
Lidos e lendo 2008
LIDO – “A mulher do próximo”, Gay Talese
Bem, nem preciso dizer que Talese fez um puta trabalho. Para ser mais exata, 9 anos de trabalho. E, mesmo assim, por mais bem amarrado que seja o livro, eu tive a sensação de que faltou algo. Acho que várias nuances da história da “liberalização” (por assim dizer) do sexo nos EUA não foram contempladas. E isso demonstra a falha do formato jornalístico (por mais que Talese se aproxime da literatura, sem limite de tempo nem de páginas). É claro que a maioria dos assuntos (se não a totalidade dos assuntos) não é “esgotável”. Seria ingenuidade desejar tal coisa. Mas alguns livros nos deixam com uma sensação maior de saciedade. Com uma sensação de: “ei, esta é a coisa mais completa possível para este formato e para esta época” (impressão que eu tive com o primeiro volume do “Segundo Sexo” e não tive com “A mulher do próximo”).
De todo modo, props para o tio Talese porque o trabalho que ele fez não é para qualquer um, não. Ele é um show de apuração, minha gente!
Adorei a estrutura narrativa não-linear, na qual cada personagem citado tem sua história imediatamente contada, desde a infância. Também gostei muito da surpresa no último capítulo: o próprio Gay Talese vira personagem — apresentado assim mesmo, na terceira pessoa. Achei genial porque nós, jornalistas, sempre nos retiramos da narrativa, como se não tivéssemos presenciado a cena que estamos narrando, como se não tivéssemos atuado nela. Enfim, como se o que se está sendo contado fosse uma verdade absoluta. Nesta parte, Talese explica por que resolveu fazer a reportagem, além de contar como foi a apuração e como conheceu cada personagem – outra parte que a gente costuma esconder, como se não fosse importante. E é!
Também acho ótimo que ele tenha revelado o seu envolvimento emocional na história (afinal, é possível não envolver-se emocionalmente depois de 9 anos?). Ele inclusive assume que transou com uma das entrevistadas — cabendo ao leitor julgar se isso é profissional ou não. Eu tenho cá minhas dúvidas, não sei como me posicionar diante disso. Afinal, um livro como este definitivamente não seria possível se jornalista e fonte não tivessem ficado íntimos. Talese tinha dois desafios: fazer com que as pessoas contassem detalhes sobre suas experiências sexuais e – mais difícil ainda– fazer com que permitissem a publicação de seus nomes. No prefácio, ele até adverte: “pode parecer que não, mas todas as pessoas aqui são reais”.
Embora o livro seja predominantemente objetivo, Talese deixa escapar alguns juízos de valor – e é aí que cai em generalizações e relações de causa e efeito meio grosseiras. Como quando diz que as moças que posavam para a playboy ou trabalhavam nas “casas de massagem” faziam isso porque eram universitárias hippies, “liberais”. Acho uma declaração como essa simplista e irresponsável, porque não analisa o contexto econômico, sociológico e psicológico. E desconsidera o efeito do patriarcado nessa hstória. É como dizer que as prostitutas resolvem seguir a profissão só porque gostam de sexo, sabe? Grosseiro e simplista. Mas Betty Dodson e outras feministas são citadas com carinho no livro e o próprio Talese, pessoalmente, no posfácio, alinha-se a elas. Então, eu dou uma colher de chá pra ele e mando um beijo.
Enfim, no geral, o livro é excelente. Recomendo fortemente.
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LIDO – “O segundo sexo – fatos e mitos”, Simone de Beauvoir
Livro absolutamente necessário!! Está esgotado, mas alguma linda pessoa fez um PDF e pôs na Internet (o link está na página principal deste blog). Gosto do Sartre e sabia uma coisinha ou outra da vida da Simone, mas nunca tinha lido nada dela (uma vergonha, eu sei). Há dois anos, prometi a mim mesma que deixaria de moleza e leria “O Segundo Sexo”. Na época, eu fazia uma optativa de Sociologia da Moda e, aula-sim-aula-não, o professor citava o livro. Todos os coleguinhas entendiam e comentavam loucamente, felizes da vida… E eu lá, com cara de paisagem, querendo participar também. Só que o tempo passou e, de livro em livro, acabei nem procurando este.
