Nos comentários sobre a entrevista da MM no site da Época, o que você mais vai ler é: “homens e mulheres são diferentes”. Tanto do lado de quem a defende quanto do lado de quem a defende, pero no mucho.
Não é a primeira vez que dou de cara com esta frase. Parece que, em toda discussão direta ou indiretamente relacionada ao feminismo, aparece alguém para soltar essa frase. Inclusive em círculos supostamente esclarecidos, como a lista de e-mails de alunos de jornalismo da ECA-USP.
Funciona assim: alguém começa a defender a igualdade entre os gêneros. O subtema pode ser o que for — igualdade de salário, licença-maternidade, padrão de beleza, whatever. É só alguém começar a defender a igualdade, que vem outro alguém e lasca: “mas homens e mulheres são diferentes!”. E aí a discussão desce pelo ralo. Porque o machista utilizou-se de uma malandragem retórica que coloca o seu discurso na esfera do indiscutível.
(E eu, que não acredito na ingenuidade das pessoas, tenho certeza de que a maioria esmagadora dos que usam esta frase sabe muito bem o que está fazendo).
Quando o defensor do machismo diz “mas homens e mulheres são diferentes!”, muitas vezes a pessoa que defende a igualdade não consegue argumentar contra este truísmo — dado que o Homo Sapiens é uma espécie com dimorfismo sexual. Não dá para negar que existem diferenças entre homens e mulheres. Eu tenho seios, eles não têm; eu tenho vagina, eles não têm; minha massa muscular é menor, etc etc etc. Isso sem contar a série de diferenças que a cultura patriarcal inventa e muita gente passa a acreditar que são naturais, que vêm do repolho ou são assim porque deus quis. Em suma, o defensor da igualdade fica com cara de tacho, parecendo um pateta.
Trata-se do mesmo recurso retórico daqueles que comparam qualquer coisa à Alemanha nazista. Qualquer coisa mesmo. Exemplos há vários, mas vou falar do livro que eu tava lendo ontem, para minha aula de terça. É do Guerreiro Ramos, sociólogo dos primeiros movimento negros, participou do Teatro Experimental do Negro and all that jazz. Num determinado ponto do texto, ele diz que os antropólogos de sua época transformam o negro num objeto, pois a maioria de seus trabalhos eram descritivos. Eram antropólogos que se consideravam brancos falando dos negros, como se se pudesse separar brancos e negros no Brasil. Como se pudesse existir um Brasil ariano. Até aí, tudo bem, é uma tese válida e eu concordo com vários pontos dela. O problema é que, para defendê-la, ele começa a citar os trabalhos acadêmicos que a Alemanha nazista produzia sobre os judeus. E os títulos que selecionou eram todos descritivos — sobre os costumes dos judeus, o que comiam, a história das diásporas, etc etc. Um leitor desatento vai ler isso e pensar: “óóó, meodeosdocéu, que horror”. Já quem parar um pouco vai pensar: “ei, péra aí, ele tá falando que os antropólogos brasileiros tratavam o negro da mesma maneira os nazistas tratavam os judeus? Mas que exagero!”
E é aí que está o problema das comparações com a Alemanha nazista. Quase todas elas são extremamente exageradas. Como o nazismo é o cúmulo do horror, há pouquíssimas coisas que, de fato, são comparáveis a ele. E, mesmo se a gente estiver comparando um genocídio a outro genocídio, ainda assim corremos o risco de sermos insensíveis às especificidades de cada genocídio. Se comparamos o genocídio de Ruanda ao nazismo, por exemplo, damos a entender que, embora tenha sido horrível, o genocídio de Ruanda não é tão ruim quanto o nazismo. O nazismo fica no topo de uma escala de gravidade — quando, na verdade, a gente não devia estar medindo porra nenhuma. Genocídio é sempre genocídio. Não importa se morreram um milhão ou dois milhões de pessoas, se os métodos utilizados foram mais ou menos cruéis (se é que também dá para medir crueldade). Da mesma forma, o racismo no Brasil é o racismo no Brasil. O racismo na Alemanha nazista era outra coisa. Desrespeitar as especificidades de cada caso, para mim, é tirar o valor do caso brasileiro.
(Ah, sim. Aqui no Brasil, como bem sacou o Alex, há também a mania de comparar tudo a Cuba, quando se discutem as liberdades individuais. “Meodeosdocéu, daqui a pouco isso aqui vira Cuba!”)
Mas enfim, divago. O fato é que, quando alguém compara alguma coisa (qualquer coisa) ao nazismo, joga-se a coisa comparada no campo do indefensável; do indiscutível. Ninguém quer defender o nazismo. Ninguém discute se o nazismo foi ou não horrível, porque isso não se discute. É um truísmo. Acabou a conversa.
