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Assvertising, parte 2: criando diferenças que não existem

julho 3, 2009

Eu sabia, Galvão. Tudo que é ruim pode ficar pior. Eu só tinha visto o comercial dos meninos. Aí, agora, me avisaram que a campanha é segmentada. Costelinha para os meninos, cream cheese para as meninas.

Eu sei, eu sei, homens e mulheres são diferentes — mas, como não me canso de repetir, a maioria das diferenças a que as pessoas se referem é fabricada, exagerada, quando não  mentirosa. Afinal, por que separar salgadinho por sexo? Por acaso há alguma diferença na forma como meninos e meninas comem batatas? Então a menina não pode gostar de costelinha (imagina, carne é um negócio tão másculo!) e o menino não pode se interessar por uma batata “lisinha e suave”?

A resposta dos publicitários: claro que não, gente. Porque está no cérebro. Hello-o, essas diferenças todas são bio-ló-gi-cas! Pé direito e pé esquerdo, como já dizia Maitê Proença. Logo, @s feministas histéric@s só dão murro em ponta de faca, pois estão lutando contra o imutável.

Veja bem, as mulheres são naturalmente fúteis. De cada cinco coisas que pensam, três são sapatos! Não, não é porque existem trocentos modelos de sapatos femininos e apenas cinco modelos masculinos. Não é porque o vício em sapatos nos seja enfiado goela abaixo por Hollywood ou pelas revistas e cadernos de moda do jornal.  Não é porque as moças aprendem, desde muito cedo, a ser “princesinhas” cujo maior e mais importante atributo é a beleza. Nada disso! É tudo original de fábrica. Nascemos assim. Umas frívolas fofoqueiras.

Portanto, só nos interessaremos pelo salgadinho desde que ele pareça afrescalhado (ei, não é qualquer queijo. É cream cheese!), lisinho, suave e delicadinho. Costela é muito rústico, né? Coisa de macho.

PS – Falando em princesinha, repare que a menina do anúncio não tem desejo sexual como o menino. Ela não pensa em sexo. Não pensa no homem em partes (bunda, coxas, peito). Pensa só em romantismo, no beijo com o príncipe encantado, o galãzinho da novela.

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Assvertising: quantas vezes é possível reduzir uma mulher?

julho 3, 2009

Então é assim? Quem é homofóbico come Doritos e quem é misógino come Ruffles?

Sinceramente, eu desisto.  Pelo visto, a tendência “ofensivo é cool” vai imperar na indústria cultural. Eu juro que tento entender, mas só consigo mesmo enxergar um tiro no pé.  Afinal, excluir potenciais consumidores não é uma burrice? O objetivo de todo mundo que quer vender algo não é ampliar mercado, em vez de reduzir?

Mas já está posta a tendência. Ofensivo é cool. E, toda vez que os ofendidos  reclamarem, surgirão pessoas dizendo: “ah, mas eu não percebi nada disso. Então, já que EU não percebi, ninguém tem o direito de reclamar“. E é justamente aí que está o cerne da questão. A pessoa não perceber. Taí o sinal de que a ofensa já foi banalizada, tornada normal, corriqueira. “Se eu não vejo, então não existe”.

Te preparem que vai ser sempre assim, daqui para frente: um enfadonho embate entre a turma do pluralismo e a turma do “ofensivo é cool”. E, durante muito tempo, o impasse vai dar vantagem para o segundo grupo. Afinal, enquanto não forem estabelecidas bases para nada, enquanto a ofensa puder se travestir de polêmica, só quem se beneficia é o ofensor.

Vamos, então, à lista de clichês:

1 – A redução do homem: os rapazes são uns imbecis  que só pensam em sexo, mais nada. Para fazê-los de besta, é muito fácil: basta apelar à sua cabeça de baixo, a única que funciona.

2 – A redução da mulher: a objetificação se dá através do desmembramento. A mulher é tão objeto sexual, tão descartável, que sequer é preciso mostrá-la inteira: bastam a bunda, os seios e as coxas. Ou seja: só as partes que “interessam”. O resto é resto.

3 – O cristianismo como padrão: para quem que a mulher veio da costela? Por que isso é dito, no comercial, como se fosse uma verdade absoluta? Nem todo mundo nesse país é cristão. Há, inclusive, entre os próprios cristãos, pessoas que têm um mínimo de semancol e enxergam a história do gênesis como apenas uma alegoria, uma metáfora.

4 – A redução da mulher, de novo:  Primeiro, a mulher é reduzida às suas partes. Depois, é reduzida mais ainda: não passa de uma costela. Tão insignificante, tão não-humana, que pode ser posta num salgadinho. E veja que sequer é uma costela humana de que se está falando — pode-se pegar uma costela de porco para a essência do salgadinho, que o resultado é a mesma coisa.

5 — A redução da mulher, mais uma vez:  No segundo 0:26, tem uma espécie de mensagem subliminar. Quem piscar, perde — literalmente. Quando desce o pacote de Ruffles, um milésimo de segundo antes do narrador dizer “do jeito que os meninos queriam”, aparece uma mulher de sutiã e calcinha. Aí, puf: a mulher se transforma num salgadinho.

Pois é: não somos seres humanos completos, somos peitos e bundas. Opa, não somos nem peitos e bundas: somos apenas costelas. Não, não, sequer somos costelas: somos um salgadinho vagabundo com sabor artificial de costela.

6 – Por fim, o slogan: “Nova Ruffles. Do jeito que os meninos queriam”. E as meninas? O que será que elas querem? Ah, dane-se, né? Mulher não tem que querer nada. Como o comercial bem mostra, afora a bunda, os seios e as coxas, todo o resto sobre elas é acessório.

PS – Deborah também escreveu sobre o assunto.

PPPS – Nos comentários, Camila se lembrou de algo importante: o comercial também é heteronormativo. E os meninos gays e bissexuais? O que eles querem não importa? Ou eles não são meninos, são outra coisa?

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Café com leite ou água e azeite?

julho 1, 2009

Tive de assistir a esse documentário para uma aula e achei que vale a pena dividi-lo. Essa primeira parte é meio devagar, mas as outras são muito boas. Aqui: 2, 3, 4, 5 e 6.