Então, meses atrás, no meio de uma inflamada discussão no grupo de e-mails da faculdade sobre o artigo da revista Trip em que o cara pede desculpas por ter estuprado a empregada, alguém citou umas partes do livro. Topei com a tia Simone de novo. Mais uma vez achei tudo muito foda e me senti uma besta por não ter lido ainda. Aí corri atrás. Definitivamente, devia ter feito isso antes.
Neste primeiro volume, Simone apresenta a condição da mulher ao longo da História, derrubando os mitos que serviram para subjugá-la somente por seu gênero. Beauvoir passa pela biologia, pela psicanálise e pela religião, não deixa nada de fora. O livro é muito completo, extremamente bem amarrado e continua assustadoramente atual.
Estes mitos e preconceitos estão tão enraizados em quase todas as manifestações culturais que, embora ela não apresente nada de novo (apenas reúne o que aconteceu e acontece), a gente se sente ultrajada e brava com o que lê. Ao longo do livro, fui tomada por um profundo sentimento de desesperança. Tipo: “porra, que merda de humanidade”. Só que é assim o tempo todo. Eu é que não percebia ou fechava os olhos, afinal isso foi normalizado. O ultraje é a regra. O desrespeito é a regra. A subjugação é a regra. E sabe por que é assim? Porque a cultura é a coisa mais forte que existe. Não é só homem que é machista. A sociedade inteira o é.
A conquista dos direitos civis mudou muita coisa, mas não muda a forma como as mulheres são vistas. Se ainda existe a idéia de inferioridade, de “sexo frágil”, de feminilidade como coquetismo e passividade; se ainda existe a idéia de que há “uma guerra dos sexos” e meninos gostam de carrinhos e meninas, de bonecas… Então a espinha dorsal do patriarcado não mudou. Mudar a espinha dorsal da cultura é uma tarefa muito mais demorada e árdua. É por isso que o feminismo ainda não acabou, ao contrário do que alguns desinformados insistem em dizer.
Enfim, desde que comecei a ler este livro, meu interesse pelo movimento feminista é crescente. Daí a nova lista de links na home. No Brasil a coisa é tímida de dar dó, mas nos EUA e no Canadá há uma comunidade bastante ativa fazendo blogs, vídeos, ONGs, grupos de estudo… Tenho aprendido muito, lendo os sites dessa galera. E o que é bom a gente tem de dividir, por isso os links tão aí.
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LIDO – “O estrangeiro”, Albert Camus
Esse livro me fez lembrar do filme “Laranja Mecânica” (que eu não sei quando nem por quê virou hype entre as crianças que gostam de se chamar de “alternatchivas”). Como no filme de Kubrick, no qual o processo de “reforma” do criminoso é muito mais doentio do que os próprios crimes que ele cometeu (se é que pode-se colocar os crimes numa escala hierárquica), o julgamento do protagonista do “O Estrangeiro” me parece muito pior do que o crime que ele cometeu.
Este livro também me remeteu à atmosfera absurda do Kafka, em “O Processo”, onde as engrenagens do sistema parecem não fazer sentido e o réu é alienado do próprio julgamento. Também é interessante a maneira como o Camus mostra a mania que as pessoas têm de apontar os erros dos outros, como que convocando um linchamento público, dizendo que a “sociedade” está comovida quando, de fato, essas pessoas são movidas por uma sede de sangue tão monstruosa quanto os crimes que dizem rechaçar. Eu já escrevi no blog sobre isso, mas realmente gostaria de saber se tem algum autor que fale sobre essa necessidade de apontar o “monstro”, o ogro, o pária, como forma de auto-afirmação. O mais próximo que achei disso foi um ensaio cujo link também postei aqui: “Os estabelecidos e os outsiders”. Mas ainda assim acho que ele não explica essa tendência.
Por fim, acho que o Camus também foi bastante eficiente em criar um personagem que, mesmo “injustiçado” (coloco aspas porque, no fim das contas, ele cometeu mesmo um crime) não provoca dó nem instinto maternal no leitor. No começo do livro, a apatia do protagonista incomoda e até causa repulsa, pois ele ajuda um cafetão a atrair uma mulher para seu apartamento, com o objetivo de espancá-la. Mas ele não ajuda porque concorda com o espancamento. Ele não tem opinião formada sobre nada. Não tem nada a dizer sobre nada. Tudo para ele é tanto-faz-como-tanto-fez. Dessa maneira, o leitor, embora se sinta enojado pelo início do livro, também não se posiciona contra ele, pois parece que todas as coisas estão alheias demais do personagem – e como culpar alguém assim?