Da mesma forma, quando Fulano diz “mas homens e mulheres são diferentes”, parece que o defensor da igualdade de gênero está querendo ir contra uma coisa que é óbvia. Só que o buraco é mais embaixo, claro.
O autor da frase não está apenas apontando as diferenças entre homens e mulheres. Dado que, oi, elas não são visíveis? Não são tão óbvias? Por que é preciso apontá-las? Ora, vamos pôr os pingos no is: se o que se está discutindo é a diferença de poder entre homens e mulheres na sociedade, se o que se está discutindo é discriminação, então a frase perde toda essa carga ingênua e passa a ser determinista.
Este “diferente” não significa apenas diferença. Trata-se de uma naturalização, uma biologização da discriminação. Só que dita de forma mais aceitável. É a hipocrisia mais clichê: o cara não vai falar que o sistema reprodutor das mulheres as torna inferiores — se ele disser isso com todas as letras, todo mundo vai dizer que ele é um escroto, pois trata-se de um discurso escancaradamente machista. E, no Brasil, a gente tem bastante medo de escancarar o preconceito. Discriminamos de forma efetiva, sabemos que estamos discriminando… Maaaas, se alguém perguntar, a gente nega até a morte. Adotamos um discurso cor-de-rosa.
Então, para não ser escancaradamente escrota, o que a pessoa faz? Troca o “inferiores” pelo “diferentes”. Voilà. Mas o significado da frase é a mesma. Está nas entrelinhas. Uma coisa é dizer que “homens e mulheres são diferentes” quando se está discutindo biologia somente. Outra coisa é usar a frase quando se discute a configuração de poder na sociedade.
Com esta simples palavra, “diferente”, o machista já dá a entender que quer que a única função da mulher seja parir, enquanto o homem fica com todo o resto. Pare para pensar no tamanho da restrição. Na força das algemas. Só porque somos nós, mulheres, quem carregamos os bebês, então é SÓ PARA ISSO que a gente serve. Somos reduzidas ao nosso sistema reprodutor. Todo o resto de nosso organismo (principalmente, o cérebro…) é esquecido. Os machistas mais flexíveis podem até pensar que as mulheres servem para algumas outras coisas, mas não arredam o pé e continuam dizendo que a nossa “função” é essa. Eles não reconhecem que a capacidade de se engravidar e amamentar é apenas UMA das capacidades das mulheres. E cabe a ela, mais ninguém, decidir qual das suas capacidades quer desempenhar e quais quer desenvolver mais.
Sabe o que é mais engraçado? Que, sem esperma, a mulher não engravida. A gente ainda não adquiriu o dom da partenogênese. Por que, para os homens, não se considera que gerar vida seja uma “função”? Sim, estimulam os homens a querer espalhar sua “sementinha” pelo maior número de receptáculos, blablabla. Mas, se ele não desejar fazer isso, se não quiser engravidar alguém, ninguém vai dizer para ele que ele não está cumprindo sua “função”. Podem encher um pouco o seu saco, claro, mas dizer que ele não cumpriu sua “função”, nunca. Da mesma forma, se o homem é pai e trabalha, ninguém vai perguntar para ele se ele tem um dilema ao conciliar as duas coisas. Afinal, o homem não é reduzido ao seu sistema reprodutor. Admite-se que ele se perpetue por seu trabalho, por suas obras. Já a mulher, não. Ela pode fazer um trabalho foderoso, descobrir a cura para uma doença ou whatever. Se não pariu, foi uma monstra insensível ao seu dever. Se permanece solteira, diz-se que ela abdicou (veja bem, minha gente, “abdicou”, como se ter filhos fosse um posto, uma obrigação!) da família.
Enfim, só queria dar esse conselhinho mesmo. Não caia nesse papo de “homens e mulheres são diferentes”. Da próxima vez que alguém usar essa frase com você em alguma discussão sobre discriminação de gênero, deixe bem claro que você não é trouxa e percebeu o malabarismo retórico que a pessoa está tentando fazer.
Acho que a melhor maneira de desmascar os autores desta frase é perguntar qual dessas diferenças (ou supostas diferenças) justifica uma discriminação. Porque aí quem se estrepa é ele, porque fica claro justamente o que ele queria disfarçar: o fato dele defender que as pessoas podem ou devem ser discriminadas por conta de suas diferenças.
…E não é justamente daí que parte o discurso contra a homofobia, a xenofobia, o racismo, o ageism, o ableism, enfim, todos os tipos de preconceito? Aceitar e celebrar as diferenças? Call them on their bullshit: mostre que “homens e mulheres são diferentes”, esta frase aparentemente inocente e singela, está carregada de intolerância.