Sobre essa primeira parte, duas observações:

- “Racismo é que nem ácaro: todo mundo sabe que existe, mas não percebe. Só que tem muita gente que sofre com isso”. HAHAHA, melhor frase!

- O documentário tem N declarações que visam a derrubar o mito da democracia racial, mas eu acho que a cena com os alunos da faculdade Anhembi-Morumbi já faz isso por si.

A menina no fundo da sala (4:08) diz sentir “orgulho de ser brasileira, orgulho dessa mistura” – mas veja que o tom dela é extremamente assertivo, quase agressivo. É um “cala a boca” para a colega que se afirma como negra. Só essa cena já diz tudo. Todo o resto do documentário é pleonasmo.

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Ligue os pontos

maio 31, 2009

A.

B.

C.  Marilena Chauí, “Democracia e Autoritarismo”, do livro “Simulacro e poder: uma análise da mídia” (Fundação Perseu Abramo, 2006):

De modo geral, podemos dizer que a mitologia da não-violência brasileira é elaborada por intermédio de dois procedimentos principais:

1) um procedimento de exclusão — afirma-se que a nação brasileira é não-violenta e que os brasileiros não são violentos, portanto, se há violência, é praticada por gente que não faz parte da nação brasileira (mesmo que aqui viva e aqui tenha nascido). O mito produz a imagem de um “nós” contra um “eles” que coloca esses últimos fora da nação, em suas margens.

2) um procedimento de distinção entre o essencial e o acidental — por essência, a nação é nã0-violenta e, portanto, a violência é algo acidental, um “surto”, uma “onda”, uma “epidemia”. A violência é algo que pode acontecer sem afetar a essencial não-violência brasileira. A violência é passageira, momentânea e pode ser afastada.

Assim, é função do mito admitir que a violência existe (é um fato inegável), mas assegurando que não possui um laço essencial com a sociedade brasileira porque é praticada por “eles” em momentos passageiros de “surtos”. A nação fica preservada em sua integridade (“nós” não somos “eles) e em sua estrutura e organização (a violência é um acidente na superfície social).

Definida como acidente, a violência agora precisa ser explicada. (…) Eis os procedimentos que reforçam o mito:

1)procedimento jurídico — a violência é localizada no crime e circunscrita a apenas um tipo de crime, o crime contra a propriedade: o roubo e o furto, o homicídio e o latrocínio. Isto é: a violência é referida à violação de duas propriedades: a das coisas e a da vida.

(…)Para a maioria da população brasileira, a violência é apenas o ato do bandido e do delinquente que roubam e matam. Por quê? Porque admitir que tortura, racismo e discriminação sexual são violência seria admitir que as “forças da ordem” são violentas e que há violência nas relações sociais brasileiras. Ao contrário, se permanecer miticamente localizada no bandido, a violência conservará a separação entre “nós, brasileiros” e “eles”, além de ficar reduzida à violação da propriedade privada, de sorte que “eles” tenderão a ser os “pobres” e, em casos excepcionais, bandidos de colarinho branco.

2) procedimento sociológico — (…) A ideologia sociológica introduz a distinção entre o “arcaico” e o “moderno”, localizando a anomia na passagem de um para o outro. A mitologia apropria-se desta distinção e distingue violentos e não-violentos em termos de arcaísmo e modernidade: violentos são os atrasados, ignorantes, incompetentes, que perturbam a ordem social moderna, racional e nã0-violenta. (…) A violência fica assim circunscrita no tempo(na passagem do tradicional para o moderno), percebida como uma transição que acabará um dia.

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Assvertising: cachorrada

maio 26, 2009

Sou só eu que não achei graça nenhuma nesse comercial?

Num primeiro olhar, parece inofensivo, inocente. Considerando o contexto, porém, a coisa já fica mais complicada. Ora, os negros quase não aparecem nos comerciais. Já as mulheres  costumam ser reduzidas a objetos sexuais nas propagandas de cerveja. Parece promissor, então, um comercial de cerveja em que tanto o negro quanto a mulher têm falas e se sentam à mesma mesa que o homem branco (papel conferido a Evandro Mesquita, que, se não é branco, é ao menos socialmente branco).

…Mas aí, pimba: o negro e a mulher são comparados a cachorros. Enquanto o Evandro Mesquita, não.

Aliás, perceba que o comercial segue uma hierarquia. O homem branco rebaixa o homem negro que rebaixa a mulher que não rebaixa ninguém. Segue certinho a estrutura de poder da sociedade.

E, na boa, não acho que isso seja mera coincidência. Não acho que seja acidental o fato de terem escolhido o Evandro para ficar sentado, em pose de autoridade, e o Sérgio Loroza para babar pela cerveja — e não o contrário. Também não acho acidental que seja a mulher, ao final, quem mais se revele parecida com os cachorros: é ela quem rosna.

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Passos de formiga

maio 25, 2009

A São Paulo Fashion Week (que eu, sinceramente, achei o programa mais boçal ever) chegou a um acordo sobre a cota para modelos negros nos desfiles: 10%.

Pois é. Isso significa que 90% dos modelos ainda serão brancos, com cara de europeus. Isso, num país onde 44% da população é preta ou parda (de acordo com o censo feito no ano 2000). Mais da metade deles mora na região Sudeste, onde acontecem as principais semanas de moda. E aí esses bocós me vêm com essa cota pífia, quase risível.

É claro que 10% é melhor do que 2%, como era antes. Mas eu espero que as pessoas percebam que, ainda assim, é apenas uma migalha. Não considero essa cota um avanço porque é uma porcentagem que está dentro do que esse mercado racista considera aceitável.

Semana passada, comecei a ler “A negação do Brasil”, do Joel Zito Araújo (o que me lembra que, putz, preciso urgentemente atualizar o Lidos e Lendo). O livro analisa a participação dos negros nas novelas desde 1963, quando elas começaram a ser diárias. Pega tanto a quantidade de negros quanto a qualidade dos papéis — se as personagens são planas ou complexas, quão importantes são para a trama, etc. Ainda estou no começo, então não dá para falar muito. Até agora, o livro, embora interessante, só confirma o que eu já suspeitava: que os negros tendem a receber papéis subalternos, como empregadas domésticas, mordomos e malandros. O prefácio diz que essa tendência diminuiu um pouco nos anos 1990, então vou esperar terminar de ler para opinar direito.

