela sai sozinha e é considerada patética; ele anda na rua numa boa, ela tem de ouvir cantadas; ele pode ser bonito E inteligente, ela é bonita OU inteligente; ele ganha mais, ela ganha menos (pelo menos lá nos EUA, isso mudou com a lei que o Obama acabou de assinar…); ele paga menos, ela paga mais pelos mesmos serviços; enfim, it goes on and on and on.

Ao final de cada capítulo, ela dá algumas dicas do que você pode fazer para mudar isso. Quase todos passam por “policie a si mesmo e aos outros e reclame quando vir isso na mídia”. E não tem muito como ser diferente. Fazer o quê? Conseguir direitos civis é fichinha perto de destruir uma cultura patriarcal inteira. “É mais fácil destruir o impalpável que o real”, já dizia tia Virginia Woolf. Mas não se pode desanimar.

Se você tiver cartão internacional, pode comprar o livro na Amazon. Se não, pede para a livraria Cultura importar que você paga em reais. Eu fiz desse jeito, sei lá qual sai mais barato.

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LIDO – “O Mito da Beleza”, Naomi Wolf

Livro ne-ces-sá-rio na tua formação, vai por mim. Naomi Wolf explica, de forma primorosa, como o padrão de beleza se tornou muito mais severo a partir do momento em que as mulheres começaram a adentrar o mercado de trabalho. A tática é simples: como beleza/feiúra é um atestado vindo da boca dos outros, chamar as mulheres de feias é uma maneira de minar a sua auto-confiança.  Bem, disto eu já desconfiava na escola, quando tiravam sarro de minha suposta feiúra até não poder mais, mas em outros ambientes, as pessoas diziam que eu era bonita. Ou quando eu saía de balada e algum mala ficava enchendo o saco, até eu me irritar e ser grossa com ele. Aí os caras me chamam de “horrorosa” — ué, meu filho, você não estava me cantando há cinco minutos? Agora eu sou horrorosa? Pois é, Naomi me fez perceber que há mais na avaliação da beleza das mulheres do que somente uma constatação. É uma forma de poder.

Se você não tem o corpo ou o rosto das moças nas capas das revistas e não está fazendo plásticas, regimes, alisamento de cabelos, etc. para tentar se parecer com elas, você é chamada de “relaxada” e pouco feminina.  Pensa aí: quantas propagandas ligam “ser feminina” e “se cuidar” na mesma frase? Pois é, quase todas. Mas, se você atende ao padrão e gasta tempo e dinheiro com essas coisas, é criticada por ser fútil. É uma desmiolada. Ou seja, meninas: não tem como ganhar nessa história.

Outro objetivo do mito da beleza é jogar as mulheres umas contra as outras, evitando que a gente se una e adquira mais poder. Levanta a mão quem nunca disse “vaca”, mesmo de brincadeira, diante de uma mulher mais bonita ou mais magra. As mulheres mais velhas se opõem às mais jovens, as mais gordas às mais magras…

A cultura de massa diz que adequar-se ao padrão é o santo graal, é alcançar a felicidade. Só que este padrão é inatingível — porque é um mito. É irreal. A cada vez que as mulheres se aproximam dele, ele fica mais severo.  É por isso que as modelos ficaram cada vez mais magras com o passar dos anos.  O antigo espartilho virou um espartilho invisível. Nossos próprios corpos viraram o espartilho.

Por trás disto, é claro, há uma indústria multibilionária. Se nós não formos infelizes com os nossos corpos, a indústria das dietas, das cirurgias plásticas e dos cosméticos perderão dinheiro. E as revistas femininas, que poderiam ser nossas aliadas, têm de propagar o mito da beleza porque estas indústrias são suas anunciantes (revista não lucra com a venda em banca e depende dos anunciantes –  estes adoram uma “permuta”: compram anúncios mais caros se você fizer uma matéria que, indiretamente, remeta a leitora aos seus produtos. Olha, posso dizer com conhecimento de causa: isso acontece direeeeeeto. NENHUMA matéria de revista é isenta!).

Além de ganharmos menos do que os homens na maioria das empresas, o valor líquido do nosso salário também é menor, porque temos de gastar dinheiro com essas coisas. Nosso poder de compra continua sendo menor que o deles. Além disso, como ainda tem muito homem que não ajuda a cuidar da casa ou dos filhos, cuidar da beleza é uma terceira jornada de trabalho. Isso nos deixa exaustas — e, exaustas, não temos cabeça nem corpo para lutar pelo fim das injustiças machistas.