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LIDO – “A insustentável leveza do ser”, Milan Kundera
Foda. Simples sem ser simplista. Cheio de referências filosóficas, mas sem ser pretensioso. Rolou total identificação com as duas personagens femininas (queria postar aqui alguns trechos das partes sobre elas, mas estou sem o livro aqui). Enfim, um livro sem falhas, do tipo que a gente gostaria de ter escrito.
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LIDO – “Orgulho e Preconceito”, Jane Austen.
Machista até o osso, mas impossível de largar. É como uma novelinha, um livreto do tipo Sabrina: você fica torcendo para as personagens pararem de sofrer e que o pessoal da intriga, responsável pelo sofrimento dos mocinhos, se dê mal. De resto, a análise psicológica do Mr. Darcy (o que era para ser um contraponto de Austen à futilidade da história sobre mocinhas desesperadas para arranjar marido) não alça vôo, infelizmente. Mr. Darcy não age por si mesmo. Ou seja: não é um personagem bem construído. O tempo todo você percebe a pena de Austen por trás. Ele é uma marionete. No começo do livro, age como um perfeito filho da puta, depois vira santo completo. E o meio-termo, cadê? Acho que o Dorian Gray faz uma crítica muito mais estruturada sobre a questão do orgulho e do preconceito na sociedade inglesa da época, embora em ambos as reuniões da alta sociedade sejam repletas de diálogos intermináveis, que jamais aconteceriam na vida real (senão todo mundo dormiria).
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LIDO – “A Consciência de Zeno”, Italo Svevo
Gostei muito do livro, mas a psicanálise apareceu menos do que eu esperava. Em 90% do livro (um diário escrito por Zeno a pedido de seu psicanalista), quase nada é dito sobre a relação entre os dois. Zeno discorre longamente sobre vários episódios, mas não escreve uma linha sequer sobre por que ou como resolveu procurar a psicanálise – o que, para mim, seria importante dizer, já que o personagem não me parece ser do tipo naturalmente inclinado a essa espécie de tratamento.
Em longos capítulos, a narrativa é leve, fluida, gostosa - mesmo que a vida de Zeno seja trivial, sem grandes acontecimentos (e não é assim conosco também?). Mas, aí, sem aviso, a história é interrompida com uma enxurrada de capítulos curtos sobre sua insatisfação com a psicanálise. Além de curtos, são escritos de forma diferente, mais doce, enfim, nem parece o mesmo personagem. Senti que a inserção das reflexões sobre a eficácia da psicanálise foi abrupta, como se Svevo tivesse pressa em terminar o livro. Penso que teria sido melhor se elas começassem a aparecer de forma progressiva.
Por fim, Zeno encerra com uma espécie de recado ao psicanalista. Essa parte tem um tom meio marxista que eu também achei que não combina com o personagem construído. Parece que Svevo se enfiou em Zeno para defender o seu ponto de vista. Enfim, uma dissertação enfiada à força na boca do personagem.
De todo modo, até a tal ruptura, o livro é bom. Achei que desenvolveu muito bem a maneira como forjamos sentimentos para nós mesmos - subvertendo o senso comum sobre o que é loucura. O livro mostra, de maneira exemplar, que existe também a micromanipulação, o microsimulacro: maximizamos os nossos sentimentos, conferindo-os mais peso e importância do que realmente têm, só para ter o que dizer da vida.