Enfim. Fato é que, no comecinho do livro, o Joel diz que há uma cota não-declarada para negros nas novelas. Ninguém se reuniu para decidir isso, claro, mas ela existe de fato. É verificável empiricamente. Em toda a história da televisão brasileira, nunca houve uma novela em que os negros fossem mais que 10% do elenco. Então, quando a galera se opõe às cotas nas novelas, se esquece de que já existe, na prática, uma cota não-oficial de 10%. O que se propõe, portanto, é a troca da cota não-oficial por uma oficial, que represente mais apropriadamente a população brasileira. Porque, né, nós não somos suecos. Então vamos parar de querer ser, por favor.

(Aliás, o Joel Zito cita no livro que, nos comerciais de TV suecos, é mais fácil achar negros do que nos comerciais brasileiros. Ah, a ironia…)

Sendo assim, uma cota de 10% nos desfiles da SPFW não significa porra nenhuma, porque 10% já é a cota não-declarada. Trata-se de uma migalha aceitável para o mercado de moda, porque já é usada na TV. Sei que tô falando o óbvio, mas, às vezes, com números absolutos, a coisa fica mais clara: num desfile com 20 modelos com cara de suecas, haverá apenas 2 negras. Apenas duas. Numa população com 44% de negros. Porra.

Já escrevi aqui sobre como a falta de representação afeta a nossa auto-estima. Como a maioria da população é preta ou parda (e, entre os que se declaram brancos, tem muita gente que não tem mesmo cara de sueca), não é apenas uma parcela da população que se acha feia. Nós somos um povo que se acha feio. Um povo inteiro que acha que não é “nada de especial”.

(Manifestando-se contra a adoção de quaisquer cotas na SPFW, a estilista Gloria Coelho disse: “Não acredito em cota, acredito em mérito. Se você é inteligente, você entra em uma faculdade. Se você é especial, você desfila, independente da cor”).

Ora, se, até então, apenas 2% de negros desfilavam, basicamente o que essa mulher escrota quis dizer é que os negros não são especiais e não têm mérito. Ou seja: não podem ser bonitos. O bolo da cereja é que ela disse que eles não são inteligentes também. E que, por isso, só por isso, é que são minoria entre os aprovados no vestibular.

E aí, quando vão esfregar na cara dessa mulher que ela é racista, ela vira e diz: “Quanto a preconceito, não posso ter preconceito com negros, mesmo porque tenho avô negro”.

Eu fico tão, mas tão puta quando alguém diz isso. Porque, vamos combinar, se a gente bem fuçar, ABSOLUTAMENTE TODO MUNDO NO BRASIL TEM UM PARENTE OU UM AMIGO NEGRO. É impossível não ter nenhum contato com 44% da população. Então todo mundo pode usar essa desculpinha esfarrapada, enquanto, dia após dia, as discriminações existem. Sejam 2 ou 10%, os negros ainda ficam com as migalhas.

Quando é que a gente vai parar de fazer pirraça e lidar com isso abertamente? Tá cansando minha beleza isso já. Ou melhor: beleza, não, né. Já que, para o padrão “só a Suécia vale”, eu também tô longe de ser bonita.

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Da frase que mais me irrita nessa vida

maio 11, 2009

Nos comentários sobre a entrevista da MM no site da Época, o que você mais vai ler é: “homens e mulheres são diferentes”. Tanto do lado de quem a defende quanto do lado de quem a defende, pero no mucho.

Não é a primeira vez que dou de cara com esta frase. Parece que, em toda discussão direta ou indiretamente relacionada ao feminismo, aparece alguém para soltar essa frase. Inclusive em círculos supostamente esclarecidos, como a lista de e-mails de alunos de jornalismo da ECA-USP.

Funciona assim: alguém começa a defender a igualdade entre os gêneros. O subtema pode ser o que for — igualdade de salário, licença-maternidade, padrão de beleza, whatever. É só alguém começar a defender a igualdade, que vem outro alguém e lasca: “mas homens e mulheres são diferentes!”. E aí a discussão desce pelo ralo. Porque o machista utilizou-se de uma malandragem retórica que coloca o seu discurso na esfera do indiscutível.

(E eu, que não acredito na ingenuidade das pessoas, tenho certeza de que a maioria esmagadora dos que usam esta frase sabe muito bem o que está fazendo).

Quando o defensor do machismo diz “mas homens e mulheres são diferentes!”, muitas vezes a pessoa que defende a igualdade não consegue argumentar contra este truísmo — dado que o Homo Sapiens é uma espécie com dimorfismo sexual. Não dá para negar que existem diferenças entre homens e mulheres. Eu tenho seios, eles não têm; eu tenho vagina, eles não têm; minha massa muscular é menor, etc etc etc. Isso sem contar a série de diferenças que a cultura patriarcal inventa e muita gente passa a acreditar que são naturais, que vêm do repolho ou são assim porque deus quis. Em suma, o defensor da igualdade fica com cara de tacho, parecendo um pateta.

Trata-se do mesmo recurso retórico daqueles que comparam qualquer coisa à Alemanha nazista. Qualquer coisa mesmo. Exemplos há vários, mas vou falar do livro que eu tava lendo ontem, para minha aula de terça. É do Guerreiro Ramos, sociólogo dos primeiros movimento negros, participou do Teatro Experimental do Negro and all that jazz. Num determinado ponto do texto, ele diz que os antropólogos de sua época transformam o negro num objeto, pois a maioria de seus trabalhos eram descritivos. Eram antropólogos que se consideravam brancos falando dos negros, como se se pudesse separar brancos e negros no Brasil. Como se pudesse existir um Brasil ariano. Até aí, tudo bem, é uma tese válida e eu concordo com vários pontos dela. O problema é que, para defendê-la, ele começa a citar os trabalhos acadêmicos que a Alemanha nazista produzia sobre os judeus. E os títulos que selecionou eram todos descritivos — sobre os costumes  dos judeus, o que comiam, a história das diásporas, etc etc. Um leitor desatento vai ler isso e pensar: “óóó, meodeosdocéu, que horror”. Já quem parar um pouco vai pensar: “ei, péra aí, ele tá falando que os antropólogos brasileiros tratavam o negro da mesma maneira os nazistas tratavam os judeus? Mas que exagero!”