Enfim, o livro é foderoso, recomendo muito. Você pode baixá-lo em PDF aqui. 

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LIDO – “A subjugação das mulheres”, John Stuart Mill

Outro bem basicão, mas que vale muito a pena. O começo é meio devagar (e o fato de eu ter comprado uma edição em português de Portugal também não ajudou muito no começo), mas depois a argumentação deslancha e o livro fica ótimo. 

Escrito em 1867, o livro desconstrói os argumentos usados na época por quem se opunha à concessão de direitos civis às mulheres.  O triste é que muitos dos argumentos que ele rebate com tanta maestria continuam a ser proferidos hoje pelos anti-feministas e pelo senso comum. E é aí que a gente vê o quanto: 1) as pessoas precisam de instrução, senão sequer ousam questionar as “tradições”. 2)tem gente que torce as coisas de maneiras mirabolantes, absurdas mesmo, só para não abrir mão dos privilégios que têm (e não fizeram nada de concreto para merecer). E pior: acabam acreditando na distorção.

Enchi o livro de setinhas e comentários, a maioria elogiosa. Mas tem umas partes em que o Mill escorrega um pouco e fala umas besteiras (exemplo: ele diz que as mulheres trabalham melhor porque o pensamento feminino é mais “prático” e o masculino, mais “digressivo”). Enfim, mas desconsiderando essas coisas, no geral o livro é um show de sensatez. Recomendo.

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LIDO – “Por baixo da burca”, Anne Brodsky

Comecei a ler no fim de 2008 e terminei no dia 1º de janeiro. Anne Brodsky é uma psicóloga norte-americana que acompanhou pessoalmente os trabalhos da RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão), uma organização clandestina fundada há 28 anos em defesa da democracia laica, dos direitos humanos e, claro, dos direitos das mulheres.

Especializada em psicologia da comunidade, Anne começou a pesquisar sobre a RAWA em 2001, pouco antes dos ataques de 11 de setembro. Logo depois dos ataques, ela passou meses no Afeganistão e no Paquistão, onde há um campo de refugiados no qual a RAWA montou um hospital e sua mais importante escola. No país de origem, a RAWA obviamente não pode trabalhar tão abertamente, logo todas as suas atividades são secretas. Elas dão cursos de alfabetização para mulheres e registram (em foto, vídeo e texto) os lados da realidade afegã que as agências de notícias jamais noticiarão. Elas publicam o material em seu site e numa revista clandestina trimestral chamada Payan-e-zan.

Escrito em primeira pessoa, o livro conta não só a experiência de Anne com as afegãs, como também a história da associação (e de sua fundadora, Mina, que foi assassinada), as ameaças que as cercam, a filosofia do grupo e o forte senso comunitário que existe entre eles (sim, eles. Há cerca de 2 mil simpatizantes homens, que atuam principalmente como seguranças e acompanhantes, já que as mulheres afegãs não podem sair sozinhas. A tomada de decisões, no entanto, é feita exclusivamente por elas).

Entra governo, sai governo, a situação das mulheres não melhora no Afeganistão. Isso se deve à cultura e à falta de instrução — nas áreas rurais, uma parcela pífia da população é alfabetizada. A linha de frente da Associação é a educação. Elas não só ensinam  a ler e escrever – discutem também as relações entre os gêneros, de forma que, lentamente, os alunos vão abrindo os olhos. No campo de refugiados no Paquistão, homens e mulheres se tratam de igual para igual. Outra coisa interessante é que elas insistem que, sem democracia e sem direitos humanos, é imposível conseguir melhoras para as mulheres. Quaisquer melhorias que vierem neste contexto serão superficiais. Por isso, elas foram ativas durante o comando soviético, o governo mujahidin e o Talibã.

E continuam ativas agora, pois pouca coisa mudou para elas com a queda do Talibã.  Elas continuam sendo ameaçadas e a lei da Sharia, que considera que uma mulher vale metade de um homem, ainda é aplicada. Lá, quando uma mulher é estuprada, ela precisa de pelo menos um homem para provar (e muitas outras são forçadas a se casar com os estupradore,s em nome da “honra” da família). A maioria esmagadora continua analfabeta. E muitas mulheres ainda saem de burca nas ruas porque não acham que o ambiente esteja seguro para elas. Para piorar, muitos dos integrantes do novo governo de transição são figurinhas repetidas.