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LIDO – “O processo”, Franz Kafka
Confesso que fui boba e realmente esperei um desfecho que pelo menos deixasse alguma coisa explicada. Uma coisinha só. Nem precisava explicar tudo, porque a beleza do livro é descrever perfeitamente a irritação que só o sentimento de importência pode trazer. Mas não é assim que as coisas são com o Kafka, pelo visto. O vício é todo seu, caso você insista nessa mania essencialmente humana (porém estúpida) de querer ordenar as coisas e achar algum sentido para elas. Não há. O único resultado disso será o desgaste. E eu, que sou bastante viciada nisso, me senti bastante incomodada com o livro. Foi mesmo um soco no estômago. Mas é assim que as coisas são, tanto no plano burocrático (que é o que Kafka aborda e critica), mas também no plano metafísico (que é o que está nas entrelinhas). Justo quando você pensa estar perto de entender as regras, elas são mudadas para que você não tenha chance alguma de escapar delas. Enfim. X. (Essas resenhas só devem fazer sentido pra mim mesmo, se é que alguém lê isso aqui, hahaha…)
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LIDO – “A Metamorfose”, Franz Kafka
Já tinha lido no colégio, mas faz bastante tempo. Então resolvi ler de novo. E chorei lá para o final do livro. Kafka é direto e eficiente, certeiro. Não precisa de muito para passar exatamente o amargor e o abandono sentidos por Gregor. Eu me identifiquei muito com a personagem e devo ler de novo a novela.
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LIDO – “O retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde
FODA. Não sei dizer outra coisa. E o livro veio num momento que não poderia ser mais oportuno. Não vou revelar nada, mas o livro se encaixou perfeitamente numa situação que vivo hoje. Algo que me fez refletir sobre a extensão da influência que recebemos de outras pessoas. Também me fez pensar sobre o meu próprio individualismo (que às vezes é exagerado, admito). Obviamente, também é impossível não traçar um paralelo com a geração botox de hoje, que tanto medo tem de envelhecer. Incrível ver que algumas falas de Henry Wotton são reproduzidas hoje com bastante naturalidade, viraram mainstream. E o final dá um arremate fantástico simplesmente maravilhoso. Gostei muito.
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LIDO – “Ficções”, Jorge Luis Borges
Acho que talvez eu não esteja madura o suficiente para ler Borges. Embora muita gente me recomende esse livro com um puta entusiasmo, confesso que não estou muito entusiasmada, não. É bom, mas estou achando seco demais para o meu gosto. É de uma precisão tamanha… É escrita com bisturi. Não sei se me explico. Não é como a secura do Rubem Fonseca ou do Hemingway, que, mesmo minimalistas, conseguem amarrar a sua garganta. Enfim, nos contos de ”Ficções” Borges cria autores e livros fictícios que são geniais, mas os descreve quase com linguajar acadêmico. A exceção é “A Biblioteca de Babel”, que, embora também não tenha me entusiasmado muito, tenho de tirar o chapéu. É magnífico. Mas ainda, assim, acho tão linda a idéia da humanidade como uma imensa biblioteca em torre (na qual constam todos os livros do mundo, inclusive aqueles que diferem em somente uma vírgula) que poderia ter sido descrita com um pouco mais de emoção e menos precisão. Mas, repito: talvez eu ainda não esteja preparada para o Borjão.
LIDO – “Secreções, excreções e desatinos”, Rubem Fonseca
Incrível a maestria que esse homem tem com as palavras. Gosto da secura. Não precisa adjetivar nem descrever demais, a maestria está em conseguir provocar os mais diferentes sentimentos com a mesma narrativa enxuta. Você ri, se enoja, se identifica, vira cúmplice das personagens. Enfim, vira uma marionete da pena do Rubem. O fio condutor destes contos, como o título já diz, são os fluidos corporais, que todo mundo tem e finge disfarçar. Mas eles não são personagem principal. Estão no fundo, sempre presentes, embora discretos – como sempre. E as histórias são humamas. Demasiadamente humanas. Porque o ser humano é belo, mas imundo e também existe beleza na imundície e vice-versa. Reconheci-me e a tanta gente nas personagens. Em tempo: de todos os contos, o melhor, na minha opinião, se chama “homens e mulheres apaixonados”.