E é aí que está o problema das comparações com a Alemanha nazista. Quase todas elas são extremamente exageradas. Como o nazismo é o cúmulo do horror, há pouquíssimas coisas que, de fato, são comparáveis a ele. E, mesmo se a gente estiver comparando um genocídio a outro genocídio, ainda assim corremos o risco de sermos insensíveis às especificidades de cada genocídio. Se comparamos o genocídio de Ruanda ao nazismo, por exemplo, damos a entender que, embora tenha sido horrível, o genocídio de Ruanda não é tão ruim quanto o nazismo. O nazismo fica no topo de uma escala de gravidade — quando, na verdade, a gente não devia estar medindo porra nenhuma. Genocídio é sempre genocídio. Não importa se morreram um milhão ou dois milhões de pessoas, se os métodos utilizados foram mais ou menos cruéis (se é que também dá para medir crueldade). Da mesma forma, o racismo no Brasil é o racismo no Brasil. O racismo na Alemanha nazista era outra coisa. Desrespeitar as especificidades de cada caso, para mim, é tirar o valor do caso brasileiro.

(Ah, sim. Aqui no Brasil, como bem sacou o Alex, há também a mania de comparar tudo a Cuba, quando se discutem as liberdades individuais. “Meodeosdocéu, daqui a pouco isso aqui vira Cuba!”)

Mas enfim, divago. O fato é que, quando alguém compara alguma coisa (qualquer coisa) ao nazismo, joga-se a coisa comparada no campo do indefensável; do indiscutível. Ninguém quer defender o nazismo. Ninguém discute se o nazismo foi ou não horrível, porque isso não se discute. É um truísmo. Acabou a conversa.

Da mesma forma, quando Fulano diz “mas homens e mulheres são diferentes”, parece que o defensor da igualdade de gênero está querendo ir contra uma coisa que é óbvia. Só que o buraco é mais embaixo, claro.

O autor da frase não está apenas apontando as diferenças entre homens e mulheres. Dado que, oi, elas não são visíveis? Não são tão óbvias? Por que é preciso apontá-las? Ora, vamos pôr os pingos no is: se o que se está discutindo é a diferença de poder entre homens e mulheres na sociedade, se o que se está discutindo é discriminação, então a frase perde toda essa carga ingênua e passa a ser determinista.

Este “diferente” não significa apenas diferença. Trata-se de uma naturalização, uma biologização da discriminação. Só que dita de forma mais aceitável. É a hipocrisia mais clichê: o cara não vai falar que o sistema reprodutor das mulheres as torna inferiores — se ele disser isso com todas as letras, todo mundo vai dizer que ele é um escroto, pois trata-se de um discurso escancaradamente machista. E, no Brasil, a gente tem bastante medo de escancarar o preconceito. Discriminamos de forma efetiva, sabemos que estamos discriminando… Maaaas, se alguém perguntar, a gente nega até a morte. Adotamos um discurso cor-de-rosa.

Então, para não ser escancaradamente escrota, o que a pessoa faz? Troca o “inferiores” pelo “diferentes”. Voilà. Mas o significado da frase é a mesma. Está nas entrelinhas. Uma coisa é dizer que “homens e mulheres são diferentes” quando se está discutindo biologia somente. Outra coisa é usar a frase quando se discute a configuração de poder na sociedade.

Com esta simples palavra, “diferente”, o machista já dá a entender que quer que a única função da mulher seja parir, enquanto o homem fica com todo o resto. Pare para pensar no tamanho da restrição. Na força das algemas. Só porque somos nós, mulheres, quem carregamos os bebês, então é PARA ISSO que a gente serve. Somos reduzidas ao nosso sistema reprodutor. Todo o resto de nosso organismo (principalmente, o cérebro…) é esquecido. Os machistas mais flexíveis podem até pensar que as mulheres servem para algumas outras coisas, mas não arredam o pé e continuam dizendo que a nossa “função” é essa. Eles não reconhecem que a capacidade de se engravidar e amamentar é apenas UMA das capacidades das mulheres. E cabe a ela, mais ninguém, decidir qual das suas capacidades quer desempenhar e quais quer desenvolver mais.

Sabe o que é mais engraçado? Que, sem esperma, a mulher não engravida. A gente ainda não adquiriu o dom da partenogênese. Por que, para os homens, não se considera que gerar vida seja uma “função”? Sim, estimulam os homens a querer espalhar sua “sementinha” pelo maior número de receptáculos, blablabla. Mas, se ele não desejar fazer isso, se não quiser engravidar alguém, ninguém vai dizer para ele que ele não está cumprindo sua “função”. Podem encher um pouco o seu saco, claro, mas dizer que ele não cumpriu sua “função”, nunca. Da mesma forma, se o homem é pai e trabalha, ninguém vai perguntar para ele se ele tem um dilema ao conciliar as duas coisas. Afinal, o homem não é reduzido ao seu sistema reprodutor. Admite-se que ele se perpetue por seu trabalho, por suas obras. Já a mulher, não. Ela pode fazer um trabalho foderoso, descobrir a cura para uma doença ou whatever. Se não pariu, foi uma monstra insensível ao seu dever. Se permanece solteira, diz-se que ela abdicou (veja bem, minha gente, “abdicou”, como se ter filhos fosse um posto, uma obrigação!) da família.

Enfim, só queria dar esse conselhinho mesmo. Não caia nesse papo de “homens e mulheres são diferentes”. Da próxima vez que alguém usar essa frase com você em alguma discussão sobre discriminação de gênero, deixe bem claro que você não é trouxa e percebeu o malabarismo retórico que a pessoa está tentando fazer.

Acho que a melhor maneira de desmascar os autores desta frase é perguntar qual dessas diferenças (ou supostas diferenças) justifica uma discriminação. Porque aí quem se estrepa é ele, porque fica claro justamente o que ele queria disfarçar: o fato dele defender que as pessoas podem ou devem ser discriminadas por conta de suas diferenças.

…E não é justamente daí que parte o discurso contra a homofobia, a xenofobia, o racismo, o ageism, o ableism, enfim, todos os tipos de preconceito? Aceitar e celebrar as diferenças? Call them on their bullshit: mostre que “homens e mulheres são diferentes”, esta frase aparentemente inocente e singela, está carregada de intolerância.