Enfim, recomendo muito-muito-muito o livro. Se pessoas assim conseguem fazer um trabalho tão eficaz e duradouro no contexto menos favorável possível, é vergonhoso que nós, ocidentais, mantenhamos a bunda na cadeira e digamos “ah, mas é muito difícil mudar isso” (seja o que for).

Algumas partes me fizeram até chorar — e olha que eu nem sou a pessoa mais chorona. Também foi ótimo saber um pouco mais sobre a história do Afeganistão e a sua realidade política. O que a gente recebe no noticiário é muito fragmentado e superficial.

7 comentários

  1. Vc já leu “A Dominação Masculina”, do Bordieu? Queria tanto comentar com alguém esse livro…

    Ele explica bem como acontece o processo de “construção” de características tidas como “femininas”, bem como sua “naturalização”. Ou seja, a partir do momento que se “esquece” que os códigos culturais são construídos, muitos dos mitos baseados nesses códigos ficam mais fortes… afinal, um dos mais fortes “mitos/códigos” da nossa cultura é o da superioridade da “natureza”. Se “nasceu” assim, se “é” assim, não há como mudar, é porque “deve” ser assim…

    Gosto muito de uma frase do Derrida que diz para desconfiar sempre de afirmativas “X É Y”… Sempre há interesses de toda ordem ali recalcados… e geralmente vinculados à idéia de que o que “É”, o é para sempre, essencialmente, verdadeiramente, etc.

    Por trás, eu acho, de toda afirmativa “as mulheres são X”, muitos interesses podem ser percebidos, mas quase todos comandados por uma idéia: “as mulheres são NATURALMENTE inferiores, NÃO HÁ COMO MUDAR A NATUREZA!”…

    O que me espanta é que a “natureza”, no caso, só estabelece diferenças, nunca hierarquias. É neutra, por assim dizer…

    Esse processo de naturalização das características “inferiores” das mulheres, portanto, pra mim, é um dos mais nocivos. Ele impede o desenvolver da reflexão, empaca discussões.

    Gosto muito de um outro livro do Mill (Da Liberdade)… Vou ver se leio esse que vc comenta aqui pra trocarmos figurinha…


  2. Rebecca – não, ainda não li! Mas, oi, adoro Bordieu. Tem PDF por aí? Se não, vou tentar achar em algum sebo.

    Esse livro do Mill tem uma parte inteira sobre o discurso biologizante. É ótimo. “O Segundo sexo” tb tem. Mas é só uma pincelada. Eueria mesmo um livro que esmiuçasse essa questão.Eu tava pensando em procurar algo do tipo na pasta de xerox do curso de pós-graduação em estudos de gênero (porque, na graduação, não tem nenhum curso atualmente, ê laiá). Pra ler por conta mesmo. Mas aí já tô tivesse cheia de xerox para ler (ô, malditos professores que acham que a disciplina deles é a única que você faz na vida…) e meio que deixei quieto. Vou procurar esse do Bordieu então. Aí a gente troca figurinhas! Bjs


  3. Olá, dei com seu blog vinda nem sei de onde, e achei interessantes suas questões, com as quais já trabalhei quando fiz doutorado em estudos de gênero. Existe um livro muito interessante, que talvez seja útil, que é Histoire des femmes – L’Antiquité, onde há um ensaio de uma mulher chamada Giulia Sissa cujo título é Philosophies du genre – Platon, Aristote et la différence des sexes, me lembro de que quando li achei fantástico, um pouco a origem de todas as barbaridades com as quais convivemos ainda hoje.
    Um abraço,
    clara lopez


  4. Oi, Clara! Esse livro tem tradução para português ou inglês? Beijo!


  5. [...] encerrar o post,  vejamos as letras que fazem o elogio ao stalker. Em “He’s a stud, she’s a slut”, tem um capítulo muito interessante, no qual Jessica Valenti ressalta que a cultura ocidental [...]


  6. [...] do Brasil”, do Joel Zito Araújo (o que me lembra que, putz, preciso urgentemente atualizar o Lidos e Lendo). O livro analisa a participação dos negros nas novelas desde 1963, quando elas começaram a ser [...]


  7. Aplaudo de pé os tìtulos escolhido, e jà fiz o download do O Mito da Beleza.
    Sò para constar, o Brasil anda mesmo pobre de leitores, interessados em livros com conteùdo! Abrindo essa lista de lidos e lendo me traz de volta um fio de esperança, por saber que ainda tem gente querendo desenvolver maior consciencia.



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