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LIDO – Seminário dos Ratos, Lygia Fagundes Telles
Pareceu-me que o fio condutor desses contos da Lygia é a passagem do tempo. Como o tempo nos marca, fazendo-nos perceber as mudanças por que passamos. Se elas são desejadas ou não, aí já é outra história. Mas a gente sempre pode disfarçá-las, por que não? É a mensagem que apreendi de “Sr. Diretor”, no qual uma velhinha carola planeja um carta ao jornal para reclamar da falta de moralidade no mundo, mas ela mesma ferve: a ameaça não está fora, está é dentro dela e por isso é muito pior. O mesmo pensei em “Noturno amarelo”, em que a narradora recorda-se da família e de um passado para o qual não pode mais voltar (logo, não pode corrigir-se). Em “Tigrela”, história de uma mulher que tem um tigre de estimação, interpretei o tigre como a juventude dela – a juventude selvagem com quem a gente tem de conviver, mas ela está sempre prestes a se jogar da janela. Mas o melhor de todos os contos, para mim, não é o que dá o nome ao livro (aliás, achei este o mais fraco, pois o proprio título já entrega o fim da história assim que você começa a ler as primeiras linhas). O melhor é mesmo é “A sauna”, em que um homem revisa a vida inteira, como se esta saísse de seus poros junto com o suor. Enfim, folks: é a Lygia, não tem como não ser foda.
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LIDO – “O pagador de promessas”, Dias Gomes
Dá vontade de traduzir a peça e enviar pra campanha da Hillary. Nem sempre a convicção, por mais bela e genuína que seja, é o melhor caminho a seguir. Simplesmente porque ela é tão desacreditada pelo resto do mundo (desacostumado a perseverar) que todos desconfiam e tentam tirar dali alguma vantagem. Assim como em “Beijo no Asfalto”, o jornalista aparece como um aproveitador filho da puta – e, muitas vezes, é mesmo. Impossível não dar um sorrisinho de canto de boca quando o jornalista diz ao Zé do Burro que já cumpriu com sua parte do “compromisso” – como se todo mundo quisesse publicidade e a função do jornal fosse esta. Conheço muita gente que age assim. Como se jornalismo fosse uma troca de interesses, somente. E, mesmo para quem não jogou a ética no lixo, cabe pensar: até que ponto coagimos nossas fontes com a perspectiva de publicidade de graça? Afinal, se não a prometemos, também não a rechaçamos logo de cara ao perceber que Fulano de Tal está falando conosco só por isso…
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LIDO - Tragédias Cariocas de Nelson Rodrigues
Outro que peguei na biblioteca. É a coletânea de ’tragédias cariocas’ do NR – para ler, reler ou descobrir que ele é foda. E bota foda nisso. Impossível não ficar tenso, de coração palpitando, ao ler beijo no asfalto – na minha opinião, a melhor de todas. Primeiro, pela reflexão óbvia sobre como o jornalismo transforma mentira em verdade. Segundo, em como nós não temos confiança nem mesmo nos alicerces da nossa vida, nas instituiçõesdas quais nós mesmos escolhemos fazer parte. Os outros são mesmo o inferno – o que corre à boca pequena acaba sempre virando grande.
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LIDO - “Esperando Godot”, Samuel Beckett
Peguei na biblioteca da ECA – uma edição tão velha, mas tão velha que as páginas estavam até se desfazendo. Gosto de ler peças de teatro porque elas são mais ágeis e dinâmicas - é pá-pum, sem muitas delongas nem descrições minuciosas (eu não sou lá muito chegada no Eça, por exemplo, justamente por causa das páginas e mais páginas descrevendo uma reles cortina ou um criado-mudo ou a barra de um vestido). Enfim. Esta é a história de dois homens que ficam no meio do nada… Esperando Godot – um homem que sempre promete vir no dia seguinte, mas nunca vem. E os homens (dispersos, cansados e até indiferenciáveis) não arredam o pé dali porque têm de continuar esperando Godot. O mais legal é que Godot é uma metáfora aberta – Didi e Gogo podem personificar a humanidade inteira, cuja vida se esvai à espera de promessas impossíveis (aqui cabe um bom paralelo com a música “vai trabalhar, vagabundo”, do Chico) ou, se preferir, você pode puxar a coisa para um plano mais pessoal: afinal, quem (ou o quê) é o SEU Godot?
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LIDO – “O buraco na parede”, Rubem Fonseca
Resumindo: como dizer muito com pouquíssimas palavras. Enxutos, com cada palavra no devido lugar, esses contos do Rubem são dos melhores que já li NA VIDA. Depois de terminar cada um, você já passou por tanto que pensa: “caramba, e tudo isso só em três ou quatro páginas?”. Pois é: não é todo mundo que consegue ser Rubem, nem com muito arroz e feijão. Adorei e quero ler mais do escritor sem rosto (outra coisa muita boa: quantos “escritores” hoje em dia tem rosto demais e literatura de menos?).