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Da lucidez

maio 8, 2009

Achei tão bela a entrevista da Fernanda Montenegro para a Bravo deste mês. A Fernanda vai interpretar a Simone de Beauvoir a partir do dia 20 (quem vai? Quem vai? Eu já tô lá),  então a entrevista é cheia de bons elogios à Simone e ao feminismo — que, pasmem, não é retratado como algo já encerrado. E, véi, isso é tão raro na imprensa que eu tô até meio chocada, confesso.

Gostei muito da parte em que Fernanda fala sobre velhice. Ela diz:

“Disponho de vitalidade e ânimo para prosseguir. Consigo trabalhar 14, 18 horas por dia. Noto, porém, que algumas pessoas já me olham com assombro: “Ainda fala! Ainda se locomove!”. Tornei-me um estranho fenômeno de resistência, como outros de minha idade”.

Minha avó morreu aos 87 anos, quando eu tinha 17. A vida inteira eu ouvi isso sobre ela: “mas como é lúcida!”. Como se ela não devesse estar lúcida. Era quase como se algo tivesse dado errado. Como se todos os idosos ficassem dependentes e gagás — e a gente sabe que não é verdade. Com os avanços da medicina e o aumento da expectativa de vida, a tendência é ter cada vez mais gente de 70, 80, 90, todos muito ativos e lúcidos. E eu me pergunto: “e aí? Como é que vão lidar com isso?”. Porque vai ser preciso romper mesmo com este estereótipo.

Acho um absurdo, por exemplo, que os professores da USP sejam aposentados compulsoriamente aos 70. Porque, quando se tem até pós-doutorado, 70 é a flor da idade, né? Eu peguei o último ano em que o Bernardo Kucinski deu aula – e ele estava em perfeitas condições de desempenhar sua função. Me arrisco até a dizer que ele teria continuado, se pudesse. Porque parecia bem animado.

Na minha aula de quarta-feira, sobre ecologia humana, tem vários alunos da terceira idade. Na de quinta, história da arte, também. Só que os alunos de ecologia humana já são formados, pelo que tudo indica. Têm uma puta base. Então acho que não estão ali por meio do programa de inclusão, mas por alguma outra coisa. Tem um senhor lá que, putz grila, quando ele abre a boca, humilha todo mundo. Até o professor abaixa a orelha. Porque o homem é um poço de conteúdo. Mas não chega a ser um exibicionista (como aqueles alunos que sabem pouco, mas adoram levantar a mão para falar um monte de clichês, como se quisessem ganhar uma estrelinha dourada no caderno. Ah, se todo mundo tivesse o dom do semancol…). Ele só complementa  o que o professor diz, quando julga necessário. Enfim, é como ter aula com duas pessoas. Adoro. Já na aula de quinta-feira, os alunos da terceira idade não necessariamente têm uma formação ligada à arte. Então, eles falam muito pouco. Às vezes, sinto que eles têm medo de se manifestar, o que é uma pena.  Mas, enfim, o fato é que estão ali. E tem gente que se assombra. Porque é óbvio, pedro bó, que eles estão lúcidos e pensantes. Se não estão doentes, por que não haveriam de estar? Parece que é só chegar a uma certa idade, que as pessoas esperam que você se imbecilize. Automaticamente.

Minha avó não só era “lúcida” como era inteligentíssima. Eu adorava conversar com ela. Não sabia ler nem escrever, mas tinha um raciocínio que puta que nos pariu. Uma capacidade ímpar de encadear as coisas, de dar lógica para elas. E nunca, nunca foi frágil. Em tempo algum. Depois dos 80, um dos meus tios queria porque queria que ela fosse morar com ele. “Para o caso de cair, se acidentar, etc. Morando sozinha, ela vai morrer ali e ninguém vai perceber até alguém visitá-la”. Mas ela não arredava o pé. Gostava do seu cantinho, onde mantinha tudo à sua maneira. Tinha vezes da gente chegar e ela estar lavando o tapete, no quintal. Meu pai: “quê isso, mãe? Tá louca? A senhora não pode fazer isso”. Ela: “não se mete. Não posso viver num pulgueiro. Devagarzinho, eu consigo fazer”. E conseguia.

Mas a melhor história é mesmo a da geladeira. Meses antes de morrer, ela telefonou para uma prima minha, pedindo para que a levasse para comprar uma geladeira. Minha prima levou, mas desconfiada: “com o minguado dinheiro da aposentadoria, como ela vai comprar uma geladeira? Acho que está querendo dizer para a gente que quer uma geladeira nova. Tá dando uma indireta, para a gente dar de presente”. Mas a velha parecia determinada quando minha prima foi buscá-la. Ao chegar na loja, foi direto para o lugar onde estavam as geladeiras mais caras.

Minha prima chamou o vendedor de lado e disse: “olha, moço, me desculpe, mas é que ela tem 87 anos. Insistiu para que eu a trouxesse aqui. Eu acho que ela não tem nem noção de quanto custam essas geladeiras que cantam, dançam e sapateiam. Mas o senhor não se incomoda de atendê-la, né?”. O vendedor respondeu: “imagina, não tem nada, não” e continuou a fingir que acreditava que minha avó compraria a tal geladeira foderosa. Ninguém botava na fé na velhinha.

Eis que, do nada, ela lasca: “vou levar essa aqui” — apontando para a mais cara de todas. O vendedor continuou o teatro (talvez pensasse que a minha prima se solidarizaria e terminaria por comprar a tal geladeira?) e perguntou como ela ia pagar. “À vista”, respondeu minha avó. E tirou todo o dinheiro do sutiã.

Dias antes dela morrer, aquele tio que queria que ela morasse com ele levou-a para a sua casa, no interior – porque ela estava meio doentinha. Sim, “meio”. Ninguém pensava que ela fosse morrer. Porque era uma gripe de nada, uma coisa à toa. Mesmo contrariada, ela concordou em ir. Chegou lá, pá: teve um derrame. Do nada. No fim, foi enterrada justo no lugar onde, a vida inteira, ela disse que não queria morar.