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LIDO – “As meninas”, Lygia Fagundes Telles
Estou completamente apaixonada por essa mulher! Andei lendo umas entrevistas e a Lygia sempre diz que quer que a gente a leia enquanto ela ainda está quente – ao contrário da maioria dos escritores (pois esta é, sim, uma raça mei’ vaidosa, não dá para negar), ela diz que não se importa com longevidade, pois mais importante do que escrever livros eternos é ”desembrulhar” a si, ao desembrulhar as personagens. Ela diz isso como se não visse (duvide-ô-dó que ela não veja!!) que é inevitável não conferir eternidade às palavras que ela escolhe e costura. Um exemplo disso está aí, nesse ”desembrulhar”. Ele é muito mais apropriado do que ”decifrar”, “desvendar”, “analisar”, “descobrir”, “adentrar” e por aí vai…
Enfim, foi o primeiro livro que li em fevereiro e recomendo para todo mundo. Adorei a estrutura da narrativa, em que as meninas (são três: Lião, Ana Clara e Lorena) invadem o espaço do narrador e tomam a história só para elas. No começo, pode confundir um pouco. Tem horas em que você pára e pensa: “péra aí, quem é que tá falando mesmo?”, mas logo você se acostuma e começa a diferenciar o estilo de cada menina. No fim das contas, acho que não poderia haver estrutura melhor para a história dessas meninas que, apesar de tão diferentes, são apenas crias de um mesmo ambiente, de uma mesma época. Enfim, FODA. Vocês têm que ler!
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LIDO – “Crime e Castigo”, Fiódor Dostoiévski
A dubiedade de Raskólnikov está me servindo de inspiração para o protanogista do livro que estou escrevendo (que não vai nem chegar so pés de Crime e Castigo, claro…). No meio dessa polifonia toda, imagino qual dos lados da consciência de Raskolnikov mais combina com Dostoíevski, que foi socialista, mas nunca deixou de lado o moralismo mei’ cristão. Enfim, são quase 600 páginas onde absolutamente nada é supérfluo. E olha que vi gente no orkut, dizendo “a carta da mãe é inútil para o resto da trama”. O quê?! Filho, se mata! Tem certeza de que leu o livro todo? Os russos não têm pressa – nem precisam. E a vida não é exatamente assim? O que parece ter menos importância acaba tendo sua conseqüência no futuro. A vida não é tão imediata quanto as tecnologias atuais nos fazem supor.
PS – para quem já leu “Crime e Castigo” e gostou, recomendo “Adolfo”, do Benjamin Constant, que também explora o conflito psicológico e tem uns trechos tão bons que dá vontade de sublinhar e mandar fazer camiseta.
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LIDO – “O velho e o mar”, Ernest Hemingway
Minha resolução de ano novo foi: “vou ler todos aqueles livros que parece que todo mundo já leu, menos eu” – afinal, costumo escolher os livros pelo título, pela capa, pela sinopse. Enfim, é uma compra compulsiva. E essa compulsão se dava sempre na prateleira de literatura brasileira. Descuidei dos autores estrangeiros e, para não me sentir mais tão chucra, resolvi tirar o atraso esse ano. “O velho e o mar” era um desses livros. Eu gosto do estilo do Hemingway. Objetivo, limpo, com períodos curtos. Dá pra perceber essa diferença nos escritores que trabalharam como jornalistas. E eu acho que é uma vantagem. Clareza sempre é uma vantagem. Terminei “O velho e o mar” com um nó bem dado na garganta – e pior: sabia que aquele nó sempre esteve ali. Mas não chorei. O único livro que me fez chorar até hoje foi “meu pé de laranja lima”, hahahaha.
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LIDO - “Mrs. Dalloway”, Virginia Woolf
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Edição de 1970 e poucos, da Abril, com Mrs Dalloway e Orlando juntos. Comprei num sebo por R$20 (pechincha, menina!) e ainda não li o Orlando. Enfim, a construção é im-pe-cável - é o tipo de livro que te faz sentir vergonha do que escreve. A pontuação, os fluxos de consciência, as epifanias… Tudo genial. Mas é uma epifania que voa baixo: os sons e objetos trazem sobretudo lembranças (e é por isso que discordo das resenhas que dizem que o livro descreve um dia na vida de Clarissa Dalloway. Isso é muito simplista. Cronologicamente, é só um dia. Na prática, são descritas vidas quase inteiras). São essas memórias acesas por objetos e cenas corriqueiras que costuram as personagens e suas trajetórias. E… ainda bem que é assim. Afinal, vou falar a real (sabendo do risco de ser apedrejada): se a narrativa fosse linear, a história tava fodida. Nenhuma personagem conquista, pois quase não há espaço para identificação. E, vamos combinar, essa vidinha de alta sociedade é chaaaata… Prefiro a Clarice, que descobre a própria essência ao olhar para uma barata, do que páginas e páginas descrevendo o quanto a postura corporal de Lady Fulana é invejável e os jantares de Sr.Ciclano são sempre muito aprazíveis. Sim, a intenção era mostrar a frivolidade das pessoas deste meio (num trecho, Dalloway admite que, se perguntassem a ela onde fica o Equador, ela não saberia – mas é feliz assim) e, bisbilhotando a biografia da Virginia, dá pra perceber que tem muito dela na senhora esnobe que dá nome ao livro… Mas, honestamente, eu me senti entediada em algumas partes. Também achei que o fluxo de consciência (grande mérito da obra inteira dela) é usado em demasia em certos trechos. Assim, o recurso acaba perdendo um pouco do encanto. Pois é, acho que sou mais a Clarice, que pegou o melhor da Virginia e ainda soube estreitar os laços com o leitor.
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RELIDO – “Admirável mundo novo”, Aldous Huxley

Aprendam uma coisa: roupa íntima e livro são duas coisas que a gente não empresta de jeito nenhum, nem para aquelas pessoas que a gente conhece há anos. Emprestei meu “Admirável mundo novo” a uma amiga e ela fez o favor de perder. Pior: ela tampouco teve o semancol de me dar outro livro. Ficou tudo por isso mesmo. Aí, em janeiro, eu achei na FNAC essa edição de bolso da editora Globo, por um precinho de sebo (R$13). Reli num dia só e lembrei por que este é um dos meus livros favoritos. O mais legal é traçar paralelos com outro dos meus livros favoritos, o “1984″. Enquanto em 1984, a sexualidade deve ser posta de lado (Julia e Winston são punidos mais por serem amantes às escondidas do que tramarem contra o governo), no sistema de “Admirável” a sexualidade infantilizada e imediata é garantia de submissão. Em “1984″, a guerra é permanente e mantém o patriotismo exagerado. Em “Admirável”, não há guerras. Enfim, há diversos exemplos. É interessante ver como os livros de Orwell e Huxley criticam a mesma coisa, mas os mundos que criaram têm várias diferenças.
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LIDO – “Ruído Branco”, Don DeLillo
Televisão, indústria farmacêutica, histeria, estudos “bolhas” no meio acadêmico, vazamentos tóxicos, charlatanices científicas, medo da morte, divórcio, alienação da sociedade americana. Temas bem complexos, huh? Pois Don Delillo resolveu abordar todos num livro com pouco mais de 300 páginas. O autor só podia acabar se embananando, claro! Tudo é abordado de forma muito superficial. Vamos à história: Jack é um professor universitário (especialista em “hitlerismo”) que tem medo da morte. Mas é um medinho bobo, trivial, nada que eu e você não tenhamos de vez em quando. Na segunda parte, há um vazamento tóxico numa indústria vizinha e sua família tem de evacuar a cidade por nove dias. Nessa ocasião, Jack é exposto à substância tóxica e, a partir daí, já sabe o que será responsável por sua morte. Assim que volta para casa, ele descobre pra que serve o Dylar, o comprimido que sua mulher anda tomando: trata-se de um medicamento experimental contra… O medo da morte! O livro não chega a ser ruim (destaque para as falas de Murray: ele é quase um Quincas Borba) – mas é raso e, por isso mesmo, dispensável. Quis falar de tudo e, no fim, falou pouco. Quis atacar a superficialidade da sociedade com mais superficialidade. Apesar dos prêmios e da alcunha de “profético” (ele foi escrito antes do desastre de Chernobyl), Ruído Branco perdeu uma boa chance de fazer uma crítica mais contundente às boas polêmicas que aborda.