Depois do enterro, quando meu pai foi à casa dela para ver se queria ficar com alguma coisa, encontrou dentro do armário um envelope. Do lado de fora, escrito: “para quando eu morrer”. Dentro, um bolo de dinheiro e um bilhete: “não quero dar gasto pra ninguém”. E, de fato, a quantia equivalia às despesas funerárias todas.

…A gente só não sabe, até hoje, quem escreveu o bilhete por ela.

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O problema é o “de verdade”

abril 7, 2009

No último linkage, o primeiro link da lista era um post da Mary W (que eu continuo recomendando, caso você ainda não tenha lido). Num determinado ponto do texto, ela diz: “considero que machismo escancarado mais atrapalha do que ajuda a luta. Porque torna invisível o machismo que interessa, esse da estrutura”.

No mesmo texto, ela também se queixa do movimento feminista ter “sequestrado” a questão da saúde pública. Isso é algo que também me incomoda. Por exemplo: é claro que o aborto é uma questão de saúde pública, dado que, a cada ano, ocorre um milhão de abortos clandestinos e 200 mil mulheres procuram ajuda médica devido às complicações ocasionadas por abortos ilegais. No entanto, aborto não é uma questão  de saúde pública. Entranhados no discurso contra a legalização, existem conceitos que, se analisados, se descontruídos, revelam o que significa ser mulher na sociedade.

Logo, é preciso que a gente faça essa desconstrução o tempo todo. Que a gente fique pescando as entrelinhas dos discursos.  Essa análise, para mim, não é secundária. Ela é o principal. Ela é o que é mais necessário. Afinal, mesmo que um dia o aborto seja legalizado no Brasil ou a igualdade de salários seja garantida, ainda assim esses conceitos existirão como referências culturais. Se a idéia da mulher como ser inferior/objeto/parideira não sair da cabeça das pessoas, não haverá igualdade de fato. Não importa quantas leis sejam promulgadas a nosso favor. Essas leis não são o nosso objetivo. Essas leis são necessárias para que a gente atinja os objetivos. Entenderam?

Um dos comentários mais frequentes que recebo dos trolls nesse blog (e eu não aprovo nenhum, ok?) é o que diz: “faça isso, mas não faça aquilo”. Exemplo: “lute pelos seus direitos, mas não seja amarga assim, não fique espezinhando contra qualquer coisinha. Essa mania de atacar tudo só prejudica a sua causa, porque as pessoas não vão te levar a sério”. Além do tom arrogante deste tipo de comentário (que, até hoje, só foi feito por internautas com nicks masculinos… I wonder why!), que basicamente quer delimitar o que as mulheres podem e o que não podem fazer, o que mais me incomoda é que a pessoa não entendeu a relação entre as coisas.

Queridos trolls, abram os ouvidos: a gente não está lutando pelos direitos. A gente está lutando contra as idéias. Contra a cultura machista. O que é muito maior e mais complicado. O que os direitos iguais fazem é estabelecer um terreno mais justo para a luta. Se as mulheres tiverem igual salário, direitos reprodutivos e creches decentes, fica mais fácil atacar o que importa: a estrutura.

Se a gente saísse por aí perguntando “contra o que as feministas lutam?”, acho que, de supetão, muita gente diria: “contra a violência doméstica, contra o estupro, contra as discriminações no mercado de trabalho, etc”.  O que é somente meio certo. Porque estupro, violência doméstica e discriminação de salário são consequências da definição cultural do que é “masculino” e do que é “feminino”. A origem das coisas está na idéia de que existe uma série de características que fazem de uma mulher “uma mulher de verdade” e, de um homem, “um homem de verdade”.

E o foda é que tem até feminista que não percebe isso. O instituto Patrícia Galvão fez, recentemente, uma campanha de TV contra violência doméstica cujo slogan era “homem de verdade não bate”, algo assim. Não lembro se o fim era esse mesmo: “não bate”. Mas me lembro muito bem de que começava com “homem de verdade”.

Meses atrás, também vi no Feministing fotos de cartazes que diziam “real men don’t rape” (homem de verdade não estupra). Aí veio alguém e estiletou os cartazes, cortando o “don’t”. E as meninas estavam revoltadas com isso. Com o fato de alguém ser insensível a ponto de fazer uma coisa dessas. Realmente é abominável, mas isso revela a falha de quem fez o cartaz, que é a seguinte: basicamente, você pode dizer que “homem de verdade” faz ou não faz qualquer coisa. Duvido que tenha sido esta a intenção do vândalo, but he has a point.

Essas campanhas que dizem “homem de verdade não bate/não estupra/não mata” pegam a minha veia. Porque é cobrir um santo e descobrir outro. Tanto o homem que estupra quanto o homem que não estupra são homens de verdade. Eles existem. Não deixam de ser homens por conta do que fazem. Quando se usa um slogan desses, basicamente está-se apelando para o patriarcado. Está-se apelando para a vontade que o cara tem de ser macho. Ou seja: de ser dominante. Se há um dominante, há um fraco (adivinha quem?). Na nossa cultura, “homem de verdade” é o macho. Todo o resto é viado. Logo, a única diferença entre a campanha da Patrícia Galvão e a campanha do desodorante Axe é que mudam as características que definem o que é macho. Para a Patrícia Galvão, macho é não bater. Para o Axe, macho é sair tratando as mulheres como objeto. Mas nenhuma das campanhas questiona a vontade de ser macho. Nenhuma das campanhas deixa de ligar a idéia do “homem de verdade” a uma coisa positiva, desejável, que se deve buscar.

E essa é uma idéia pra lá de nonsense. Ora, o que quer que eu faça, não vou deixar de ser mulher. Se eu cortasse o cabelo curtinho, se nunca mais usasse saia, se não pintasse a unha, se fosse lésbica, se tivesse um trabalho braçal… Eu continuaria sendo mulher. Sou mulher biologicamente e (o mais importante) sou mulher na minha cabeça. Eu me olho no espelho e logo identifico: é uma mulher. Isto é uma obviedade. No entanto, o que a sociedade faz é fechar os seus olhos para tal obviedade, dizendo que, dependendo do que faça, você está sendo mais ou menos “feminina”. Ou mais ou menos “masculino”, no caso dos homens.