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LIDO – “Ghandi Hoje”, Johan Galtung

Menos Marx e mais Ghandi – é disso que a esquerda precisa. Ghandi não queria “seguidores”, não queria ser um ídolo (ele desgostava do título de Mahatma, que significa “grande alma”), mas é difícil não dizer “esse cara era foda” a cada cinco linhas deste livro. Seu conceito de exploração é muito mais redondo, sua proposta muito mais coerente do que as do anarquismo e o marxismo (fontes das quais ele bebeu, claro). Mas um homem como esse só podia surgir mesmo lá, no Oriente: entender e abraçar o que ele dizia não seria mole para um ocidental (a não ser para gente fueda como o Martin Luther King - mas a onda de violência depois de sua morte é sinal de que não-violência é coisa de gente evoluída, que sabe quão eficaz isso é). Fica difícil encaixar na cultura ocidental conceitos como a “unidade do homem” (todos os homens são, na verdade, um só – então, quando você tem um conflito com alguém, isso é bom, afinal vocês tem algo em comum: um conflito. Isso é melhor do que nada). E isso me faz pensar o quanto nós, ocidentais, somos simplistas – tão simplistas que somos quase burros! Só entendendo esse tipo de conceito é que você consegue diferenciar o mal do malfeitor – é o primeiro e não o segundo que você combate. E, para combatê-lo, nada mais coerente do que não fazer o mal: daí a idéia de resistência não-violenta. Para Ghandi, não havia diferença entre os fins e os meios. A luta somente poderia se dar por meio da persuasão, jamais pela coerção. Li em janeiro e adorei.
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LIDO – “Onde andará Dulce Veiga?”, Caio Fernando Abreu
Nem venha me falar do filme, com Maitê Proença no papel de Dulce Veiga e Carolina Dieckmann como Márcia Felácio, filha de Dulce e vocalista de uma banda chamada Vaginas Dentatas. Gente… Carolina Dieckmann: só podem estar de brincadeira (e paro por aqui antes que eu seja a enésima pessoa em quem ela mete um processo). Acho que autores como o CFA e o GGM (abaixo; acabei de assistir ao filme de “amor nos tempos do cólera”) não são material pra filme – afinal, o cinema não consegue captar o que há de melhor neles: o estilo (cru, mas lindamente sentimental, no caso do CFA). E é esse estilo que torna o livro mais que uma historinha de mistério que termina com algumas perguntas não respondidas. Aliás, acho que as interrogações que sobram servem justamente pra dizer isso: para o protagonista, mais importante não era desvendar o desaparecimento de Dulce Veiga. Era desvendar o enigma de si. De qualquer forma, não acho que seja o melhor dos livros do CFA. Mais: http://www.gatilho.ufjf.br/anterior/edicao3/download/artigos/artigo_dulce_veiga.pdf
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LIDO – “Relato de um náufrago”, Gabriel García Márquez
A nota do autor, em que GGM diz que essa antiga reportagem só foi publicada porque ele virou um “escritor da moda” – o que lamenta muito – é a melhor parte do livro. De fato, não há nada de muito extraordínário na história do náufrago que virou herói e depois denunciou ao ainda jovem repórter que a culpa era do próprio governo (o navio carregava cargas contrabandeadas, que desestabilizaram o equilíbrio da embarcação). Mas a publicação não chega a ser um erro. Pelo contrário: a narrativa de GGM tem o mérito de tornar interessante uma história que facilmente se transformaria em lenga lenga sentimental ou relato massante de dez dias em que quase nada aconteceu além da espera e do sofrimento previsível (fome, sede, sol… E, pasme!, até os tubarões eram pontuais). Li em janeiro.




O ESTRANGEIRO… Camus é foda nesse livro. Santo deus. Li há trocentos anos e lembro até hoje.
Considero ‘A insustentável leveza do ser’ uma das melhores coisas que já li na vida. Reflexóes filosóficas e políticas. Acho fantástico.
Vitor — também adorei de paixão. Veja você que eu sequer tive palavras para comentar direito, rs.