O que se faz é pegar características que são universais e separá-las em caixinhas: isto aqui é feminino, isso aqui é masculino. E reprimir as pessoas quando pulam a cerca. Isso acontece desde a mais tenra infância, quando enfiam um macacãozinha rosa nas meninas e um azul nos meninos. Com o passar do tempo, essa repressão é tão internalizada que muita gente sequer pensa em pular a cerca.

Dois dos últimos livros que li foram “Mística Feminina” e “Mito da Beleza”. Em “Mística”, Betty Friedan diz que é preciso suplantar a idéia de que a mulher tem de ficar em casa, cuidando dos filhos e que o casamento é sua grande realização. Em “Mito”, Naomi Wolf diz é que é preciso suplantar a obrigação das mulheres seram bonitas, “se cuidarem”. Os dois livros são foderosos, mas acho que elas foram superficiais em suas conclusões. O que se tem de suplantar não é esta ou aquela mística em particular, mas a própria idéia de FEMINILIDADE. De que as mulheres têm de ser femininas. Se não derrubarmos esta idéia, assim que cair uma mística, subirá outra. Serão definidas outras características que fazem de uma mulher uma mulher “de verdade”. Antes, as americanas eram donas de casa porque achavam que ser mulher de verdade era isso. Hoje, gastam a maior grana em cosméticos e tratamentos estéticos porque lhe dizem que ser feminina é fazer isso. Pode ser que, daqui a algumas décadas, ser “feminina” queira dizer outra coisa. Não importa. Enquanto as mulheres continuarem achando que devem ser femininas, o que quer que isso signifique, elas continuarão subjugadas. E, enquanto os homens acharem que devem ser machos, ainda estarão prejudicando as mulheres. E a si mesmos, por tabela.

Um dos resultados das pesquisas apresentadas no simpósio de homens e meninos pela igualdade de gênero, que aconteceu no Rio (eu tô conseguindo mais informações sobre isso pela mídia gringa, não é uma vergonha?) diz o seguinte:

“A construção social da masculinidade está diretamente associada ao comportamento de risco, criando um “ambiente onde o risco é aceitável e encorajado para os homens ‘de verdade’.

Uma pesquisa qualitativa feita em nove países latino-americanos revelou que os homens jovens, entre 10 e 24 anos de idade, estão muito mais preocupados em preservar a sua masculinidade do que a sua saúde.

De acordo com a UNFPA (agência da ONU), o estudo confirma que a ideologia dominante, que determina quais são as atitudes consideradas masculinas, pode resultar em iniciação sexual prematura, maior número de parceiras e menos intimidade das relações sexuais, além da relutância em usar camisinha“.

Resumindo: os caras tão pegando e transmitindo o HIV porque querem ser machos! Porque querem ser “homens de verdade”! Tu tá morrendo por causa da so called macheza, meu filho!

Eu não me surpreenderia nem um pouco se, a partir dos resultados dessa pesquisa, algum desses países começasse uma campanha dizendo: “homem de verdade usa camisinha”; ou “homem de verdade se protege”. E eu lhe digo: não vai adiantar nadinha. Porque, para cada campanha que diz que homem de verdade se protege, há outras trezentas que dizem que homem de verdade tem de ser pegador e viril. Para cada campanha que diz que homem de verdade não estupra e/ou não bate, há outras trezentas que dizem que homem de verdade trata a mulher como objeto.

O que a gente tem de fazer é mostrar a eles que eles não precisam se preocupar em ser “homens de verdade”. Porque eles já são.

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Pensamentos soltos sobre a picuinha

abril 3, 2009

Tenho pensado nisto já há algum tempo, mas não sabia muito bem como estruturar o raciocínio. Alias, até agora acho que não sei. Desconfio de que este texto vá sair bastante truncado.

Mas enfim.

Tem algo que me irrita muito na blogosfera política brasileira. Quer dizer, não é bem na blogosfera, mas sim nos comentários da blogosfera. É o povo que separa o mundo em dois grupos estanques: a Direita e a Esquerda. Assim, com maiúsculas – porque os conceitos meio que se perdem na salada. É como se Direita e Esquerda fossem entidades com vida própria, não grupos. Se as vislumbram como grupos, é como se fossem grupos totalmente  homogêneos. Sem espaço para nenhum desvio individual. Admite-se que os membros do grupo não pensem fora do que se espera da tal entidade. Eles são previsíveis. Imutáveis. E não têm solução, coitadinhos.

Então, supondo que você seja da Direita, tudo que dá errado é culpa da Esquerda. Essa entidade. A qual não se quer nem ouvir, porque é perda de tempo. Com a qual não se quer discutir. Afinal, eles são patéticos mesmo.

Isso é o que eu chamo de reinaldoazevedismo — porque, nos comentários daquele deplorável blog, só o que dá é isso. Mas é possível encontrar exemplos em outros lugares. Como no  Pedro Doria. Ou no Rafael Galvão. Ou em qualquer outro lugar onde se discuta política brasileira com uma certa frequência. No Orkut, também, num piscar de olhos você acha vários fóruns que caem nessa troca de farpas bocó, baseada em estereotipificação grosseira.

Ontem, li este post do LLL (que, não, eu não conhecia até então. Já tinham me indicado o blog, mas eu nunca tinha tido tempo de ler. Agora, peguei a série sobre racismo e li quase tudo. E, putz, estou adorando. Loucamente). Fiquei curiosa para ver como se ampliava a discussão e decidi abrir a caixa de comentários. Pra quê? Não devia. Logo, dei de cara com um: “ah, se a esquerda detesta este livro, então deve ser bom!”. Ai. Até desencanei de ler o resto. Porque coisas assim me dão muita preguiça.

Também ontem, vi um documentário da mostra “É tudo verdade”, chamado “Agosto”. Achei mei’ runzinho. Mas o filme mostra relativamente bem essa coisa da criação do Outro. O outro entidade, com maiúscula. Sem que o documentarista dissesse ou perguntasse nada, apenas com a câmera na mão, muitos israelenses, ao se verem diante da câmera, automaticamente vociferavam contra os árabes. E ficava muito latente essa coisa da animalização. Diziam: “os árabes são uns porcos. Os árabes são cachorros”. Ou: “os árabes não têm higiene, os árabes são lixo”. Crianças diziam isso com a maior naturalidade. Brincando, saracoteando na frente da câmera. Tudo normal. Era tão normal dizer “os árabes deviam todos estar sete palmos abaixo da terra” quanto perguntar pro tio cinegrafista se ele era da TV e se tinha um pirulito. O menino libanês atirando pedras pela cerca, era a mesma coisa. Gritava: ”Barak é um porco”. Diante do Avi Mograbi (o documentarista), que estava do outro lado da cerca sem fazer nem dizer nada, o menino atirou pedras. Sem nem saber quem ele era. Pelo simples fato de estar ali, do outro lado, já merecia as pedras. Já os árabes desempregados de Israel botavam a culpa de seu infortúnio nos negros. Como se só os negros tivessem roubado seus empregos.

Enfim, era sempre essa coisa. De não ter contato nenhum com o outro, mas ainda assim objetificá-lo. Animalizá-lo. Como se ele fosse tão absolutamente diferente que vocês fossem mesmo duas espécies diferentes. Ou como se ele fosse menos humano que você. Como se fosse outra coisa, outro bicho. Completamente diferente. Natural e imutavelmente incompatível.

Resumindo muito grosseiramente: se a Direita é o lado conservador, que acha que tá tudo muito bem, tudo muito bom; então a direita é o lado que defende a discriminação. Porque a discriminação é a regra do status quo. É o estado atual das coisas. A Esquerda, naturalmente, é o lado dos movimentos sociais. Que querem mudar isso. É o lado mais justo e inclusivo, pois.

(veja bem que eu não estou pegando os outros lados da coisa. Como o debate — um tanto quanto enfadonho — de onde o estado devia se meter ou não. O que sempre cai numa oposição tosca entre laissez faire e marxismo, tudo muito bobo e truncado e desinformado e clichê. Eu tô pegando o que me interessa aqui, que é a questão da discriminação.)

Mas ei, você, caro comentarista, até que ponto você é mais justo e inclusivo quando trata essa “Direita” como Outro? Essa objetificação, essa coisa de considerar o outro um coitado irremediável com o qual você não se mistura, é o mesmo mecanismo que gera todas as discriminações. Todas. Negros, mulheres, judeus, pobres. Sempre começa assim. Se você considera o outro como Outro, intrínseca e imutavelmente Outro, então não só não vai querer se aproximar dele como também vai reforçar a distância.

Já a animalização é a condição sine qua non para a violência — porque, se o ser humano manipula a natureza para o seu bem-estar, e o outro é igualado a um animal, então você também pode subjugá-lo e matá-lo. Como faria a um animal. Mas jamais faria a um semelhante. É por isso que essas mensagens existem e as crianças aprendem a naturalizá-las desde muito cedo.

Enfim, você pode não ter chegado ao ponto da animalização. Mas se já fez do diferente um Outro, já era. Já entrou no mesmo mecanismo de discriminação que você diz rechaçar. Já caiu numa atitude que você diz que o seu grupinho não tem.

(Fora que é uma puta ingenuidade essa coisa de atribuir a discriminação somente à direita, como se fosse uma coisa exclusiva deles e não parte de uma estrutura na qual estamos todos inseridos e atuamos, em maior ou menor grau).

Eu posso estar falando merda (o que não é raro), mas acho que essa coisa de “ser” de direita ou de esquerda não é algo tão estanque. Acho que a maioria das pessoas transita entre os dois territórios. Cada um pende mais para um lado ou para o outro, claro, mas há certo espaço para o trânsito.  Por exemplo: quando fiz o post sobre a Miriam Leitão, a Lola comentou que não achava que eu devia parabenizá-la por dizer-se feminista, porque ela é de direita. E eu acho que não é bem assim. Sim, ela é escrota em quase tudo. Mas, quando tem o peito de se intitular feminista na grande mídia, mesmo com todos os preconceitos que vêm junto com o rótulo; quando defende que, não, as mulheres ainda não conquistaram tudo… Bem, neste caso em particular, ela pulou a cerca e foi para a esquerda. Porque isso é possível, ora. Por que não?

E eu não vejo razão para não aceitá-la no clubinho por um motivo muito simples: se os preconceitos estão tão enraizados na cultura; se ninguém vive fora do kiriarcado; se nós, que estamos aqui, na internet, discutindo política, somos obviamente privilegiados; então é certo que, mesmo sem perceber, vamos escorregar e cometer escrotagens. É certo que, vez ou outra, vamos falar, pensar ou agir de maneira discriminatória, que corrobora o status quo. Nas coisas mais simples.  E, nesses momentos, conscientemente ou não, nós estamos fazendo a passagem. Estamos pulando a cerca para o lado da direita. Ninguém está livre disso — é uma questão de auto-correção.

E, toda vez que tratarmos quem discorda de nós como um Outro com maiúscula, não só teremos feito a passagem como estaremos com os dois pés bem fincados no campo da direita. Eu vivo dizendo que o que falta é isso: sentar, calar a boca e ouvir o outro. Tomar as experiências dele como válidas. Tentar achar pontos de concordância e coisa e tal. Que é isso que quebra a estereotipificação. Enxergar a pessoa em sua complexidade, em vez de colocá-la na caixinha do estereótipo. Pode ser que a pessoa realmente se aproxime muito da idéia pré-concebida. Mas ela tem a sua unicidade. Se investigar bem, todo mundo, em algum ponto, faz a travessia.

[update]

A maior prova da frase que fecha este post: veja só o partido do autor do projeto. Aliás, a própria Heloísa Helena também é contra o aborto.

Ao passo que.

Sobre HH: a posição dela não me incomodaria – não fosse o fato dela ter dito: “sou feminista e sou contra o aborto. Não são coisas antagônicas”. Péra aí, péra aí, péra aí. Do jeito que você está fazendo, são coisas antagônicas sim, HH.

É possível ser feminista e ser pessoalmente contra o aborto, não desejando fazê-lo. Mas daí a militar ativamente a favor de restrições à liberdade de escolha dos outros, querendo forçar todo mundo a seguir a sua visão… Sorry, mas isso é, sim, extremamente antifeminista. Shame on you.

Quer militar contra a queda de restrições ao aborto? Milita. Você infelizmente não é a única. Mas não enfia o feminismo no meio disso. Não venha jogar água no nosso chôpp.

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